8 de maio de 2017

Capítulo 25

Aves grandes são más
Correm com pernas farpadas
Eu morro, e dói

CONCERTOS EM ESTÁDIO NÃO eram novidade para mim.
Na Antiguidade, fiz vários shows com ingressos esgotados no anfiteatro de Éfeso. Jovens enlouquecidas jogavam suas strophiae para mim. Rapazes desmaiavam aos montes. Em 1965, cantei com os Beatles no Shea Stadium, apesar de Paul ter se recusado a aumentar o volume do meu microfone. Mal dá para ouvir minha voz em “Everybody’s Tryin’ to Be My Baby”.
No entanto, nenhuma das minhas experiências anteriores havia me preparado para a arena do imperador. Holofotes me cegaram quando saímos do corredor. A multidão gritou.
Conforme minha visão foi voltando ao normal, notei que estávamos na linha de cinquenta metros de um estádio de futebol americano. O campo estava configurado de um jeito estranho. Ao redor da circunferência central havia uma pista de corrida com três raias. Na grama havia doze postes de ferro aos quais estavam presas as correntes de vários animais. Em um, seis avestruzes de combate andavam em círculos como animais em um carrossel assassino. Em outro, três leões rugiam para os holofotes. Em um terceiro, uma elefanta com expressão triste se balançava de um lado para o outro, sem dúvida infeliz por ter sido paramentada com uma cota de malha farpada e um capacete de futebol americano enorme do Indianapolis Colts.
Com relutância, ergui o olhar para as arquibancadas. No mar de assentos azuis, a única seção ocupada era a última à esquerda, mas a plateia estava extremamente entusiasmada. Germânicos batiam com as lanças nos escudos. Os semideuses do Lar Imperial de Cômodo berravam insultos (que não vou repetir) sobre minha pessoa divina. Cinocéfalos, a tribo de homens com cabeça de cachorro, uivavam e rasgavam as camisas do time da cidade. Blemmyae batiam palmas educadamente, perplexos com o comportamento grosseiro dos outros. E, como era de se esperar, uma seção inteira da arquibancada estava ocupada por centauros selvagens. Sinceramente, não dava para fazer um evento esportivo ou um banho de sangue em lugar algum sem que eles comparecessem. Eles sopravam vuvuzelas, tocavam buzinas e empurravam uns aos outros, derramando cerveja e emporcalhando tudo.
No centro da multidão brilhava o camarote do imperador, decorado com faixas roxas e douradas que faziam um contraste horrível com a decoração azul e prateada do Colts. De cada lado do trono, vi uma mistura estranha de germânicos e mercenários homicidas com fuzis. Eu não entendia como os mercenários conseguiam ver qualquer coisa em meio à Névoa, mas eles deviam ter sido especialmente treinados para trabalhar em ambientes mágicos. Estavam imóveis e alertas, os dedos apoiados no gatilho, à espera de uma única ordem de Cômodo para nos exterminar, e não haveria nada que pudéssemos fazer para impedi-los..
O imperador se levantou. Usava uma túnica branca e roxa e uma coroa de louros dourada, mas debaixo da toga tive o vislumbre de uma roupa de corrida marrom e dourada. Com a barba desgrenhada, Cômodo parecia mais um chefe gaulês do que um romano, embora nenhum gaulês tivesse dentes brancos tão perfeitos.
— Finalmente! — A voz forte explodiu pelo estádio, amplificada pelos alto-falantes gigantescos pendurados acima do campo. — Bem-vindo, Apolo!
A plateia gritou e aplaudiu. Acima das arquibancadas, telões exibiram fogos de artifício digitais e piscaram com as palavras BEM-VINDO, APOLO! Das vigas do telhado de aço, sacos de confete explodiram, gerando uma tempestade de roxo e dourado que inundou o estádio.
Ah, que ironia! Aquele era exatamente o tipo de recepção que eu desejaria. No entanto, eu só queria voltar para o corredor e desaparecer. Mas, é claro, a entrada por onde viemos já não existia mais, fora substituída por uma parede de concreto.
