22 de maio de 2017

Capítulo 24 - Um gostinho de Teirm

Depois de dois dias viajando em direção ao oceano, Saphira avistou Teirm. Uma névoa densa agarrava-se ao chão, prejudicando a visão de Brom e de Eragon, até que uma brisa vinda do oeste soprou a neblina para longe. Eragon ficou boquiaberto quando Teirm revelou-se em frente a eles de repente, aninhada à beira do mar cintilante, onde imponentes navios estavam atracados com suas velas recolhidas. O barulho contínuo das ondas estourando podia ser ouvido ao longe.
A cidade ficava protegida atrás de uma muralha branca – que tinha trinta metros de altura e nove metros de largura – com carreiras de fendas retangulares para os arqueiros lançarem as flechas em toda a sua extensão e uma passarela no topo para os soldados e sentinelas. A superfície lisa da muralha era quebrada por duas grandes portas metálicas levadiças em forma de grade, uma voltada para o mar ocidental, e a outra, para o sul, na direção da estrada. Acima da muralha – e assentada sobre sua porção nordeste – erguia-se uma enorme fortaleza, construída com pedras gigantescas e munida de várias torres. No torreão mais alto, a luz de um farol brilhava cintilante. O castelo era a única coisa visível acima das fortificações.
Soldados guardavam o portão sul, mas seguravam suas lanças negligentemente.
— Este será o nosso primeiro teste — disse Brom. — Vamos torcer para que não tenham recebido um alerta do Império contra nós e que não nos detenham. Não importa o que aconteça, não entre em pânico e não se comporte de modo misterioso.
Eragon disse a Saphira:
Agora, você devia pousar em algum lugar e se esconder. Nós vamos entrar.
Metendo o nariz onde não deve. De novo, disse ela de mau humor.
Eu sei. Mas Brom e eu temos alguns trunfos que a maioria das pessoas não tem. Nós ficaremos bem.
Se acontecer alguma coisa, vou prendê-lo nas minhas costas e nunca mais vou soltá-lo.
Eu também amo você.
Então, vou prendê-lo ainda mais forte.
Eragon e Brom cavalgaram em direção ao portão, tentando agir de modo casual. Uma flâmula amarela, que ostentava o contorno de um leão rugindo e um braço segurando um lírio, tremulava acima da entrada. Ao se aproximarem da muralha, Eragon perguntou admirado:
— Qual é o tamanho deste lugar?
— É maior do que qualquer cidade que você já viu — respondeu Brom.
Na entrada para Teirm, a postura dos guardas era mais ereta e bloqueavam o portão com suas lanças.
— Qual é o nome de vocês? — perguntou um deles, com um tom de voz desinteressado.
— Eu me chamo Neal — respondeu Brom com uma voz asmática, caminhando sem aprumo e com uma feliz expressão de tolice no rosto.
— E quem é o outro? — perguntou o guarda.
— Ora, eu já ia falar. Este é o meu sobrinho Evan. Ele é filho de minha irmã, não é...
O guarda sacudiu a cabeça impacientemente.
— Sei, sei. E o que veio fazer aqui?
— Ele veio visitar um velho amigo — respondeu Eragon, forçando um sotaque. — Só vim junto para ele não se perder, se é que você me entende. Ele já não é jovem... e pegou muito sol na cabeça quando era garoto. Parece que fritou os miolos, sabe?
Brom sacudiu a cabeça prazerosamente.
— Certo. Podem passar — disse o guarda, acenando e abaixando a lança. — Só tome cuidado para que ele não cause nenhum problema.
— Oh, ele não fará nada disso — prometeu Eragon. Ele tocou Cadoc para a frente, e entraram em Teirm. A rua calçada com pedras estalava embaixo dos cascos dos cavalos.
Assim que ficaram longe dos guardas, Brom sentou-se e reclamou:
— Parece que fritou os miolos, sabe?
— Eu não podia deixar você se divertir sozinho — provocou Eragon.
Brom limpou a garganta como um sinal de reprovação e olhou para o lado.
