22 de maio de 2017

Capítulo 26 - A bruxa e o menino-gato

A manhã já ia alta quando Eragon acordou. Ele vestiu-se, lavou o rosto na bacia e levantou o espelho para ajeitar os cabelos. Algo em seu reflexo o fez parar e olhar com mais atenção. Seu rosto havia se modificado desde que saíra de Carvahall pouco tempo atrás. As feições rechonchudas de menino haviam desaparecido agora, eliminadas pelas viagens, lutas e treinamentos. As maçãs do seu rosto estavam mais proeminentes, a linha do seu maxilar estava mais definida. Seus olhos ganharam um visual que, quando observou mais atentamente, deram ao rosto dele uma aparência selvagem, exótica. Segurou o espelho com o braço esticado, e seu rosto voltou a ter a aparência normal, mas ainda assim não parecia que era a dele.
Um pouco confuso, pôs o arco e a aljava nas costas e saiu do quarto. Antes de chegar ao final do corredor, o mordomo o alcançou.
— Senhor, Neal foi com o meu patrão para o castelo mais cedo. Ele disse que você pode fazer o que quiser hoje, pois só voltará à noite.
Eragon agradeceu-lhe o recado e, ansioso, começou a explorar Teirm. Durante horas vagou pelas ruas, entrando em todas as lojas que chamavam a sua atenção e conversou com várias pessoas. Finalmente foi forçado a voltar para a casa de Jeod por estar com a barriga e os bolsos vazios.
Quando chegou à rua onde o comerciante morava, parou perto da loja vizinha, da herbolária. Era um local incomum para uma loja. Todos os outros estabelecimentos comerciais ficavam próximos à muralha da cidade e não espremidos entre casas caras. Tentou olhar pelas janelas, mas estavam cobertas por dentro por uma grossa camada de plantas. Curioso, entrou.
Em um primeiro instante, não viu nada, pois a loja estava muito escura, mas seus olhos foram se acostumando à fraca luz esverdeada que entrava pelas janelas. Um pássaro colorido, que tinha uma cauda com penas compridas e largas e um bico forte e afiado, olhou curioso para Eragon de sua gaiola perto de uma janela. As paredes estavam cobertas por plantas, vinhas agarravam-se no teto, ocultando tudo, exceto um velho candelabro. E no chão havia um grande vaso com uma flor amarela.
Uma coleção de pilões, potes e bacias de metal, além de uma bola de cristal do tamanho da cabeça de Eragon, estavam em cima de um balcão comprido.
Ele foi andando até o balcão, desviando com cuidado de máquinas complexas, engradados com pedras, pilhas de pergaminhos e outros objetos que não reconhecia. A parede atrás do balcão estava repleta de gavetas de todos os tamanhos. Algumas não eram maiores do que seu dedo mindinho, enquanto outras eram grandes o bastante para comportar um barril. Havia um espaço de trinta centímetros nas prateleiras na parte de cima.
Um par de olhos vermelhos, de repente, apareceu no meio da escuridão e um gato grande e forte pulou em cima do balcão. Tinha um corpo delgado com ombros poderosos e patas bem maiores do que as dos gatos com o tamanho dele têm. Uma pequena juba felpuda cercava sua cara angular. As orelhas tinham pequenos tufos pretos nas pontas. Presas brancas curvavam-se sobre sua mandíbula. No geral, não se parecia com nenhum gato que Eragon já havia visto. O animal o examinou com olhos argutos, depois abanou sua cauda de modo desdenhoso.
Por impulso, Eragon forçou sua mente e tocou a consciência do gato. Gentilmente, examinou seus pensamentos, tentando fazê-lo entender que ele era amigo.
Você não precisa fazer isso.
Eragon olhou em volta, assustado. O gato ignorou-o e lambeu uma pata. Saphira? Onde você está?, perguntou. Ninguém respondeu. Intrigado, inclinou-se sobre o balcão e tentou pegar o que parecia ser uma vara de madeira.
Isso não seria inteligente.
Pare de brincar comigo, Saphira, disparou ele e pegou a vara. Um choque elétrico percorreu todo o seu corpo, e ele caiu no chão contorcendo-se. A dor foi passando lentamente, deixando-o ofegante. O gato pulou para o chão e olhou para ele.
