27 de maio de 2017

Capítulo 24 - Flecha no coração

Cada dia desde a saída do entreposto de Ceris era um sonho nebuloso de tardes quentes em que se remava pelo lago Eldor e depois pelo rio Gaena. Em torno deles, a água gorgolejava através do túnel de pinheiros verdejantes que se enredavam cada vez mais fundo em Du Weldenvarden.
Eragon se via viajando com elfos encantadores. Narí e Lifaen estavam sempre sorrindo, gargalhando e entoando canções, especialmente quando Saphira estava por perto. Raramente olhavam para outra coisa ou falavam sobre outro assunto a não ser ela quando estavam em sua presença.
No entanto, os elfos não eram humanos, apesar da aparência similar. Eles se moviam com muita rapidez e fluidez para criaturas feitas de carne e sangue. E quando falavam, normalmente se valiam de expressões indiretas e de aforismos que deixavam Eragon mais confuso do que quando começaram. Em meio às suas explosões de alegria, Lifaen e Narí às vezes ficavam horas em silêncio, observando os arredores com um brilho embevecido e sereno em seus rostos. Se Eragon e Orik tentassem conversar com eles durante sua contemplação, recebiam apenas uma ou duas palavras como resposta.
Isso fez com que Eragon valorizasse o quanto Arya era franca e direta. De fato, ela parecia um tanto embaraçada quando estava perto de Lifaen e Narí, como se não tivesse mais certeza de como se comportar perante os seus iguais.
Da proa da canoa, Lifaen olhou para trás e disse:
— Diga-me, Eragon-finiarel... O que a sua gente canta nestes tempos tenebrosos? Lembro-me das epopeias e das baladas que ouvi em Ilirea... sagas falando dos seus reis e condes... mas isso foi há muito, mas muito tempo e as lembranças são como flores murchas na minha mente. Que novas obras a sua gente criou? — Eragon franziu a testa enquanto tentava se lembrar dos nomes das histórias que Brom havia recitado. Quando Lifaen as ouviu, ele balançou a cabeça tristemente e afirmou: — Muita coisa foi perdida. Nenhuma balada da corte sobreviveu e, para falar a verdade, nem boa parte da sua história ou arte, exceto pelos contos fantásticos que Galbatorix permitiu que florescessem.
— Brom chegou a nos falar da queda dos Cavaleiros — disse Eragon defensivamente. A imagem de um veado saltando sobre toros apodrecidos manifestou-se repentinamente por trás de seus olhos, vinda de Saphira, que havia saído para caçar.
— Ah, um homem valente. — Durante um minuto, Lifaen remou silenciosamente. — Nós também cantamos sobre a Queda... mas é raro. A maior parte de nós estava viva quando Vrael foi aniquilado, e ainda sofremos por causa de nossas cidades incendiadas... os lírios vermelhos de Éwayéna, os cristais de Luthivíra... e pelas nossas famílias assassinadas. O tempo não pode atenuar a dor dessas feridas, nem mesmo se milhares de quilômetros de anos se passarem e o próprio sol morrer, deixando o mundo flutuar numa noite eterna.
Orik resmungou mais ao fundo.
— Os anões sentem da mesma forma. Lembre-se, elfo, perdemos um clã inteiro para Galbatorix.
— E nós perdemos o nosso rei, Evandar.
— Nunca ouvi falar disso — surpreendeu-se Eragon.
Lifaen acenou com a cabeça enquanto os conduzia em torno de uma pedra submersa.
— Poucos souberam. Brom poderia ter lhe contado, ele estava lá quando o golpe fatal foi desferido. Antes da morte de Vrael, os elfos enfrentaram Galbatorix na planície de Ilirea em nossa tentativa final de derrotá-lo. Lá, Evandar...
— Onde fica Ilirea? — perguntou Eragon.
— É Urû’baen, garoto — disse Orik. — Era uma cidade elfa.
Sem se deixar perturbar pela interrupção, Lifaen prosseguiu:
— Como você diz, Ilirea era uma de nossas cidades. Nós a abandonamos durante a nossa guerra com os dragões, e então, séculos depois, os humanos a adotaram como sua capital, depois que o rei Palancar foi exilado.
