22 de maio de 2017

Capítulo 22 - Pelos olhos do dragão

Na manhã seguinte, Eragon acordou com os membros doloridos e cheio de hematomas. Viu Brom levar a sela para Saphira e tentou aplacar sua ansiedade. Quando o desjejum ficou pronto, Brom já havia prendido a sela em Saphira e nela pendurado as bolsas de Eragon.
Quando sua tigela ficou vazia, Eragon, silenciosamente, pegou seu arco e foi até Saphira. Brom disse:
— Lembre-se: firme-se com os joelhos, guie-a com seus pensamentos e mantenha o tronco o máximo que puder na horizontal quando estiver em seu dorso. Nada dará errado se você não entrar em pânico. — Eragon concordou com a cabeça, colocando o arco em seu tubo de couro, e Brom ajudou-o a ir para a sela.
Saphira esperou, impacientemente, Eragon apertar as correias em volta das pernas.
Você está pronto?, perguntou.
Ele inspirou o frio ar da manhã.
Não, mas vamos lá! Ela concordou entusiasmada. Eragon se segurou com força quando ela agachou. Suas pernas poderosas deram um impulso, e o ar passava açoitando o rosto, arrebatando sua respiração. Com três batidas suaves das asas, ela já estava no céu, subindo rapidamente.
Na última vez em que Eragon montou em Saphira, cada batida das asas era forçada. Agora, o voo era estável e sem esforço. Apertou os braços em volta do pescoço de Saphira quando ela virou, inclinando-se.
O rio encolheu, transformando-se em uma fina linha cinzenta lá embaixo. As nuvens flutuavam em volta deles.
Quando nivelaram a altura bem acima da planície, as árvores no solo não eram mais do que pequenos pontos. O ar era rarefeito, frio e perfeitamente claro.
— Isto é maravilho... — As palavras dele perderam-se quando Saphira se inclinou e girou no ar. O solo rodopiou de uma maneira estonteante, e vertigem fez Eragon se agarrar com mais força. — Não faça isso! — gritou. — Parece que vou cair.
Você deve se acostumar com isso. Se eu for atacada no ar, esta será uma das manobras mais simples que eu farei, respondeu ela. Ele não conseguiu pensar em nenhuma resposta e se concentrou em controlar o estômago. Saphira inclinou-se para dar um mergulho suave e aproximou-se lentamente do chão.
Embora o estômago de Eragon se contraísse a cada guinada, ele começou a aproveitar o passeio.
Relaxou os braços um pouco e esticou o pescoço para trás para olhar a paisagem. Saphira deixou que ele admirasse a vista por um tempo e depois disse: Mostrarei a você como é voar de verdade.
Como?, perguntou.
Relaxe e não sinta medo, disse ela.
A mente dela puxou a dele, extraindo-o de seu corpo. Eragon resistiu por um momento, mas depois se rendeu ao controle dela. Sua visão ficou embaçada, e começou a ver pelos olhos de Saphira. Tudo estava distorcido: as cores tinham tonalidades estranhas, exóticas; os tons de azul eram mais proeminentes agora, enquanto os tons de verde e vermelho ficaram suavizados. Eragon tentou virar sua cabeça e seu corpo, mas não conseguiu. Ele sentia-se como um fantasma que havia descido de um plano etéreo.
Pura alegria emanava de Saphira quando ela subia mais alto no céu. Ela adorava aquela liberdade de poder ir a qualquer lugar. Quando estavam bem acima do chão, olhou para trás, em direção a Eragon. Ele viu a si mesmo como Saphira o via, agarrado em seu dorso com um olhar vazio. Podia sentir o corpo dela fazendo resistência contra o ar, usando as correntes ascendentes para subir. Todos os músculos dela eram como se fossem seus. Ele sentiu a cauda movendo-se no ar como um leme gigante corrigindo o curso. Eragon ficou surpreso ao ver como ela dependia daquilo.
A ligação entre eles foi ficando mais forte até não haver mais distinção entre a identidade de ambos.
Eles fecharam as asas juntos e mergulharam, como uma flecha que tivesse sido atirada lá do alto. Eragon não sentiu o menor medo de cair, pois estava completamente absorto na euforia de Saphira. O ar passava veloz no rosto deles. A cauda de ambos chicoteava no ar, e suas mentes, fundidas, alegravam-se com aquela experiência.
