27 de maio de 2017

Capítulo 27 - Rainha Islanzadí

Eragon se ajoelhou na frente da rainha dos elfos e seus conselheiros num salão fantástico feito de troncos de árvores vivas num reino quase mítico, e a única coisa que preenchia sua mente era o choque.
Arya é uma princesa! De uma certa forma isso fazia sentido — ela sempre possuíra um ar de comando —, mas ele lamentava amargamente o fato, pois este colocava mais outra barreira entre ambos, justo quando Eragon pensava em derrubá-las. A informação deixou sua boca com o gosto de cinzas. Lembrava-se da profecia de Angela de que iria amar alguém de estirpe nobre... e do seu aviso de que não conseguia ver se as coisas iriam acabar bem ou mal.
Ele pôde sentir a surpresa da própria Saphira, e depois o seu deleite. Ela disse: Parece que andamos viajando junto com a realeza sem saber. Por que ela não nos contou?
Talvez isso a fosse colocar num perigo ainda maior.
— Islanzadí Dröttningu — disse Arya formalmente.
A rainha se afastou como se estivesse atormentada e depois repetiu na língua antiga:
— Oh, minha filha, eu fui injusta com você. — Ela cobriu o rosto. — Desde que você desapareceu, eu mal dormi ou comi. Estava preocupada com seu destino e temia jamais vê-la novamente. Bani-la da minha presença foi o maior erro que eu já cometi... Você pode me perdoar?
Os elfos reunidos se agitaram, estupefatos.
A resposta de Arya demorou a vir, mas finalmente ela se pronunciou:
— Durante setenta anos, eu vivi e amei, lutei e matei sem sequer falar com você, minha mãe. Nossas vidas são longas, mas mesmo assim, esse não foi um período curto.
Islanzadí se levantou, erguendo o queixo. Um tremor se espalhou por toda a extensão de seu corpo.
— Eu não posso desfazer o passado, Arya, não importa o quanto eu possa querer fazê-lo.
— E eu não consigo esquecer o que passei.
— Nem deve. — Islanzadí fechou as mãos da filha. — Arya, eu a amo. Você é a minha única família. Vá embora se tiver de ir, mas, a não ser que queira renunciar a mim, eu me reconciliarei com você.
Durante um momento infinito, parecia que Arya não iria responder, ou pior, rejeitaria a proposta. Eragon a viu hesitando e rapidamente olhou para a sua plateia. Depois, ela baixou os olhos e disse:
— Não mãe. Eu não poderia partir. — Islanzadí deu um sorriso e abraçou a filha novamente. Desta vez, Arya retribuiu o gesto, e sorrisos brotaram entre os elfos que estavam reunidos.
O corvo branco ficou dando saltos em seu poleiro, tagarelando:
— E na porta estava gravado, o que se tornou uma tradição familiar: Vamos não fazer nada a não ser amar!
— Quieto, Blagden — disse Islanzadí para o corvo. — Guarde seus versos de pé quebrado para si próprio. — Ao se soltar do abraço, a rainha se voltou para Eragon e Saphira. — Vocês me desculpem por ter sido tão indelicada e ignorá-los, nossos convidados mais importantes.
Eragon tocou seus lábios e depois virou a mão direita sobre o esterno, como Arya lhe havia ensinado.
— Islanzadí Dröttningu. Atra esterní ono thelduin. — Ele não tinha dúvida de que deveria falar primeiro.
Os olhos escuros de Islanzadí se arregalaram.
— Atra du evarínya ono varda.
— Un atra mor’ranr lífa unin hjarta onr — respondeu Eragon, completando o ritual. Ele podia dizer que os elfos foram pegos de surpresa com o conhecimento que ele tinha de seus costumes. Em sua mente, ele ouvia enquanto Saphira repetia seu cumprimento para a rainha.
Quando ela terminou, Islanzadí perguntou:
— Dragão, qual é o seu nome?
Saphira.
Um lampejo de reconhecimento apareceu na expressão da rainha, mas ela não fez nenhum comentário.
— Bem-vinda à Ellesméra, Saphira. E o seu, Cavaleiro?
— Eragon Matador de Espectros, Vossa Majestade. — Desta vez, um movimento audível fez com que os elfos sentados atrás deles se agitassem, ate mesmo Islanzadí parecia surpresa.
