8 de maio de 2017

Capítulo 26

Tiro o chapéu para
Esta excelente elefanta
Vamos ser amigões?

PRENDI UMA FLECHA NO arco e disparei na corrente.
Na maior parte dos casos, meu primeiro instinto é disparar. Normalmente, dá certo. (A não ser que você conte a vez em que Hermes entrou no meu banheiro sem bater. E, sim, eu sempre mantenho o arco à mão quando estou na privada. Por que não?)
Dessa vez, meu disparo foi equivocado. Pêssego estava lutando e se debatendo tanto que minha flecha passou direto pela corrente e caiu em um blemmyae qualquer na arquibancada.
— Pare! — gritou Meg para mim. — Você pode matar Pêssego!
O imperador riu.
— É, seria uma pena, considerando que ele está prestes a morrer queimado!
Cômodo pulou do camarote na pista de corrida. Meg levantou a espada e se preparou para atacar, mas os mercenários nas arquibancadas miraram seus fuzis. Não importava que eu estivesse a cinquenta metros de distância, os atiradores tinham mira digna de... bem, digna de mim. Um amontoado de pontos vermelhos de lasers surgiu no meu peito.
— Calma, calma, Meg — repreendeu o imperador, apontando para mim. — Meu jogo, minhas regras. A não ser que você queira perder dois amigos no ensaio.
Meg ergueu uma espada, depois a outra, parecendo avaliá-las, como se fossem opções. Ela estava longe demais para eu ver sua expressão, mas consegui sentir o sofrimento. Quantas vezes eu me vi em meio a um dilema desses? Destruo os troianos ou os gregos? Paquero as Caçadoras da minha irmã e corro o risco de levar uns tapas ou paquero Britomártis e corro o risco de ser explodido?
Esses são os tipos de escolha que nos definem.
Enquanto Meg hesitava, um grupo de mecânicos usando togas empurrou outro carro de Fórmula 1 para a pista, uma máquina de um roxo chamativo com um número 1 dourado no capô. Projetando-se do teto havia uma lança fina de uns seis metros, com uma bola de tecido na ponta. Meu primeiro pensamento: por que Cômodo precisava de uma antena tão grande? Então olhei de novo para o karpos pendurado. Sob a luz dos holofotes, Pêssego cintilava como se tivesse sido lambuzado com óleo. Os pés, normalmente descalços, estavam cobertos por uma lixa, como a superfície lateral de uma caixa de fósforos.
Meu estômago se revirou. A antena do carro de corrida não era uma antena. Era um fósforo gigante, colocado na altura exata para se acender quando entrasse em contato, em alta velocidade, com os pés de Pêssego.
— Uma vez que eu esteja dentro do carro — anunciou Cômodo —, meus mercenários não vão interferir. Meg, você pode tentar me deter da forma que quiser! Meu plano é completar uma volta, botar fogo no seu amigo, dar outra volta e atropelar você e Apolo. Acredito que chamam isso de volta da vitória!
A multidão berrou, aprovando. Cômodo pulou no carro. Sua equipe partiu, e o veículo roxo disparou em uma nuvem de fumaça.
Meu sangue virou uma substância viscosa e gosmenta, sendo bombeado lentamente pelo coração. Quanto tempo demoraria para o carro dar a volta na pista? Segundos, no máximo. Eu desconfiava que o para-brisa de Cômodo era à prova de flechas. Ele não me deixaria escapar da morte tão facilmente. Eu não tinha tempo nem para tocar um riff decente no ukulele.
Enquanto isso, Meg levou o avestruz para baixo do karpos pendurado. Ficou de pé no lombo da ave (o que não era uma tarefa fácil) e esticou as mãos o máximo que conseguiu, mas Pêssego estava muito acima dela.
— Vire fruta! — gritou Meg para ele. — Desapareça!
— Pêssego! — berrou Pêssego, o que provavelmente queria dizer Você não acha que eu faria isso se pudesse? As cordas deviam ser mágicas, ou algo do tipo, e estavam limitando a capacidade de transformação dele, confinando-o à forma atual, assim como Zeus tinha aprisionado minha divindade incrível no corpo infeliz de Lester Papadopoulos. Pela primeira vez, senti certa afinidade com o bebê demônio de fralda.
Cômodo já estava na metade da pista. Poderia ter ido mais rápido, mas insistiu em desviar e acenar para as câmeras. Os outros carros foram para o acostamento e o deixaram passar, o que fez com que eu me perguntasse se eles entendiam o conceito de corrida.
Meg pulou do avestruz. Segurou a trave e começou a subir, mas eu sabia que ela não teria tempo de ajudar o karpos.
O carro roxo contornou a extremidade oposta. Se Cômodo acelerasse na reta, tudo acabaria em segundos. Se ao menos eu pudesse colocar uma coisa grande e pesada no meio da passagem.
Ah, espera, pensou meu cérebro genial, estou sentado em um elefante.
Na base do capacete gigantesco do Colts havia uma palavra gravada: LÍVIA. Supus que fosse o nome da elefanta.
Eu me inclinei para a frente.
— Lívia, minha amiga, você está a fim de pisotear um imperador?
