8 de maio de 2017

Capítulo 22

Arraso no poema
Sobre a beleza do esgoto
É bem curto. Acabou

AO ANDAR COM ÁGUA congelante até os ombros, fiquei até com saudades do Zoológico de Indianápolis. Ah, os simples prazeres da vida, como se esconder de germânicos assassinos, destruir trenzinhos e fazer serenata para grifos zangados!
O som da serpente batendo na grade foi ficando para trás aos poucos. Andamos por tanto tempo que fiquei com medo de morrermos de hipotermia antes de alcançarmos nosso destino. Mas aí vi uma pequena câmara mais elevada na lateral do túnel, talvez uma antiga plataforma de serviço.
Saímos da água verde, imunda e gelada para descansar. Meg e eu nos encostamos um no outro enquanto Leo tentava fazer fogo.
Na terceira tentativa, sua pele crepitou, chiou e finalmente se acendeu em chamas.
— Se aproximem, crianças. — O sorriso dele parecia diabólico com o fogo laranja se espalhando pelo rosto. — Não tem nada como um Leo ardente para aquecer vocês!
Tentei chamá-lo de idiota, mas meus dentes estavam batendo tanto que só saiu:
— Id... id... id... id... id...
O lugar logo estava carregado com o cheiro de Meg e Apolo requentados: maçãs assadas, mofo, cecê e só um toque de magnificência. (Vou deixar você adivinhar qual aroma foi a minha contribuição.) Meus dedos foram de azul a cor-de-rosa novamente. Consegui voltar a sentir as pernas o suficiente para ficar incomodado com o grilhão de ferro me esfolando. Até consegui falar sem gaguejar.
Quando Leo nos julgou secos o bastante, apagou sua fogueira pessoal.
— Ei, Apolo, mandou bem.
— Com o quê? — perguntei. — O afogamento? Os berros?
— Que nada, cara. O jeito como você derrubou aquela parede. Você devia fazer isso mais vezes.
Puxei um pedaço de plástico azul-petróleo que estava grudado no meu casaco.
— Como um semideus irritante me disse uma vez: Nossa, por que eu não pensei nisso? Já expliquei, não consigo controlar esses surtos de poder. De alguma forma, naquele momento, encontrei minha voz divina. A argamassa usada nos tijolos ressoa a determinada frequência. É melhor manipulada por um barítono com cento e vinte e cinco decibéis...
— Você me salvou — interrompeu Meg. — Eu ia morrer. Pode ter sido por isso que você recuperou sua voz.
Eu estava relutante em admitir, mas ela talvez estivesse certa. Na última vez em que tive uma explosão de poder divino, na floresta do Acampamento Meio-Sangue, meus filhos Kayla e Austin estavam prestes a serem queimados vivos. Fazia sentido que a preocupação com os outros agisse como um gatilho para os meus poderes. Afinal, eu era altruísta, atencioso e um cara muito legal.
Ainda assim, achei irritante que meu próprio bem-estar não fosse suficiente para me dar força divina. Minha vida também era importante!
— Bom — falei —, estou feliz por você não ter morrido esmagada, Meg. Algum osso quebrado?
Ela tocou na caixa torácica.
— Não. Estou bem.
Os movimentos rígidos, a pele pálida e os olhos entreabertos me indicavam outra coisa. Ela estava com mais dor do que admitiria. No entanto, até voltarmos para a enfermaria da Estação Intermediária, não havia muito o que fazer por ela. Mesmo se eu tivesse um kit de primeiros socorros adequado, enfaixar as costelas de uma garota que quase morreu esmagada poderia atrapalhar mais do que ajudar.
Leo olhou para a água verde-escura. Parecia mais pensativo do que o habitual, ou talvez só desse essa impressão porque não estava mais em chamas.
— Em que você está pensando? — perguntei.
Ele olhou para mim, sem comentário mordaz, sem sorriso brincalhão.
— Apenas... Oficina Leo e Calipso: conserto de automóveis e de monstros mecânicos.
— O quê?
— Uma brincadeira que eu e Cal fazíamos.
Não pareceu muito engraçado. Por outro lado, o humor mortal nem sempre chegava aos meus padrões divinos. Eu me lembrei de Calipso e Leo conversando com Emmie no dia anterior, enquanto andavam pelo salão.
— Tem alguma coisa a ver com o que Emmie estava dizendo para vocês? — arrisquei.
Leo deu de ombros.
— Coisas para o futuro. Nada com que se preocupar.
Como um ex-deus da profecia, sempre considerei o futuro uma fonte maravilhosa de preocupação. Mas decidi não insistir no assunto. Agora, o único objetivo futuro que importava era me levar de volta ao Monte Olimpo para que o mundo pudesse mais uma vez apreciar minha glória divina. Eu tinha que pensar no bem maior.
— Bem — falei —, agora que estamos aquecidos e secos, acho que está na hora de voltar para a água.
— Divertido — disse Meg. Ela pulou primeiro.
Leo foi na frente, mantendo uma das mãos em chamas acima da água para iluminar o caminho.
De tempos em tempos, pequenos objetos saíam flutuando dos bolsos do cinto de ferramentas dele e passavam por mim: rolos de velcro, bolinhas de isopor, até alguns daqueles arames que se usa para fechar embalagem de pão.