— Você carrega um nome poderoso — disse ela suavemente —, um daqueles que raramente conferimos às nossas crianças... Bem-vindo à Ellesméra, Eragon Matador de Espectros. Esperamos muito tempo por você. — Ela foi até Orik, cumprimentou-o, depois voltou para o trono e cobriu seu braço com o manto de veludo. — Pela sua presença aqui, Eragon, tão pouco tempo depois do ovo de Saphira ter sido capturado, e pelo anel na sua mão e a espada no seu quadril, suponho que Brom esteja morto e que seu treinamento com ele tenha ficado incompleto. Gostaria de ouvir sua história inteira, incluindo como foi a queda de Brom e como você veio a encontrar minha filha ou como ela o encontrou, tanto faz. Depois vou querer saber da sua missão aqui, anão, e das suas aventuras, Arya, desde a sua emboscada em Du Weldenvarden.
Eragon havia narrado suas experiências antes, por isso ele não tinha nenhum problema em repeti-las para a rainha. Nas poucas ocasiões em que sua memória falhou, Saphira conseguiu oferecer uma descrição precisa dos acontecimentos. Em vários trechos, ele simplesmente deixava a tarefa de contar as histórias para a parceira. Quando terminaram, Eragon retirou o pergaminho de Nasuada de sua saca e o deu para Islanzadí.
Ela o pegou, quebrou o selo de cera vermelha e, assim que terminou de ler a missiva, suspirou e fechou os olhos por um breve instante.
— Vejo agora a verdadeira profundidade da minha insensatez. Meu pesar teria terminado muito antes se eu não tivesse retirado os nossos guerreiros e ignorado as mensagens de Ajihad depois de descobrir que Arya havia caído numa emboscada. Jamais devia ter culpado os Varden por sua morte. Para alguém com tanta idade, eu ainda sou muito, mas muito tola.
Um longo silêncio se seguiu, já que ninguém ousava concordar ou discordar. Criando coragem, Eragon afirmou:
— Como Arya voltou com vida, vocês concordarão em ajudar os Varden, como antes? Nasuada não será bem-sucedida de outro modo, e estou comprometido com sua causa.
— Minha briga com os Varden virou poeira ao vento — disse Islanzadí. — Não tema, nós os ajudaremos como fizemos antes, e mais, por sua causa e por sua vitória contra os Urgals. — Ela se inclinou para a frente apoiada num dos braços. — Você poderia me dar o anel de Brom, Eragon? — Sem hesitar, ele o tirou de seu dedo e o ofereceu para a rainha, que o arrancou de sua palma com seus dedos finos. — Você não devia ter usado isso, Eragon, pois não foi feito para você. No entanto, por causa da ajuda que deu aos Varden e à minha família, eu agora o nomeio Amigo dos Elfos e concedo este anel, Aren, a você, para que todos os elfos, em qualquer lugar para onde vá, saibam que devem confiar na sua palavra e ajudá-lo.
Eragon a agradeceu e colocou o anel de volta em seu dedo, notadamente atento ao olhar da rainha, que permaneceu sobre ele com uma perspicácia perturbadora, estudando-o e analisando-o. O Cavaleiro se sentia como se ela soubesse tudo que ele podia dizer ou fazer. E Islanzadí afirmou:
— Novidades como as que você trouxe nós não temos aqui em Du Weldenvarden há mais de um ano. Estamos acostumados com um dia-a-dia mais lento do que no resto da Alagaësia, e me preocupa que tanta coisa esteja ocorrendo de forma tão dinâmica sem que nada chegue aos meus ouvidos.
— E quanto ao meu treinamento? — Eragon lançou um olhar furtivo sobre os elfos que estavam sentados, imaginando se algum deles podia ser Togira Ikonoka, o ser que havia acessado a sua mente e o livrado da influência sórdida de Durza depois da batalha em Farthen Dûr... e que também havia encorajado Eragon a viajar para Ellesméra.
— Irá começar na plenitude do tempo. Contudo, temo que instruí-lo seja em vão enquanto sua enfermidade persistir. A não ser que consiga superar a magia dos Espectros, você será reduzido a nada além de um fantoche. Poderá ainda ser útil, mas apenas como uma sombra da esperança a qual nutrimos por mais de um século. — Islanzadí falou sem repreendê-lo, contudo suas palavras atingiram Eragon como se fossem marteladas. Ele sabia que a elfa tinha razão. — A culpa não é sua, e me dói ter que verbalizar tais coisas, mas você precisa entender a gravidade da sua inabilidade... Lamento.