Eu me agachei da forma mais discreta possível e apertei a pequena cavidade no grilhão de ferro. Nenhuma asa pulou para fora, então concluí que tinha encontrado o botão certo para ativar o sinal de emergência. Com sorte, alertaria Jo e Emmie do nosso infortúnio e da nossa localização, embora eu ainda não tivesse certeza do que elas poderiam fazer para nos ajudar. Pelo menos elas saberiam onde recolher os corpos depois.
Meg parecia estar se recolhendo para dentro de si mesma, fechando as janelas mentais contra todo aquele barulho e atenção. Por um momento breve e terrível, eu me perguntei se ela havia me traído novamente e me levado direto para as garras do Triunvirato.
Não. Eu me recusava a acreditar naquela hipótese. Mas... por que ela insistiu em ir naquela direção?
Cômodo esperou que a gritaria cessasse. Os avestruzes de combate puxaram as correntes. Leões rugiram. A elefanta balançou a cabeça, como se tentasse tirar o capacete ridículo.
— Meg — falei, tentando controlar o pânico. — Por que você... Por que estamos...?
A expressão dela estava tão intrigada quanto a dos semideuses do Acampamento Meio-Sangue que haviam sido atraídos para o Bosque de Dodona pelas vozes misteriosas.
— Alguma coisa — murmurou ela. — Tem alguma coisa aqui.
Era um eufemismo horrível. Havia muitas coisas ali. A maioria queria nos matar. Os telões exibiram mais fogos, junto com mensagens irrelevantes como DEFESA! e FAÇAM BARULHO! e propagandas de bebidas energéticas. Parecia que meus olhos estavam sangrando.
Cômodo sorriu para mim.
— Eu tive que dar uma apressada nas coisas, velho amigo! Isto é só o ensaio, mas, como você está aqui, corri para preparar algumas surpresas. Vamos repetir o show todo amanhã com o estádio lotado, depois que eu derrubar a Estação Intermediária. Tente ficar vivo hoje, mas fique à vontade para sofrer o quanto quiser. E, Meg... — O tsc-tsc-tsc dele ecoou pela arena. — Seu padrasto está muito decepcionado com você. Você vai descobrir o quanto já, já.
Meg apontou uma das espadas para o camarote do imperador. Pensei que ela fosse fazer algum comentário intimidante, como Você é burro, mas a espada pareceu ser a mensagem completa. Isso me levou de volta a uma lembrança perturbadora de Cômodo no Coliseu, jogando cabeças cortadas de avestruz nos assentos dos senadores e apontando: Vocês são os próximos. Mas Meg não tinha conhecimento disso... tinha?
O sorriso de Cômodo hesitou. Ele pegou uma folha de papel.
— Vamos ao show! Primeiro, os cidadãos de Indianápolis serão escoltados sob a mira de armas e tomarão seus lugares. Vou dizer algumas palavras, agradecer por terem vindo e explicar que a cidade deles agora se chama Comodianápolis.
A multidão gritou e bateu os pés. Uma única buzina soou.
— É, é. — Cômodo conteve o entusiasmo da plateia. — Em seguida, um exército de blemmyae irá para a cidade com garrafas de champanhe, que serão devidamente usadas para batizar todos os prédios. Teremos faixas e mais faixas em minha homenagem em todas as ruas da cidade. Qualquer corpo que retirarmos da Estação Intermediária vai ser pendurado nas vigas lá em cima — ele apontou para o teto —, e a diversão vai começar!
Ele jogou as anotações no ar.
— Não dá nem para explicar como estou empolgado com tudo isso, Apolo! Você entende, não entende, que tudo foi predestinado? O espírito de Trofônio foi bem específico.
Minha garganta fez o barulho de uma vuvuzela.
— Você consultou o Oráculo das Sombras?
Eu não sabia se minhas palavras chegariam tão longe, mas o imperador riu.
— Ah, claro, querido! Não pessoalmente, é óbvio. Tenho subordinados para fazer esse tipo de coisa. Mas Trofônio foi bem claro: só quando eu destruir a Estação Intermediária e sacrificar sua vida nos jogos, poderei rebatizar esta cidade e governar o Meio-Oeste para sempre como deus-imperador!
Holofotes gêmeos se fixaram em Cômodo. Ele arrancou a toga e revelou o traje de corrida de pelo do Leão de Nemeia, a parte da frente e as mangas decoradas com emblemas de vários patrocinadores.
A multidão fez “oh” e “ah” enquanto o imperador girava, exibindo a roupa.
