27 de maio de 2017

Capítulo 26 - A cidade dos pinheiros

Eragon já estava em Du Weldenvarden há tanto tempo que havia começado a ansiar por clareiras, campos ou até mesmo por uma montanha, em vez dos intermináveis troncos de árvores e escassa vegetação rasteira.
Seus voos com Saphira não proporcionaram descanso nenhum, pois só revelavam montanhas cheias de vegetação espinhenta que agitava-se continuamente por uma área imensa como um mar verdejante.
Muitas vezes, os galhos eram tão grossos e altos que era impossível dizer onde o sol nascia e se punha. Isso, combinado com o repetitivo cenário, deixou Eragon desesperadamente perdido, não importava quantas vezes Arya ou Lifaen se davam ao trabalho de lhe mostrar os pontos da bússola.
Se não fosse pelos elfos, ele sabia que poderia ficar vagando em Du Weldenvarden pelo resto da vida sem jamais encontrar uma saída. Quando chovia, as nuvens e as copas frondosas os lançavam na mais profunda escuridão, como se eles estivessem sendo sepultados bem no fundo da terra. A água que caía ficava retida nas folhas dos pinheiros para depois ficar gotejando e pingando de uns trinta metros ou mais sobre suas cabeças, como se fossem umas mil pequenas cachoeiras. Nessas horas, Arya costumava evocar uma esfera ardente de magia verde que flutuava sobre a sua mão direita e fornecia a única luz naquela floresta cavernosa. Chegavam a parar e se amontoar debaixo de uma árvore até a tempestade diminuir, mas mesmo assim a água retida na miríade de galhos, à menor provocação, os banhava com gotículas durante horas depois.
Enquanto eles seguiam mais fundo para dentro do coração de Du Weldenvarden, as árvores iam ficando mais grossas e altas, assim como cada vez mais separadas para acomodar a crescente extensão de seus galhos. Os troncos — meras toras marrons erguidas até o teto, manchado e turvado pelas sombras e cheio de arcos que serviam como suportes — tinham mais de sessenta metros de altura, eram mais altos do que qualquer árvore na Espinha ou nas Beor. Eragon mediu com passos a circunferência de uma árvore e constatou ter ela mais de vinte metros.
Quando mencionou o fato para Arya, ela acenou positivamente com a cabeça e disse:
— Isso significa que estamos perto de Ellesméra. — Ela estendeu o braço e apoiou a mão levemente na raiz retorcida ao seu lado, como se tivesse tocando, com total delicadeza, o ombro de um amigo ou amante. — Estas árvores estão entre as criaturas mais velhas que vivem na Alagaësia. Os elfos as amam desde a primeira vez em que vimos Du Weldenvarden, e fizemos tudo ao nosso alcance para ajudá-las a florescer. — Um leve filete de luz trespassou os galhos esmeralda empoeirados mais acima e pintaram seu braço e seu rosto com ouro líquido, uma visão brilhante e deslumbrante contra o fundo sombrio. —Já viajamos por muito chão juntos, Eragon, mas agora você está prestes a entrar no meu mundo. Ande suavemente, pois a terra e o ar estão pesados de tantas lembranças e nada é o que parece... Não voe com Saphira hoje, pois já demos início a certas defesas que protegem Ellesméra. Não seria inteligente desviar-se da trilha.
Eragon curvou a cabeça em concordância e recuou até Saphira, que estava deitada enrolada sobre um leito de musgos, entretendo-se enquanto soltava colunas de fumaça das narinas e as via se turvando e se perdendo de vista. Sem preâmbulos, ela disse: Há bastante espaço no chão para mim agora. Não terei dificuldades.
Bom. Ele montou em Folkvír e seguiu Orik e os elfos mais para dentro da floresta vazia e silenciosa. Saphira veio se arrastando atrás. Ela e os cavalos brancos brilhavam naquela lúgubre meia-luz.
Eragon deteve-se, dominado pela beleza solene dos arredores. Tudo tinha um ar de era invernosa, como se nada tivesse mudado sob aquele telhado de folhas de pinheiro em mil anos e nada jamais fosse mudar, o próprio tempo parecia ter caído num sono tranquilo do qual nunca mais iria acordar.