Depois disso, Islanzadí se dirigiu a Orik:
— Já faz muito tempo que ninguém da sua raça entra nos nossos salões, anão. Eragon-finiarel já explicou a sua presença, mas você tem alguma coisa a acrescentar?
— Apenas cumprimentos reais do meu rei, Hrothgar, e um apelo, agora desnecessário, para que retome os contatos com os Varden. Além disso, estou aqui para garantir que o pacto que Brom forjou entre vocês e os humanos seja honrado.
— Honramos nossas promessas sejam elas proferidas nesta língua ou na língua antiga. Aceito os cumprimentos de Hrothgar e os retribuo da mesma forma. — Finalmente, como Eragon presumia que ela ansiava por fazer desde que chegaram, Islanzadí olhou para Arya e perguntou: — E quanto a você, minha filha, o que sucedeu com você?
Arya começou a falar num ritmo lento e monótono, primeiro sobre a captura e depois sobre o longo período em que passou aprisionada e sendo torturada em Gil’ead. Saphira e Eragon haviam, deliberadamente, evitado saber os detalhes dos abusos que sofreu, mas a própria Arya parecia não ter dificuldades para repassar tudo ao que ela havia sido submetida. Sua descrição destituída de emoções incitou Eragon a sentir a mesma fúria de quando viu seus ferimentos pela primeira vez. Os elfos permaneceram no mais completo silêncio enquanto Arya contava a sua história, embora tivessem apertado os cabos de suas espadas e seus rostos ganhado linhas de expressão da mais pura raiva, como se tivessem sido entalhadas com uma navalha. Uma única lágrima rolava pelo rosto de Islanzadí.
Depois disso, um ágil lorde elfo correu ao longo da relva musgosa entre as cadeiras.
— Sei que falo por todos nós, Arya Dröttningu, quando digo que meu coração arde de sofrimento por causa da provação pela qual você teve de passar. É um crime além de qualquer desculpa, mitigação ou reparação, e Galbatorix tem de ser punido por isso. Além disso, estamos em débito por você não ter revelado a localização das nossas cidades para os Espectros. Poucos entre nós teriam resistido a eles por tanto tempo.
— Obrigado, Däthedr-vor.
Agora era a vez de Islanzadí falar, e sua voz repicaria como um sino no meio das árvores.
— Chega. Nossos convidados já estão cansados de esperar em pé, e já falamos de coisas malignas por muito tempo. Não farei com que esta ocasião seja arruinada porque estamos nos alongando sobre feridas do passado. — Um sorriso esfuziante fez com que sua expressão ficasse mais radiante. — Minha filha voltou, um dragão e seu Cavaleiro apareceram, e me certificarei de que todos celebrem da maneira adequada! — Ela se levantou, alta e magnífica em sua túnica vermelha, e bateu as mãos. Ao som, as cadeiras e o pavilhão foram inundados com centenas de lírios e rosas que apareceram seis metros acima de suas cabeças e caíram como se fossem flocos de neve coloridos, espalhando no ar sua inebriante fragrância.
Ela não usou a linguagem antiga, observou Eragon. Ele notou que, enquanto todo mundo estava ocupado com as flores, Islanzadí tocou suavemente no ombro de Arya e murmurou, num volume quase inaudível:
— Você jamais teria sofrido tanto se tivesse seguido o meu conselho. Eu estava certa em me opor a sua decisão de aceitar o yawë.
— A decisão era minha.
A rainha se deteve, depois acenou com a cabeça e estendeu o braço.
— Blagden. — Com um adejar de asas, o corvo saiu voando de seu poleiro e pousou no seu ombro esquerdo. Toda a assembleia se curvou enquanto Islanzadí seguia até o final do corredor e abria a porta para as centenas de elfos do lado de fora, ao que fez uma breve declaração na língua antiga não entendida por Eragon. Os elfos explodiram em gritos de aplauso e começaram a entrar apressadamente.
— O que ela disse? — sussurrou Eragon para Narí.
Narí sorriu.
