22 de maio de 2017

Capítulo 23 - Uma canção na estrada

No dia seguinte, enquanto cavalgavam, Eragon perguntou a Brom:
— Como é o mar?
— Você já deve ter ouvido alguma descrição — respondeu Brom.
— Já, mas como é de verdade?
Os olhos de Brom ganharam um ar misterioso, como se estivesse contemplando uma cena oculta.
— O mar é a emoção encarnada. Ele ama, odeia e chora. Desafia todas as tentativas de registrar tal emoção com palavras e rejeita todos os grilhões. Não importa o que digamos sobre ele, sempre haverá algo que não conseguimos descrever. Lembra-se do que falei sobre como os elfos vieram do mar?
— Lembro.
— Embora vivam muito longe da costa, ainda preservam um grande fascínio e paixão pelo oceano. O som das ondas quebrando, o cheiro do ar salgado, isso os afeta profundamente e inspirou várias de suas músicas mais belas. Se você quiser ouvir, há uma canção que fala sobre esse amor.
— Eu quero — interessou—se Eragon.
Brom limpou a garganta e disse:
— Vou traduzi-la da língua antiga o melhor que puder. Não ficará perfeita, mas talvez possa lhe dar uma ideia de como é a música original. — Ele fez Fogo na Neve parar e fechou os olhos. Brom ficou em silêncio por um tempo e cantou de modo suave:

Ó sedução líquida sob o azul-celeste,
Sua formosa extensão me chama, me chama.
Na qual eu navegaria eternamente,
Não fosse pela elfa, que me chama, me chama.
Ela prendeu meu coração com um laço branco como o lírio,
Que nunca será rompido, protegido pelo mar,
Que pode ser retorcido pelas árvores e pelas ondas.

As palavras ecoaram repetidamente na mente de Eragon.
— Ainda há muito mais trechos dessa música, a “Du Silbena Datia”. Recitei apenas alguns versos. Ela conta a triste história de dois amantes, Acallamh e Nuada, que foram separados por um desejo pelo mar. Os elfos veem um grande significado nela.
— É bonita — disse Eragon, simplesmente.
A Espinha era uma sombra tênue no horizonte ao pararem naquela noite.


Quando chegaram ao contraforte da Espinha, mudaram de direção e seguiram para o sul. Eragon sentia-se feliz por estar junto das montanhas de novo; elas impunham ao mundo limites confortáveis. Três dias depois, chegaram a uma estrada larga sulcada por rodas de carroças.
— Esta é a via principal entre a capital, Uru’baen, e Teirm — informou Brom. — Ela é muito usada e é uma das rotas favoritas dos mercadores. Devemos ter mais cuidado. Esta não é a época mais movimentada do ano, mas algumas pessoas devem usar a estrada.
Os dias passavam rapidamente conforme continuavam a viajar acompanhando a Espinha, procurando a passagem no desfiladeiro. Eragon não podia reclamar de tédio. Quando não estava estudando a língua dos elfos, estava aprendendo a cuidar de Saphira ou praticando magia. Eragon também aprendeu a matar animais selvagens usando magia, o que poupava o tempo que eles gastavam caçando. Ele segurava uma pedra pequena na mão e a atirava na presa. Era impossível errar. Os frutos de seus esforços eram assados sobre a fogueira todas as noites. E, depois do jantar, Brom e Eragon lutavam usando espadas e, às vezes, os punhos.
Os dias longos e o trabalho exaustivo acabaram com quase todo o excesso de gordura do corpo de Eragon. Seus braços ficaram fortes, sua pele bronzeada era delineada por músculos definidos. Tudo relacionado a mim está ficando mais endurecido, pensou ele amargamente.
Quando, finalmente, chegaram à passagem, Eragon viu que um rio corria no meio dela e atravessava a estrada.
— Este é o Toark — explicou Brom. — Vamos acompanhá-lo até o mar.
— Como? — riu Eragon. — Se ele corre para fora da Espinha nesta direção? Não iremos parar no oceano a não ser que ele faça a volta em torno de si mesmo.
Brom rodou o anel em seu dedo.
— No meio das montanhas fica o lago Woadark. De cada uma das extremidades corre um rio e os dois se chamam Toark. Este que vemos é o que segue em direção ao oriente. Ele corre para o sul e atravessa o bosque até se unir ao lago Leona. O outro vai para o mar.
Depois de dois dias na Espinha, chegaram a uma plataforma na montanha de onde podiam ver muito além da cordilheira. Eragon notou como o terreno ficava plano ao longe e reclamou por causa dos quilômetros que ainda teriam de percorrer. Brom apontou:
— Lá embaixo, ao norte, fica Teirm. É uma cidade antiga. Alguns dizem que foi o primeiro lugar em que os elfos aportaram na Alagaësia. Suas fortificações nunca sucumbiram e seus guerreiros nunca foram derrotados. — Ele tocou Fogo na Neve com as esporas e saiu da plataforma.


Cavalgaram até o começo da tarde do dia seguinte para descer até o sopé da montanha e chegar ao outro lado da Espinha, onde o terreno coberto de florestas rapidamente se nivelava. Sem as montanhas para se esconder, Saphira voava perto do chão, fazendo uso de todas as depressões e declives na terra para se ocultar.
Além da floresta, notaram uma mudança. O terreno estava coberto por uma grama macia e por uma vegetação suave, na qual os pés deles afundavam. O musgo prendia-se a todas as pedras e galhos e delineavam a orla dos riachos que rendavam o terreno. Poças de lama pontilhavam a estrada onde os cavalos haviam pisado. Logo, tanto Brom quanto Eragon estavam cobertos de respingos de lama.
— Por que tudo é verde? — quis saber Eragon. — Eles não têm inverno aqui?
— Têm, mas a estação é branda. A névoa e a neblina que vêm do mar mantêm tudo vivo. Alguns gostam disso, mas, para mim, é sombrio e deprimente.
Quando a noite caiu, armaram acampamento no lugar mais seco que conseguiram achar. Enquanto comiam, Brom comentou:
— Você devia montar Cadoc até chegarmos a Teirm. É bem provável que encontremos outros viajantes, agora que saímos da Espinha, e será melhor se você estiver comigo. Um velho viajando sozinho levantará suspeitas. Com você ao meu lado, ninguém fará perguntas. Além disso, não quero aparecer na cidade e fazer alguém que me viu na estrada ficar imaginando de onde você surgiu de repente.
— Usaremos nossos nomes verdadeiros? — inquiriu Eragon.
Brom pensou por um instante.
— Não seremos capazes de enganar Jeod. Ele já sabe o meu nome, e acho que posso confiar o seu nome a ele. Mas, para todos os outros, eu serei Neal e você será o meu sobrinho Evan. Se nossas línguas nos traírem, acho que isso não fará muita diferença, mas não quero nossos nomes na memória de ninguém. As pessoas têm o irritante hábito de lembrar-se de coisas que não deviam.

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