27 de maio de 2017

Capítulo 23 - O rosto do seu inimigo

Enquanto Roran continuava a fazer o seu trabalho ao longo do resto do dia, sentia o esvaziamento de Carvahall no fundo da alma. Era como se uma parte de si próprio tivesse sido arrancada e escondida na Espinha. E sem as crianças, o vilarejo agora parecia um acampamento militar. A mudança pareceu ter deixado todos mais implacáveis e soturnos.
Quando o sol finalmente se pôs na garganta da Espinha, Roran subiu a colina que dava na casa de Horst. Parou diante da porta da frente, colocou a mão na maçaneta, mas permaneceu ali, sem ter como entrar. Por que isso me apavora mais do que lutar?
No fim das contas, desistiu de entrar por ali e foi até a lateral da casa, onde se enfiou cozinha adentro e, para seu desânimo, viu Elain tricotando num dos lados da mesa, falando com Katrina, à sua frente.
Ambas se viraram em sua direção e Roran deixou escapar uma pergunta:
— Você... você está bem?
Katrina foi até ele.
— Estou ótima. — Ela sorriu suavemente. — Foi um choque terrível para o meu pai... quando... — A moça abaixou a cabeça por um instante. — Elain foi maravilhosa comigo. Ela concordou em me emprestar o quarto de Baldor para passar a noite.
— Fico feliz em saber que você está melhor — disse Roran. Ele a abraçou, tentando transmitir todo o seu amor e adoração naquele simples toque.
Elain terminou seu trabalho de tricô.
— Venha logo. O sol se pôs, e é hora de você ir para a cama, Katrina.
Roran, relutante, largou Katrina, que lhe deu um beijo no rosto e disse:
— Vejo você pela manhã.
Ele começou a segui-la, mas parou quando Elain falou num tom corrosivo:
— Roran. — Seu rosto delicado estampava uma expressão severa e firme.
— Sim?
Elain esperou ambos escutarem o ranger das escadas que indicava Katrina fora do alcance de suas vozes.
— Espero que você sustente todas as promessas que fez para aquela rota pois, se não o fizer, convocarei uma assembleia e farei com que você seja exilado em uma semana.
Roran ficou aturdido.
— É claro que eu estava falando sério. Eu a amo.
— Katrina abandonou tudo o que tinha e gostava por sua causa. — Elain o encarou com um olhar resoluto. — Já vi homens que lançam o seu afeto sobre jovens donzelas, como se jogam grãos para galinhas. Tais donzelas suspiram, choram e acreditam que são especiais, contudo, para os homens, isso não passa de um mero passatempo divertido. Você sempre foi honesto, Roran, mas os quadris de uma moça podem transformar até mesmo a pessoa mais sensível num bobo saltitante ou numa raposa astuta e perniciosa. Você é uma delas? Pois Katrina não precisa de um bobo, de um malandro, e nem mesmo de amor, o que ela necessita é de alguém que possa sustentá-la. Se você a abandonar, ela se sentirá a pessoa mais humilhada de Carvahall, forçada a viver longe de seus amigos, nossa primeira e única mendiga. Pelo sangue que corre em minhas veias, não vou deixar isso acontecer.
— Nem eu deixaria — protestou Roran. — Eu teria de ser alguém sem coração, ou pior, para fazer isso.
Elain sacudiu o queixo.
— Exatamente. Não se esqueça de que você pretende casar com uma mulher que perdeu seus dotes e a herança de sua mãe. Você entende o que significa para Katrina perder a sua herança? Ela não tem prataria, roupas de cama e mesa, renda, e nenhuma daquelas coisas que são necessárias para cuidar bem de um lar. Tais itens são tudo o que possuímos, passados de mãe para filha desde o dia em que nos estabelecemos em Alagaësia. Eles determinam o nosso valor. Uma mulher sem sua herança é como... é como...
— Como um homem sem uma fazenda ou um negócio — afirmou Roran.
— Exatamente. Foi cruel da parte de Sloan negar a Katrina sua herança, mas isso não pode mais ser evitado. Tanto você quanto ela não possuem dinheiro ou recursos. A vida já é difícil o bastante sem essa privação adicional. Vocês estarão começando do nada e sem nada. Será que perspectiva o apavora ou lhe parece insuportável? Por isso lhe pergunto mais uma vez... e não minta, senão vocês dois se lamentarão disso pelo resto de suas vidas... você irá cuidar dela sem má vontade ou ressentimento?
— Sim.