Você não é muito inteligente para um Cavaleiro de Dragão. Eu avisei.
Foi você que falou! Exclamou Eragon. O gato bocejou, espreguiçou-se e andou lentamente pelo lugar, costurando seu caminho entre os objetos.
Quem mais poderia ter falado?
Mas você é apenas um gato! Objetou.
O gato estrilou e voltou correndo para Eragon. Pulou no peito do rapaz e curvou-se ali, olhando-o com olhos brilhantes. Eragon tentou levantar-se, mas o animal rosnou, mostrando suas presas.
Eu me pareço com os outros gatos?
Não...
Então, o que faz você pensar que eu seja um? Eragon começou a falar alguma coisa, mas a criatura apertou as garras no peito dele. Obviamente, sua educação não foi das melhores. Eu – corrigindo seu erro – sou um menino-gato. Não restam muitos de nós, mas acho que até um garoto do campo já devia ter ouvido falar de nós.
Eu não sabia que vocês existiam de verdade, disse Eragon fascinado. Um menino-gato! Ele, de fato, estava com sorte. Essas criaturas estavam sempre presentes em todas as histórias, apenas observando ou dando conselhos. Se as lendas fossem verdadeiras, os meninos-gato tinham poderes mágicos, viviam mais do que os humanos e, geralmente, sabiam mais do que falavam.
O menino-gato piscou preguiçosamente.
Saber independe de ser. Eu não sabia que você existia até que entrou aqui e estragou a minha soneca. Entretanto, isso não significa que você não existia antes de me acordar.
Eragon ficou perdido com a argumentação do animal.
Sinto muito se perturbei você.
Eu já ia levantar mesmo, disse ele, pulou de volta para cima do balcão e lambeu a pata. Se eu fosse você, não ficaria segurando essa vara por muito tempo. Ela vai lhe dar outro choque em alguns segundos.
Eragon pôs a vara rapidamente onde a havia encontrado.
O que é isso?
Um artefato comum e sem graça, ao contrário de mim.
Mas para que serve?
Você não descobriu? O menino-gato terminou de limpar sua pata, espreguiçou-se mais uma vez e com um pulo voltou para o lugar onde estava dormindo. Sentou-se, pôs as patas embaixo do peito e fechou os olhos, ronronando.
Espere, disse Eragon. Qual é o seu nome?
Um dos olhos oblíquos do menino-gato abriu-se.
Tenho muitos nomes. Se você quiser saber meu nome correto, terá de procurar em outro lugar. O olho se fechou. Eragon desistiu e virou-se para sair. Contudo, você pode me chamar de Solembum.
Obrigado, respondeu Eragon com um tom sério. O ronronar de Solembum ficou mais alto. A porta da loja abriu-se, deixando passar um feixe de luz do sol. Angela entrou com uma bolsa de pano cheia de plantas. Os olhos dela brilharam ao ver Solembum e ela ficou admirada.
— Solembum disse que você falou com ele.
— Você também pode falar com ele? — perguntou Eragon. Ela fez um meneio com a cabeça.
— É claro, mas isso não significa que ele vai responder. — Ela pôs a plantas no balcão, foi para trás dele e encarou o rapaz. — Ele gostou de você, isso não é muito comum. Na maioria das vezes, Solembum não se mostra aos clientes. De fato, ele diz que você tem um futuro promissor, depois de alguns anos de trabalho árduo.
— Obrigado.
— Vindo dele, isso é um elogio. Você é apenas a terceira pessoa que veio aqui e que conseguiu falar com ele. A primeira foi uma mulher, há muitos anos. A segunda foi um mendigo cego. E, agora, você. Mas não tenho uma loja só para ficar tagarelando. Você deseja alguma coisa? Ou só entrou para olhar?
— Só para olhar — respondeu Eragon, ainda pensando no menino-gato. — Além disso, não preciso de nenhuma erva.
— Eu não faço só isso — disse Angela sorrindo. — Os senhores ricos e tolos me pagam para fazer poções de amor e coisas assim. Nunca digo que funcionarão, contudo, por algum motivo, eles sempre voltam. Mas não acho que você precise dessas bobagens. Gostaria que eu lesse a sua sorte? Posso fazer isso também, para as damas ricas e tolas.