No fim da tarde, a escuridão se ergueu e revelou um elfo que estava em pé mais à frente, coberto por um raio de luz brilhante que vinha do teto. Ele usava um manto de caimento elegante, com um aro de prata sobre a sua fronte. Seu rosto era velho, nobre e sereno.
— Eragon — murmurou Arya. — Mostre a ele sua palma e seu anel.
Descobrindo sua mão direita, Eragon a ergueu para que primeiro o anel de Brom e depois a gedwëy ignasia ficassem visíveis. O elfo sorriu, fechou seus olhos e abriu os braços num gesto de boas-vindas. E manteve a postura.
— O caminho está livre — disse Arya. Com um comando suave, seu cavalo seguiu em frente. Eles passaram pelo elfo, contornando-o – como água que se divide na base de um seixo rolado e inclinado para lhe dar escoamento – e quando todos haviam pensado, ele se endireitou, fechou as mãos, e sumiu assim que a luz que o iluminava deixou de existir.
Quem é ele?, perguntou Saphira.
Arya disse:
— Ele é Gilderien o Sábio, Príncipe da Casa Miolandra, detentor da Chama Branca de Vándil, e guardião de Ellesméra desde os dias da Du Fyrn Skulblaka, nossa guerra com os dragões. Ninguém pode entrar na cidade a não ser que ele permita.
Quatrocentos metros depois, a floresta foi se diluindo e brechas começaram a aparecer dentro dos limites da cobertura verde, permitindo que pranchas de luz solar mosqueada bloqueassem o caminho. Então eles passaram por baixo de duas árvores nodosas, encostadas uma na outra, e pararam na beira de uma clareira vazia.
O solo estava cheio de flores espalhadas em densas camadas. De rosas a jacintos e a lírios, o tesouro fugaz da primavera estava amontoado como se fossem pilhas de rubis, safiras ou opalas. Seus aromas inebriantes atraíam hordas de abelhas. À direita, um rio batia atrás de uma fileira de arbustos, enquanto dois esquilos perseguiam um ao outro em volta de uma pedra.
A princípio, para Eragon, aquele parecia um lugar onde veados poderiam passar a noite. Mas, ao prosseguir sua observação, começou a perceber trilhas escondidas entre os arbustos e as árvores, uma luz suave e quente onde normalmente haveria sombras castanho-avermelhadas, um feitio estranho nas formas dos galhos, dos ramos e das flores, tão sutil que quase escapou à sua percepção — pistas de que o que via não era inteiramente natural. Ele piscou e sua visão subitamente mudou, como se uma lente tivesse sido colocada sobre os seus olhos, reduzindo tudo a formas reconhecíveis.
Aquelas eram trilhas, sim. E aquelas eram flores, ora. Mas o que ele havia tomado como uma moita cheia retorcida de protuberâncias era de fato um monte de construções graciosas que se erguiam a partir dos pinheiros.
Uma das árvores tornava-se saliente na base para formar uma casa de dois andares antes de afundar suas raízes na greda. Cada um deles era hexagonal, embora o de cima tivesse a metade do tamanho do primeiro, o que dava à casa a impressão de que havia sido montada em camadas. Os tetos e as paredes eram feitos de chapas de madeira dispostas uma sobre as outras tais como membranas. Musgo e líquen amarelo debruçavam-se no beiral e se dependuravam nas janelas enfeitadas dispostas uma de cada lado. A porta da frente era uma silhueta preta misteriosa oculta debaixo de uma arcada ornada com símbolos.
Outra casa estava aninhada entre três pinheiros, que se uniam a ela uma série de galhos curvados. Reforçada por tais suportes aéreos, a estava disposta em cinco níveis, leves e arejados. Ao seu lado havia um caramanchão feito com madeira de salgueiro e de comiso, no qual estavam penduradas lanternas sem chamas disfarçadas de cecídios.
Cada construção realçava e complementava seus arredores, misturando-se sem emendas com o resto da floresta, até que fosse impossível dizer onde terminavam os artefatos e começava a natureza. Ambos estavam em perfeito equilíbrio. Em vez de controlar o seu meio, os elfos optaram por aceitar o mundo como era e se adaptaram a ele.
Os habitantes de Ellesméra acabaram se revelando num movimento rápido que passou pela visão periférica de Eragon, não mais do que agulhas se mexendo no meio da brisa. Até que ele vislumbrou mãos, um rosto pálido, um pé calçando sandálias, um braço levantado. Um por um, os elfos precavidos foram aparecendo, com seus olhos amendoados fixados em Saphira, Arya e Eragon.
As mulheres usavam seus cabelos soltos. Eles ondulavam pelas suas costas em cachos negros e prateados, trançados com flores frescas, como se fossem quedas d’água de um jardim. Todas possuíam uma beleza delicada e etérea que não correspondia à sua força inabalável, para Eragon, pareciam perfeitas. Os homens eram igualmente notáveis, com seus malares altos, narizes lindamente modelados e sobrancelhas espessas. Ambos os sexos vestiam túnicas rústicas, verdes e marrons, cujas franjas ostentavam tons de laranja, vermelho e dourado.
De fato é um povo bonito, pensou Eragon. Ele tocou os lábios para cumprimentá-los.
Como se fossem um só, os elfos se curvaram da cintura para baixo. Depois sorriram e gargalharam numa felicidade irrestrita. Do meio deles, uma mulher cantou:

Gala O Wyrda brunhvitr,
Abr Berundal vandr-jóáhr,
Burthro laufsblãdar ekar unâir,
Eom kona dauthleikr...