Elain suspirou e encheu duas xícaras de barro com cidra de uma moringa pendurada entre as vigas. Ela ofereceu uma para Roran enquanto se sentava à mesa.
— Então sugiro que você se dedique à tarefa de repor a casa e a herança de Katrina, de modo que ela e quaisquer filhas que ambos venham a ter possam andar sem ter vergonha entre as mulheres de Carvahall.
Roran deu um gole na cidra fresca.
— Se é que vamos viver tanto tempo.
— É. — Ela jogou para trás uma das tranças do seu cabelo louro e balançou a cabeça. — Você optou por um caminho difícil, Roran.
— Tinha de assegurar que Katrina deixaria Carvahall.
Elain levantou uma sobrancelha.
— Assim foi. Bem, não vou discutir isso, mas por que diabos você não falou com Sloan sobre o seu noivado antes da manhã de hoje? Quando Horst falou com o meu pai, ele deu doze ovelhas, uma porca e oito pares de castiçais forjados a ferro para a minha família antes de saber qual a resposta de meus pais. É assim que a coisa tem de ser feita. Com certeza, você poderia ter pensado numa estratégia melhor do que agredir o seu futuro sogro.
Uma risada dolorosa saiu da boca de Roran.
— Eu poderia tê-lo feito, mas parecia que a hora certa nunca chegava com todos esses ataques.
— Os Ra’zac já não nos atacam há quase seis dias.
Ele franziu a testa.
— Não, mas... foi... ah, não sei! — Ele bateu com o punho na mesa, cheio de frustração.
Elain largou a xícara e segurou as mãos do amigo.
— Se você conseguir resolver essa rixa entre você e Sloan agora, antes que anos de ressentimento se acumulem, sua vida com Katrina será muito, mas muito mais fácil. Amanhã pela manhã você devia ir até a casa dele e implorar pelo seu perdão.
— Não implorarei nada. Não a ele.
— Roran, ouça-me. Para se ter paz na sua família, vale até um mês pedindo perdão. Sei por experiência, brigar não serve para nada a não ser para deixar você mais infeliz.
— Sloan odeia a Espinha. Ele não terá nada para tratar comigo.
— Porém, você precisa tentar — disse Elain sinceramente. — Mesmo se ele rejeitar as suas desculpas, pelo menos você não poderá ser culpado por tentar. Se você ama Katrina, então engula o seu orgulho e faça o que é certo para ela. Não faça com que ela sofra por causa do seu erro. — Ela terminou sua cidra, usou um elmo de aço para apagar as velas, e deixou Roran sentado sozinho no escuro.
Alguns minutos se passaram antes que Roran resolvesse se mexer. Ele estendeu um braço e ficou tateando a beirada do balcão até sentir o vão da porta e pôr-se a subir a escada apoiando os dedos nas paredes entalhadas para manter o equilíbrio. Em seu quarto, tirou a roupa e se jogou na cama.
Enquanto abraçava seu travesseiro forrado com lã, Roran ficou ouvindo os sons leves que vagavam pela casa durante a noite: o arrastar de um rato no sótão e seus guinchos intermitentes, o ranger das vigas de madeira que esfriavam durante a noite, o sussurro e a carícia do vento na verga da sua janela e... e o ruído de chinelos andando pelo corredor do lado de fora de seu quarto.
Ele ficou olhando enquanto o trinco acima da maçaneta era tirado do seu gancho e a porta se movia lentamente fazendo um ruído de protesto. Até que parou. Um vulto adentrou o recinto, a porta se fechou e Roran sentiu uma cortina de cabelos roçando o seu rosto, na altura dos lábios, como se fossem pétalas de rosa. Ele suspirou.
Katrina.


Uma trovoada violenta acordou Roran.
A luz brilhou em seu rosto enquanto ele lutava para recobrar a consciência, como se fosse um mergulhador desesperado para atingir à superfície. Abriu os olhos e viu um buraco aberto em sua porta. Seis soldados entraram pela fenda larga, seguidos pelos dois Ra’zac, que pareciam encher o quarto com sua presença medonha. Uma espada foi encostada no pescoço de Roran. Ao lado dele, Katrina gritava e puxava os cobertores para si.
— De pé — ordenaram os Ra’zac. Roran se levantou cautelosamente. Seu coração parecia que iria explodir dentro do peito. — Amarrem sssuasss mãosss e levem-no.
