8 de maio de 2017

Capítulo 23

Sublime! Que nome!
Ela é Sarah, com cinco Ss
E com duas sílabas

NO COMEÇO, O MÉTODO Valdez funcionou perfeitamente bem.
Não encontramos nada para explodir, mas também não tivemos que pensar demais sobre muita coisa. Isso porque também adotamos o método McCaffrey, que envolvia sementes de chia.
Ao sairmos da sala do trono, precisamos decidir que corredor tomar. Meg tirou um pacote molhado de sementes do tênis. (Não me dei ao trabalho de perguntar por que guardava sementes ali.) Ela fez a chia brotar na palma da mão, e a pequenina floresta verde indicou o corredor da esquerda.
— Por ali — anunciou Meg.
— Que superpoder incrível — disse Leo. — Quando sairmos daqui, vou arrumar uma máscara e uma capa para você. Daqui para a frente vou chamar você de Garota Chia.
Eu esperava que ele estivesse brincando, mas Meg pareceu feliz da vida.
Os brotos de chia nos levaram por um corredor e depois por outro. Para um esconderijo subterrâneo no sistema de esgoto de Indianápolis, o local era bem opulento. Os pisos eram de ardósia, as paredes de pedra cinza eram decoradas com tapeçarias e monitores exibindo... isso mesmo, vídeos de Cômodo. Quase todas as portas de mogno tinham placas de bronze entalhadas com: SAUNA CÔMODO, QUARTOS DE HÓSPEDES CÔMODO 1-6, REFEITÓRIO DOS EMPREGADOS CÔMODO e, sim, BANHEIRO CÔMODO.
Não encontramos guardas, funcionários nem hóspedes. A única pessoa com quem topamos foi uma faxineira saindo do ALOJAMENTO DA GUARDA IMPERIAL CÔMODO com um cesto de roupa suja. Quando nos viu, seus olhos se arregalaram de terror. (Provavelmente porque estávamos mais sujos e úmidos do que qualquer coisa que ela tenha tirado do cesto de roupa suja dos germânicos.)
Antes que ela começasse a gritar, eu me ajoelhei na frente dela e cantei “You Don’t See Me”, de Josie e as Gatinhas. Os olhos da empregada ficaram úmidos e desfocados. Ela engoliu o choro, voltou para o alojamento e fechou a porta.
Leo assentiu.
— Mandou bem, Apolo.
— Não foi difícil. Essa melodia é maravilhosa para provocar amnésia a curto prazo.
Meg fungou.
— Teria sido mais legal bater na cabeça dela.
— Ah, até parece — protestei. — Você gosta quando eu canto.
As orelhas dela ficaram vermelhas. Eu me lembrei de como a jovem McCaffrey chorou quando botei o coração e a alma para fora na toca das formigas gigantes no Acampamento Meio-Sangue. Eu fiquei orgulhoso do meu desempenho, mas acho que Meg não queria reviver aquele momento. Ela me deu um soco na barriga.
— Não gosto nada.
— Ai!
Com a ajuda das sementes de chia, nos aprofundamos cada vez mais no complexo do imperador. O silêncio começou a pesar. Insetos imaginários rastejavam pelas minhas costas. Os homens de Cômodo já deviam ter resolvido o que quer que tivesse acontecido na entrada e provavelmente estavam retornando aos seus postos, talvez verificando câmeras de segurança em busca de invasores.
Finalmente, dobramos uma esquina e avistamos um blemmyae montando guarda na frente de uma porta de metal que guardava um cofre. O homem usava calça preta social e sapatos pretos lustrosos, mas nem tentava esconder o rosto peitoral. O cabelo nos ombros/cabeça era bem batidinho, estilo militar. O fio de um fone de segurança saía de debaixo da axila e ia até o bolso da calça. Ele não parecia estar armado, mas isso não me tranquilizou. Aqueles punhos enormes eram capazes de esmagar um pedalinho ou um Lester Papadopoulos.
Leo grunhiu baixinho.
— Esses caras de novo, não. — Ele abriu um sorriso e andou na direção do guarda. — Oi! Que dia lindo! Como vai?
O homem se virou, surpreso. Imaginei que o procedimento adequado seria alertar seus superiores sobre o invasor, mas uma pergunta fora dirigida a ele. Seria grosseria ignorar.
— Estou bem. — O guarda não conseguia decidir entre um sorriso simpático ou uma cara feia de intimidação. A boca deu um espasmo, dando a impressão de que ele estava fazendo uma abdominal. — Acho que você não deveria estar aqui.
— É mesmo? — Leo seguiu em frente. — Obrigado!
— De nada. Agora, por favor, coloque as mãos para cima.
— Assim?
Leo acendeu as mãos e queimou a cara peitoral do blemmyae.
