27 de maio de 2017

Capítulo 25 - A invocação do Dagshelgr

Embora estivesse cansado do esforço do dia anterior, Eragon se obrigou a levantar antes do amanhecer numa tentativa de pegar um dos elfos dormindo. Havia se tornado um jogo para ele descobrir quando os elfos levantavam — ou se eles não dormiam de modo algum — como se ainda tivesse que ver qualquer um deles com os olhos fechados. Hoje não era exceção.
— Bom-dia — disseram Narí e Lifaen acima dele. Eragon jogou o pescoço para trás e viu que cada um deles estava em pé no galho de um pinheiro, a mais de quinze metros do chão. Pulando de galho em galho com uma graça felina, os elfos saltaram para o chão ao seu lado.
— Ficamos de vigília — explicou Lifaen.
— Por quê?
Arya saiu de trás de uma árvore e afirmou:
— Por causa dos meus medos. Du Weldenvarden possui muitos mistérios e perigos, especialmente para um Cavaleiro. Moramos aqui por milhares de anos, e antigos encantos ainda se prolongam em lugares inesperados, a magia permeia o ar, a água e a terra. Em alguns lugares, ela afetou os animais. Às vezes, criaturas estranhas são vistas perambulando pela floresta e não são todas amigáveis.
— Será que elas são... — Eragon parou assim que sua gedwëy ignasia começou a pinicar. O martelo de prata no colar que Gannel havia lhe dado começou a esquentar em seu peito e ele sentiu o encanto do amuleto sugar a sua força.
Alguém estava tentando observá-lo através de um cristal. Será Galbatorix?, perguntou ele, amedrontado. Eragon apertou o colar e o puxou para fora de sua túnica, pronto para arrancá-lo caso ficasse fraco demais. Do outro lado do acampamento, Saphira correu para o seu lado, animando-o com suas próprias reservas de energia. Um instante depois, o calor começou a se dissipar do martelo, deixando-o frio contra a pele de Eragon. Ele bateu o pingente com força na palma de sua mão e em seguida o enfiou sob as roupas, depois do que
Saphira disse, Nossos inimigos estão a nossa cata.
Inimigos? Será que não podia ser alguém em Du Vrangr Gata?
Acho que Hrothgar teria dito a Nasuada que ele ordenou a Gannel o encantamento desse colar para você... A ideia pode ter vindo dela.
Arya franziu a testa quando Eragon explicou o que ocorrera.
— Isso torna ainda mais importante que alcancemos Ellesméra rapidamente, para que o seu treinamento possa se reiniciar. Os acontecimentos na Alagaësia estão se dando a passo acelerado, e temo que você não tenha tempo adequado para os seus estudos.
Eragon queria discutir a questão mais profundamente, mas perdeu a oportunidade na pressa de deixar o acampamento. Assim que as canoas foram carregadas e o fogo apagado, continuaram a avançar pelo rio Gaena. Estavam na água há apenas uma hora quando Eragon notou que o rio estava ficando mais largo e profundo. Poucos minutos depois, as canoas encontraram uma cachoeira que enchia Du Weldenvarden com seu ressoar pulsante. A catarata tinha cerca de trinta metros de altura e descia por uma superfície de pedra com uma saliência impossível de ser transposta.
— Como vamos passar por isso? — Ele já podia sentir os borrifos gelados em seu rosto.
Lifaen apontou para a margem esquerda, a alguma distância da queda d’água, onde uma trilha havia sido aberta até o cume da cordilheira. — Temos de carregar nossas canoas e suprimentos por três quilômetros, até o rio ficar mais calmo.
Os cinco desamarraram os pacotes que estavam socados entre os assentos das canoas e dividiram os suprimentos em pilhas dentro de suas sacas.
— Aaarrg! — exclamou Eragon, enquanto levantava a sua carga. Era duas vezes mais pesada do que a que ele normalmente carregava quando viajava a pé.
Eu poderia voar com a carga rio acima para vocês... toda ela, ofereceu-se Saphira, rastejando sobre a margem enlameada e sacudindo o corpo para se secar.
Quando Eragon repetiu sua sugestão, Lifaen parecia horrorizado.
— Jamais sonharíamos em usar um dragão como animal de carga. Isso iria desonrá-la, Saphira... e a Eragon como Shur’tgal... e iria envergonhar a nossa hospitalidade.