Assim que um dos soldados se aproximou de Roran com a corda, Katrina berrou e pulou sobre os homens, mordendo-os e arranhando-os furiosamente. Suas unhas afiadas abriram sulcos em seus rostos, fazendo brotar rios de sangue que cegaram os malditos soldados.
Roran se ajoelhou com uma só perna, e pegou seu martelo que estava no chão, para depois firmar os pés, girar o martelo sobre sua cabeça e rugir como um urso. Os soldados se jogaram sobre ele numa tentativa de subjugá-lo pelo número, mas de nada adiantou: Katrina estava em perigo e ele era invencível. Escudos se dobraram sob os seus golpes, brigandinas e cota de malha se rasgaram sob sua arma impiedosa e os elmos afundaram. Dois homens ficaram feridos e três caíram para não se levantar nunca mais.
O clangor e o alarido haviam despertado a casa, Roran ouviu vagamente Horst e seus filhos gritando na sala. Os Ra’zac sibilavam um para o outro, depois avançaram rapidamente e pegaram Katrina com uma força inumana, levantando-a do chão enquanto saíam do quarto.
— Roran! — gritou ela.
Reunindo forças, ele passou pelos dois homens que sobraram, derrubando-os. Entrou cambaleando na sala e viu os Ra’zac saindo por uma janela. Roran se lançou na direção dos dois e chegou a atingir o último Ra’zac, na hora em que ele estava prestes a descer pelo peitoril da janela.
Impulsionando-se para cima, o Ra’zac pegou o pulso de Roran no meio do ar e chilreou de alegria, projetando seu hálito fétido contra o rosto dele.
— Sssim! É vocccê que nósss queremosss!
Roran se retorceu todo para tentar se libertar, mas o Ra’zac não saiu do lugar. Com sua mão livre, Roran golpeou a cabeça e os ombros da criatura — que eram duros como ferro. Desesperado e enfurecido, agarrou a ponta do capuz do Ra’zac e o puxou para trás, expondo suas feições.
Um rosto medonho e atormentado gritou em sua direção. A pele era preta e brilhosa, como a carapaça de um besouro. A cabeça era calva. Cada olho sem pálpebra tinha o tamanho de um punho cerrado e brilhava como um globo ocular de hematita polida, sem íris ou pupila. No lugar do nariz, da boca e do queixo, um bico grosso preso a uma ponta afiada que estalava sobre uma língua púrpura e farpada.
Roran berrou e prendeu os calcanhares nas laterais da moldura da janela, lutando para se livrar da monstruosidade, mas o Ra’zac, inexoravelmente, o puxou para fora da casa. Ele pôde ver Katrina no chão, ainda gritando e lutando.
Assim que os joelhos de Roran se dobraram, Horst apareceu ao seu lado e envolveu o peito do amigo com o braço, abraçando-o e mantendo-o onde estava.
— Alguém vá pegar uma lança! — bradou o ferreiro. Ele rosnou, e as veias do seu pescoço ficaram salientes por causa do esforço para segurar — Vai ser preciso algo mais forte do que essas crias do demônio para nos superar!
Então o Ra’zac deu um puxão final e, ao ver que não conseguiu tirar Roran do lugar, levantou a cabeça e disse:
— Vocccê é nossso! — Ele deu um bote numa velocidade ofuscante e Roran berrou quando sentiu o bico do Ra’zac agarrando seu ombro direito rasgando sua musculatura. Seu pulso quebrou ao mesmo tempo. Com uma gargalhada maliciosa, que mais parecia um cacarejo, o Ra’zac o soltou e caiu para trás no meio da noite.
Horst e Roran caíram um em cima do outro no corredor.
— Eles estão com Katrina — suspirou Roran. Sua visão tremeu e escureceu enquanto ele tentava se levantar apoiado no braço esquerdo. O direito estava imprestável. Albriech e Baldor saíram do seu quarto, falando inarticuladamente. Só havia cadáveres atrás deles. Agora são oito assassinados por mim. Roran pegou seu martelo de volta e saiu cambaleando pela sala até ver que Elain, com sua roupa branca de dormir, estava bloqueando o seu caminho.
Ela o encarava com os olhos arregalados, então pegou o braço dele e o empurrou sobre um baú de madeira que estava encostado na parede.
— Você precisa ver Gertrude.
— Mas...
— Acabará desmaiando se não estancar esse sangramento.
Ele olhou para baixo, à direita, e viu que seu corpo estava ensopado de vermelho.
— Temos que resgatar Katrina antes que... — Ele apertava os dentes enquanto a dor oscilava — eles façam alguma coisa com ela.
