22 de maio de 2017

Capítulo 25 - Um velho amigo

A loja da herbolária tinha um letreiro alegre e foi fácil de encontrar. Uma mulher baixa, de cabelos encaracolados, estava sentada perto da porta. Segurava uma rã com uma das mãos e escrevia com a outra. Eragon presumiu que fosse Angela, a herbolária.
Havia uma casa em cada lado da loja.
— Qual você acha que é a dele? — perguntou Eragon.
Brom pensou e, depois, disse:
— Vamos descobrir.
Ele aproximou-se da mulher e perguntou educadamente:
— A senhora poderia nos informar qual é a casa de Jeod?
— Poderia. — Ela continuou a escrever.
— E vai nos dizer?
— Sim. — Ela ficou em silêncio, mas sua caneta escrevia mais rápido do que nunca. A rã, que estava na mão dela, coaxou e olhou para eles com olhos perversos. Brom e Eragon esperaram de maneira desconfortável, mas ela não falou mais nada. Eragon estava prestes a falar qualquer coisa quando Angela olhou para cima. — É claro que posso falar! Tudo o que vocês têm a fazer é pedir. Sua primeira pergunta foi se eu poderia falar e a segunda, se eu diria. Mas, de fato, não me fizeram a pergunta que realmente queriam.
— Então, deixe-me perguntar apropriadamente — disse Brom sorrindo. — Qual é a casa de Jeod? E por que a senhora está segurando uma rã?
— Agora estamos fazendo progresso — disse com bom humor. — Jeod mora na casa à direita e quanto à rã, na verdade, é um sapo. Estou tentando provar que sapos não existem, só rãs.
— Como não existem sapos se a senhora está com um deles na mão agora? — interrompeu Eragon. — Além disso, que bem isso irá fazer, provar que só existem rãs?
A mulher balançou a cabeça vigorosamente, seus cachos escuros pularam.
— Não, não, você não entendeu. Se eu provar que sapos não existem, então este sapo sempre foi uma rã. Portanto, o sapo que você está vendo agora não existe. E — ela ergueu um dedinho —, se eu puder provar que só existem rãs, os sapos não poderão fazer nada de mau, como fazer os dentes cair, provocar verrugas, envenenar ou matar pessoas. Além disso, as bruxas não poderão fazer mais seus feitiços para o mal, pois, é claro, não haverá nenhum sapo por perto.
— Entendi — respondeu Brom delicadamente. — Parece interessante, e gostaria de ouvir mais sobre isso, mas tenho de falar com Jeod.
— Claro — disse ela, fazendo um gesto com a mão e voltando a escrever.
Assim que eles estavam fora do alcance dos ouvidos da herbolária, Eragon disse:
— Ela é biruta!
— É possível — disse Brom. — Mas nunca se sabe. Ela pode descobrir algo útil, então não a critique. Quem sabe se os sapos não são rãs na verdade?
— E os meus sapatos são feitos de ouro — retrucou Eragon.
Eles pararam perante uma porta que tinha um batedor de ferro fundido e uma soleira de mármore. Brom bateu três vezes. Ninguém respondeu. Eragon sentiu-se levemente como um tolo.
— Talvez seja a casa errada. Vamos tentar a outra — sugeriu ele.
Brom ignorou-o e bateu novamente, desta vez com mais força.
Novamente, ninguém respondeu. Eragon virou-se irritado, mas ouviu alguém correndo até a porta. Uma jovem mulher, de pele bem clara e cabelos louros, a abriu. Os olhos dela estavam inchados, parecia que estava chorando, mas sua voz estava perfeitamente firme.
— Pois não, o que vocês desejam?
— Jeod mora aqui? — perguntou Brom educadamente.
A mulher deixou a cabeça cair um pouco.
— Sim, mora. É o meu marido. Ele está esperando vocês? — Ela não abriu mais a porta do que já estava aberta.
— Não, mas precisamos falar com ele — disse Brom.
— Ele está muito ocupado.
— Nós viemos de muito longe. É muito importante falar com ele.
A expressão no rosto dela fechou-se.
— Ele está ocupado.
Brom ficou irritado, mas a voz dele continuou em seu tom educado.
— Já que não está disponível, será que poderia dar um recado a ele? — A boca da mulher contorceu-se, mas ela consentiu. — Diga que um amigo de Gil’ead está esperando aqui fora.
A mulher ficou desconfiada, mas disse:
— Tudo bem.
Ela fechou a porta de repente. Eragon ouviu seus passos afastando-se.
— Isso não foi muito educado — comentou.
— Guarde suas opiniões para si mesmo — disparou Brom. — E não diga nada. Deixe que eu falarei. — Ele cruzou os braços e bateu de leve com os dedos. Eragon fechou a boca e olhou para longe.
De repente a porta se abriu e um homem alto irrompeu de dentro da casa. Suas roupas caras estavam amarrotadas, seus cabelos grisalhos eram escassos e ele tinha um rosto triste com sobrancelhas curtas. Uma longa cicatriz atravessava seu couro cabeludo, chegando até suas têmporas.
Ao vê-los, seus olhos arregalaram-se, e ele recostou-se no portal, sem fala. Sua boca abriu-se e fechou-se várias vezes, como a de um peixe fora d’água. Perguntou baixinho, com uma voz incrédula:
— Brom...?
Brom pôs um dedo na frente dos lábios e andou para a frente, segurando o braço do homem.