Saphira resfolegou, e uma coluna de fumaça saiu de suas narinas, vaporizando a superfície do rio e criando uma nuvem de vapor. Isso é um absurdo. Passando por Eragon com uma de suas patas escamosas, usou suas garras para enganchar as correias dos pacotes e depois levantou voo por sobre suas cabeças. Peguem-me se forem capazes!
O soar de uma gargalhada penetrante quebrou o silêncio, como se fosse o trinado de um tordo. Estupefato, Eragon se virou e olhou para Arya. Era a primeira vez que ele a ouvia rindo, amou o som. Ela sorria para Lifaen.
— Você tem muito a aprender se ousa dizer para um dragão o que ele pode ou não pode fazer.
— Mas a desonra...
— Não é nenhuma desonra se Saphira está fazendo isso de livre e espontânea vontade — assegurou Arya. — Agora vamos embora antes que percamos mais tempo.
Na esperança de que o esforço não fosse provocar a dor em suas costas, Eragon pegou sua canoa com Lifaen e a colocou sobre os ombros. Ele foi forçado a contar com o elfo para guiá-lo ao longo da trilha, já que só conseguia ver o solo sob os seus pés.
Uma hora depois, chegaram ao cume do espinhaço e marcharam além das águas brancas e perigosas onde o rio Gaena ficava mais uma vez calmo e vítreo. Esperando por eles estava Saphira, ocupada pegando peixes nos baixios, enfiando sua cabeça triangular dentro d’água como se fosse uma garça.
Arya a chamou e falou para ela e para Eragon:
— Depois da próxima curva está o lago Ardwen e, em sua margem oeste, Sílthrim, uma de nossas maiores cidades. Depois, uma vasta expansão de florestas ainda irá nos separar de Ellesméra. Encontraremos muitos elfos perto de Sílthrim. No entanto, não quero que nenhum de vocês seja visto até falarmos com a rainha Islanzadí.
Por quê?, perguntou Saphira, repetindo os pensamentos de Eragon.
Com seu sotaque musical, Arya respondeu:
— Sua presença representa uma grande e terrível mudança para o nosso reino, e tais mudanças são perigosas a não ser que sejam promovidas com muito cuidado. A rainha deve ser a primeira pessoa a se encontrar com vocês. Só ela tem a autoridade e a sabedoria para supervisionar essa transição.
— Você a tem em alto conceito — comentou Eragon.
Ao ouvir suas palavras, Narí e Lifaen pararam e ficaram observando Arya com um olhar cauteloso. O rosto dela ficou pálido, até que a elfa se recompôs, altiva.
— Ela nos liderou bem... Eragon, sei que carrega uma capa com capuz de Tronjheim. Até que estejamos livres de possíveis observadores, você poderia usá-la e manter sua cabeça coberta para que ninguém possa ver as suas orelhas arredondadas e saber que você é humano? — Ele acenou afirmativamente. — E, Saphira, você poderia se esconder durante o dia e nos alcançar à noite. Ajihad me disse que foi isso que você fez no Império.
E odiei cada momento, rugiu ela.
— E só por hoje e amanhã. Depois disso, estaremos longe o bastante de Sílthrim e não teremos que nos preocupar com a possibilidade de encontrar alguém importante — prometeu Arya.
Saphira virou seus olhos azuis-celestes para Eragon. Quando escapamos do Império, jurei que ficaria sempre perto o bastante para proteger você. Toda vez que eu sumo, coisas ruins acontecem: Yazuac, Daret, Dras- Leona, os traficantes de escravos.
Não em Teirm.
Você sabe o que eu quero dizer! Estou especialmente avessa a deixá-lo, já que você não tem como se defender com suas costas feridas.
Acredito que Arya e os outros me manterão em segurança. Você não?
Saphira hesitou. Confio em Arya. Ela lhe deu as costas, se afastou, andou no barranco acima, sentou-se por um minuto, e depois voltou. Muito bem. Ela transmitiu sua aceitação para Arya, e acrescentou. Mas só vou esperar até a noite de amanhã, aparecerei mesmo se na hora vocês estiverem no meio de Sílthrim.
— Entendo — disse Arya. — Você ainda precisa ter cuidado quando voar depois de anoitecer, já que os elfos conseguem enxergar bem nas noites mais escuras. Se você for vista por acaso, poderá ser atacada por meio de magia.