Até mesmo quando eles deram um mergulho vertical em direção ao solo, ele não sentiu medo de colidir. Abriram suas asas no momento certo, saindo do mergulho ao combinarem suas forças. Tomando a direção do céu, subiram depressa e continuaram a voar, dando no ar um giro gigante de trezentos e sessenta graus.
Quando iniciaram o nivelamento do voo, suas mentes começaram a separar-se, tornando-se personalidades distintas novamente. Por uma fração de segundo, Eragon sentiu o corpo dele e o de Saphira. Depois, sua visão ficou embaçada, e ele, de novo, viu-se sentado em seu dorso. Suspirou e desmoronou na sela. Levou alguns minutos para que o ritmo do coração voltasse ao normal e para que a sua respiração ficasse estável. Assim que se recuperou, exclamou:
Isso foi incrível! Como você suporta aterrissar se gosta tanto de voar?
Eu preciso comer, disse surpresa. Mas estou feliz por você ter sentido prazer ao voar comigo.
Essas palavras não podem descrever uma experiência como essa. Sinto muito por não ter voado com você mais vezes. Nunca achei que poderia ser assim. Você sempre vê tanto azul?
Eu sou assim. Nós voaremos juntos com mais frequência agora?
Claro! Em todas as chances que tivermos.
Ótimo, ela retrucou com um tom de satisfação.
Eles trocaram vários pensamentos enquanto ela voava, conversavam como se não tivessem feito isso há semanas. Saphira mostrou a Eragon como ela usava colinas e árvores para se esconder e como podia se ocultar na sombra de uma nuvem. Eles examinaram a trilha para Brom, que provou ser mais árdua do que Eragon achava. Só conseguiam ver o caminho se Saphira voasse bem próximo dele, arriscando ser vista.
Perto do meio-dia, um zumbido irritante encheu os ouvidos de Eragon, e ele notou uma pressão estranha em sua mente. Balançou a cabeça, tentando livrar-se daquilo, mas a tensão aumentava cada vez mais. As palavras de Brom sobre as pessoas que tentavam invadir a mente de outras passaram de relance pela cabeça de Eragon, e ele tentou, freneticamente, limpar seus pensamentos. Ele se concentrou em uma das escamas de Saphira e se esforçou para ignorar todo o resto. A pressão cedeu por um momento, mas depois voltou mais forte do que nunca. Um golpe de vento repentino balançou Saphira, e a concentração de Eragon se desfez. Antes que pudesse aprontar qualquer defesa, a força invadiu sua mente. Mas em vez de sentir a presença invasiva de outra mente, só havia palavras:
O que você pensa que está fazendo? Desça aqui. Achei algo importante.
Brom? Perguntou Eragon.
Isso, respondeu o ancião irritado. Faça essa sua lagarta super-desenvolvida pousar. Estou aqui... Enviou a Eragon uma imagem do local onde estava.
Eragon disse rapidamente a Saphira aonde ir, e ela tomou a direção do rio que estava lá embaixo. Nesse meio-tempo, Eragon preparou seu arco e pegou várias flechas.
Se houver problema, estarei pronto.
Eu também, disse Saphira.
Quando chegaram perto de Brom, Eragon viu-o em pé em uma clareira, agitando os braços. Saphira pousou, e Eragon pulou de seu dorso, procurando o perigo. Os cavalos estavam presos em uma árvore à margem da clareira e Brom estava sozinho. Eragon foi correndo até ele e perguntou:
— O que há de errado?
Brom coçou o queixo e balbuciou várias palavras de xingamento.
— Nunca mais me bloqueie daquela maneira. Já é muito difícil eu fazer contato com você sem precisar lutar para me fazer ouvido.
— Desculpe.
Ele bufou.
— Eu já havia percorrido um bom pedaço na margem do rio quando notei que as pegadas dos Ra’zac haviam desaparecido. Voltei na trilha até o ponto em que elas sumiram. Olhe para o chão e diga-me o que vê.
Eragon se ajoelhou, examinou a terra e viu uma mistura de pegadas que era difícil de decifrar. Havia várias pegadas de Ra’zac, uma em cima da outra. Eragon viu que as pegadas tinham poucos dias.
Sobrepostos em cima delas, havia sulcos compridos e profundos abertos no chão. Aquilo parecia familiar, mas Eragon não sabia como.
Ele ficou ali em pé, balançando a cabeça.