O guarda cambaleou, engasgado com o fogo, batendo os cílios enormes que pareciam palmeiras em chamas. Procurou o botão do microfone preso ao fone.
— Posto doze — grunhiu ele. — Tenho...
As lâminas gêmeas douradas de Meg zuniram pela barriga dele, reduzindo-o a pó amarelo com um fone parcialmente derretido.
Uma voz soou no pequeno transmissor.
— Posto doze, favor repetir.
Peguei o dispositivo. Eu não tinha a menor vontade de usar uma coisa que já tinha estado no sovaco de um blemmyae, mas segurei o fone perto do ouvido e falei no microfone.
— Alarme falso. Tudo está chuchu lindeza. Obrigado.
— De nada — disse a voz no transmissor. — Senha diária, por favor.
— Ah, certamente! É...
Joguei o microfone no chão e o esmaguei com o pé.
Meg olhou para mim.
— Chuchu lindeza?
— Achei que um blemmyae diria algo do tipo.
— Nem é assim que se fala. É chuchu beleza.
— Uma garota que diz pessoalzinho divino está me corrigindo.
— Pessoal — disse Leo. — Fiquem de olho enquanto cuido desta porta. Deve haver alguma coisa importante aí dentro.
Fiquei de tocaia enquanto ele tentava abrir a porta. Meg, que não era tão boa em seguir instruções, voltou andando pelo caminho de onde tínhamos vindo. Então se agachou e começou a pegar as sementes de chia que tinha deixado cair quando conjurou as espadas.
— Meg — falei.
— Que foi?
— O que você está fazendo?
— Chia.
— Estou vendo isso, mas...
Eu quase falei são só brotos, mas me lembrei de uma vez que falei algo parecido para Deméter. A deusa me amaldiçoou, fazendo com que todas as peças de roupa que eu vestia imediatamente brotassem e florescessem. Imagine o desconforto ao colocar uma cueca de algodão e de repente a peça explodir em bolas de algodão de verdade, com caules e sementes bem onde... É, acho que você entendeu.
Meg recolheu os últimos brotos. Com uma das lâminas, quebrou o piso de ardósia. Plantou cuidadosamente a chia nas rachaduras e torceu a saia ainda molhada para regar as sementes.
Observei, fascinado, um pequeno espaço de vegetação verde crescer e florescer, abrindo novas rachaduras no piso. Quem podia imaginar que chia era tão robusta?
— Elas iam morrer logo, logo se continuassem na minha mão. — Meg se levantou com uma expressão obstinada. — Tudo que é vivo merece a chance de crescer.
O Lester que havia em mim achou aquele sentimento admirável. Já o Apolo não tinha tanta certeza. Ao longo dos séculos, conheci vários seres vivos que não pareceram dignos ou mesmo capazes de crescer. Alguns deles eu mesmo matei...
Ainda assim, eu desconfiava que Meg estivesse dizendo alguma coisa sobre si mesma. Ela aguentou uma infância horrível: a morte do pai, o abuso de Nero, que distorceu a mente dela para que o visse tanto como o padrasto gentil quanto como o terrível Besta. Apesar disso, Meg sobreviveu. Talvez por isso ela fosse capaz de sentir empatia por coisinhas verdes com raízes surpreendentemente fortes.
— Isso! — vibrou Leo. A porta do cofre fez um clique e se abriu. Leo se virou e sorriu. — Quem é o melhor, hein?
— Eu? — perguntei, mas logo desanimei. — Você não estava falando de mim, estava?
Leo me ignorou e entrou no cofre.
Fui atrás. Tive um déjà-vu intenso e desagradável ao entrar. Havia uma câmara circular com uma série de compartimentos com divisórias de vidro, como o local de treinamento do zoológico. Mas ali, em vez de animais, as jaulas eram ocupadas por pessoas.
Fiquei tão abalado que foi difícil respirar.
Na cela mais próxima, à minha esquerda, encolhidos em um canto, dois garotos dolorosamente magros me encaravam. As roupas estavam esfarrapadas. Sombras preenchiam os espaços fundos nas clavículas e costelas.
Na cela seguinte, uma garota de roupa camuflada cinza andava de um lado para o outro como um jaguar. O cabelo, na altura dos ombros, era branco, embora ela não parecesse ter mais do que quinze anos. Considerando o nível de energia e a ira dela, devia ser nova ali, capturada havia pouco tempo. Apesar de não ter arco, algo me dizia que era uma Caçadora de Ártemis. Quando ela me viu, andou até o vidro, bateu nele com os punhos e gritou com fúria, mas a voz estava abafada demais para eu entender as palavras.