— Gostou? — perguntou ele. — Fiz muitas pesquisas sobre minha nova cidade! Meus dois colegas imperadores acham este lugar chato. Mas vou provar que estão errados! Vou organizar o melhor Campeonato Indy-Colt-500-AA de Gladiadores do mundo!
Não gostei muito do nome, mas a multidão foi à loucura.
Tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo. Música country soava nos alto-falantes: possivelmente Blake Shelton, embora, com a distorção e o eco, nem meus ouvidos apurados soubessem com certeza. No outro lado da pista, uma parede se abriu. Três carros de corrida de Fórmula 1, vermelho, amarelo e azul, rugiram no asfalto.
Por todo o campo, as coleiras dos animais se soltaram das correntes. Nas arquibancadas, centauros selvagens jogavam frutas e tocavam suas vuvuzelas. De algum lugar atrás do camarote do imperador, canhões dispararam, arremessando doze gladiadores em direção ao campo. Alguns caíram rolando graciosamente e se levantaram, prontos para lutar. Outros se espatifaram na grama como bolinhas de cuspe armadas e não se mexeram mais.
Os carros de corrida zuniram pela pista, e Meg e eu tivemos que correr até o campo para não sermos atropelados. Gladiadores e animais começaram a se engalfinhar em uma luta livre em que garras e destruição estavam liberadas, tudo ao som contagiante da música country. E então, do nada, um saco enorme se abriu logo abaixo do maior dos telões, jogando centenas de bolas de basquete na linha dos cinquenta metros.
Até para os padrões de Cômodo, o espetáculo era completamente tosco e exagerado, mas eu duvidava que fosse viver tempo suficiente para escrever uma crítica ruim. A adrenalina disparou pelo meu organismo como uma corrente de 220 volts. Meg gritou e partiu para cima do avestruz mais próximo. Como eu não tinha nada melhor para fazer, fui atrás dela, com o Trono de Mnemosine e quinze quilos de bugigangas sacudindo nas costas.
Os seis avestruzes foram com tudo para cima da gente. Isso pode não parecer tão apavorante quanto a Serpente Cartaginense ou um colosso de bronze de moi, mas avestruzes podem correr a quase setenta quilômetros por hora. Os dentes de metal batiam, os elmos de pontas afiadas balançavam de um lado para o outro, as pernas envoltas em arame farpado pisoteavam a grama, uma floresta cor-de-rosa de árvores de Natal horrendas e assassinas.
Prendi uma flecha no arco, mas, mesmo se me saísse tão bem quanto Cômodo, era bem improvável que conseguisse decapitar as seis aves antes de elas nos matarem. Não sabia nem se Meg, com suas espadas formidáveis, seria capaz de derrotá-las.
Compus em silêncio um novo haicai de morte: Aves grandes são más/Correm com pernas farpadas/Eu morro, e dói.
Em minha defesa, não tive muito tempo para revisar.
A única coisa que nos salvou? Bolas de basquete ex machina. Outro saco deve ter sido aberto acima de nós, ou talvez uma pequena quantidade de bolas tivesse ficado presa na rede. Vinte ou trinta choveram ao nosso redor, obrigando os avestruzes a desviar e fugir. Uma ave menos afortunada pisou em uma bola e saiu voando, caindo de bico na grama. Duas de suas irmãs tropeçaram nela, criando uma pilha perigosa de penas, pernas e arame farpado.
— Vem! — Meg gritou para mim.
Em vez de lutar com as aves, ela segurou uma pelo pescoço e pulou nas costas dela, tudo isso, acredite se quiser, sem morrer. Ela saiu correndo, brandindo a espada para monstros e gladiadores.
Um pouco impressionante, verdade, mas como eu iria segui-la? Além do mais, Meg acabou arruinando meu plano de me esconder atrás dela. Que falta de consideração!
Disparei a flecha na ameaça mais próxima: um ciclope vindo em minha direção empunhando sua clava. Não fazia ideia de onde aquela criatura tinha saído, mas o mandei de volta para o Tártaro, onde era o lugar dele.
Desviei de um cavalo cuspidor de fogo, chutei uma bola de basquete na barriga de um gladiador e me esquivei de um leão atacando um avestruz com aparência deliciosa. (Fiz tudo isso, a propósito, com uma cadeira presa nas costas.)