Meg protegia nossa retaguarda, as espadas gêmeas brilhando na escuridão. Eu reconhecia que ela era habilidosa ao lutar, mas queria que tivéssemos uma ajudinha extra. Um semideus filho da deusa dos esgotos Cloacina seria bom... E olha que esta é a primeira vez que tive esse pensamento deprimente.
Eu me arrastava no meio, tentando evitar lembranças da minha viagem indesejada por uma dependência de tratamento de esgotos em Biloxi, Mississippi, anos atrás. (Aquele dia teria sido um desastre total, se não fosse o show improvisado que fiz com o Lead Belly.)
A correnteza se tornou mais forte, nos empurrando. À frente, percebemos o brilho de luzes elétricas, o som de vozes. Leo apagou o fogo da mão. Virou-se para nós e levou um dedo aos lábios.
Depois de seis metros, chegamos a um segundo conjunto de barras douradas. Além delas, o esgoto se abria em um espaço bem mais amplo, no qual a água corria na contracorrente, parte entrando no nosso túnel. Era mais difícil ficar de pé com a força do fluxo.
Leo apontou para a grade dourada.
— Isso funciona à base de uma tranca de clepsidra — disse ele baixinho, para que só a gente ouvisse. — Acho que consigo abrir sem fazer barulho, mas fiquem de olho só para o caso de... sei lá... serpentes gigantes.
— Temos fé em você, Valdez.
Eu não tinha ideia do que era uma tranca de clepsidra, mas, convivendo com Hefesto, aprendi que era melhor demonstrar otimismo e, como manda a educação, certo interesse, senão o funileiro se ofendia e parava de fazer brinquedos novinhos em folha com que eu pudesse brincar.
Não demorou muito para Leo destrancar a grade. Nenhum alarme soou. Nenhuma mina naval explodiu na nossa cara.
Entramos na sala do trono que havia aparecido na minha visão.
Felizmente, estávamos com água até o pescoço em um dos canais abertos que ladeavam a câmara, então eu duvidava que alguém pudesse nos ver com facilidade. Junto à parede atrás de nós, vídeos de Cômodo passavam sem parar nas telas gigantes.
Seguimos com dificuldade até o outro lado do canal.
Se você já tentou andar imerso em uma correnteza forte, sabe como é difícil. Além do mais, se você já tentou fazer isso, posso perguntar por quê? É completamente exaustivo. A cada passo, eu temia que o fluxo fosse me levar e me jogar nas entranhas de Indianápolis. Mas, não sei bem como, conseguimos chegar ao outro lado.
Espiei pela beirada do canal e me arrependi na mesma hora.
Cômodo estava bem ali. Graças aos deuses, tínhamos parado um pouco atrás do trono dele, então nem ele nem os guardas germânicos nos viram. A pessoa mais detestável de Nebrasca, Litierses, estava ajoelhada em frente ao imperador, na minha direção, mas com a cabeça baixa. Eu me encolhi antes que ele pudesse me ver. Fiz um gesto para os meus amigos. Silêncio. Droga. Nós vamos morrer.
Ou algo do gênero. Eles pareceram captar a mensagem. Tremendo muito, eu me encostei na parede e ouvi a conversa se desenrolando acima de nós.
— ... parte do plano, senhor — dizia Litierses. — Agora nós sabemos onde fica a Estação Intermediária.
Cômodo grunhiu.
— Eu sei, eu sei. A antiga Union Station. Mas Cleandro revirou aquele lugar várias vezes e não encontrou nada.
— A Estação Intermediária fica lá — insistiu Litierses. — Os dispositivos de rastreamento que coloquei nos grifos funcionaram perfeitamente. O local deve estar protegido por algum tipo de magia, mas não vai resistir às escavadeiras dos blemmyae.
Meu coração subiu acima do nível da água, o que o deixou em algum lugar entre minhas orelhas.
Não ousei olhar para os meus amigos. Eu tinha falhado novamente. Sem querer, havia entregado a localização do nosso abrigo.
Cômodo suspirou.
— Tudo bem. Mas quero Apolo capturado e trazido para mim acorrentado! A cerimônia de nomeação é amanhã. Nosso ensaio é, tipo, agora. Quando você consegue destruir a Estação Intermediária?
Litierses hesitou.
— Precisamos fazer um reconhecimento das defesas deles antes. E reunir nossas tropas. Dois dias?
— DOIS DIAS? Não estou pedindo para você atravessar os Alpes! Quero que aconteça agora!
— Amanhã no máximo, senhor, garanto — disse Litierses. — Definitivamente amanhã.
— Hum. Definitivamente estou começando a duvidar de você, filho de Midas. Se você não resolver...
Um alarme eletrônico soou na câmara. Por um momento, achei que tivéssemos sido descobertos. Posso ou não ter me aliviado um pouco no canal. (Não conte para Leo. Ele estava corrente abaixo.)
E então, do outro lado do salão, uma voz gritou em latim:
— Incursão no portão principal!
Litierses grunhiu.
— Vou lidar com isso, senhor. Não tema. Guardas, comigo!
Passos pesados sumiram ao longe.