— Mandou abrir nossos melhores barris e acender os fogões, pois hoje será uma noite de festejos e canções. Venham! — Ele segurou a mão de Eragon e o puxou para que seguisse a rainha enquanto ela passava com dificuldade entre os pinheiros felpudos e em meio às barreiras de samambaias viçosas. Durante o tempo que passaram abrigados, o sol havia descido inundou a floresta com uma luz âmbar que se aferrava às arvores e plantas como uma camada de óleo reluzente.
Você percebeu, não percebeu, disse Saphira, que o rei ao qual Lifaen se referiu, Evandar, deve ser o pai de Arya?
Eragon quase cambaleou. Você tem razão... E isso significa que ele foi morto por Galbatorix ou pelos Renegados.
Círculos dentro de círculos.
Eles pararam na crista de uma pequena colina, onde um grupo de elfos havia colocado uma longa mesa montada sobre cavaletes e cadeiras. A sua volta, a floresta zumbia por causa da atividade. À medida que a noite se aproximava, o brilho vivo das fogueiras parecia disperso por toda Ellesméra, incluindo uma que havia sido acesa perto da mesa.
Alguém passou para Eragon um cálice feito da mesma madeira estranha que ele havia notado em Ceris. Ele bebeu o licor claro da taça e ofegou assim que este desceu pela sua garganta. O gosto era de cidra açucarada misturada com mulso. A poção fez a ponta dos seus dedos e ouvidos formigarem e lhe deu uma maravilhosa sensação de clareza.
— O que é isso? — perguntou ele para Narí. O elfo riu.
— Faelnirv? Nós o destilamos de cerejas de sabugueiro esmigalhadas e banhadas com raios lunares. Se levar mosto, um homem forte pode viajar durante três dias sem consumir mais nada.
Saphira, você tem que provar isso. Ela cheirou a taça e depois abriu a boca e permitiu que o resto do faelnirv fosse derramado em sua garganta.
Seus olhos se arregalaram e seu rabo se contraiu.
Isso é uma delícia! Tem mais?
Antes que Eragon pudesse responder, Orik andou pesadamente até onde eles estavam.
— Filha da rainha — murmurou o anão, balançando a cabeça. — Quem me dera pudesse contar agora para Hrothgar e Nasuada. Eles gostariam de saber.
Islanzadí se sentou numa cadeira com encosto alto e bateu palmas novamente. De dentro da cidade, surgiu um quarteto de elfos trazendo instrumentos musicais. Dois portavam harpas de cerejeira, o terceiro um confronto de foles de bambu, e o quarto integrante, precisamente uma elfa, nada além de sua voz, que ela começou a usar imediatamente com uma canção divertida que dançava em volta dos ouvidos de todos.
Eragon só conseguia entender um terço do que era dito, mais ou menos, mas era o bastante para fazê-lo sorrir. Era a história de um sujeito que não podia beber num açude porque um tagarela não parava de atormentá-lo.
Enquanto Eragon escutava, seu olhar ficou vagando até pousar numa garotinha que perambulava atrás da rainha. Quando olhou novamente, viu que seu cabelo emaranhado não era prateado, como era o da maior parte dos elfos, mas branco por causa da idade, e que seu rosto era enrugado e cheio de marcas de expressão como uma maçã seca e murcha.
Ela não era elfa, nem anã, nem mesmo — Eragon achava — humana. Ela lhe dirigiu um sorriso, e ele pôde avistar fileiras de dentes afiados. Quando a cantora terminou e os foles e os alaúdes executavam o silêncio, Eragon se viu assediado por um grande número de elfos que queriam conhecê-lo e — mais importante, ele percebia — a Saphira.
Os elfos se apresentaram curvando-se suavemente e tocando os lábios com seus dedos indicadores e médios, gesto que Eragon respondeu da mesma forma, junto com intermináveis repetições do seu cumprimento na língua antiga. Assediaram Eragon com perguntas educadas sobre suas façanhas, mas reservaram a parte principal da conversa para Saphira.
A princípio, Eragon ficou contente por deixar Saphira falar, já que este era o primeiro lugar onde alguém estava interessado em manter uma conversa só com ela. Mas logo ficou incomodado por ser ignorado, estava acostumado a ter gente ouvindo quando falava. Ele sorriu pesaroso, consternado porque havia se acostumado a contar com a atenção das pessoas desde que se juntou aos Varden, e se forçou a relaxar e aproveitar a celebração.