Eragon disse:
— Rei Palancar? Quem foi ele? Foi por sua causa que o vale Palancar ganhou esse nome?
Desta vez o elfo se virou e o encarou, achando graça.
— Você tem tantas perguntas quanto folhas numa árvore, Argetlam.
— Brom era da mesma opinião.
Lifaen sorriu e deteve-se, como se quisesse reunir seus pensamentos.
— Quando seus ancestrais chegaram à Alagaësia, há oitocentos anos, vagaram por toda a sua extensão, buscando um lugar adequado para viver. No fim das contas, acabaram se instalando no vale Palancar, que ainda não tinha esse nome, como se fosse uma das poucas locações defensáveis que nós e os anões ainda não havíamos reivindicado. Lá, o seu rei, Palancar, começou a construir um poderoso estado. — O elfo hesitou: — Numa tentativa de expandir suas fronteiras, ele declarou guerra contra nós, embora não tivéssemos feito nenhuma provocação. Três vezes ele atacou e três vezes levamos a melhor. Nossa força amedrontou os nobres de Palancar e eles rogaram para que seu soberano promovesse a paz. Ele ignorou o Conselho. Depois disso, os lordes se aproximaram de nós com um tratado, que assinamos sem o conhecimento do rei. Com a nossa ajuda, Palancar foi usurpado e banido, mas ele, sua família e seus súditos se recusaram a deixar o vale. Como não tínhamos o desejo de assassiná-los, construímos a torre de Ristvak’baen para que os Cavaleiros pudessem zelar por Palancar e garantir que ele jamais subisse ao poder ou atacasse mais alguém na Alagaësia.
Lifaen fez mais uma pausa.
— Pouco tempo depois, Palancar foi morto por um filho que não quis esperar pelo curso da natureza. Consequentemente, a política familiar passou a consistir de assassinato, traição e outras depravações, reduzindo a casa de Palancar a uma sombra de sua antiga grandeza. No entanto, seus descendentes jamais partiram e o sangue dos reis ainda corre em Therinsford e Carvahall.
— Entendo — disse Eragon.
Lifaen levantou uma de suas sobrancelhas escuras.
— Entende mesmo? Isso tem um significado muito maior do que você pode pensar. Foi esse acontecimento que convenceu Anurin, o antecessor de Vrael na função de líder dos Cavaleiros, a permitir que os humanos se tornassem Cavaleiros, para evitar disputas similares.
Orik deu uma gargalhada que mais parecia um latido.
— Isso deve ter gerado alguma discussão.
— Foi uma decisão impopular — admitiu Lifaen. — Mesmo agora, alguns questionam a sua legitimidade. Causou tal discordância entre Anurin e a rainha Dellanir que ele se retirou do seu governo e estabeleceu os Cavaleiros em Vroengard como uma entidade independente.
— Mas se os Cavaleiros estavam separados do nosso governo, então como puderam manter a paz, como era esperado que fizessem? — perguntou Eragon.
— Eles não puderam — respondeu Lifaen. — Não até a rainha Dellanir perceber a sabedoria de ter os Cavaleiros livres de qualquer rei ou senhor restaurar seu acesso à Du Weldenvarden. Ainda assim, não lhe agradava o fato de que qualquer autoridade pudesse suplantar a sua.
Eragon franziu a testa.
— Mas não foi esse o problema todo?
— Sim... e não. Os Cavaleiros deviam impedir as quedas dos diferentes governos e raças, contudo, quem vigiava os vigilantes? Foi esse exato problema que provocou a Queda. Não existia ninguém que pudesse discernir as falhas do próprio sistema dos Cavaleiros, pois eles estavam acima do escrutínio e, por isso, acabaram perecendo.
Eragon acariciava a água — primeiro de um lado, depois de outro — enquanto pensava nas palavras de Lifaen. Seu remo trepidava em suas mãos enquanto cortava a corrente diagonalmente.
— Quem sucedeu Dellanir como rei ou rainha?
— Evandar. Ele assumiu esse trono complicado há quinhentos anos, quando Dellanir abdicou para estudar os mistérios da magia, e o manteve até sua morte. Agora, sua companheira, Islanzadí, nos governa.
— Isso é... — Eragon parou com a boca aberta. Ele ia dizer impossível, mas depois percebeu como tal afirmação soaria ridícula. Em vez disso, perguntou: — Os elfos são imortais?