Eragon riu.
— Não, temo que o meu futuro seja muito difícil de ler. E não tenho dinheiro.
Angela olhou para Solembum de modo curioso.
— Eu acho... — Ela apontou para a bola de cristal que estava em cima do balcão. — É só para fazer vista, não serve para nada. Mas eu tenho... Espere aqui. Voltarei já. — Ela foi correndo até um cômodo nos fundos da loja. Voltou, ofegante, segurando uma bolsa de couro, que pôs no balcão. — Não uso isto há muito tempo, quase esqueci onde estava. Bem, sente em frente a mim e mostrarei por que tive todo esse trabalho.
Eragon pegou um banquinho e sentou. Os olhos de Solembum brilhavam por entre as frestas nas gavetas.
Angela esticou um pano grosso no balcão e jogou um punhado de ossos lisos, que eram um pouco mais longos do que um dedo. Havia runas e outros símbolos entalhados em suas laterais.
— Estes — disse ela, tocando-os gentilmente — são ossos dos dedos de um dragão. Não pergunte onde os consegui, é um segredo que não revelarei. Mas ao contrário das folhas de chá, das bolas de cristal ou até das cartas de adivinhação, estes ossos têm poder de verdade. Não mentem, mas entender o que eles dizem é... complicado. Se quiser, posso jogá-los e lê-los para você. Mas saiba que conhecer o próprio destino pode ser uma coisa terrível. Você deve estar seguro quanto à sua decisão.
Eragon olhou para os ossos sentindo medo. Ali estão partes dos restos de um semelhante de Saphira. Conhecer o próprio destino... Como posso tomar essa decisão se não sei o que me aguarda e se eu gostarei disso ou não? A ignorância, de fato, é uma bênção.
— Por que está me oferecendo isso? — perguntou ele.
— Por causa de Solembum. Ele pode ter sido rude, mas o fato de ele ter falado com você o torna especial. Afinal, ele é um menino-gato. Ofereci fazer essa mesma coisa para as outras duas pessoas que falaram com ele. Só a mulher concordou. Ela se chamava Selena. Ah, e ela lamentou também. O futuro dela era sombrio e doloroso. Acho que ela não acreditou, pelo menos no começo.
A emoção tomou conta de Eragon, seus olhos ficaram marejados.
— Selena — disse baixinho. Era o nome de sua mãe. Será que teria sido ela? O destino dela era tão horrível a ponto de me abandonar? — A senhora se lembra de algo sobre o futuro dela? — perguntou, sentindo-se enjoado.
Angela balançou a cabeça e suspirou.
— Faz muito tempo, e os detalhes já se fundiram com o resto da minha memória, que não costuma ser tão boa quanto antes. Além disso, não contarei a você o que lembro. O que contei foi para ela somente. Mas foi triste. Nunca esquecerei o olhar no rosto dela.
Eragon fechou os olhos e lutou para recuperar o controle de suas emoções.
— Por que a senhora reclama da sua memória? — perguntou para se distrair. — Não é tão velha assim.
Covinhas apareceram nas bochechas de Angela.
— Fiquei lisonjeada, mas não se iluda, sou muito mais velha do que pareço. A aparência jovem deve ser fruto de ingerir as minhas ervas quando os negócios não vão muito bem.
Sorrindo, Eragon respirou fundo. Se aquela moça era a minha mãe, e se ela conseguiu suportar saber o que o futuro lhe reservava, eu também conseguirei.
— Jogue os ossos para mim — pediu em um tom solene.
A expressão no rosto de Angela ficou bem séria quando agarrou os ossos com as mãos. Fechou os olhos e seus lábios se mexeram em um murmúrio inaudível. Depois, disse bem alto: “Manin! Wyrda! Hugin!”, e jogou os ossos no pano. Caíram amontoados, brilhando na luz fraca.
As palavras retumbaram nos ouvidos de Eragon; reconheceu-as da língua antiga e percebeu preocupado que, para poder usá-las para fazer magia, Angela devia ser uma bruxa. Ela não mentiu, estava prevendo o futuro de verdade. Os minutos passavam lentamente enquanto ela estudava os ossos.