Logo o cheiro de comida permeou a clareira e os elfos apareceram carregando travessas cheias de iguarias. Além de bisnagas de pão quente e da abundância de pequenos e redondos bolos de mel, os pratos estavam cheios de frutas, vegetais e bagas. Estas últimas predominavam, já que vinham das mais diferentes formas em sopas de mirtilo, molhos de framboesa e geleias de anêmona. Uma tigela de maçãs fatiadas cobertas de mel e salpicadas de morangos silvestres estava ao lado de uma torta de cogumelos recheada de espinafre, tomilho e groselha.
Não se via carne alguma, nem mesmo peixe ou ave, coisa que ainda deixava Eragon intrigado. Em Carvahall e em toda parte no Império, carne era um símbolo de status e luxo. Quanto mais ouro você tinha, mais você podia comprar bife e vitela. Fazer ao contrário indicava um déficit financeiro. Contudo, os elfos não concordavam com esta filosofia, apesar de sua evidente riqueza e a facilidade que tinham para caçar usando magia. Os elfos correram para a mesa com um entusiasmo que surpreendeu Eragon. Logo, todos estavam sentados: Islanzadí na cabeceira com Blagden, o corvo, Dâthedr à sua esquerda, Arya e Eragon à direita, Orik em frente a estes, e depois todos os outros elfos, incluindo Narí e Lifaen. Não havia cadeira na outra ponta da mesa, apenas uma baixela grande, feita sob medida para Saphira.
Enquanto a refeição prosseguia, tudo se transformou em volta de Eragon em muita conversa e alegria. Ele ficou tão arrebatado com as festividades que perdeu a noção do tempo, consciente apenas das gargalhadas e das palavras estrangeiras que giravam por sobre a sua cabeça, e do ardor deixado em seu estômago pelo faelnirv. A música indefinível tocada pela harpa era capturada sutilmente pela sua audição e provocava arrepios de excitação em seu corpo. De vez em quando, ele se via distraído pela visão dos olhos preguiçosos e semicerrados da mulher-criança, que continuavam focados nele com franca intensidade, mesmo durante a refeição.
Durante uma calmaria na conversa, Eragon se virou para Arya, que não havia pronunciado mais do que uma dúzia de palavras. Ele não disse nada, apenas olhou e pensou consigo mesmo sobre quem ela era de verdade.
Arya se agitou.
— Nem mesmo Ajihad sabia.
— O quê?
— Fora de Du Weldenvarden, não falei para ninguém da minha identidade. Brom sabia de tudo, afinal me conheceu aqui, mas ao meu pedido manteve-a em segredo.
Eragon se questionava se ela lhe havia explicado tudo para ter a sensação do dever cumprido ou porque se sentia culpada por decepcionar a ele e a Saphira.
— Brom disse uma vez que aquilo que os elfos não dizem é normalmente mais importante do que aquilo que dizem.
— Ele nos entendeu bem.
— Por que, aliás? Teria alguma importância se alguém soubesse de tudo?
Desta vez Arya hesitou.
— Quando deixei Ellesméra, não tinha o menor desejo de ser lembrada da minha condição. Nem parecia relevante para a minha missão com os Varden e os anões. Não tinha nada a ver com o que eu me tornei... com o que eu sou. — Ela olhou para a rainha.
— Você poderia ter contado para mim e Saphira.
Arya parecia ter se refreado com o tom de reprovação na sua voz.
— Eu não tinha motivos para suspeitar que meu prestígio com Islanzadí havia aumentado, e lhe contar isso não iria mudar nada. Os meus pensamentos são meus, Eragon. — Ele ficou ruborizado com o que havia de subentendido naquilo: Por que ela, que era uma diplomata, uma princesa, uma elfa, e muito mais velha que seu pai ou seu avô, fossem quem fossem, confiava nele, um rapaz humano de dezesseis anos de idade?
— Pelo menos — murmurou ele —, você se reconciliou com sua mãe.
Ela sorriu de um jeito estranho.
— E eu tinha escolha?