Contei mais seis celas, todas ocupadas. No meio do aposento havia um poste de metal com ganchos e correntes, o tipo de objeto em que se prendiam escravos para inspeção antes da venda.
— Madre de los dioses — murmurou Leo.
Pensei que a Flecha de Dodona estivesse tremendo na minha aljava, mas percebi que quem estava tremendo era eu, tamanha era a raiva que sentia.
Sempre desprezei a escravidão. Em parte porque por duas vezes Zeus me fez mortal e me obrigou a trabalhar como escravo para reis humanos. A descrição mais poética que consigo oferecer sobre a experiência? Foi uma droga.
Mesmo antes disso, meu templo em Delfos criou uma forma especial de os escravos conquistarem a liberdade. Com a ajuda dos meus sacerdotes, milhares compraram a emancipação ao realizar um ritual chamado venda de confiança, pelo qual eu, o deus Apolo, passava a ser o novo dono deles e os tornava livres.
Bem mais tarde, os romanos me deixaram transtornado ao fazerem de minha terra sagrada, Delos, o maior mercado de escravos da região. Dá para acreditar na audácia? Mandei um exército furioso liderado por Mitrídates para corrigir a situação, massacrando vinte mil romanos no processo.
Mas, caramba, eles bem que mereceram.
Resumindo: a prisão de Cômodo me lembrava tudo que eu odiava dos tempos áureos.
Meg andou até a cela em que os dois garotos magrelos estavam. Com a ponta da lâmina, cortou um círculo no vidro e deu um chute. O pedaço se soltou e girou no chão como uma moeda transparente gigante.
Os garotos tentaram se levantar, mas estavam tão fracos que não conseguiram. Meg pulou lá dentro para ajudá-los.
— É isso aí — murmurou Leo, em aprovação.
Ele tirou um martelo do cinto de ferramentas e andou até a cela da Caçadora. Fez sinal para ela se afastar e jogou o objeto. O martelo quicou e voltou, quase acertando o nariz de Leo.
A Caçadora revirou os olhos.
— Tudo bem, sr. Folha de Vidro. — Leo jogou o martelo de lado. — Vai ser assim? Vamos ver quem é que manda!
As mãos dele arderam em fogo branco. Ele encostou o dedo no vidro, que começou a entortar e borbulhar. Em segundos, um buraco se formou na altura do rosto dele.
— Ótimo. Chegue para o lado — disse a garota de cabelo prateado.
— Espere, vou fazer uma saída maior — prometeu Leo.
— Não precisa.
A garota de cabelo prateado recuou, se jogou pelo buraco e caiu graciosamente com uma cambalhota ao nosso lado, pegando o martelo caído de Leo quando se levantou.
— Mais armas — exigiu a garota. — Preciso de mais armas.
Sim, pensei, definitivamente uma Caçadora de Ártemis.
Leo pegou algumas ferramentas.
— Hum, eu tenho uma chave de fenda, um arco de serra e... acho que isso é um fatiador de queijo.
A garota franziu o nariz.
— Você é um faz-tudo, é isso?
— É Lorde Faz-Tudo para você.
A garota pegou as ferramentas.
— Quero todas. — Ela me olhou de cara feia. — E seu arco?
— Você não pode pegar meu arco — falei. — Eu sou Apolo.
A expressão dela mudou de choque para compreensão e então para calma forçada. Acho que o infortúnio de Lester Papadopoulos era conhecido entre as Caçadoras.
— Certo — disse a garota. — As outras Caçadoras devem estar vindo. Eu estava mais perto de Indianápolis e resolvi fazer um reconhecimento de terreno. Obviamente, não tive muito sucesso.
— Na verdade — falei —, houve uma movimentação no portão principal alguns minutos atrás. Talvez suas companheiras já tenham chegado.
Os olhos dela ficaram sombrios.
— Então temos que ir. Logo.
Meg ajudou os garotos esqueléticos a saírem da cela. De perto, eles pareciam ainda mais frágeis, o que me deixou furioso.
— Prisioneiros nunca deveriam ser tratados assim — resmunguei.
— Até deram comida para eles, mas eles não aceitaram. Estavam fazendo greve de fome — disse a garota de cabelo prateado, com admiração. — Corajoso... para dois garotos. Sou Hunter Kowalski, a propósito.
Eu franzi a testa.
— Uma Caçadora chamada Hunter?
— Pois é, já ouvi isso um milhão de vezes. Vamos soltar os outros.
Não encontrei nenhum botão ou painel de interruptores para abrir as portas de vidro, mas com a ajuda de Meg e Leo começamos a libertar o restante dos prisioneiros. A maioria parecia ser humana ou semideusa (era difícil distinguir), mas uma era dracaena. Ela parecia bem humana da cintura para cima, mas onde deviam estar as pernas ondulavam duas cobras.