— É muito bom ver você, Jeod! Estou feliz porque a memória não o abandonou, mas não pronuncie esse nome. Não seria nada bom se alguém soubesse que estou aqui.
Jeod olhou para os lados freneticamente, com um ar espantado no rosto.
— Pensei que você estivesse morto — sussurrou. — O que aconteceu? Por que não fez contato comigo antes?
— Tudo será explicado. Você tem um lugar onde possamos conversar em segurança?
Jeod hesitou, oscilando seu olhar entre Eragon e Brom, o rosto enigmático. Finalmente, ele disse:
— Não podemos conversar aqui, mas se esperar um pouco vou levá-los a um local onde poderemos.
— Ótimo — disse Brom. Jeod concordou com a cabeça e desapareceu atrás da porta.
Espero poder descobrir algo sobre o passado do Brom, pensou Eragon.
Havia um espadim na cinta de Jeod quando reapareceu. Uma sobrecapa bordada pendia de modo folgado em seus ombros, combinando com o chapéu emplumado. Brom lançou um olhar crítico para aquele luxo, e Jeod deu de ombros, seguro de si.
Ele os guiou, cruzando Teirm, em direção à fortaleza. Eragon guiava os cavalos atrás dos dois homens. Jeod apontava para o destino deles.
— Risthart, senhor de Teirm, decretou que todos os comerciantes devem ter seus escritórios no castelo dele. Embora a maioria de nós conduza seus negócios de outros locais, ainda assim temos de alugar salas lá. Não faz sentido, mas nós obedecemos para mantê-lo calmo. Lá ninguém poderá nos ouvir. As paredes são grossas. — Passaram pelo portão principal da fortaleza, entrando no pátio. Jeod andou rapidamente até uma porta lateral e apontou para um anel de ferro. — Pode amarrar os cavalos ali. Ninguém irá incomodá-los. — Quando Cadoc e Fogo na Neve estavam amarrados com segurança, ele abriu a porta com uma chave de ferro e os deixou entrar.
Lá dentro havia um corredor comprido e vazio, iluminado por tochas presas na parede. Eragon ficou surpreso por o lugar ser tão frio e úmido daquela maneira. Ao tocar na parede, seus dedos deslizaram por cima de uma camada de limo. Ele tremeu.
Jeod pegou uma tocha e guiou-os pelo corredor. Pararam diante de uma pesada porta de madeira. Ele a abriu e mandou que entrassem depressa em uma sala dominada por um tapete de pele de urso, ladeado por poltronas estofadas. Prateleiras, repletas de livros com capas de couro, cobriam as paredes.
Jeod pôs lenha na lareira e jogou a tocha dentro dela. O fogo pegou rapidamente.
— Você, seu velho, tem muita coisa a me explicar.
O rosto de Brom se enrugou com um sorriso.
— Quem você está chamando de velho? A última vez em que o vi não havia nenhum fio de cabelo branco na sua cabeça. Agora, parece que eles estão nos estágios finais de decomposição.
— E você está a mesma coisa de vinte anos atrás. Parece que o tempo o vem preservando como um velhote excêntrico só para poder passar sabedoria para as novas gerações. Chega de tudo isso! Vá contando a sua história. Você sempre foi bom nisso — disse Jeod impaciente. Eragon preparou os ouvidos e esperou ansiosamente para ouvir o que Brom diria.
Brom relaxou, sentando em uma cadeira, e pegou seu cachimbo. Lentamente soprou um anel de fumaça que ficou verde, entrou como uma flecha pela lareira e voou pela chaminé.
— Você se lembra do que estávamos fazendo em Gil’ead?
— Lembro, claro — respondeu Jeod. — Aquele tipo de coisa é difícil de esquecer.
— Uma narração incompleta, mas não deixa de ser correta — disse Brom secamente. — Quando nós fomos... Separados, não consegui achá-lo. No meio da confusão, deparei com um pequeno quarto. Não havia nada de extraordinário nele, só caixotes e caixas, mas, por pura curiosidade, fui investigar. A sorte sorriu para mim naquele momento, pois achei o que estávamos procurando. — Uma expressão de espanto passou pelo rosto de Jeod. — Assim que aquilo estava em minhas mãos, eu não podia esperar por você. Eu poderia ser descoberto a qualquer segundo, e tudo estaria perdido. Eu me disfarcei o melhor que pude, fugi da cidade e corri para os... — Brom hesitou, olhou para Eragon e continuou: — Corri para os nossos amigos. Eles guardaram aquilo em um cofre, para que ficasse bem seguro, e fizeram-me prometer cuidar de quem o recebesse. Até o dia em que as minhas habilidades fossem requeridas, eu tinha de desaparecer. Ninguém podia saber que eu estava vivo, nem mesmo você, embora tenha me doído ter-lhe causado sofrimento sem necessidade. Aí, fui para o norte e me escondi em Carvahall.
Eragon apertou suas mandíbulas, furioso porque Brom continuava a deixá-lo sem saber de sua história de propósito.
Jeod franziu o rosto e perguntou:
— Então, nossos... Amigos sabiam que você estava vivo esse tempo todo?
— Sabiam.
Ele suspirou.
— Suponho que o estratagema tenha sido inevitável, embora eu preferisse que eles tivessem me contado. Carvahall não fica bem ao norte, do outro lado da Espinha? — Brom inclinou a cabeça. Pela primeira vez, Jeod examinou Eragon. Seus olhos cinzentos repararam em todos os detalhes. Ele ergueu as sobrancelhas e disse:
— Presumo, então, que você esteja cumprindo a sua missão.