— Ele tem razão, não podemos esperar — afirmou Horst, assomando-se sobre os dois. — Encha-o de bandagens o melhor que puder, em seguida iremos. — Elain franziu os lábios e correu para o armário onde estavam as roupas de cama. Ela voltou com alguns farrapos, amarrou-os firmemente em volta do ombro rasgado e do pulso fraturado. Enquanto isso, Albriech e Baldor remexeram nos cadáveres dos soldados e pegaram as armaduras e as espadas dos soldados. Horst se contentou com apenas uma lança.
Elain colocou as mãos no peito de Horst e disse:
— Tenham cuidado. — E olhou para seus filhos. — Todos vocês.
— Ficaremos bem, mãe — prometeu Albriech. Ela deu um sorriso forçado e os beijou no rosto.
Deixaram a casa e correram para os limites de Carvahall, onde descobriram que a muralha de árvores havia sido destruída e o vigia, Byrd, assassinado. Baldor se agachou e examinou o corpo, para depois dizer com a voz abafada:
— Ele foi apunhalado pelas costas. — Roran mal o ouviu devido à forte palpitação em seus ouvidos. Tonto, ele se recostou numa casa e ofegou em busca de ar.
— Ei, quem vem aí?
Vindos de seus postos no perímetro de Carvahall, os outros vigias se reuniram em volta de seu compatriota assassinado, formando um amontoado de lanternas fechadas. Num tom de voz calmo, Horst descreveu o ataque e explicou qual era a situação de Katrina.
— Quem vai nos ajudar? — perguntou ele. Depois de uma rápida discussão, cinco homens concordaram em acompanhá-los, o resto ficaria para vigiar a brecha na muralha e despertar os moradores do vilarejo.
Levantando-se de onde estava encostado, Roran andou rapidamente para encabeçar o grupo enquanto este seguia pelos campos, descendo o vale, em direção ao acampamento dos Ra’zac. Cada passo era uma agonia, contudo isso não tinha importância, nada importava a não ser Katrina. Deu um passo em falso e Horst, sem falar nada, o pegou.
A oitocentos metros de Carvahall, Ivor avistou um sentinela num morrote, o que os obrigou a dar uma volta grande. Algumas centenas de metros mais adiante, o brilho rubro das tochas ficou visível. Roran ergueu seu braço bom para que todos avançassem mais lentamente, e depois começaram a se esquivar e rastejar no meio da grama, assustando um coelho. Os homens seguiam Roran enquanto ele abria caminho até a beira de uma plantação de amentilhos, onde ele parou e abriu a cortina de pedúnculos para observar os treze soldados que restavam.
Onde ela está?
Ao contrário de quando eles lá chegaram pela primeira vez, os soldados pareciam emburrados e famintos, suas armas destruídas e suas armaduras amassadas. A maior parte deles usava bandagens que estavam manchadas de sangue seco. Os homens estavam reunidos, de frente para os dois Ra’zac — ambos agora estavam encapuzados — em torno de uma fogueira baixa.
Um dos homens gritava:
—... quase metade de nós foi morta por um bando de roedores inatos com cérebro de moluscos que não conseguem distinguir um pique de uma machadinha ou encontrar a ponta de uma espada, mesmo se estiver enfiada nas suas tripas, porque vocês não têm metade da sensibilidade que o rapaz que carrega o estandarte tem! Não me importa se Galbatorix lambe as suas botas até elas ficarem limpas, não faremos nada até que tenhamos um novo comandante. — Os homens acenaram com a cabeça. — Um que seja humano.
— Sssério? — perguntou um dos Ra’zac, delicadamente.
— Já nos cansamos de receber ordens de corcundas como vocês, com todos os seus estalidos e apitando feito bules de chá... isso nos deixa doentes! E não sei o que vocês fizeram com Sardson, mas se ficarem por aqui mais uma noite, enfiaremos aço dentro de vocês e descobriremos se sangram também. Vocês podem deixar a garota, contudo, ela será...
O homem não teve chance de continuar, pois o Ra’zac maior pulou por cima da fogueira e caiu sobre os seus ombros, como se fosse um corvo gigante. Gritando, o soldado caiu devido ao peso do oponente. Ele tentou sacar sua espada, mas o Ra’zac bicou seu pescoço duas vezes e o sujeito se calou.
— Temos de enfrentar aquilo? — murmurou Ivor por trás de Roran.