Ela soprou pela tromba, em sua primeira demonstração de entusiasmo. Eu sabia que elefantes eram inteligentes, mas a disposição dela em ajudar me surpreendeu. Tive a sensação de que Cômodo a tratara muito mal. Agora, ela queria matá-lo. Isso, pelo menos, era algo que tínhamos em comum.
Lívia partiu na direção da pista, empurrando outros animais, balançando a tromba para tirar gladiadores do caminho.
— Boa elefanta! — gritei. — Que elefanta maravilhosa!
O Trono de Mnemosine sacudia precariamente nas minhas costas. Gastei todas as minhas flechas (exceto pela flecha falante idiota) disparando em avestruzes de combate, em cavalos cuspidores de fogo, em ciclopes e em cinocéfalos. Depois, peguei meu ukulele de combate e soltei o grito de guerra ATACAR!
Lívia correu pela pista central na direção do carro de corrida roxo. Cômodo dirigiu bem na nossa direção, o rosto sorridente refletido em todos os monitores espalhados pelo estádio. Ele parecia adorar a possibilidade de batermos de frente.
Eu não estava tão animado. Cômodo era difícil de matar. Minha elefanta e eu não éramos, e eu também não tinha certeza de quanta proteção a cota de malha ia oferecer a Lívia. Torcia para que conseguíssemos forçar Cômodo para fora da pista, mas devia saber que ele jamais daria para trás em um desafio para ver quem amarelava primeiro. Sem capacete, o cabelo dele voava, as mechas louras, em um tom de dourado, parecendo em chamas.
Sem capacete...
Tirei um bisturi da bandoleira. Inclinado para a frente, cortei a tira do queixo do capacete de futebol americano de Lívia. Arrebentou com facilidade. Graças aos deuses por produtos de plástico vagabundo!
— Lívia, jogue!
A elefanta maravilhosa entendeu.
Ainda correndo a toda velocidade, ela enrolou a tromba na grade do capacete que protegia sua cara e arremessou o elmo, como um cavalheiro tirando o chapéu... Se o objeto pudesse se lançar para a frente como um projétil mortal.
Cômodo desviou. O capacete branco gigantesco quicou no para-brisa, mas o dano já tinha sido causado. Roxo Um fez uma curva para o campo em um ângulo absurdamente acentuado, virou para o lado e capotou três vezes, derrubando um grupo de avestruzes e dois gladiadores azarados.
— AHHHHHHH!
A plateia ficou de pé. A música parou. O restante dos gladiadores recuou para a beirada do campo, olhando o carro de corrida imperial capotado.
Saía fumaça do chassi. As rodas giravam, jogando longe restos de terra e grama. Eu queria acreditar que o silêncio da plateia era um entreato cheio de esperança. Talvez os espectadores partilhassem do meu maior desejo: que Cômodo não saísse dos escombros, que tivesse sido reduzido a uma mancha imperial na grama artificial na linha de quarenta e duas jardas.
Mas uma figura fumegante se arrastou e se livrou dos destroços. A barba de Cômodo estava soltando fumaça. O rosto e as mãos estavam pretos de fuligem. Ele se levantou, o sorriso intacto, e se espreguiçou, como se tivesse acabado de tirar um bom cochilo.
— Bela tentativa, Apolo! — Ele segurou o chassi do carro de corrida destruído e o levantou acima da cabeça. — Mas vai ser preciso mais do que isso para me matar!
Ele atirou o carro para o lado, esmagando um ciclope.
A plateia gritou e bateu os pés.
— ESVAZIEM O CAMPO! — ordenou o imperador.
Na mesma hora, dezenas de cuidadores de animais, paramédicos e gandulas entraram no campo. Os gladiadores sobreviventes saíram de cara amarrada, como se percebendo que nenhuma luta mortal poderia competir com o que Cômodo tinha acabado de fazer.
Enquanto o imperador dava ordens aos seus servos, olhei para a end zone. De alguma forma, Meg tinha escalado até o alto da trave. Pulou na direção de Pêssego e segurou as pernas dele, provocando uma boa quantidade de berros e xingamentos por parte do karpos. Por um momento, eles se balançaram juntos na corrente. Mas Meg subiu no corpo do amigo, conjurou a espada e cortou a corrente. Os dois despencaram uns seis metros e caíram na pista, embolados. Felizmente, ele serviu de almofada para Meg. Considerando que pêssegos eram macios e tenros, imaginei que a menina estivesse bem.
— Bem! — Cômodo andou na minha direção. Estava mancando um pouco com o pé direito, mas não parecia sentir muita dor. — Foi um bom ensaio! Amanhã, teremos mais mortes, inclusive a sua, claro. Vamos fazer uns ajustes na parte da batalha. Talvez acrescentar mais carros de corrida e bolas de basquete? E, Lívia, sua elefanta velha e malvada! — Ele balançou o dedo para minha montaria paquiderme. — É esse tipo de energia que eu queria! Se você tivesse demonstrado o mesmo entusiasmo nos jogos anteriores, eu não teria sido obrigado a matar Claudius.
Lívia bateu os pés e soprou pela tromba. Acariciei a lateral da cabeça dela, tentando acalmá-la, mas pude sentir seu sofrimento devastador.