— Não tenho a menor ideia do que seja...
O olhar dele foi parar em Saphira, e ele percebeu o que havia feito aqueles sulcos. Sempre que ela decolava, as garras traseiras eram cravadas no chão, produzindo sulcos daquela mesma maneira.
— Isso não faz o menor sentido, mas não posso deixar de pensar que os Ra’zac voam usando dragões. Ou eles montaram pássaros gigantes e desapareceram nos céus. Você tem uma explicação melhor para isso?
Brom deu de ombros.
— Ouvi relatos sobre os Ra’zac indo de um lugar para outro com uma velocidade incrível, mas esta é a primeira prova que tenho. Será quase impossível achá-los se tiverem cavalos voadores. Não são dragões, sei disso. Um dragão nunca consentiria que um Ra’zac montasse em seu dorso.
— O que faremos? Saphira não pode persegui-los no céu. E mesmo se pudesse, você ficaria muito para trás.
— Não existe uma solução fácil para esta charada — disse Brom. — Vamos almoçar enquanto pensamos nisso. Talvez, fiquemos inspirados enquanto comemos. — Eragon, triste, foi pegar comida em sua saca. Eles comeram em silêncio, olhando para o céu azul.
Novamente, Eragon pensou em sua casa e imaginou o que Roran estaria fazendo. Uma visão da fazenda incendiada surgiu na mente dele e a tristeza ameaçou dominá-lo. O que farei se não encontrarmos os Ra’zac? Qual será o meu propósito? Eu poderia voltar para o Carvahall... Ele apanhou um galho do chão e o quebrou entre dois dedos. Ou poderia viajar com Brom e continuar o meu treinamento. Eragon ficou contemplando a planície, tentando acalmar seus pensamentos.
Quando Brom acabou de comer, ficou em pé e tirou seu capuz.
— Pensei em todos os truques que sei, em todas as palavras de poder que conheço, em todas as habilidades que temos, mas ainda não descobri como podemos achar os Ra’zac. — Eragon tombou em cima de Saphira, desesperado. — Saphira poderia se mostrar em alguma cidade. Isso atrairia os Ra’zac como moscas até o mel. Mas seria uma coisa extremamente arriscada. Os Ra’zac poderiam trazer soldados com eles, e o próprio rei poderia ficar interessado demais a ponto de aparecer pessoalmente, o que seria sinônimo de morte certa para você e para mim.
— E agora? — perguntou Eragon, jogando as mãos para o alto.
Você tem alguma ideia, Saphira?
Não.
— Depende de você — disse Brom. — Esta é a sua cruzada.
Eragon rangeu os dentes raivosamente e afastou-se de Brom e de Saphira.
Quando estava para entrar no meio das árvores, seu pé bateu em algo duro. Um frasco de metal, com uma tira de couro comprida o bastante para deixá-lo pendurado no ombro de alguém, estava caído no chão. Uma insígnia prateada, que Eragon reconheceu como sendo dos Ra’zac, estava forjada nele.
Animado, ele pegou o frasco e desatarraxou a tampa. Um cheiro enjoativo encheu o ar, era o mesmo cheiro que sentiu quando achou Garrow em meio aos destroços da casa. Virou o frasco, e uma gota de um líquido claro e brilhante caiu no dedo dele. Imediatamente, o dedo de Eragon queimava como se estivesse pegando fogo. Ele gritou e esfregou o dedo no chão. Depois de um momento a dor cedeu, virando um latejar moderado. Um pedaço da pele foi arrancado.
Fazendo caretas, voltou correndo até Brom.
— Vejam o que achei!
Brom pegou o frasco, examinou-o e jogou um pouco do líquido na tampa. Eragon começou a alertá-lo:
— Cuidado, isso queima...
— A pele. Eu sei — disse Brom. — E suponho que você tenha se adiantado e derramado um pouco na sua mão. No seu dedo? Bem, pelo menos demonstrou um pouco de bom senso ao não tentar beber isto. Tudo o que restaria de você seria uma poça.
— O que é isso? — perguntou Eragon.