Brom balançou a cabeça.
— Não, não é tão simples assim. Aquilo foi roubado há algum tempo, pelo menos é o que presumo, pois não recebi nenhum alerta dos nossos amigos e suspeito que os mensageiros deles foram pegos em ciladas, Então decidi descobrir o que pudesse. Por acaso, Eragon viajava na mesma direção. Agora, estamos viajando juntos.
Jeod parecia confuso.
— Mas se eles não mandaram nenhum mensageiro, como você poderia saber que era a sua...
Brom interrompeu-o rapidamente dizendo:
— O tio de Eragon foi brutalmente assassinado pelos Ra’zac. Incendiaram a casa dele e quase o mataram também. Ele merece vingança, mas estamos sem nenhuma pista para seguir, e precisamos de ajuda para achá-los.
A expressão do rosto de Jeod ficou mais tranquila.
— Entendo... Mas por que você veio até aqui? Não sei onde os Ra’zac podem estar escondidos e quem souber não vai dizer a você.
Em pé, Brom enfiou a mão no bolso do seu manto e pegou o frasco dos Ra’zac. Ele o jogou para Jeod.
— Havia óleo de Seithr aí dentro, do tipo perigoso. Os Ra’zac estavam com isso. Eles o perderam na trilha, e nós o achamos. Precisamos ver os registros de despachos marítimos de Teirm para acompanharmos as compras do Império desse óleo. Isso nos mostrará onde fica o esconderijo dos Ra’zac.
Linhas de expressão apareceram no rosto de Jeod enquanto pensava. Ele apontou para as estantes de livros.
— Estão vendo aquilo? São os registros dos meus negócios. De um comerciante. Vocês querem iniciar um projeto que pode levar meses. E há outro problema, maior do que esse. Os registros que vocês procuram ficam guardados neste castelo, mas apenas Brand, o gerente de comércio de Risthart, pode consultá-los regularmente. Comerciantes como eu não têm a permissão de examiná-los. Eles temem que possamos falsificar os números, enganando o Império quanto aos seus preciosos impostos.
— Poderei lidar com isso quando chegar o momento — asseverou Brom. — Mas precisamos de alguns dias de descanso antes de podermos pensar em pôr o plano em prática.
Jeod sorriu.
— Parece que chegou a minha vez de ajudá-lo. Minha casa é sua, claro. Estão usando outro nome enquanto estão aqui?
— Estamos — retorquiu Brom. — Sou Neal, e o rapaz é Evan.
— Eragon — avaliou Jeod. — Você tem um nome singular. Poucas pessoas receberam o nome do primeiro Cavaleiro. Na minha vida toda, li somente sobre três pessoas que eram chamadas dessa maneira. — Eragon ficou surpreso com o fato de Jeod saber a origem de seu nome.
Brom olhou para Eragon.
— Você poderia ir ver se os cavalos estão bem? Acho que não amarrei direito o arreio de Fogo na Neve.
Eles estão tentando esconder algo de mim. Assim que eu sair, eles vão falar sobre isso. Eragon levantou abruptamente da cadeira e saiu da sala, batendo a porta. Fogo na Neve não havia se mexido, o nó que o segurava estava bem firme. Coçando os pescoços dos cavalos, Eragon recostou-se, emburrado, na parede do castelo.
Isso não é justo, reclamava consigo mesmo. Eu queria poder ouvir o que eles estão falando. Ficou ereto de repente, animado. Brom ensinou algumas palavras a ele que poderiam melhorar sua audição.
Ouvidos aguçados não é exatamente o que quero, mas talvez consiga fazer aquelas palavras trabalharem a meu favor. Afinal, veja o que consegui fazer com brisingr!
Ele se concentrou intensamente, buscando seu poder. Assim que ele o atingiu, disse: Thverr stenr un atra eka hórna! E imbuiu essas palavras de seu desejo. Quando o poder emanou dele, ouviu um fraco sussurro em seus ouvidos, mas nada mais. Desapontado, voltou a sentar e deu um pulo quando Jeod disse: — ... E estou fazendo isso há quase oito anos.
Eragon olhou em volta. Não havia ninguém por perto, exceto alguns guardas que tomavam conta do portão que dava acesso ao pátio. Sorrindo, sentou no pátio e fechou os olhos.
— Eu nunca podia imaginar que você viraria um comerciante — disse Brom. — Depois de todo o tempo que você passou com os livros. E achar a passagem daquela maneira! O que fez você abraçar o comércio em vez de continuar sendo um estudioso?
— Depois de Gil’ead, perdi o gosto de ficar sentado em salas úmidas, lendo pergaminhos. Decidi ajudar Ajihad da melhor maneira possível, mas não sou um guerreiro. Meu pai também era mercador, você deve se lembrar disso. Ele me ajudou no começo. Entretanto, o objetivo de meu negócio não é nada mais do que ser apenas uma fachada para levar mercadorias até Surda.
— Mas soube que as coisas não andam bem.
— É, nenhum dos carregamentos tem conseguido chegar ao destino, e Tronjheim está ficando com os estoques baixos. De alguma forma, o Império, pelo menos eu acho que seja ele, descobriu aqueles de nós que vêm ajudando Tronjheim. Mas ainda não estou convencido de que seja o Império. Ninguém vê soldados. Não entendo. Talvez Galbatorix tenha contratado mercenários para nos atacar.
— Soube que você perdeu um navio recentemente.