— Claudius era seu companheiro — supus, acariciando a elefanta. — Cômodo o matou.
O imperador deu de ombros.
— Eu avisei: participe dos meus jogos, senão... Mas elefantes são tão teimosos! São grandes e fortes e acostumados a fazerem o que querem, um pouco como os deuses. Mesmo assim — ele piscou para mim —, é incrível como uma pequena punição pode ajudar.
Lívia bateu os pés. Eu sabia que ela queria atacá-lo, mas, depois de ver Cômodo jogar um carro de corrida longe, eu desconfiava que ele não teria muita dificuldade em machucar Lívia.
— Nós vamos nos vingar dele — murmurei para ela. — Nossa hora vai chegar.
— Vai mesmo: amanhã! — concordou Cômodo. — Vocês vão ter outra chance de acabar comigo. Mas, agora... Ah, aqui estão os guardas que vão escoltar vocês até sua cela.
Um grupo de germânicos veio correndo pelo campo com Litierses na liderança. O espadachim tinha um hematoma novo e feio no rosto que parecia muito com uma pegada de avestruz. Isso me deixou feliz. Ele também estava sangrando em vários cortes recentes nos braços, e as pernas da calça encontravam-se em farrapos. Os cortes pareciam resultado de pequenas flechas, como se as Caçadoras estivessem brincando com o alvo, fazendo o possível para acabar com a calça dele. Isso me alegrou ainda mais. Eu queria poder acrescentar um ferimento de flecha à coleção de Litierses, de preferência bem no meio do peito, mas minha aljava estava vazia, exceto pela Flecha de Dodona. Eu já tinha tido drama suficiente por um dia, não precisava de um diálogo shakespeariano ruim para fechá-lo com chave de ouro.
Litierses fez uma reverência desajeitada.
— Meu senhor.
Cômodo e eu falamos ao mesmo tempo:
— Sim?
Eu achava que estava bem mais senhoril sentado na minha elefanta com cota de malha, mas Litierses fez cara feia para mim.
— Meu senhor Cômodo — esclareceu ele —, as invasoras foram devidamente afastadas do portão.
— Até que enfim — murmurou o imperador.
— Eram Caçadoras de Ártemis, senhor.
— Sei. — Cômodo não pareceu muito preocupado. — Vocês mataram todas?
— Nós... — Lit engoliu em seco. — Não, meu senhor. Elas dispararam de diferentes direções e recuaram, nos atraindo a uma série de armadilhas. Nós perdemos só dez homens, mas...
— Vocês perderam dez. — Cômodo examinou as unhas sujas de fuligem. — E quantas dessas Caçadoras vocês mataram?
Lit recuou. Suas veias do pescoço latejavam.
— Eu... eu não tenho certeza. Não encontramos corpos.
— Então você não pode confirmar nenhuma morte. — Cômodo olhou para mim. — O que você aconselharia, Apolo? Devo tirar um tempo para refletir sobre o assunto? Devo considerar as consequências? Devo talvez dizer para meu prefeito Litierses não se preocupar? Ele vai ficar bem? Ele SEMPRE VAI TER MINHAS BÊNÇÃOS?
Ele gritou essa última pergunta, a voz ecoando pelo estádio. Até os centauros selvagens nas arquibancadas ficaram em silêncio.
— Não — decidiu Cômodo, o tom calmo mais uma vez. — Alaric, onde está você?
Um dos germânicos deu um passo à frente.
— Senhor?
— Leve Apolo e McCaffrey para a prisão. Consiga boas celas para eles. Coloque o Trono de Mnemosine no lugar. Mate o elefante e o karpos. O que mais? Ah, sim. — Da bota da roupa de corrida, Cômodo tirou uma faca de caça. — Segure os braços de Litierses para mim enquanto corto a garganta dele. Está na hora de arranjar um prefeito novo.
Antes que Alaric executasse essas ordens, o telhado do estádio explodiu.

14 comentários:

  1. Sempre termine um capítulo com uma explosão

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  2. Aquele momento que uma elefanta tem o seu nome... KKKKKK

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  3. Gente, tô morta de preocupada com esses bichinhos. Tadinhos!

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  4. Na base do capacete gigantesco do Colts havia uma palavra gravada: LÍVIA. Supus que fosse o nome da elefanta.
    Isso foi um elogio?

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  5. Devo dizer que não gostei de ter o mesmo nome de uma elefanta

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  6. Muitas Lívia revoltadas e confusas com o tio Rick 😂🐘 olha gente, elefantes são mt fofos

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    1. agora ela pode fazer compania para anibal

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  7. Fui a única que lagrimou com esses gritos de Cômodo? Me senti na pele de Apolo e doeu...sei lá
    ~Filha de Zeus.

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  8. Mila Filha do Apolo11 de julho de 2017 15:39

    Eu não quero q Pêssego morra

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Boa leitura :)