Numa voz suave, Lifaen afirmou:
— Antes, nós éramos como vocês, radiantes, fugazes e tão efêmeros como o orvalho da manhã. Agora, nossas vidas se estendem interminavelmente pelos anos aborrecidos. Sim, somos imortais, embora ainda sejamos vulneráveis a ataques da carne.
— Vocês se tornaram imortais? Como? — O elfo se recusava a entrar em detalhes, embora Eragon o pressionasse. Finalmente, Eragon perguntou. — Quantos anos tem Arya?
Lifaen voltou seus olhos resplandecentes em sua direção, sondando Eragon com uma intensidade desconcertante.
— Arya? Qual é o seu interesse nela?
— Eu... — Eragon hesitou, subitamente incerto de suas intenções. Sua atração por Arya era complicada pelo fato de ela ser uma elfa e por sua idade, qualquer que fosse, ser muito maior que sua. Ela deve me ver como uma criança. — Não sei — disse ele honestamente. — Mas ela salvou tanto a minha vida quanto a de Saphira, e estou curioso para saber mais sobre a dela.
— Sinto-me envergonhado — disse Lifaen, pronunciando cada palavra cuidadosamente — por estar fazendo tal pergunta. Entre aqueles da nossa espécie, é insultuoso se intrometer nos assuntos de um semelhante... Só posso dizer, e acredito que Orik concorde comigo, que você faria bem em resguardar seus sentimentos, Argetlam. Agora não é a hora de se apaixonar, nem seria conveniente neste caso.
— Isso mesmo — resmungou Orik.
O calor se espalhava por Eragon enquanto o sangue lhe subia ao rosto, como sebo quente derretendo em seu interior. Antes que pudesse retrucar, Saphira entrou em sua mente e disse, Agora é hora de você guardar a sua língua. Eles querem o seu bem. Não os insulte.
Ele respirou fundo e tentou fazer com que o seu embaraço se dissipasse. Você concorda com eles?
Acredito, Eragon, que você está cheio de amor e que está procurando alguém para corresponder ao seu afeto. Não há vergonha nenhuma nisso.
Ele se esforçou para digerir suas palavras, até finalmente se pronunciar. Você irá voltar logo?
Agora estou a caminho.
Voltando sua atenção para os arredores, Eragon percebeu que o elfo e o anão o observavam.
— Entendo a sua preocupação... e ainda gostaria de ter a minha pergunta respondida.
Lifaen hesitou por pouco tempo.
— Arya é bem jovem. Ela nasceu um ano antes da destruição dos Cavaleiros.
Cem anos! Embora esperasse uma resposta como essa, ainda assim Eragon estava chocado. Escondeu sua reação atrás de um rosto inexpressivo, pensando, Ela poderia ter bisnetos mais velhos do que eu! Ele ficou pensando sobre o assunto durante alguns minutos e depois, para se distrair, disse:
— Você mencionou que os humanos descobriram a Alagaësia há oitocentos anos. Contudo, Brom disse que chegamos três séculos depois que os Cavaleiros se formaram, e isso se deu há milhares de anos.
— Dois mil setecentos e quatro anos, pelas nossas contas — declarou Orik. — Brom estava certo, se você considerar um navio com vinte guerreiros a “chegada” dos humanos na Alagaësia. Eles aportaram no sul, onde agora está Surda. Nós nos encontramos enquanto eles exploravam e trocavam presentes, mas depois eles partiram e não vimos outro humano durante quase dois milênios, ou até o rei Palancar chegar com uma frota a reboque. Os humanos haviam se esquecido completamente de nós àquela altura, exceto por histórias vagas sobre homens peludos das montanhas que caçavam crianças durante a noite. Ora!
— Você sabe de onde Palancar veio? — perguntou Eragon.
Orik franziu a testa e mordeu a ponta do seu bigode, para depois balançar a cabeça.
— Nossas histórias dizem apenas que sua terra natal era bem mais para o sul, além das Beor, e que seu êxodo foi resultado da guerra e da fome.
Entusiasmado, Eragon deixou escapar algo:
— Então devem haver países por aí que poderiam nos ajudar a enfrentar Galbatorix.