— Óleo das pétalas da planta Seithr, que cresce em uma ilhota nos mares gelados do norte. Em seu estado natural, o óleo é usado para preservar pérolas, ele as deixa brilhosas e resistentes. Mas quando certas palavras são pronunciadas em cima do óleo, juntamente com um sacrifício de sangue, ele ganha a propriedade de dissolver qualquer tipo de carne. Somente isso não o tornaria especial, já que existem vários ácidos que são capazes de dissolver músculos e ossos, mas sim a capacidade de deixar todo o resto intocado. Você pode jogar qualquer coisa dentro deste óleo e tirá-la sem que ela sofra nenhum dano, a não ser que seja parte de um humano ou de um animal. Essa capacidade tornou este óleo uma arma predileta de muitos para cometerem assassinatos e torturas. Ele pode ser armazenado em madeira, pode ser posto na ponta de uma lança ou derramado em lençóis, para que a próxima pessoa que os toque seja queimada. Há inúmeros usos para este óleo, são limitados apenas pela sua inventividade. Qualquer ferimento demora a sarar. Ele é raro e muito caro, especialmente em sua forma convertida.
Eragon lembrou-se das terríveis queimaduras que cobriam Garrow. Foi o que usaram nele!, percebeu Eragon horrorizado.
— Por que será que os Ra’zac deixaram para trás algo tão valioso?
— Deve ter caído por acidente quando saíram voando.
— Mas por que não voltaram para pegá-lo? Duvido que o rei ficará satisfeito ao saber que o perderam.
— Não, ele não ficará — assentiu Brom. — Mas ele ficaria mais zangado ainda se eles demorassem muito para levar notícias sobre você. De fato, se os Ra’zac já chegaram até ele agora, pode ter certeza de que o rei já sabe seu nome. Isso significa que precisaremos ter muito mais cuidado ao entrarmos nas cidades. Haverá avisos e cartazes falando de você espalhados por todo o Império.
Eragon parou para pensar.
— Este óleo, ele é muito raro mesmo?
— Como diamantes na gamela dos porcos — comparou Brom. Ele se corrigiu depois de alguns segundos. — Na verdade, o óleo normal é usado por joalheiros, mas só por aqueles que têm condição de comprá-lo.
— Então, há pessoas que o comercializam?
— Talvez, uma ou duas.
— Bom — disse Eragon. — As cidades ao longo da costa mantêm registros dos embarques que fazem?
Os olhos de Brom faiscaram.
— É claro que mantêm. Se tivéssemos acesso a esses registros, saberíamos quem trouxe o óleo para o sul e para onde foi enviado depois.
— E o registro da compra do Império nos diria onde os Ra’zac moram! — concluiu Eragon. — Não sei quantas pessoas podem comprar este óleo, mas não deve ser difícil descobrir quem não trabalha para o Império.
— Genial! — exclamou Brom sorrindo. — Eu queria ter tido esse pensamento há alguns anos. Isso teria me poupado muita dor de cabeça. A costa está repleta de vários vilarejos e cidades onde os navios podem atracar. Suponho que devíamos começar por Teirm, que controla grande parte do comércio. — Brom fez uma pausa. — Pelo que soube, meu velho amigo Jeod mora lá. Não nos vemos há muitos anos, mas ele pode estar disposto a nos ajudar. E por ser comerciante, talvez tenha acesso àqueles registros.
— E como chegamos a Teirm?
— Devemos seguir rumo a sudoeste até chegarmos a uma passagem em um desfiladeiro na Espinha. Assim que estivermos do outro lado, podemos ir em direção à costa, até Teirm — disse Brom. Um vento suave agitou seus cabelos.
— Podemos chegar a essa passagem em uma semana?
— Facilmente. Se nos afastarmos do curso do Ninor e seguirmos à direita, poderemos ver as montanhas amanhã.
Eragon foi até Saphira e montou nela.
— Então, nos veremos no jantar.
Quando estavam a uma boa altura, disse a ela:
Amanhã, montarei em Cadoc. Antes que você reclame, saiba que só farei isso porque quero conversar com Brom.
Você devia cavalgar com ele dia sim, dia não. Dessa maneira, continuará a receber seus ensinamentos, e eu terei tempo para caçar.
Você não ficará chateada?
É algo necessário.
Quando pousaram ao final do dia, ficou satisfeito por perceber que suas pernas não doíam. A sela protegeu-o muito bem das escamas de Saphira.
Eragon e Brom travaram sua luta diária, mas não foi tão enérgica, pois ambos estavam preocupados com os eventos daquele dia. Quando terminaram, os braços de Eragon ardiam por não estarem acostumados com o peso de Zar’roc.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)