Finalmente Angela jogou-se para trás e soltou um longo suspiro. Ela esfregou a sobrancelha e pegou um odre de vinho embaixo do balcão.
— Quer um pouco? — perguntou Angela. Eragon balançou a cabeça. Ela encolheu os ombros e tomou um grande gole. — Esta — disse ela, limpando a boca — foi a leitura mais difícil que já fiz. Você estava certo. Seu futuro é quase impossível de se ver. Nunca vi o futuro de alguém tão conturbado e nebuloso. Mas eu, contudo, consegui arrancar algumas respostas.
Solembum pulou para cima do balcão e ficou lá, olhando ambos. Eragon fechou suas mãos com força quando Angela apontou para um dos ossos.
— Vou começar aqui — disse lentamente —, pois é o mais fácil de se entender.
O símbolo no osso era uma longa linha horizontal com um círculo em cima.
— Infinito ou longa vida — interpretou Angela baixinho. — É a primeira vez que vejo isso aparecer no futuro de alguém. A maioria das vezes vejo um choupo ou um olmo, os dois são sinais de que a pessoa viverá um número normal de anos. Agora se isso significa que você viverá eternamente ou se terá urna vida extraordinariamente longa, eu não sei. Não importa o que isso diga, tenha certeza de que muitos anos o esperam pela frente.
Isso não é surpresa nenhuma, sou um Cavaleiro, pensou Eragon. Será que Angela só ia dizer a ele coisas que já sabia?
— Agora os ossos estão mais difíceis de se ler, pois o resto forma um monte confuso. — Angela tocou em três deles. — Estes são o caminho errante, o raio e o navio e todos estão juntos. É um padrão que nunca vi antes, só ouvi falar dele. O caminho errante mostra que há muitas escolhas no seu futuro, algumas com as quais você lida neste momento. Vejo grandes batalhas acontecendo ao seu redor, algumas sendo travadas para seu próprio bem. Vejo grandes poderes desta terra lutando para controlar a sua vontade e o seu destino. Inúmeras possibilidades o esperam em seu futuro, todas elas repletas de sangue e conflito, mas apenas uma delas lhe dará felicidade e paz. Cuidado ao escolher seu caminho, pois você é um dos poucos que são verdadeiramente livres para escolher o próprio destino. Essa liberdade é um dom, mas também é uma responsabilidade que prende mais do que grilhões e correntes.
Depois, o rosto dela ficou triste.
— Entretanto, para se contrapor a isso, aqui está o raio. É um presságio terrível. Um destino cruel paira sobre você, mas não sei de que espécie. Parte dele está sobre uma morte que se aproxima rapidamente e que causará muita dor. Mas o resto espera por você em uma grande jornada. Olhe atentamente para este osso. Veja como a ponta dele está em cima de um navio. É impossível interpretar isso errado. O seu destino será deixar esta terra para sempre. Não sei aonde você irá parar, mas nunca mais porá os pés em Alagaësia. Isso é inevitável. Acontecerá, mesmo que você tente evitar.
As palavras dela assustaram Eragon. Outra morte... Quem perderei agora? Seus pensamentos dirigiram-se imediatamente para Roran. Depois, pensou em sua terra natal. O que poderia me fazer partir? E aonde eu iria? Se há terras além do mar ou ao leste, só os elfos as conhecem.
Angela esfregou as têmporas e respirou profundamente.
— O próximo osso é fácil de ler e, talvez, um pouco mais prazeroso.
Eragon examinou-o e viu uma rosa entalhada entre as pontas de uma lua crescente.
Angela sorriu e disse:
— Há um romance épico no seu futuro, extraordinário, como a lua indica, pois esse é um símbolo mágico, e é forte o bastante para durar mais do que impérios. Não posso dizer se essa paixão acabará de modo feliz, mas o seu amor nasceu em berço nobre e tem tradição. Ela é poderosa, sábia e tem uma beleza sem igual.
De berço nobre, pensou Eragon surpreso. Como isso poderia acontecer? Não tenho mais bens do que o mais pobre dos fazendeiros.