— Era o último que eu possuía — respondeu Jeod amargamente. — Toda a tripulação era leal e corajosa. Duvido que os veremos novamente... A única opção que me resta é mandar caravanas até Surda ou Gil’ead, que sei que nunca chegarão lá, não importa quantos guardas eu contrate, ou alugar o navio de outra pessoa para levar as mercadorias. Mas ninguém aceitará fazer isso agora.
— Quantos comerciantes têm ajudado você? — interrogou Brom.
— Oh, um bom número por todo o litoral. Todos eles têm sido vítimas desse mesmo problema. Sei o que você está pensando, outro dia também pensei nisso, mas não posso aceitar a ideia de um traidor com tanto conhecimento e poder. Se houver um, todos corremos perigo. Você devia voltar a Tronjheim.
— E levar Eragon até lá? — interrompeu Brom. — Eles acabariam com ele. É o pior lugar onde ele poderia estar agora. Talvez, em alguns meses, ou melhor, daqui a um ano. Você pode imaginar como os anões reagiriam? Todos tentariam influenciá-lo, especialmente Islanzadi. Ele e Saphira não ficarão seguros em Tronjheim até que eu, pelo menos, os faça passar pela tuatha du orothrim.
Anões! Pensou Eragon animado. Onde fica Tronjheim? E por que Brom falou sobre Saphira a Jeod? Ele não devia contar isso a ninguém sem falar comigo primeiro!
— Ainda assim, sinto que eles precisam de seu poder e de sua sabedoria.
— Sabedoria — murmurou Brom. — Sou apenas o que você disse antes, um velhote excêntrico.
— Muitos não concordariam com isso.
— Deixe estar. Não preciso ficar me explicando. Não, Ajihad terá de se virar sem mim. O que estou fazendo agora é muito mais importante. Mas a possibilidade de um traidor levanta questões perturbadoras. Imagino como o Império soube onde seria... — A voz dele sumiu.
— E fico pensando por que ainda não falaram comigo sobre isso.
— Talvez eles tenham tentado, mas se houver um traidor... — Brom fez uma pausa. — Preciso mandar uma mensagem para Ajihad. Você tem um mensageiro de confiança?
— Acho que tenho. Vai depender de onde ele terá de ir.
— Não sei — disse Brom. — Fiquei isolado durante tanto tempo que a maioria dos meus contatos deve ter morrido ou esquecido de mim. Você poderia mandá-lo até quem recebe seus carregamentos?
— Poderia, mas será arriscado.
— E o que não é hoje em dia? Quando ele pode partir?
— Pela manhã. Vou mandá-lo até Gil’ead. Será mais rápido — disse Jeod. — O que ele pode levar para convencer Ajihad de que a mensagem é sua mesmo?
— Tome, dê o meu anel ao seu mensageiro. E diga a ele que, se o perder, eu, pessoalmente, arrancarei seu fígado. Quem me deu este anel foi a rainha.
— Você não está animado — comentou Jeod.
Brom resmungou. Depois de um longo silêncio, ele disse:
— É melhor sairmos logo e irmos ter com Eragon. Fico preocupado quando ele fica sozinho. Aquele garoto tem uma propensão natural para sempre ficar perto de onde existe problema.
— Está surpreso com isso?
— Nem um pouco.
Eragon ouviu cadeiras sendo puxadas para trás. Ele, rapidamente, desviou seu pensamento e abriu os olhos. O que será que está acontecendo? Falou para si mesmo. Jeod e outros comerciantes estão encrencados porque estão ajudando pessoas de quem o Império não gosta. Brom achou algo em Gil’ead e foi se esconder em Carvahall. O que poderia ser tão importante para ele deixar seu amigo pensar que estava morto durante quase vinte anos? Ele falou em uma rainha, mas não há rainha nenhuma nos reinos que conhecemos. E em anões, que, segundo o que ele mesmo me disse, desapareceram no subsolo há muito tempo.
Ele queria respostas! Mas não podia confrontar Brom agora e pôr em risco a missão deles. Não, teria de esperar até que saíssem de Teirm para pressionar o velho até que ele explicasse seus segredos. Os pensamentos de Eragon ainda estavam em ebulição quando a porta abriu.
— Os cavalos estavam bem? — quis saber Brom.
— Ótimos — retorquiu Eragon. Eles soltaram os cavalos e saíram do castelo.
Quando voltaram à parte principal de Teirm, Brom disse:
— Então, Jeod, você finalmente se casou e... — ele piscou de modo maroto — com uma bela jovem. Parabéns.
Jeod não parecia feliz com o cumprimento. Ele curvou os ombros e ficou olhando para baixo, para a rua.
— Não sei se suas congratulações fazem muito sentido agora. Helen está muito triste.
— Por quê? O que ela quer? — perguntou Brom.
— O de sempre — respondeu Jeod, dando de ombros resignado. — Uma boa casa, filhos felizes, comida na mesa e companhia agradável. O problema é que ela vem de uma família rica, o pai dela investiu muito no meu negócio. Se eu continuar sofrendo tantas perdas, não haverá condições para que ela viva do modo com o qual está acostumada — continuou Jeod. — Mas, por favor, você não tem nada a ver com os meus problemas. Um anfitrião nunca deve perturbar os hóspedes com suas preocupações pessoais. Enquanto estiver na minha casa, não deixarei que nada mais do que uma barriga cheia demais o perturbe.