Naquele momento, Blagden pulou do ombro de Islanzadí e andou de um jeito pomposo até o meio da mesa, balançando a cabeça para a esquerda e para a direita, curvando-se, zombeteiro. Parou na frente de Saphira, tossiu asperamente e depois cantou, grasnando:

Dragões, como carro,
Têm línguas
Dragões, como jarros,
Têm pescoços
Enquanto dois deles gostam de beber,
O outro gosta de veados comer!

Os elfos congelaram com expressões aflitas enquanto esperavam pela reação de Saphira. Depois de um longo silêncio, Saphira levantou os olhos acima de sua torta de marmelo e soltou uma baforada de fumaça que envolveu Blagden. E de pássaros pequenos também, disse ela, projetando seus pensamentos para que todos pudessem ouvir. Os elfos enfim riram enquanto Blagden cambaleava para trás, crocitando indignado e batendo as asas para afastar a fumaça.
— Tenho de pedir desculpas pelos versos infelizes de Blagden — disse Islanzadí — Ele sempre teve uma língua afiada, apesar das nossas tentativas de domesticá-lo.
Desculpas aceitas, disse Saphira calmamente, e voltou para a sua torta.
— De onde ele veio? — perguntou Eragon, ansioso para retomar uma relação mais cordial com Arya, mas também genuinamente curioso.
— Blagden — disse Arya — em certa ocasião salvou a vida do meu pai. Evandar estava enfrentando um Urgal quando deu um passo em falso e perdeu sua espada. Antes que o Urgal pudesse atacar, um corvo voou em sua direção e picou seus olhos. Ninguém sabe por que o pássaro fez isso, mas tal distração permitiu que Evandar recuperasse seu equilíbrio e, com isso, vencesse a batalha. Meu pai sempre foi generoso, por isso agradeceu ao corvo, abençoando-o com encantos para que ganhasse inteligência e uma vida longa. No entanto, a mágica teve dois efeitos que ele não podia antever: Blagden perdeu toda a cor das suas penas e ganhou a habilidade de prever certos acontecimentos.
— Ele pode enxergar o futuro? — perguntou Eragon, surpreso.
— Enxergar mesmo? Não. Mas talvez possua uma sensibilidade para o que está por vir. De qualquer maneira, ele sempre fala através de enigmas, e grande parte deles possui um quê de absurdo. Lembre-se apenas que, se Blagden vier até você e lhe disser algo que não for uma piada ou um trocadilho, será de bom tom prestar atenção em suas palavras.
Assim que a refeição terminou, Islanzadí se levantou — provocando uma certa agitação, já que todo mundo se apressou em fazer o mesmo — e disse:
— Está tarde, estou cansada, e gostaria de voltar para o meu quarto. Venham comigo, Saphira e Eragon, que vou lhes mostrar onde podem dormir esta noite. — A rainha acenou com uma das mãos para Arya e deixou a mesa. Arya a seguiu.
Enquanto Eragon dava a volta em torno da mesa com Saphira, acabou parando ao lado da mulher-criança, capturado pelo seu olhar selvagem. Todos os elementos de sua aparência, dos seus olhos até seu cabelo emaranhado e seus caninos brancos, desencadearam algo nas lembranças do rapaz.
— Você é uma menina-gata, não? — Ela piscou uma vez e depois mostrou os dentes num sorriso perigoso. — Encontrei alguém da sua espécie. Solembum, em Teirm e em Farthen Dûr.
Seu sorriso se alargou.
— Sim. Ele é dos bons. Os humanos me cansam, mas ele acha divertido viajar com a bruxa Angela. — Depois disso, seu olhar se voltou para Saphira e ela deu um meio-rugido, meio-ronronar, ambos guturais, de simpatia.
Qual é o seu nome?, perguntou Saphira.
— Nomes são coisas poderosas no coração de Du Weldenvarden, dragão, e como são. No entanto... entre os elfos, sou conhecida como A Vigia, Pata Ligeira e A Dançarina Sonhadora, mas você pode me chamar de Maud. — Ela jogou para trás sua juba de mechas brancas e firmes. — É melhor ficarem junto da rainha, meninos, ela não tolera nem um pouco tolos ou retardatários.
— Foi um prazer conhecê-la, Maud — disse Eragon. Ele se curvou e Saphira inclinou a cabeça. Eragon olhou para Orik, perguntando-se para onde o anão seria levado, e depois seguiu Islanzadí.