As casas eram austeras e sinistras. Janelas pequenas e profundas deixavam entrar apenas poucos raios de luz. Portas estreitas ficavam recuadas dentro das edificações. Os telhados eram planos, exceto por algumas armações de metal, e cobertos por telhas de pedra.
Eragon notou que as casas mais próximas à muralha de Teirm não tinham mais de um andar de altura e que as edificações iam ficando, gradativamente, mais altas conforme se afastavam. As mais perto da cidadela eram as mais altas de todas, embora fossem insignificantes comparadas à fortaleza.
— Este lugar parece estar pronto para a guerra — comentou Eragon.
Brom anuiu com a cabeça.
— A história de Teirm está repleta de ataques de piratas, Urgals e outros inimigos. Há muito tempo é um centro de comércio. Sempre haverá conflito onde os ricos ganham em abundância. As pessoas daqui foram forçadas a tomar medidas extraordinárias para evitar que fossem pilhadas. E o fato de Galbatorix dar-lhes soldados para protegerem a cidade também ajuda muito.
— Por que há casas mais altas do que outras?
— Olhe para a fortaleza — disse Brom apontando. — Tem uma vista sem obstruções de toda Teirm. Se a muralha for invadida, os arqueiros podem se posicionar em todos os telhados. E porque as casas da frente, perto da muralha, são mais baixas, os arqueiros das casas mais atrás podem atirar sem medo de atingir os seus colegas. Além disso, se os inimigos tomassem aquelas casas e colocassem seus arqueiros em cima delas, seria muito fácil atingi-los.
— Nunca vi uma cidade planejada dessa maneira — disse Eragon maravilhado.
— De fato, mas isso só foi feito depois que Teirm quase foi completamente incendiada por um ataque pirata — comentou Brom. Enquanto continuavam a subir a rua, as pessoas olhavam para eles desconfiadas, mas também não demonstravam um interesse maior.
Comparada à nossa recepção em Daret, desta vez fomos recebidos de braços abertos. Talvez Teirm ainda não saiba nada sobre os Urgals, pensou Eragon. Mas mudou de opinião quando um homem grande, de ombros largos, passou com uma espada na cintura. Havia outros sinais sutis de tempos conturbados: não havia crianças nas ruas, as pessoas ficavam de rosto fechado e muitas casas estavam vazias, com ervas daninhas crescendo entre as pedras que cobriam seus jardins.
— Parece que eles tiveram algum problema — observou Eragon.
— Igual a todos os outros lugares — disse Brom fechando a carranca. — Precisamos achar Jeod.
Dirigiram seus cavalos para o outro lado da rua, até uma taverna, e os amarraram em um pequeno poste.
— A Castanha Verde... Excelente — resmungou Brom, olhando para o letreiro desgastado enquanto ele e Eragon entravam no local.
O salão sombrio parecia ser inseguro. O fogo ardia lentamente na lareira, mas ninguém parecia se incomodar ao ponto de querer alimentá-lo com mais um pedaço de lenha. Poucas pessoas solitárias nos cantos bebericavam seus drinques com expressões mal-humoradas no rosto. Um homem que não tinha dois dedos, sentado em uma mesa mais distante, observava sua mão mutilada. O homem atrás do balcão do bar tinha um toque de cinismo nos lábios e segurava com as duas mãos um copo que não parava de limpar, embora estivesse quebrado.
Brom se encostou no balcão e perguntou:
— O senhor sabe onde posso encontrar um homem chamado Jeod?
Eragon ficou ao lado dele, mexendo na ponta do seu arco, que estava na altura de sua cintura. Embora a arma estivesse pendurada nas suas costas, Eragon queria que, naquele momento, ela estivesse em suas mãos.
O homem no bar disse em um tom de voz mais alto do que o nor mal:
— Ora, por que eu deveria saber? Acha que fico tomando conta de todos os grosseirões que vivem neste lugar no meio do nada? — Eragon recuou quando todos os olhos do lugar se voltaram para eles.
Brom continuou a falar suavemente:
— Será que isto poderia melhorar a sua memória? — Ele deslizou três moedas em cima do balcão do bar.
O homem ficou mais alegre e deixou o copo de lado.
— Pode ser — respondeu, abaixando seu tom de voz. — Mas a minha memória precisa de muito incentivo.