Maravilhoso, comentou Saphira.
Enquanto Orik e os elfos recarregavam os barcos, Eragon e Saphira exploraram a floresta sombria, buscando um lugar adequado para servir de esconderijo. Eles se acomodaram num buraco seco com rochas fragmentadas nas bordas e coberto por um manto de folhas de pinheiro que eram agradavelmente macias sob os pés. Saphira se enrolou no chão e acenou com a cabeça. Pode ir. Vou ficar bem.
Eragon abraçou o seu pescoço — esquivando-se com cuidado dos espinhos pontudos — e depois partiu relutante, olhando para trás. Ao chegar ao rio, cobriu a cabeça com o capuz antes de retomar sua jornada.
O ar estava parado quando o lago Ardwen surgiu no horizonte e, como resultado, o vasto manto aquático era liso e plano, um espelho perfeito para as árvores e as nuvens. A ilusão era tão impecável, que Eragon sentiu como se estivesse olhando através de uma janela para um outro mundo e, se continuassem seguindo em frente, as canoas cairiam incessantemente por dentro do céu refletido. Ele estremeceu com tal pensamento. Na distância enevoada, inúmeros barcos brancos feitos com casca de vidoeiro se lançavam como se fossem heterópteros ao longo de ambas as margens, impelidos a velocidades incríveis pela força dos elfos. Eragon mantinha a cabeça abaixada e puxava a ponta do capuz para se certificar de que ele cobria o seu rosto.
Seu elo mental com Saphira foi ficando cada vez mais tênue conforme eles se afastavam, até que apenas um fragmento de pensamento os conectava. À noite ele não conseguia mais sentir a sua presença, mesmo concentrando-se ao extremo. De repente, Du Weldenvarden parecia muito mais isolada e abandonada.
Enquanto a escuridão ia aumentando, um feixe de luzes brancas — colocadas ao longo de toda a altura entre as árvores — brotava a um quilômetro e meio. As faíscas brilhavam com o esplendor prateado da lua cheia, lúgubre e misteriosa no meio da noite.
— Lá está Sílthrim — disse Lifaen.
Com um leve esguichar, um barco negro passou por eles na direção oposta, acompanhado por um murmúrio de “Kvetha Fricai” do elfo que estava pilotando.
Arya encostou sua canoa ao lado da de Eragon.
— Vamos parar aqui hoje à noite.
Montaram acampamento a uma certa distância do lago Ardwen, onde o chão era seco o suficiente para dormir. As ferozes nuvens de mosquitos forçaram Arya a lançar um encanto para poderem jantar com um relativo conforto.
Depois, os cinco se sentaram em volta da fogueira, e ficaram olhando para as chamas douradas. Eragon recostou sua cabeça numa árvore e viu um meteoro rasgando o céu. Suas pálpebras estavam prestes a se fechar quando uma voz de mulher começou a flutuar no meio da floresta, vindo de Sílthrim, um leve murmúrio que roçou o interior do seu ouvido como uma pena. Franziu a testa e se ergueu, tentando ouvir melhor o tênue sussurro.
Como um filete de fumaça que engrossa quando brota uma chama recém-nascida e se inflama para a vida, a voz também foi ficando mais forte até a floresta suspirar com uma melodia provocante e envolvente, que se projetava e se escondia numa entrega desenfreada. Mais vozes se juntaram àquela canção misteriosa, enfeitando o tema original com uma centena de variações. O próprio ar parecia emitir uma luz trêmula por causa da trama daquela música tempestuosa.
A melodia excêntrica enviava rajadas de júbilo e medo pela espinha de Eragon, nublava os seus sentidos, tragando-o para dentro da noite aveludada. Seduzido pelas notas que o perseguiam, ele se levantou, pronto para seguir pela floresta até encontrar a origem das vozes, pronto para dançar entre as árvores e os musgos, qualquer coisa para que pudesse se juntar à festança dos elfos. Mas antes que ele pudesse se mover, Arya o pegou pelo braço e o virou para que a encarasse.