Alcançaram a rainha assim que ela chegou na base de uma árvore. O tronco estava sulcado com uma escadaria delicada em espiral e dava em uma série de cômodos globulares em forma de xícara e suspensos na copa da árvore por uma série de galhos. Islanzadí ergueu uma das mãos elegantes e apontou para um ninho.
— Você precisa voar até ali, Saphira. Nossas escadas não foram feitas para dragões. — E depois ela se virou para Eragon: — É aqui que o líder dos Cavaleiros de Dragões ficava quando vinha a Ellesméra. Eu lhe concedo essas acomodações, pois você é o herdeiro legítimo de tal título... E a sua herança. — Antes que Eragon pudesse agradecê-la, a rainha partiu rapidamente com Arya, que permaneceu presa ao olhar dele por um bom tempo antes de sumir cidade adentro.
Será que devíamos ver as acomodações que nos foram dadas?, perguntou Saphira. Ela saltou para o ar e contornou a árvore, balançando a ponta de uma das asas, perpendicularmente ao chão.
Assim que Eragon deu o primeiro passo, viu que Islanzadí havia falado a verdade, as escadas e a árvore eram uma coisa só. A madeira sob os seus pés era lisa e plana por causa dos muitos elfos que a haviam atravessado, mas ainda assim era parte do tronco, assim como os balaústres de teias retorcidas ao seu lado e o corrimão curvo que deslizava sob a sua mão direita.
Pelo fato das escadas terem sido desenhadas com a força da mente dos elfos, elas eram mais íngremes do que Eragon estava acostumado, e logo suas coxas e panturrilhas começaram a arder. Ele respirava tão fundo quando chegou no topo — depois de atravessar um alçapão no chão de um dos cômodos — que teve de pôr as mãos nos joelhos e se curvar para arfar.
Assim que se recuperou, se ergueu e examinou os arredores. Estava num vestíbulo circular com um pedestal no centro, a partir do qual se formava uma escultura em espiral de duas mãos e antebraços pálidos que se entrelaçavam sem se tocar. Três portas de tela eram acessos ara que se saísse do vestíbulo — uma desembocava numa austera sala de jantar na qual cabiam dez pessoas no máximo, outra num armário com um buraco vazio no chão, para o qual Eragon não conseguiu discernir uma utilidade, e a última num quarto que tinha uma vista ampla e aberta para toda a imensidão de Du Weldenvarden.
Depois de pegar uma lanterna pendurada num gancho no teto, Eragon entrou no quarto, projetando um monte de sombras que pulavam e giravam como dançarinas malucas. Uma abertura em forma de lágrima bastante grande para um dragão recortava a parede externa. Dentro do quarto havia uma cama, situada de modo que ele pudesse observar o céu e a lua enquanto estivesse deitado de costas, uma lareira feita com uma madeira cinza que sentiu ser tão dura e fria quanto aço quando a tocou, como se o madeiramento tivesse sido prensado a uma insuperável densidade, e uma enorme gamela com a borda baixa posicionada no chão, guarnecida com cobertores macios, onde Saphira poderia dormir.
Enquanto ele reconhecia o ambiente, ela desceu rapidamente e aterrissou na borda da abertura com suas escamas brilhando como uma constelação de estrelas azuis. Atrás de Saphira, os últimos raios de sol listravam toda a floresta, pintando as várias cordilheiras e morros com uma bruma âmbar, que fazia as folhas dos pinheiros incandescer como ferro em brasa, e perseguindo o retorno das sombras em direção ao horizonte violeta.
Da altura em que estavam, a cidade parecia uma série de desfiladeiros na abóbada volumosa, como ilhas de paz num oceano revolto. O real tamanho de Ellesméra agora era revelado. Ela se estendia por vários quilômetros a oeste e ao norte.
Eu respeito os cavaleiros ainda mais, se era assim como Vrael normalmente vivia, disse Eragon. É mais simples do que eu supunha. A estrutura inteira girou levemente devido a uma lufada de vento.
Saphira farejou suas cobertas. Ainda temos de ver Vroengard, avisou ela, embora ele sentisse que ela concordava com ele.