— Obrigado — disse Brom. — Agradecemos a sua hospitalidade. Nossas viagens têm sido muito longas e sem qualquer tipo de conforto. Você sabe onde podemos encontrar uma loja barata? De tanto cavalgar, nossas roupas ficaram muito surradas.
— Claro. Esse é o meu trabalho — disse Jeod, ficando mais animado. Ele falou de modo entusiasmado sobre preços e lojas até a casa dele ficar ao alcance da vista. Depois, perguntou: — Vocês se incomodariam se fôssemos comer em outro lugar? Talvez seja constrangedor se vocês entrarem agora.
— Faça o que for melhor para você — concordou Brom.
Jeod ficou aliviado.
— Obrigado. Vamos deixar seus cavalos no meu estábulo.
Fizeram como ele sugeriu e seguiram-no até uma grande taverna.
Ao contrário da Castanha Verde, esta era barulhenta, limpa e cheia de pessoas que falavam alto. Quando o prato principal chegou, um suculento leitão recheado, Eragon comeu a carne de modo entusiasmado, mas saboreou mais as batatas, cenouras, nabos e as maçãs doces que o acompanhavam. Fazia muito tempo que ele comia apenas animais de caça.
Estenderam a refeição durante horas, enquanto Brom e Jeod se revezavam contando histórias. Eragon não se incomodou. Estava aquecido, uma música alegre era tocada ao fundo e havia comida mais do que o suficiente. O burburinho animado da taverna soava prazerosamente aos seus ouvidos.
Quando finalmente saíram da taverna, o sol aproximava-se do horizonte.
— Vocês dois podem ir na frente, preciso cuidar de uma coisa — avisou Eragon. Ele queria ver Saphira e saber se ela estava escondida em segurança.
Brom concordou distraidamente:
— Tenha cuidado. Não demore muito.
— Espere — disse Jeod. — Você vai sair de Teirm? — Eragon hesitou, mas concordou com a cabeça de modo relutante. — Então, certifique-se de estar dentro das muralhas antes do anoitecer. Os portões são fechados e os guardas só o deixarão entrar pela manhã.
— Não vou demorar — prometeu Eragon. Ele virou-se e andou a passos largos por uma rua lateral, em direção à muralha de Teirm. Assim que estava fora da cidade, respirou fundo, aproveitando o ar puro.
Saphira! Chamou. Onde você está?
Ela o guiou para fora da estrada, até a base de um penhasco coberto de musgo e cercado por bordos. Ele viu a cabeça dela saindo de uma das árvores, lá no topo, e acenou.
Como vou subir até aí?
Se achar uma clareira, posso descer para pegá-lo.
Não, disse, olhando para o penhasco. Não será necessário. Vou subir.
É muito perigoso.
Você se preocupa demaisDeixe eu me divertir um pouco.
Eragon tirou as luvas e começou a escalar. Gostou do desafio físico. Havia muitos locais onde pôr a mão e a subida foi fácil. Logo, ele estava acima das árvores. No meio do caminho, parou na saliência de uma pedra para recuperar o fôlego.
Assim que suas forças voltaram, esticou-se para alcançar a pedra mais próxima, mas o braço dele não era comprido o bastante. Frustrado, procurou outra fenda ou sulco onde pudesse pôr a mão. Não havia. Tentou voltar, mas suas pernas não podiam alcançar o ponto de apoio mais próximo. Saphira observava tudo sem piscar. Ele desistiu e disse:
Eu poderia ter alguma ajuda.
A culpa é sua.
É! Eu sei! Vai me ajudar a descer ou não?
Se eu não estivesse por perto, você estaria muito encrencado.
Eragon levantou os olhos.
Não precisa me dizer isso.
Está certo. Afinal, como um simples dragão pode achar que está autorizado a dizer a um homem como você o que fazerDe fato, todos deviam ficar admirados com sua inteligência ao conseguir ter achado apenas um beco sem salda. Ora, se você tivesse começado a escalada a apenas alguns metros na outra direção, o caminho até o topo seria bem tranquilo. Ela jogou a cabeça em direção a ele, seus olhos brilhavam.
Tudo bem! Eu errei! Agora, por favor, você poderia me tirar daqui? Pediu. Ela afastou sua cabeça da beira do penhasco. Depois de um instante, ele chamou:
— Saphira? — Acima dele estavam apenas as árvores que balançavam. — Saphira! Volte aqui! — gritou.
Com um estrondo, Saphira passou em alta velocidade pelo topo do penhasco, dando uma pirueta em pleno ar. Flutuou até Eragon como um grande morcego e agarrou a camisa dele com suas garras, arranhando as costas do rapaz. Ele soltou a pedra quando ela o puxou para cima, em pleno ar. Depois de um breve voo colocou-o gentilmente no topo do penhasco e tirou as garras da camisa dele.
Tolice, disse Saphira educadamente.
Eragon olhou ao longe, estudando a paisagem. O penhasco fornecia uma vista maravilhosa do lugar que os cercava, especialmente do mar que espumava na praia, como também um bom esconderijo contra olhos inconvenientes. Só os pássaros podiam ver Saphira ali. O local era ideal.
O amigo de Brom é de confiança?, perguntou ela.
Não sei. Eragon começou a relatar os eventos do dia. Há forças ao nosso redor sobre as quais não temos conhecimento. Às vezes penso se podemos entender as intenções verdadeiras das pessoas que nos cercam. Parece que todos têm segredos.
O mundo é assim. Ignore todos os esquemas e confie na natureza de cada pessoa. Brom é bom. Ele não nos deseja o mal. Não devemos ter receio quanto aos planos dele.