— Agora, os dois últimos ossos, a árvore e a raiz de espinheiro, que se cruzam fortemente. Queria que não fosse assim, pois só pode significar mais problemas, mas a traição está bem clara. E ela virá de dentro da sua família.
— Roran não faria isso! — protestou Eragon de repente.
— Eu não sei — disse Angela com cuidado. — Mas os ossos nunca mentiram, e é isso o que eles dizem.
A dúvida assolou a mente de Eragon, mas tentou ignorá-la. Que razão poderia existir para que Roran o traísse? Angela quis confortá-lo ao pôr a mão em seu ombro e ofereceu o vinho novamente. Dessa vez, Eragon aceitou a bebida, o que o fez se sentir melhor.
— Depois disso tudo, a morte pode ser até bem-vinda — brincou ele nervosamente. Traição de Roran? Isso não pode acontecer! Não vai acontecer!
— Talvez — disse Angela solene e depois riu levemente. — Mas você não deve se atormentar com o que ainda está para acontecer. O único modo como o futuro pode nos prejudicar é causando preocupações. Garanto que você se sentirá melhor assim que estiver ao sol.
— Talvez. — Infelizmente, refletiu ele preocupado, nada que ela disse fará sentido até que tenha acontecido. Se acontecer mesmo, corrigiu. — Você usou palavras de poder — comentou baixinho.
Os olhos de Angela faiscaram.
— O que eu não daria para ver o resto da sua vida. Você pode falar com meninos-gato, conhece a língua antiga e tem um futuro muito interessante. Além disso, poucos jovens de bolsos vazios e roupas surradas podem esperar serem amados por uma mulher de origem nobre. Quem é você?
Eragon percebeu que o menino-gato não disse a Angela que ele era um Cavaleiro. Ele quase disse “Evan”, mas mudou de ideia e falou simplesmente:
— Eu sou Eragon.
Angela arqueou as sobrancelhas.
— É quem você é ou é o seu nome? — perguntou.
— As duas coisas — disse Eragon, com um pequeno sorriso no rosto, pensando na origem do seu nome, o primeiro Cavaleiro.
— Agora, fiquei mais interessada ainda para saber como será a sua vida. Quem era o homem maltrapilho que estava com você ontem? — Eragon decidiu que mais um nome não faria mal.
— O nome dele é Brom.
De repente, Angela soltou uma gargalhada, fazendo-a se contorcer de alegria. Ela enxugou os olhos e tomou um grande gole de vinho e lutou para conter outro ataque de alegria. Finalmente, tentando recuperar o fôlego, ela forçou-se a dizer:
— Oh... Aquele homem! Eu nem imaginava!
— O que foi? — perguntou Eragon.
— Não, não fique chateado — disse Angela escondendo um sorriso. — É só que... bem, ele é muito conhecido pelas pessoas da minha profissão. Temo que o destino do pobre homem, ou futuro se preferir, é uma piada para nós.
— Não o insulte! É um homem muito bom, é difícil achar alguém como ele! — disparou Eragon.
— Paz, paz — censurou Angela, divertindo-se. — Eu sei disso. Se nos encontrarmos de novo em um momento apropriado, falarei tudo a você sobre isso. Mas por enquanto, você devia... — Ela parou de falar quando Solembum andou entre eles. O menino-gato olhou para Eragon sem piscar.
— O que foi? — Indagou Eragon irritado.
Ouça com atenção, pois lhe direi duas coisas: quando chegar a hora e você precisar de uma arma, olhe embaixo das raízes da árvore Menoa. Depois, quando tudo parecer perdido e o seu poder não for suficiente, vá até a pedra de Kuthian e diga o seu nome para abrir o Cofre das Almas.
Antes que Eragon pudesse perguntar o que Solembum queria dizer com aquilo, o menino-gato afastou-se, abanando a cauda de modo muito gracioso. Angela inclinou a cabeça, cachos de cabelo espesso encobriam sua testa.
— Não sei o que ele disse e não quero saber. Ele falou com você, somente para você. Não conte isso a mais ninguém.
— Acho que preciso ir — disse Eragon, abalado.
— Se você deseja... — disse Angela sorrindo de novo. — Você é bem vindo para ficar quanto tempo quiser, especialmente se comprar alguma das minhas mercadorias. Mas vá, se é o que deseja. Sei que demos o bastante para você meditar durante algum tempo.