Ao fechar a porta de tela do quarto, Eragon viu algo no canto que não havia observado na sua primeira inspeção: uma escada em espiral que terminava numa chaminé de madeira escura. Pondo a lanterna à sua frente, subiu cautelosamente um degrau de cada vez. Após cerca de seis metros, Eragon emergiu numa sala de estudos mobiliada com uma escrivaninha — provida de penas, tinta e papel, mas sem pergaminho — e outra gamela acolchoada para um dragão se enroscar. A parede oposta
também possuía uma abertura por onde se podia passar voando. Saphira venha ver isto.
Como? perguntou Saphira.
Pelo lado de fora. Eragon recuava à medida que as camadas de casca de árvore estilhaçavam e quebravam sob as garras de Saphira, enquanto ela rastejava para fora do quarto e para cima, da borda do conjugado para a sala de estudos. Satisfeita? perguntou quando ela chegou. Saphira sondou-lhe com seus olhos safira e depois examinou as paredes e a mobília.
Queria saber, disse Saphira, como você pode ficar aquecido quando os cômodos são abertos para o ambiente externo?
Não sei. Eragon verificou as paredes de cada lado da abertura, percorrendo a mão pelas formas abstratas assumidas pela árvore em decorrência das canções lisonjeiras dos elfos.
Ele parou quando sentiu um sulco vertical embutido na casca da árvore. Puxou-o e uma película diáfana desenrolou-se de dentro da parede. Puxando-a transversalmente pelo portal, identificou uma segunda ranhura para segurar a bainha do tecido. Assim que ela foi fixada, o ar ficou mais denso e mais quente. Aí está a resposta, disse ele. Eragon soltou o tecido e ele chicoteou para trás e para a frente ao ser reenrolado.
Quando regressaram ao quarto, Eragon foi desfazer a sua saca, enquanto Saphira se enrascava sobre sua cama. Ele arrumou cuidadosamente seu escudo, braçadeiras, grevas, coifa e elmo. Despiu a túnica e tirou a camisa de cota de malha com forro de couro. Sentou na cama com o peito nu e estudou os elos lubrificados, surpreso pela semelhança com as escamas de Saphira.
Conseguimos, disse ele confuso.
Foi uma longa viagem... mas, sim, conseguimos. Tivemos sorte que o infortúnio não caiu sobre nós no caminho.
Ele assentiu com a cabeça. Agora, vamos descobrir se valeu a pena. Algumas vezes me pergunto se o nosso tempo poderia estar sendo melhor gasto ajudando os Varden.
Eragon! Você sabe que precisamos de mais ensinamentos. Era o que Brom queria. Além disso, Ellesméra e Islanzadí certamente valem todo esse caminho que percorremos para encontrá-las.
Talvez. Finalmente, perguntou: O que você acha de tudo isto?
Saphira separou ligeiramente suas mandíbulas deixando seus dentes à mostra. Eu não sei. Os elfos guardam mais segredos do que Brom e podem fazer coisas com a magia que nunca imaginei. Não faço ideia sobre quais métodos usam para suas árvores crescerem com tais formas, nem como Islanzadí despertou aquelas flores. Está além dos meus conhecimentos.
Eragon ficou aliviado em saber que ele não era o único a sentir-se subjugado. E Arya?
O que tem ela?
Você sabe, me refiro a quem realmente ela é.
Ela não mudou, foi apenas a maneira de percebê-la.
Saphira disfarçou o riso.
Enquanto apoiava a cabeça nas suas duas patas dianteiras, Saphira conteve o riso no fundo da garganta e acabou por liberar sons soluçantes como pedras friccionando-se umas às outras.
As estrelas agora brilhavam no céu e os pios suaves das corujas ecoavam por toda Ellesméra. Todo o mundo estava calmo e silencioso enquanto a noite suave transcorria.
Eragon entrou debaixo dos lençóis felpudos, se esticou para apagar a lanterna e depois parou, com a mão a poucos centímetros da trava. Ele estava na capital dos elfos, a cerca de trinta metros do chão, dormindo na antiga cama de Vrael.
Aquele pensamento era demais para ele.
Rolando para se levantar, pegou a lanterna com uma das mãos, Zar’roc com a outra, e surpreendeu Saphira ao chegar lentamente em sua gamela e se aconchegar contra o flanco de seu corpanzil quente. Ela sibilou e deixou uma de suas asas aveludadas cair sobre ele, que apagou a luz e fechou os olhos.
Juntos, os dois dormiram longa e profundamente em Ellesméra.

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Boa leitura :)