Eragon colocou as mãos nos ouvidos, temendo que a melodia fosse um encanto como o que ele ouvira em Sílthrim, mas Arya balançou a cabeça e levantou as mãos dele.
— Isso não e magia. — Depois ela falou com seu cavalo: — Ganga. — O garanhão relinchou suavemente e se afastou trotando. — Soltem os seus cavalos também. Não vamos mais precisar deles, que merecem descansar em nossos estábulos.
A canção foi crescendo e ficando mais forte enquanto Arya seguia por uma trilha de pedras arredondadas, adornada com pedaços de turmalina esverdeada, que cercava as malvas-rosas, as casas e as árvores, antes de finalmente cruzar um riacho. Os elfos dançavam em volta do grupo enquanto este andava. Passavam rapidamente de um lado para o outro, rindo, e ocasionalmente pulavam de um galho para o outro, sobre suas cabeças. Elogiavam Saphira com nomes como “Garras longas”, “Filha do Ar e do Fogo” e “Poderosa”.
Eragon sorria encantado e satisfeito. Eu poderia viver aqui, pensou com uma sensação de paz. Entocado em Du Weldenvarden, tanto fora como dentro de casa, protegido do resto do mundo... Sim, ele de fato gostava muito de Ellesméra, mais do que qualquer cidade dos anões. Apontou para uma moradia situada dentro de um pinheiro e perguntou para Arya:
— Como isso é feito?
— Cantamos para a floresta na velha língua e damos a nossa força para que ela cresça do tamanho que desejamos. Todos as nossas construções e ferramentas são feitas dessa maneira.
A trilha terminou numa rede de raízes que formavam degraus, como se fossem meras piscinas de terra. Subiram até uma porta encaixada no meio de uma parede de rebentos. O coração de Eragon acelerou quando a porta se abriu, aparentemente por iniciativa própria, e revelou um corredor de árvores. Centenas de galhos combinados para formar um teto de favos de mel. Abaixo, doze cadeiras estavam dispostas ao longo de cada parede. Nelas, estavam sentados quatro lordes e vinte damas elfas.
Eram todos sábios e belos, com rostos lisos, sem as marcas dos anos, com olhos penetrantes que cintilavam de excitação. Eles se inclinaram para a frente, agarrando os braços de suas cadeiras, e olharam para o grupo de Eragon com franca admiração e esperança. Ao contrário dos outros elfos, possuíam espadas embainhadas em suas cinturas — cabos enfeitados com berilos e granadas — e argolas enfeitando suas sobrancelhas.
Na cabeceira da assembleia havia um pavilhão branco que protegia um trono de raízes entrelaçadas. A rainha Islanzadí estava sentada nele. Ela era linda como um pôr-do-sol de outono, altiva e soberba, com duas sobrancelhas escuras inclinadas como se fossem asas erguidas, lábios tão brilhantes e vermelhos quanto bagas de azevinho, e um cabelo da meianoite preso sob um diadema de diamantes. Sua túnica era carmesim. Em volta dos seus quadris havia uma faixa de ouro trançado. E, preso a seu pescoço havia um manto aveludado que caía até o chão em dobras suaves.
Apesar de seu semblante imponente, a rainha parecia frágil, como se estivesse ocultando uma grande dor.
Na sua mão esquerda havia um bastão curvo com uma travessa incrustada. Um corvo de um branco cintilante estava nela empoleirado, arrastando os pés impacientemente. Ele levantou a cabeça e examinou Eragon valendo-se de uma inteligência misteriosa, para depois grasnar longamente em tom baixo e guinchar:
— Wyrda!
Eragon estremeceu devido à força daquela única palavra dita de um jeito crepitante.
A porta se fechou atrás dos seis enquanto adentravam o salão e se aproximavam da rainha. Arya se ajoelhou no chão coberto de musgos e se curvou primeiro, seguida por Eragon, Orik, Lifaen e Narí. Até mesmo Saphira, que nunca havia se curvado para ninguém, nem mesmo para Ajihad ou Hrothgar, baixou a cabeça.
Islanzadí se levantou e desceu do trono, com o manto se arrastando às suas costas. Ela parou em frente a Arya, colocou as mãos trêmulas sobre os seus ombros e disse num vibrato carregado:
— Levante-se.
Arya o fez, e a rainha examinou o seu rosto com uma intensidade cada vez maior, até que parecesse que ela estava tentando decifrar um texto obscuro.
Finalmente, Islanzadí deu um grito e abraçou Arya, dizendo:
— Oh, minha filha, eu fui injusta com você!

Um comentário:

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Boa leitura :)