— Eragon! Limpe a sua mente! — Ele lutou em vão para se livrar das garras da companheira de jornada. — Eyddr eyreya onr! — Esvazie os seus ouvidos! — Tudo ficou em silêncio então, como se ele tivesse ficado surdo. Eragon parou de lutar e olhou em volta, tentando imaginar o que havia acontecido. Do outro lado do fogo, Lifaen e Narí lutavam com Orik sem fazer barulho.
Eragon observava a boca de Arya se mover enquanto ela falava, até que o som voltou ao mundo com um estalo, embora ele não pudesse mais ouvir a música.
— O quê...? — perguntou, confuso.
— Larguem-me — resmungava Orik. Lifaen e Narí levantaram suas mãos e se afastaram.
— Perdão, Orik-vodhr — disse Lifaen. Arya olhou na direção de Sílthrim.
— Eu contei errado os dias. Não queria estar em lugar algum perto de uma cidade durante o Dagshelgr. Nossas saturnais, nossas celebrações, são perigosas para os mortais. Cantamos na língua antiga, e as letras tecem encantos de paixão e desejo aos quais é difícil resistir, mesmo para nós.
Narí estava agitado e impaciente.
— Devíamos estar num bosque.
— Devíamos — concordou Arya —, mas cumpriremos nosso dever e esperaremos.
Abalado, Eragon se sentou perto do fogo, desejando que Saphira estivesse por perto, ele tinha certeza de que a amiga teria protegido sua mente da influência da música.
— Para que serve o Dagshelgr? — perguntou.
Arya se juntou a ele no chão, cruzando suas longas pernas.
— É para manter a floresta saudável e fértil. Toda primavera, nós cantamos para as árvores, para as plantas e para os animais. Sem a nossa presença Du Weldenvarden teria metade do seu tamanho. — Como se para enfatizar o que ela havia dito, aves, cervos, esquilos vermelhos e cinzentos texugos de pele listrada, raposas, coelhos, lobos, sapos, rãs, tartarugas e todos os outros animais que havia por perto deixaram suas tocas e começaram a correr loucamente produzindo uma dissonância de uivos e gritos. — Eles estão atrás de parceiros — explicou Arya. — Por toda Du Weldenvarden, em cada uma de nossas cidades, os elfos estão cantando esta canção. Quantos mais de nós participarmos, mais forte é o encanto, e maior será Du Weldenvarden este ano.
Eragon jogou sua mão para trás enquanto um trio de ouriços rolava perto da sua coxa. A floresta inteira murmurava. Eu adentrei o reino das fadas, pensou, enquanto abraçava o corpo. Orik se aproximou da fogueira e ergueu a voz por sobre o clamor.
— Pela minha barba e o meu machado, eu não serei controlado contra a minha vontade pela magia. Se isso acontecer novamente, Arya, juro pelo cinto de pedra de Helzvog que voltarei para Farthen Dûr e vocês terão de lidar com a ira de Durgrimst Ingeitum.
— Não era a minha intenção que vocês passassem pelo Dagshelgr — disse Arya. — Peço desculpas pelo meu erro. No entanto, embora eu os esteja protegendo desse encanto, vocês não poderão escapar da magia em Du Weldenvarden, ela permeia tudo.
— Contanto que ela não dê um nó na minha mente. — Orik balançou a cabeça e apalpou o cabo do seu machado enquanto olhava para as silhuetas das feras que se moviam com dificuldade no meio da escuridão, além da luz do fogo.
Ninguém dormiu naquela noite. Eragon e Orik permaneceram acordados devido ao ruído contínuo e medonho e aos animais que iam de encontro às suas tendas, e por causa dos elfos, pois ainda ouviam a canção. Lifaen e Narí ficaram andando em círculos intermináveis, enquanto Arya olhava em direção a Sílthrim com uma expressão faminta, sua pele fulva estava pálida e tesa na altura dos malares.
Depois de quatro horas no meio daquela profusão de som e movimento, Saphira desceu do céu, com os olhos cintilando e um aspecto esquisito. Tremeu e arqueou o pescoço, ofegando com as mandíbulas abertas. A floresta, disse ela, está viva. E eu estou viva. Meu sangue queima como nunca antes. Queima como o seu queima quando pensa em Arya. Eu... entendo!
Eragon colocou a mão em seu ombro, sentindo os tremores que torturavam o seu corpo, as laterais vibravam enquanto ela zumbia junto com a música. Ela se prendeu ao chão com suas garras de marfim, seus músculos serpenteavam e se apertavam num esforço supremo para permanecer imóvel. A ponta de sua cauda se contraía como se ela estivesse prestes a atacar.