A expressão no rosto de Brom ficou mais séria, contudo ele deslizou mais moedas sobre o balcão. O homem atrás do bar chupava um dos lados das suas bochechas, demonstrando indecisão.
— Tudo bem — disse finalmente e fez o gesto de que ia pegar as moedas. Mas, antes que ele as tocasse, o homem que não tinha dois dedos disse lá da mesa dele:
— Gareth, o que você acha que está fazendo? Qualquer um na rua pode dizer a eles onde Jeod mora. Por que você está cobrando dinheiro deles?
Brom passou a mão nas moedas, jogando-as de volta na sua bolsa. Gareth lançou um olhar fulminante para o homem na mesa e, depois, se virou para eles e pegou o copo de novo. Brom foi até o estranho e disse:
— Obrigado. Meu nome é Neal. Este é Evan.
O homem ergueu sua caneca para eles.
— Martin. E, claro, já conheceram Gareth. — A voz dele era grave e áspera. Martin apontou para algumas cadeiras vazias. — Vamos, sentem-se. Não me incomodo. — Eragon pegou uma cadeira e ajeitou-a de modo que ficasse de costas para a parede e de frente para a porta. Martin ergueu uma sobrancelha, mas não fez nenhum comentário.
— Você acabou de me fazer economizar algumas coroas — disse Brom.
— O prazer foi todo meu. Mas não posso culpar Gareth, pois os negócios não têm sido muito bons ultimamente. — Martin coçou o queixo. — Jeod mora no lado oeste da cidade, bem ao lado de Angela, a herbolária. Vai fazer algum negócio com ele?
— Mais ou menos — respondeu Brom.
— Bem, ele não estará interessado em comprar nada, pois perdeu outro navio há poucos dias.
Brom aproveitou a divulgação desta notícia e perguntou com interesse:
— O que aconteceu? Não foram os Urgals, não é?
— Não — respondeu Martin. — Eles saíram da área. Ninguém os vê há quase um ano. Parece que foram para o sul e para o leste. Mas eles não são nosso maior problema. A maioria dos nossos negócios é feita com o comércio marítimo, como você deve saber muito bem. Então... — Ele parou para dar um gole em sua caneca. — Já faz alguns meses que alguém vem atacando nossos navios. Não são atos de pirataria comuns, pois só os navios que levam as mercadorias de certos comerciantes é que são atacados. Jeod é um deles. A coisa está tão feia que nenhum comandante aceita mercadorias daqueles comerciantes, o que dificulta a nossa vida aqui. Especialmente porque alguns deles dirigem as maiores empresas de comércio marítimo do Império. Estão sendo forçados a despachar suas mercadorias por terra, o que elevou os custos de modo absurdo, e suas caravanas nem sempre chegam aos seus destinos.
— Vocês têm alguma ideia de quem seja o responsável? Deve haver alguma testemunha — disse Brom.
Martin balançou a cabeça.
— Ninguém sobrevive aos ataques. Os navios saem e desaparecem, nunca mais voltam a ser vistos.
Martin se inclinou em direção a eles e disse baixinho:
— Os marinheiros dizem que é magia. — Ele concordou com a cabeça, piscou o olho e recostou-se na cadeira.
Brom pareceu ficar preocupado com as palavras dele.
— O que você acha?
Martin deu de ombros.
— Não sei. E acho que nunca saberei, a não ser que me aconteça a infelicidade de estar em um daqueles navios capturados.
— O senhor é marinheiro? — indagou Eragon.
— Não — resmungou Martin. — Pareço com um? Os comandantes me contratam para defender os navios contra os piratas. E aqueles ordinários não têm demonstrado muita atividade recentemente. Ainda assim, é um bom trabalho.
— Mas é perigoso — afirmou Brom.
Martin deu de ombros de novo e bebeu o que restava de sua cerveja. Brom e Eragon saíram do bar e dirigiram-se para o lado oeste da cidade, que era a região mais bonita em Teirm. As casas eram limpas, enfeitadas e grandes. As pessoas nas ruas usavam roupas caras e andavam com um ar de autoridade. Eragon sentiu-se deslocado, fora do seu ambiente.

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