Os soldados permaneceram chocados e congelados enquanto os dois Ra’zac se afastaram do pescoço do cadáver. Quando as criaturas negras se ergueram, ambas esfregaram as mãos nodosas, como se as estivessem lavando, e disseram:
— Sssim. Nósss iremosss. Fiquem ssse quissserem, osss reforçççosss devem chegar em poucosss diasss. — Os Ra’zac jogaram as cabeças para trás e começaram a uivar para o céu, os gritos iam ficando cada vez mais agudos até ultrapassarem o alcance da audição.
Roran também levantou os olhos. A princípio ele não viu nada, mas então um horror inominável o arrebatou enquanto duas sombras farpadas apareceram bem acima da Espinha, eclipsando as estrelas. Elas avançavam rapidamente, ficando cada vez maiores até turvar metade do céu com sua presença agourenta. Um vento impuro circulou por toda a região, trazendo junto com ele um miasma sulfuroso que fez Roran tossir e ficar com ânsia de vômito.
Os soldados foram igualmente afetados, seus palavrões ecoavam enquanto usavam mangas e lenços para cobrir os narizes. Acima deles, as sombras pararam e então começaram a flutuar bem baixo, circundando o acampamento tal como uma cúpula de trevas ameaçadoras. As tochas pálidas bruxuleavam e ameaçavam se extinguir, contudo forneciam luz suficiente para revelar as duas bestas que desciam em meio às tendas.
Seus corpos estavam nus e não possuíam pelos — como ratos recém-nascidos — tinham uma pele de couro cinzenta esticada em volta dos peitos e das barrigas. Na aparência, eles se assemelhavam a cães famintos, exceto pelas patas traseiras que eram suficientemente inchadas de músculos para quebrar uma pedra grande e arredondada. Um penacho curto se estendia pela parte de trás de suas cabeças delgadas, no lado oposto havia um bico longo, reto e escuro feito para atravessar as vítimas, e olhos frios e bulbosos iguais aos dos Ra’zac. Dos seus ombros e costas brotavam asas enormes que faziam o ar gemer sob o seu peso.
Jogados no chão, os soldados se agachavam e escondiam seu rosto dos monstros. Uma inteligência terrível e estranha emanava das criaturas, evidenciando uma raça bem mais velha e poderosa do que os humanos. Roran subitamente temeu que sua missão pudesse falhar. Atrás dele, Horst sussurrava para os homens, incitando-os a ficarem onde estavam e permanecerem escondidos, caso contrário poderiam acabar sendo assassinados.
Os Ra’zac se curvaram para as criaturas, para depois se enfiarem numa tenda e voltarem carregando Katrina — que estava amarrada com cordas — e conduzindo Sloan. O açougueiro andava livremente. Roran ficou olhando a cena, incapaz de compreender como Sloan havia sido capturado. Sua casa não fica nem um pouco perto da de Horst. Até que lhe veio algo:
— Ele nos traiu — disse Roran estupefato. Seu punho apertou lentamente o cabo do seu martelo enquanto a verdadeira face tenebrosa da situação explodia em seu íntimo. — Ele matou Byrd e nos traiu! — Lágrimas furiosas correram pelo seu rosto.
— Roran — murmurou Horst, agachado ao seu lado. — Não podemos atacar agora, eles iriam nos massacrar. Roran... você está me ouvindo?
Ele não ouviu nada, a não ser um sussurro à distância, enquanto via o Ra’zac menor pular sobre uma das feras, acima dos seus ombros, e depois pegar Katrina no momento em que o outro Ra’zac a jogou para cima. Sloan parecia perturbado e amedrontado naquele momento. Começou a discutir com os Ra’zac, balançando a cabeça e apontando para o chão.
Finalmente, o Ra’zac o atingiu em cheio na boca, deixando-o inconsciente. Ao montar na segunda fera, com o açougueiro pendurado no ombro, o Ra’zac de maior estatura declarou:
— Voltaremosss asssssim que for ssseguro. Matem o garoto e sssuasss vidasss chegarão ao fim. — Depois disso, as montarias flexionaram suas enormes coxas e pularam para o céu, tornando-se mais uma vez sombras sob um campo de estrelas.
Não restaram palavras ou emoções para Roran. Ele estava completamente arrasado. Tudo o que restava era matar os soldados. Ele se levantou e ergueu o martelo, como se estivesse se preparando para atacar mas, mas quando deu o primeiro passo, sua cabeça começou a palpitar junto com ombro ferido, o chão desapareceu numa explosão de luz e o guerreiro tombou inconsciente.

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