Arya se levantou e se juntou a Eragon do outro lado de Saphira. A elfa também colocou uma das mãos no ombro do dragão, e os três ficaram olhando para a escuridão, unidos numa corrente viva.


Quando amanheceu, a primeira coisa que Eragon notou foi que todas as árvores agora tinham botões verdes e brilhantes nas pontas de seus ramos. Ele se curvou e examinou os arbustos aos seus pés e descobriu que todas as plantas, grandes e pequenas, haviam crescido de um jeito novo durante a noite. A floresta vibrava com a perfeição de suas cores, tudo era suntuoso, fresco e limpo. O ar rescendia como se tivesse acabado de chover.
Saphira se sacudiu ao lado de Eragon e disse: A febre passou, sou eu mesma novamente. Foram tantas coisas que senti... era como se o mundo estivesse nascendo novamente e eu estava ajudando a criá-lo com o fogo nos meus membros.
Como você está? Por dentro, quero dizer.
Vou precisar de algum tempo para entender o que vivenciei.
Desde que a música cessou, Arya retirou o encanto de Eragon e Orik. E disse:
— Lifaen. Narí. Vão à Sílthrim e arrumem cavalos para nós cinco. Não podemos andar daqui até Ellesméra. Além disso, alerte a capitã Damítha de que Ceris precisa de reforços.
Narí se curvou.
— E o que diremos quando ela perguntar por que desertamos do nosso posto?
— Diga a ela que aquilo que outrora esperava... e temia... ocorreu, o dragão mordeu a sua própria cauda. Ela vai entender.
Os dois elfos seguiram para Sílthrim depois que as embarcações foram esvaziadas. Três horas depois, Eragon ouviu um galho se partir e levantou os olhos para vê-los voltando pelo meio da floresta sobre garanhões brancos e altivos, que iam na frente de outras quatro montarias idênticas.
Os magníficos quadrúpedes seguiam em meio às árvores de um jeito sinistramente furtivo, e seus pelos brilhavam à luz esmeralda do crepúsculo. Nenhum deles usava selas ou arreios.
— Blöthr, blöthr — murmurou Lifaen, e seu cavalo parou, batendo com seus cascos negros no chão.
— Todos os seus cavalos são tão nobres quanto estes? — perguntou Eragon. Ele se aproximou de um deles cautelosamente, maravilhado com a sua beleza. Os animais eram apenas um pouco mais altos do que pôneis, o que tornava mais fácil a tarefa de seguir entre os troncos de árvores muito próximos. Não pareceram ter ficados apavorados com a presença de Saphira.
— Nem todos — riu Narí, jogando seu cabelo prateado para o lado —, mas a maioria. Nós os criamos há muitos séculos.
— Como é que eu vou andar num deles?
Arya explicou:
— Um cavalo elfo responde instantaneamente a comandos na língua antiga, diga aonde você quer ir que ele irá levá-lo. No entanto, não o trate com violência ou palavras ásperas, pois eles não são nossos escravos, e sim nossos amigos e parceiros. Só irão carregá-lo enquanto consentirem, é um grande privilégio poder montar um desses. Só consegui proteger o ovo de Saphira do Espectro porque nossos cavalos sentiram que algo estava errado e pararam antes que chegássemos à emboscada que tinha sido armada... Eles não deixarão você cair, a não ser que se jogue deliberadamente, e estão preparados para optar pelo caminho mais rápido e seguro no meio de um terreno perigoso. Os Feldûnost dos anões são assim.
— Razão você tem — grunhiu Orik. — Um Feldûnost pode subir e descer um despenhadeiro com você sem se machucar. Mas como poderemos carregar comida e tudo o mais sem selas? Eu não andarei num desses com uma saca cheia nas costas.
Lifaen jogou uma pilha de sacas de couro aos pés de Orik e apontou para o sexto cavalo.
— E nem terá de fazê-lo.