Montada na ave mortal, Meg seguiu para o camarote do imperador, destruindo tudo que surgisse no caminho. Eu sabia qual era o plano dela: matar Cômodo. Tentei fazer o mesmo, mas minha cabeça latejava por causa da música country alta, dos gritos da multidão e do ruído dos motores de Fórmula 1 rasgando a pista.
Um grupo de guerreiros com cabeça de cachorro correu na minha direção — eram muitos e estavam perto demais para que eu acertasse com meu arco. Arranquei a bandoleira de seringas médicas e espirrei amônia nas caras caninas. Eles gritaram, enfiaram as garras nos olhos e se desfizeram em poeira. Como qualquer zelador do Monte Olimpo pode confirmar, amônia é excelente para tirar manchas e aniquilar monstros.
Segui na direção da única ilha de calma no campo: a elefanta.
Ela não parecia interessada em atacar ninguém. Levando em conta seu tamanho e as defesas formidáveis fornecidas pela cota de malha, nenhum dos outros combatentes parecia querer se aproximar dela. Ou talvez, ao ver o capacete do Colts, eles decidiram que era melhor não se meter com o time da cidade.
Alguma coisa nela era tão triste, tão melancólica, que me senti atraído por aquela alma que se assemelhava tanto à minha.
Peguei meu ukulele de combate e dedilhei uma música que tinha tudo a ver com o momento: “Elephant Gun”, do Beirut. A introdução instrumental era atormentada e triste, perfeita para um solo de ukulele.
— Grande elefanta — falei ao me aproximar. — Posso montar em você?
Os olhos castanhos piscaram para mim. Ela arquejou como quem diz Tanto faz, Apolo. Botaram esse capacete idiota em mim. Não ligo para mais nada.
Um gladiador com um tridente interrompeu rudemente minha música. Eu bati na cara dele com o ukulele de combate. Em seguida, escalei a perna dianteira da elefanta e subi nas costas dela. Eu não treinava essa técnica desde que o deus da tempestade Indra me fez sair de madrugada em busca de vindalho, mas acho que montar em um elefante é uma daquelas habilidades que a gente nunca esquece.
Vi Meg na linha de vinte metros, deixando gladiadores gemendo e pilhas de cinzas de monstros para trás conforme seguia no avestruz em direção ao imperador.
Cômodo bateu palmas, extasiado.
— Muito bem, Meg! Eu adoraria lutar com você, mas AGUENTA AÍ!
A música parou abruptamente. Gladiadores ficaram paralisados no meio do combate. Os carros de corrida frearam até parar. Até o avestruz de Meg ficou imóvel e olhou ao redor, se perguntando por que tudo estava tão silencioso de repente.
Pelos alto-falantes, tambores soaram.
— Meg McCaffrey! — gritou Cômodo, com sua melhor voz de apresentador de programa de auditório. — Temos uma surpresa especial para você... Direto de Nova York, uma pessoa que você conhece bem! Será que você conseguirá salvá-lo antes que ele exploda em chamas?
Holofotes se cruzaram no ar. Aquele sentimento antigo pós-vindalho voltou, queimando meus intestinos. Agora eu entendia o que Meg tinha sentido antes, aquele vago alguma coisa que a atraíra ao estádio. Suspenso nas traves por uma longa corrente, rosnando e se contorcendo em um casulo de cordas, estava a surpresa especial do imperador: o companheiro de confiança de Meg, o karpos Pêssego.

6 comentários:

  1. Essa menina não vai aguentar cinco livros de tortura psicológica

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  2. Eu não treinava essa técnica desde que o deus da tempestade Indra me fez sair de madrugada em busca de vindalho,


    Indra e Ashura

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    1. mas uma mitoligia, ainda to intrigado quando apolo falo do dragão celestial chines.tio rick ja ta fazendo muitas referencias

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    2. Sem esquecer da referência do deus do sol asteca do 1 livro

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  3. Seu pilantra! Tadinha da Meg!

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  4. Indra é hindu se não me engano,Rick e o seu multiverso com a coexistência de uma varada de divindades

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Boa leitura :)