Olhei para Meg e Leo, que estavam me fazendo a mesma pergunta silenciosa: Mas que Hades?
Eu não tinha ordenado uma incursão no portão principal. Nem havia ativado o grilhão de ferro no meu tornozelo. Não sabia quem seria tolo a ponto de fazer um ataque à entrada principal desse palácio subterrâneo, mas Britomártis tinha prometido procurar as Caçadoras de Ártemis. Talvez aquele fosse o tipo de manobra tática que elas planejariam para tentar distrair a segurança de Cômodo e evitar que nos detectassem. Teríamos tanta sorte assim? Acho que não. Era mais provável que alguém vendendo assinatura de revista tivesse tocado a campainha do imperador e estivesse prestes a se deparar com uma recepção bem hostil.
Olhei de novo pela beirada do canal. Cômodo estava sozinho com apenas um guarda. Talvez pudéssemos dominá-los, três contra dois?
Só que estávamos a ponto de desmaiar de hipotermia, Meg provavelmente tinha umas costelas quebradas e, no melhor dos casos, meus poderes eram imprevisíveis. No time adversário, tínhamos um assassino bárbaro treinado e um imperador semidivino com uma reputação merecida de possuir força sobre-humana. Achei melhor ficar quieto.
Cômodo olhou para o guarda-costas.
— Alaric.
— Lorde?
— Acho que sua hora está chegando. Estou ficando impaciente com meu prefeito. Há quanto tempo Litierses está no cargo?
— Um dia, meu senhor.
— Parece uma eternidade! — Cômodo bateu com o punho no braço do trono. — Assim que ele der cabo dos invasores, quero que você o mate.
— Sim, senhor.
— Quero que você dizime a Estação Intermediária amanhã de manhã no máximo. Você consegue fazer isso?
— Claro, senhor.
— Que bom! Vamos fazer a cerimônia de nomeação imediatamente em seguida, no coliseu.
— É um estádio, senhor.
— É a mesma coisa! E a Caverna da Profecia? Está segura?
Senti como se tivesse levado um choque tão forte que me perguntei se Cômodo tinha colocado enguias-elétricas no canal.
— Segui suas ordens, senhor — disse Alaric. — Os animais estão no lugar certo. A entrada está bem protegida. Ninguém vai conseguir entrar.
— Perfeito! — Cômodo ficou de pé. — Agora vamos experimentar nossos trajes de corrida para o ensaio? Mal posso esperar para refazer esta cidade à minha própria imagem!
Esperei até o som dos passos deles sumir. Espiei e não vi ninguém ali.
— Agora — falei.
Nós nos arrastamos para fora do canal e ficamos pingando e tremendo na frente do trono de ouro. Eu ainda conseguia sentir o cheiro do óleo corporal preferido de Cômodo, uma mistura de cardamomo e canela.
Meg andou para se aquecer, as espadas brilhando nas mãos.
— Amanhã de manhã? Nós temos que avisar Jo e Emmie.
— É — concordou Leo. — Mas vamos em frente com o plano. Primeiro, encontramos os prisioneiros. E aquele Trono de sei lá o quê...
— Da Memória — falei.
— É, isso. Aí vamos sair daqui e avisar Jo e Emmie.
— Pode não funcionar — falei, nervoso. — Já vi como Cômodo refaz uma cidade. Vai haver caos e espetáculo, fogo e carnificina, e muitas e muitas fotos de Cômodo em toda parte. Acrescente a isso um exército de blemmyae com escavadeiras...
— Apolo. — Leo, determinado, fez sinal de tempo com as mãos. — Nós vamos usar o método Valdez para isso.
Meg franziu a testa.
— Qual é o método Valdez?
— Não pense demais no assunto — disse Leo. — Só vai deixar você deprimido. Na verdade, tente simplesmente não pensar.
Meg pensou no que Leo tinha explicado, então percebeu que estava pensando e pareceu encabulada.
— Tá.
Leo sorriu.
— Viu? Fácil! Agora, vamos explodir umas paradas.

8 comentários:

  1. Alaric
    Me fez pensar em Vampire Diaries

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  2. Vamos explodir umas paradas! Léo Valdez para Secretário de Segurança do RJ!

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  3. LEO É O CARA QUE SE EU FOSSE MULHER EU DAVA SEM DÓ !

    -MrGoat

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  4. Método Valdez é uma filosofia de vida

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  5. — Não pense demais no assunto — disse Leo. — Só vai deixar você deprimido. Na verdade, tente simplesmente não pensar.

    Quem lembrou do TIME LEO?

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  6. "Eu tento não pensar. Isso atrapalha ser louco." Sábiad palavras. De que adianta elaborar um plano se não tem como encaixar a variante "azar desgraçado de semideus".

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  7. deusa dos esgotos Cloacina
    tbm deve existir o deus do coco,n pode isso

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  8. Cardamomo me lembrou Skam e os universos paralelos ~ S2

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Boa leitura :)