— Possivelmente — afirmou Orik. — Mas eles seriam difíceis de encontrar, até mesmo montado nas costas de um dragão, e duvido que você falaria a sua língua. Quem gostaria de nos ajudar, então? Os Varden têm pouco para oferecer a outro país, e é muito difícil fazer um exército se deslocar de Farthen Dûr para Urû’baen, quanto mais trazer forças de centenas, senão milhares de quilômetros de distância.
— De qualquer maneira, não poderíamos cedê-lo — disse Lifaen para Eragon.
— Eu ainda... — Eragon parou de falar assim que Saphira começou a pairar sobre o rio, seguida por um curioso bando de pardais e melros que queriam afastá-la de seus ninhos. Ao mesmo tempo, um coro de guinchos e chilros brotava da massa de esquilos escondidos no meio dos galhos das árvores.
Lifaen sorriu e gritou:
— Não é maravilhoso? Ver como suas escamas refletem a luz! Nenhum tesouro do mundo pode se equiparar a essa visão. — Exclamações semelhantes ditas por Narí fluíram por todo o rio.
— É insuportável, é isso que é — murmurou Orik por trás de sua barba. Eragon ocultou um sorriso, embora concordasse com o anão. Os elfos não se cansavam de elogiar Saphira.
Não há nada errado com alguns elogios, disse Saphira. Ela aterrissou espirrando uma quantidade gigantesca de água para todo lado e submergiu a cabeça para esquivar-se de um pardal que mergulhava.
É claro que não, afirmou Eragon.
Saphira o fitou por debaixo d’água. Isso foi sarcasmo da sua parte?
Ele deu uma risadinha e deixou para lá. Olhando para o outro barco, Eragon ficou vendo Arya remar. Suas costas perfeitamente retas, seu rosto impenetrável enquanto ela flutuava através de teias de luz mosqueada sob árvores musgosas. Ela parecia tão triste e sóbria que o fazia querer confortá-la.
— Lifaen — perguntou Eragon suavemente, de modo que Orik não ouvisse —, por que Arya está tão... infeliz? Você e...
Os ombros de Lifaen endureceram por debaixo da túnica avermelhada e ele sussurrou tão baixinho, que Eragon mal pôde ouvir.
— Sentimo-nos honrados por servir a Arya Dröttningu. Ela já sofreu mais do que você pode imaginar em favor de nossa gente. Celebramos com muita alegria o que ela realizou com Saphira, e choramos nos nossos sonhos por seu sacrifício... e sua perda. Porém, suas tristezas são só dela, e não posso revelá-las sem a sua permissão.


Enquanto Eragon se sentava diante da fogueira do acampamento noturno, afagando um pedaço de musgo que parecia pelo de coelho, ele ouviu uma comoção vinda do fundo da floresta. Depois de trocar olhares com Saphira e Orik, se arrastou em direção ao som, brandindo Zar’roc. Eragon parou na beira de um desfiladeiro e olhou para o outro lado, onde um gerifalte com a asa quebrada se agitava no meio de um canteiro de arbustos. A ave de rapina gelou quando o viu, para depois abrir o bico e dar um grito penetrante.
Que destino terrível, não ser capaz de voar, disse Saphira.
Quando Arya chegou, olhou para o gerifalte, apontou o arco, puxou a corda e, com uma mira infalível, acertou bem no peito do animal. A princípio, Eragon achou que ela tinha feito isso por causa de comida, mas ela não esboçou qualquer movimento para recuperar tanto a flecha quanto a ave.
— Por quê? — perguntou ele.
Com uma expressão inflexível, Arya afrouxou a corda do arco.
— O bicho estava ferido demais para que eu pudesse curá-lo e iria morrer hoje ou amanhã. Assim é a natureza das coisas. Impedi que ele tivesse horas de sofrimento.
Saphira baixou a cabeça e tocou o ombro de Arya com seu focinho, depois voltou para o acampamento, enquanto sua cauda roçava a casca das árvores. Assim que Eragon começou a segui-las, sentiu Orik puxar a manga de sua camisa e se agachou para ouvir o anão dizer em voz baixa:
— Nunca peça ajuda para um elfo, eles podem decidir que você estará melhor morto, hein?

Um comentário:

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Boa leitura :)