É o que espero, disse ele, olhando para as suas mãos.
Tentar achar os Ra’zac examinando alguns registros é um modo estranho de procurar alguém, ponderou ela. Será que existe uma magia para ver os registros sem estar dentro da sala?
Não sei. A pessoa teria de combinar a palavra que dá poderes para ver com a palavra distância... Ou talvez luz e distância. De qualquer maneira, parece ser algo bem difícil. Vou perguntar ao Brom.
Isso seria bom. Eles ficaram em um tranquilo silêncio.
Sabe, talvez tenhamos de ficar algum tempo por aqui.
A resposta de Saphira foi amarga.
E, como sempre, terei de ficar esperando aqui fora.
Não é o que eu desejo. Logo, viajaremos juntos novamente.
Que esse dia chegue rápido.
Eragon sorriu e a abraçou. Ele notou que a luz se esvaía rapidamente.
Preciso ir agora, antes que fique preso do lado de fora de TeirmSaia para caçar amanhã, virei vê-la à tarde.
Ela abriu as asas.
Venha, vou levá-lo até lá embaixo. Ele montou em seu dorso repleto de escamas e agarrou-se firmemente quando ela pulou do penhasco, pairou sobre as árvores e pousou em um pequeno monte. Eragon a agradeceu e voltou correndo para Teirm.
Avistou a porta corrediça quando ela estava começando a ser fechada. Gritando para que o esperassem, apertou o passo da corrida e conseguiu entrar segundos antes do portão se fechar.
— Você quase não conseguiu — comentou um dos guardas.
— Não vai acontecer de novo — garantiu Eragon, agachando-se para recuperar o fôlego. Percorreu as ruas da cidade escura até a casa de Jeod. Uma lanterna, que estava pendurada do lado de fora, parecia um farol.
Um mordomo rechonchudo abriu a porta e levou-o para dentro sem dar uma palavra. Tapeçarias cobriam as paredes de pedra. Tapetes adornados pontilhavam o chão de madeira polida que brilhava com a luz dos três candelabros de ouro que pendiam do teto. Uma fumaça pairava pelo ar e subia.
— Por aqui, senhor. Seu amigo está na sala de leitura.
Passaram por várias portas até que o mordomo abrisse a que dava para a sala de leitura. Livros cobriam as paredes do cômodo. Mas ao contrário daqueles no escritório de Jeod, estes tinham várias formas e tamanhos. Uma lareira cheia de toras ardentes aquecia o local. Brom e Jeod estavam sentados na frente de uma mesa oval, conversando amigavelmente. Brom ergueu seu cachimbo e falou com uma voz jovial:
— Ah, aí está você. Já estávamos ficando preocupados. Como foi a caminhada? — O que será que o deixou de bom humor? Por que ele não pergunta logo como a Saphira está?
— Foi agradável, mas os guardas quase me deixaram do lado de fora da cidade. E Teirm é grande. Tive dificuldade para achar a casa.
Jeod riu.
— Depois que você vir Dras-Leona, Gil’ead ou até mesmo Kuasta, não ficará tão facilmente impressionado com esta cidadezinha litorânea. Mas gosto daqui. Quando não está chovendo, Teirm é muito bonita.
Eragon se virou para Brom.
— Tem alguma ideia de quanto tempo ficaremos aqui?
Brom abriu as mãos e as esticou para cima.
— É difícil dizer. Vai depender de quando teremos acesso aos registros e de quanto tempo levaremos para achar o que precisamos. Nós todos teremos de ajudar, será um trabalho enorme. Falarei com Brand amanhã para ver se ele nos deixará ver os registros.
— Acho que não poderei ajudar — Eragon disse, virando-se constrangido.
— Por quê? — indagou Brom. — Haverá muito trabalho para você.
Eragon baixou a cabeça.
— Eu não sei ler.
Brom esticou-se na cadeira, descrente.
— Quer dizer que Garrow nunca o ensinou a ler?
— E ele sabia ler? — perguntou Eragon, intrigado.
Jeod os observava com interesse.
— É claro que sabia — resmungou Brom. — Aquele tolo orgulhoso, o que achava? Eu devia ter percebido que ele nunca o ensinaria a ler. Provavelmente, considerava um luxo desnecessário. — Brom franziu a testa e puxou sua barba com raiva. — Isso atrapalha os meus planos, mas não de modo irreparável. Terei de ensinar você a ler. Não vai demorar muito se você se dedicar.
Eragon apertou os olhos. Qualquer aula de Brom, geralmente, era muito intensa e brutalmente direta. Quanta coisa posso aprender de uma vez só?
— Suponho que isso seja necessário — disse Eragon com melancolia.
— Você vai gostar. Podemos aprender muitas coisas com os livros e pergaminhos — declarou Jeod. Ele apontou para as paredes. — Estes livros são meus amigos e companheiros. Eles me fazem rir e chorar, dão sentido à vida.
— Isso parece ser fascinante — admitiu Eragon.
— Sempre o estudioso, não é? — perguntou Brom.
Jeod deu de ombros.
— Não sou mais. Acho que regredi e virei um bibliófilo.
— Um o quê? — quis saber Eragon.
— Uma pessoa que ama os livros — explicou Jeod e voltou a conversar com Brom. Entediado, Eragon olhou para as prateleiras. Um livro elegante, com pinos dourados, chamou sua atenção. Ele o tirou da estante e o observou curiosamente.