— Deram, sim. — Eragon saiu rapidamente pela porta. — Obrigado por ter lido o meu futuro. Eu acho.
— Não há de quê — respondeu Angela, ainda sorrindo.
Eragon saiu da loja e parou na rua, apertando os olhos enquanto se ajustavam à claridade.
Passaram-se alguns minutos até que pudesse pensar com calma sobre o que havia descoberto. Começou a andar, seus passos foram ficando mais rápidos, inconscientemente, até ter saído de Teirm, seus pés voavam enquanto rumava para o lugar onde Saphira se escondera.
Eragon chamou-a do pé do penhasco. Um minuto depois, ela desceu voando bem rápido, o pegou e o levou para o topo. Quando os dois estavam em segurança no solo, contou sobre o dia que teve. Então, concluiu:
Acho que Brom está certo, parece que sempre estou perto de onde há problemas.
Não esqueça o que o menino-gato lhe disse. É importante.
Como sabe disso?, perguntou curioso.
Não sei, mas os nomes que ele usou parecem ser poderosos. Kuthian, disse ela, enrolando a palavra. Não devemos esquecer o que ele disse.
Você acha que devo contar ao Brom?
A escolha é sua, mas pense nisso: ele não tem o direito de conhecer o seu futuro. Falar a ele sobre Solembum e suas palavras só levantará perguntas que você talvez não queira responder. E se você decidir perguntar a ele o que essas palavras significam, ele vai querer saber onde você as ouviu. Acha que pode mentir de modo convincente a ele?
Não, admitiu Eragon. Talvez eu não diga nada. Ainda assim, isso pode ser importante demais para manter escondido.
Conversaram até esgotarem o assunto. Depois, sentaram juntos, amigavelmente, olhando as árvores até quase anoitecer.
Eragon voltou correndo para Teirm e logo estava batendo na porta de Jeod.
— Neal já voltou? — perguntou ao mordomo.
— Já, senhor. Creio que esteja na sala de leitura agora.
— Obrigado — disse Eragon. Ele foi com passos largos até aquele cômodo e espiou. Brom estava sentado na frente da lareira, fumando. — Como foram as coisas? — perguntou Eragon.
— Muito ruins! — reclamou Brom, segurando seu cachimbo.
— Então, falou com Brand?
— E não adiantou nada. Esse gerente de comércio é do pior tipo de burocrata. Obedece a todas as regras, adora fazer as suas próprias se puder causar inconveniência a alguém e, ao mesmo tempo, acredita que está fazendo o certo.
— Então, ele não nos deixará ver os registros? — indagou Eragon.
— Não — disparou Brom, furioso. — Nada que eu dissesse poderia convencê-lo. Recusou até um suborno! Um bem gordo! Não pensei que conheceria um nobre que não fosse corrupto. Agora que conheci, acho que gostava mais quando os via como patifes gananciosos. — Ele tragava seu cachimbo furiosamente e balbuciava uma série de pragas.
Quando ele parecia estar mais calmo, Eragon perguntou hesitante:
— E agora?
— Na semana que vem, vou ensinar você a ler.
— E depois disso?
Um sorriso dividiu o rosto de Brom.
— Depois disso, nós vamos dar a Brand uma surpresa desagradável.
Eragon perturbou-o, querendo mais detalhes, mas Brom se recusou a continuar o assunto. O jantar foi servido em uma sala suntuosa. Jeod sentou em uma ponta da mesa e Helen, de cara fechada, na outra. Brom e Eragon estavam entre eles, onde Eragon achava ser um lugar perigoso para se ficar.
Havia cadeiras vazias a seu lado, mas ele não se importava com o espaço. Isso ajudava a protegê-lo dos olhares de sua anfitriã.
A comida foi servida em silêncio, e Jeod e Helen começaram a comer sem pronunciar uma palavra.
Eragon acompanhou-os, pensando: Já vi refeições mais animadas em funerais.
E já tinha visto mesmo, em Carvahall. Lembrou vários enterros que foram tristes, sim, mas não tão excessivamente. Isso era diferente, ele podia sentir o ressentimento ardendo dentro de Helen durante todo o jantar.

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