Levou meia hora para arrumar todos os suprimentos dentro das sacas e empilhá-las, formando um montículo cheio de protuberâncias nas costas do cavalo. Depois disso, Narí disse para Eragon e Orik as palavras para guiar os cavalos:
Ganga fram para seguir em frente, blöthr para parar, hlaupa se você precisar correr, e ganga aptr para voltar. Você poderá dar instruções mais precisas se souber um pouco mais de linguagem antiga. — Ele guiou Eragon até um dos cavalos e prosseguiu: — Este é Folkvír. Estenda a sua mão.
Eragon o fez e o garanhão bufou, dilatando suas narinas. Folkvír cheirou a palma da mão do Cavaleiro e depois a tocou com seu focinho, permitindo que Eragon acariciasse o seu pescoço grosso.
— Muito bem — disse Narí, parecendo satisfeito. O elfo fez Orik proceder da mesma forma com o cavalo seguinte.
Assim que Eragon montou em Folkvír, Saphira se aproximou. Ele levantou os olhos em sua direção, e notou o quanto ela ainda estava abalada por causa da noite. Só mais um dia, disse ele.
Eragon... Ela fez uma pausa. Pensei numa coisa enquanto estava sob a influência do encanto dos elfos, algo que sempre considerei como de pouca consequência, mas que agora se assoma dentro de mim como uma montanha de terror negro: toda criatura, não importa o quanto seja pura ou monstruosa, possui um parceiro da sua espécie. Contudo eu não tenho nenhum. Ela estremeceu e fechou os olhos. Sob esse aspecto, eu estou sozinha.
Suas afirmações lembraram a Eragon que ela tinha pouco mais do que oito meses de idade. Na maioria das ocasiões, sua juventude não ficava à mostra — devido à influência de seus instintos e lembranças hereditárias — mas, nesta seara, ela era muito mais inexperiente do que ele com suas ineficazes tentativas de engatar romances em Carvahall e Tronjheim. A compaixão brotava dentro de Eragon, mas ele a suprimiu antes que pudesse vazar através do seu elo mental. Saphira só sentiria desprezo por tal emoção: não poderia resolver o seu problema nem fazê-la sentir-se melhor. Em vez disso, ele disse: Galbatorix ainda tem dois ovos de dragão. Durante a nossa primeira audiência com Hrothgar, você mencionou que gostaria de resgatá-los. Se pudermos...
Saphira bufou amargamente. Pode levar anos, e mesmo se recuperássemos os ovos, não tenho garantias de que iriam romper, que seriam de um macho ou de que iríamos combinar. O destino abandonou a minha raça à extinção. Ela bateu o rabo com frustração, quebrando uma árvore nova ao meio. Corria o risco de chorar a qualquer momento.
O que posso dizer?, perguntou ele, perturbado com sua angústia. Você não pode abandonar as esperanças. Ainda tem a chance de encontrar um parceiro, mas precisa ser paciente. Mesmo se não der certo com os ovos de Galbatorix, devem existir dragões em algum lugar deste mundo, assim como existem humanos, elfos e Urgals. No momento em que acabarem as nossas obrigações, eu vou ajudá-la a encontrá-los. Tudo bem?
Tudo bem, torceu o nariz. Ela estendeu o pescoço para trás e soltou urna baforada de fumaça branca que se dispersou nos galhos altos. Eu devia me controlar para não deixar minhas emoções me dominarem.
Que bobagem. Você teria de ser feita de pedra para não sentir. É perfeitamente normal... Mas prometa que você não vai ficar muito tempo se sentindo assim enquanto estiver sozinha.
Ela o encarou com os olhos gigantes azuis-safira. Não vou. Ele ficou enternecido enquanto sentia a sua gratidão pela confiança restabelecida e pelo companheirismo. Inclinando-se para fora de Folkvír, ele colocou a mão sobre seu rosto áspero e o segurou por um instante. Vá em frente, pequenino, murmurou ela. Vejo você mais tarde. Eragon detestava deixá-la em tal estado. Ele entrou relutante no meio da floresta com Orik e os elfos, seguindo para oeste na direção do coração de Du Weldenvarden. Depois de passar uma hora meditando sobre a situação de Saphira, ele a mencionou para Arya.
Linhas sutis deixaram a testa de Arya franzida.
— É um dos maiores crimes de Galbatorix. Não sei se existe uma solução, mas podemos ter esperança. Temos de ter esperança.

Um comentário:

  1. Eu sou obrigado a comentar.
    EU AMO A SAPHIRA<3

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Boa leitura :)