Era encapado com couro preto e havia misteriosas runas entalhadas. Eragon passou os dedos por cima da capa e apreciou sua suavidade gelada. As letras dentro dele foram impressas com uma tinta avermelhada e brilhante. Deixou as páginas correrem por seus dedos. Uma coluna de escritos, destacada do texto normal, chamou sua atenção. As palavras eram longas e fluentes, havia muitas linhas elegantes e pontos nítidos.
Eragon levou o livro até Brom.
— O que é isto? — perguntou, apontando para o texto estranho.
Brom examinou a página atentamente e ergueu suas sobrancelhas em surpresa.
— Jeod, você aumentou a sua coleção. Onde conseguiu isto? Não vejo um destes há muito tempo.
Jeod esticou o pescoço para ver o livro.
— Ah, sim, o Domia abr Wyrda. Um homem passou por aqui há alguns anos e tentou vendê-lo a um comerciante no cais. Felizmente, eu estava lá por acaso e pude salvar o livro, como também o pescoço dele. Ele nem imaginava de qual assunto o livro tratava.
— É estranho, Eragon, você ter escolhido este livro, o Domínio do Destino — disse Brom. — De todos os livros nesta casa, este deve ser o que tem mais valor. Descreve em detalhes a história completa da Alagaësia, começando muito antes dos elfos chegarem aqui e terminando poucas décadas atrás. O livro é muito raro e é um dos melhores do seu gênero. Quando foi escrito, o Império o condenou como uma blasfêmia e queimou seu autor vivo, Heslant, o monge. Eu achava que não existia mais nenhuma cópia. As letras sobre as quais você pergunta são da língua antiga.
— E o que diz aí? — perguntou Eragon.
Brom levou alguns instantes para ler o texto.
— É parte de um poema élfico que fala sobre os anos em que eles lutaram com os dragões. Este trecho descreve um dos reis deles, Ceranthor, que foi marchando para a batalha. Os elfos adoram este poema e o recitam frequentemente, embora sejam precisos três dias para fazer isso de modo apropriado. Isso é feito para que eles não repitam os erros do passado. Às vezes, eles o recitam de uma maneira tão bela que parece que até as pedras vão chorar.
Eragon voltou à sua cadeira, segurando o livro delicadamente. É impressionante que um homem que já esteja morto possa falar com essas pessoas através destas páginas. Enquanto este livro sobreviver, as ideias dele terão vida. Será que ele contém alguma informação sobre os Ra’zac?
Folheava o livro enquanto Brom e Jeod conversavam. Horas se passaram, e Eragon começou a ficar com sono. Condoído com o cansaço dele, Jeod deu boa-noite:
— O mordomo os levará aos seus quartos.
No caminho para o andar superior, o criado disse:
— Se precisarem de ajuda, toquem a sineta que fica ao lado da cama. — Ele parou perto do grupo de três portas e, depois, retrocedeu.
Quando Brom ia entrando no quarto à direita, Eragon perguntou:
— Posso falar com você?
— Você já falou, mas pode entrar assim mesmo.
Eragon fechou a porta assim que entrou.
— Saphira e eu tivemos uma ideia. Será que há...
Brom ergueu a mão, fazendo sinal para ele parar e puxou a cortina o máximo possível para cobrir a janela.
— Quando falar essas coisas, certifique-se de que não haja nenhum ouvido inconveniente presente.
— Desculpe — disse Eragon, repreendendo-se por causa do deslize. — Bem, mas é possível evocar uma imagem de algo que você não pode ver?
Brom sentou na beira de sua cama.
— Você está falando de adivinhação usando-se uma bola de cristal. Isso é possível e extremamente útil em certas situações, mas tem uma grande desvantagem. Só podemos observar pessoas, lugares e coisas que já tenhamos visto. Se quiséssemos ver os Ra’zac, nós os veríamos, sim, mas não o lugar que os cercava. E também há outros problemas. Digamos que você quisesse ver certa página de um livro, uma que já tivesse visto. Você só conseguiria ver a página se o livro estivesse aberto. Se o livro estivesse fechado quando você tentasse vê-la, a página apareceria toda preta.
— Por que não podemos ver objetos que nunca vimos? — perguntou Eragon. Mesmo com essas limitações, ele achava que usar uma bola de cristal poderia ser muito útil. Será que posso ver alguma coisa quilômetros à frente e usar a magia para mudar o que estiver acontecendo lá?
— Porque — respondeu Brom pacientemente — para usar uma bola de cristal você precisa conhecer o que está procurando e deve saber para onde dirigir o seu poder. Mesmo se descrevessem um estranho para você, seria praticamente impossível vê-lo, sem falar no lugar e nas coisas que estivessem em volta dele. Você precisa conhecer o que quer ver na bola de cristal antes de poder vê-lo ali de fato. Isso responde à sua pergunta?
Eragon pensou por um instante.
— Mas como se faz isso? Você evoca a imagem em pleno ar?
— Nem sempre — respondeu Brom, sacudindo sua cabeça branca. — Fazer isso requer mais energia do que projetar uma imagem em uma superfície como um lago ou um espelho. Alguns Cavaleiros viajavam o máximo que podiam, tentavam conhecer o máximo de coisas possíveis. Então, quando havia uma guerra ou algum tipo de calamidade, eles podiam ver o que acontecia por toda a Alagaësia.
— Posso tentar fazer isso? — inquiriu Eragon.
Brom olhou para ele cuidadosamente.