— Ela é simpática — garantiu Hunter. — Dividimos a cela ontem à noite, mas os guardas nos separaram. O nome dela é Sssssarah, com cinco “s”.
Isso bastava para mim. Nós a deixamos sair.
A câmara seguinte abrigava um jovem solitário que parecia lutador profissional. Usava apenas uma tanga vermelha e branca e um colar de contas das mesmas cores, mas não parecia estar despido.
Assim como deuses são muitas vezes representados nus porque são seres perfeitos, aquele prisioneiro não tinha motivo para esconder o corpo. Com a pele escura e reluzente, a cabeça raspada e os braços e peito musculosos, ele parecia uma escultura feita a partir da melhor madeira e que ganhou vida graças ao talento de Hefesto. (Eu não podia deixar de falar com ele sobre isso mais tarde.) Os olhos, também castanho-escuros, eram intensos e furiosos, lindos de um jeito que só coisas perigosas podem ser. No ombro direito havia um símbolo que não reconheci, uma espécie de machado de lâmina dupla.
Leo acendeu as mãos para derreter o vidro, mas a dracaena sibilou.
— Não essssse — avisou ela. — Perigoso demaisssss.
Leo franziu a testa.
— Moça, nós precisamos de amigos perigosos.
— Mas ele lutava por dinheiro. Foi contratado pelo imperador. Sssssó está aqui agora porque irritou Cômodo.
Observei o Alto, Bonito & Sensual. (Clichê, eu sei, mas ele realmente era tudo isso.) Não pretendia deixar ninguém para trás, principalmente alguém que ficava tão bem de tanga.
— Nós vamos soltar você — gritei pelo vidro, sem saber se ele conseguia me ouvir direito. — Por favor, não nos mate. Nós somos inimigos de Cômodo, o homem que botou você aqui.
A expressão de AB&S não mudou: era uma mistura de raiva, desdém e indiferença, a mesma cara que Zeus fazia todas as manhãs antes do néctar com infusão de café.
— Leo — falei. — Vá em frente.
Valdez derreteu o vidro. AB&S saiu com lentidão e graça, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Oi — falei. — Sou o deus imortal Apolo. Quem é você?
A voz dele ribombou como trovão.
— Sou Jamie.
— Um nome nobre — decidi —, digno de reis.
— Apolo — chamou Meg. — Venha aqui.
Ela estava olhando para a última cela. Claro que seria na última.
Encolhida no canto, sentada em uma mala de bronze familiar, estava uma garotinha com um suéter de lã lilás e calça jeans verde. No colo dela havia um prato de gororoba de prisão, que ela estava usando para pintar a parede com o dedo. Os tufos de cabelo castanho pareciam ter sido cortados por ela mesma com uma tesoura sem ponta. Ela era grande para a idade, mais ou menos do tamanho de Leo, mas o rosto infantil dizia que ela não devia ter mais que sete anos.
— Georgina — falei.
Leo fez cara feia.
— Por que ela está sentada em Festus? Por que o colocariam aí com ela?
Eu não sabia, mas fiz sinal para Meg cortar o vidro.
— Me deixe entrar primeiro — falei.
Eu passei pelo vidro.
— Georgie?
Os olhos da garota pareciam prismas fraturados, girando com pensamentos errantes e pesadelos andantes. Eu conhecia bem aquela expressão. Ao longo dos séculos, vi muitas mentes mortais destruídas pelo peso de uma profecia.
— Apolo. — Ela soltou uma explosão de gargalhadas, como se o cérebro estivesse com um vazamento. — Você e a escuridão. Umas mortes, umas mortes, umas mortes.

5 comentários:

  1. Todo mundo profetisa a morte do Apolo. Deviam apresentar ele pro Harry.

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    1. Não estão profetizando a morte dele, estão profetizando morte ao redor dele

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    2. Só falta verem o Sinistro na taça de Coca-Cola dele. Gente, como assim a mina de 7 anos é quase do tamanho do Leo. Nunca imaginei ele tão pequeno. Quase libertaram todos os prisioneiros, a contagem regressiva para dar m***a foi iniciada.

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  2. Apolo, Leo e Meg são um trio maravilhoso rsrs ainda mais o Leo e a Meg, são tão fofinhos, parecem irmãos ♡

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Boa leitura :)