— Não, agora, não. Você está cansado e usar uma bola de cristal exige muita força. Vou dizer as palavras a você, mas prometa que não tentará fazer isso hoje. E prefiro que espere até sairmos de Teirm, tenho muito mais a lhe ensinar.
Eragon sorriu.
— Prometo.
— Muito bem. — Brom se curvou e sussurrou bem baixinho “Draumr kópa”, no ouvido de Eragon.
Eragon parou um instante para memorizar as palavras.
— Talvez, depois que sairmos de Teirm, eu tente ver Roran. Gostaria de saber como ele está passando. Temo que os Ra’zac possam ir atrás dele.
— Não quero assustá-lo, mas essa é uma possibilidade — ponderou Brom. — Embora Roran já tivesse deixado o Carvahall quando os Ra’zac chegaram, tenho certeza de que fizeram perguntas sobre ele. Quem sabe, eles devem até tê-lo encontrado quando passaram por Therinsford. De qualquer modo, duvido que a curiosidade deles tenha sido saciada. Você está à solta, afinal, e o rei deve estar ameaçando-os com um castigo terrível se você não for encontrado. Se não tiverem sucesso, deverão voltar e interrogar Roran. É só uma questão de tempo.
— Se isso for verdade, então o único modo de manter Roran em segurança é deixar os Ra’zac saberem onde estou, para que venham atrás de mim e não persigam Roran.
— Não, isso não adiantaria. Você não está raciocinando — advertiu Brom. — Se você não entender seus inimigos, como espera poder antecipar o que eles farão? Mesmo se você expuser seu esconderijo, os Ra’zac ainda iriam atrás de Roran. Sabe por quê?
Eragon esticou-se e ponderou todas as possibilidades.
— Bem, se eu ficar escondido durante muito tempo, eles podem ficar frustrados e capturar Roran para me forçar a revelar onde estou. Se isso não der certo, eles vão matá-lo só para me magoar. Além disso, se eu virar um inimigo do Império, eles podem usá-lo como isca para me capturar. E se eu me encontrar com Roran e eles souberem disso, vão torturá-lo para descobrir onde eu estava.
— Muito bem. Você previu tudo muito bem — parabenizo-o Brom.
— Mas qual é a solução? Não posso permitir que ele seja morto!
Brom fechou as mãos sem apertá-las.
— A solução é óbvia. Roran terá de aprender a se defender. Isso pode parecer algo frio, mas como você mesmo destacou, não pode arriscar encontrá-lo. Talvez você não se lembre disso, pois estava delirando na ocasião, mas quando saímos de Carvahall, eu disse que tinha deixado uma carta alertando Roran para que ele não ficasse completamente ignorante quanto ao perigo. Se ele tiver algum senso de autopreservação, quando os Ra’zac aparecerem em Carvahall novamente, ouvirá o meu conselho e fugirá.
— Não gosto disso — disse Eragon insatisfeito.
— Ah, mas você esqueceu uma coisa.
— O quê? — inquiriu.
— Há algo bom nisso tudo. O rei não pode se dar ao luxo de ter um Cavaleiro sobre o qual ele não tenha controle andando por aí. Galbatorix é o único Cavaleiro vivo conhecido, além de você, mas ele gostaria de ter mais um Cavaleiro sob seu comando. Antes que tente matar você ou Roran, ele lhe oferecerá a chance de servi-lo. Infelizmente, se conseguir se aproximar o bastante para lhe fazer essa proposta, será tarde demais para você recusá-la e sair vivo de lá.
— E você diz que isso é bom?
— Isso é tudo que está protegendo Roran agora. Enquanto o rei não souber o lado que você escolheu, não arriscará perdê-lo ao ferir seu primo. Mantenha sempre isso em mente. Os Ra’zac mataram Garrow, mas acho que não foi uma decisão acertada da parte deles. Pelo que conheço de Galbatorix, ele não deve ter aprovado isso, a não ser que tenha tido alguma vantagem.
— E como poderei negar um desejo do rei se ele estiver me ameaçando de morte? — perguntou Eragon severamente.
Brom suspirou. Ele foi até a sua penteadeira e molhou os dedos em uma bacia com água de rosas.
— Galbatorix quer que você coopere com ele de bom grado. Sem isso, você será pior do que algo inútil para ele. Então, a pergunta é: se um dia se deparar com essa escolha, você estará preparado para morrer pelo que acredita? Essa é a única maneira com a qual você poderá dizer “não” a ele.
A pergunta pairou no ar.
Brom, finalmente, disse:
— É uma pergunta difícil e só podemos responder a ela verdadeiramente quando nos depararmos com ela. Tenha em mente que muitas pessoas morreram por aquilo em que acreditavam. De fato, isso é bem comum. A verdadeira coragem é viver e sofrer por aquilo em que você acredita.

2 comentários:

  1. — Você vai gostar. Podemos aprender muitas coisas com os livros e pergaminhos — declarou Jeod. Ele apontou para as paredes. — Estes livros são meus amigos e companheiros. Eles me fazem rir e chorar, dão sentido à vida.
    — Isso parece ser fascinante — admitiu Eragon.
    — Sempre o estudioso, não é? — perguntou Brom.
    Jeod deu de ombros.
    — Não sou mais. Acho que regredi e virei um bibliófilo.
    — Um o quê? — quis saber Eragon.
    — Uma pessoa que ama os livros — explicou Jeod

    Eu sou uma Bibliófila ;3

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Boa leitura :)