27 de maio de 2017

Capítulo 22 - Feridas do presente

Assim que amanheceu, Roran acordou e permaneceu deitado olhando para o teto caiado enquanto ouvia sua própria respiração. Um minuto depois, ele levantou-se da cama, vestiu-se, e seguiu até a cozinha, onde pegou um pedaço de pão, passou queijo como se fosse uma pasta e saiu pela varanda da frente para comer e admirar o nascer do sol.
Sua tranquilidade logo foi interrompida quando um bando de crianças levadas passou correndo pelo jardim de uma casa nas redondezas, gritando e deleitando-se com seu jogo de pique, seguidas por um certo número de adultos cujo intento era pegar seus respectivos rebentos. Roran observou o dissonante cortejo sumir por uma esquina para depois colocar o último pedaço de pão na boca e voltar para a cozinha, que já estava ocupada pelo resto da família. Elain o cumprimentou.
— Bom-dia, Roran. — Ela abriu as venezianas da janela e olhou para o céu. — Parece que vai chover novamente.
— Quanto mais melhor — afirmou Horst. — Ela vai nos manter escondidos enquanto escalamos a montanha Narnmor.
— Nós? — perguntou Roran. Ele sentou-se à mesa ao lado de Albriech, que esfregava os olhos de sono.
Horst acenou positivamente.
— Sloan tinha razão em relação à comida e aos suprimentos, temos de ajudar a carregá-los até a catarata, caso contrário não vai haver alimento suficiente.
— Ainda haverá homens para defender Carvahall?
— É claro, é claro.
Assim que terminaram o desjejum, Roran ajudou Baldor e Albriech a embalar a comida, cobertores e suprimentos em três grandes trouxas que amarraram nos ombros e arrastaram até a zona norte do vilarejo. A panturrilha de Roran doía, mas era suportável. No caminho, encontraram com os três irmãos Darmmen, Larne e Hamund, que estavam igualmente carregados.
Exatamente no lado interno da trincheira que circundava as casas, Roran e seus companheiros encontraram um grande ajuntamento de ancas, pais e avôs ocupados em organizar a expedição. Diversas famílias haviam disponibilizado os seus burros para carregar bens e as crianças mais novas, os animais foram amarrados numa fila que zurrava, impaciente, o que só aumentava a confusão geral.
Roran largou a trouxa no chão e examinou o grupo cuidadosamente Ele viu Svart — tio de Ivor que, beirando os sessenta anos, era o homem mais velho de Carvahall — sentado num fardo de roupas, provocando um bebê com sua longa barba branca, Nolfavrell era protegido por Birgit, Felda, Nolla, Calitha e uma série de outras mães com expressões preocupadas, e uma grande quantidade de pessoas relutantes, tanto homens quanto mulheres. Roran também viu Katrina no meio da multidão. Ela levantou os olhos do nó que estava dando numa trouxa e sorriu para ele, depois retomou sua tarefa.
Como ninguém parecia estar no comando, Roran fez o melhor que pôde para organizar o caos, supervisionou a arrumação e o empacotamento de vários suprimentos. Descobriu que havia uma deficiência de odres, mas quando pediu mais, recebeu três em excesso. Atrasos como esse consumiu as primeiras horas da manhã.
No meio da discussão com Loring sobre a possível necessidade de sapatos extras, Roran parou ao notar Sloan em pé na entrada de uma estreita passagem entre duas casas.
O açougueiro observou atentamente o povo em plena atividade à sua frente. Dava para ver o desdém expresso em sua boca fechada como uma meia-lua voltada para baixo. Seu desprezo deu lugar a uma incredulidade enfurecida assim que avistou Katrina, que havia colocado sua trouxa nos ombros, desfazendo qualquer possibilidade de ela estar ali apenas para ajudar. Uma veia pulsou no meio da testa de Sloan.
Roran correu em direção à Katrina, mas Sloan a alcançou primeiro. O açougueiro agarrou a parte de cima da trouxa e a sacudiu violentamente, gritando:
— Quem a obrigou a fazer isso? — Katrina falou alguma coisa sobre as crianças e tentou se soltar, mas Sloan puxou a trouxa, torcendo os braços da filha enquanto as tiras escorregavam dos seus ombros, e a jogou no chão fazendo o conteúdo se espalhar. Ainda gritando, Sloan agarrou o braço de Katrina e começou a puxá-la para longe dali. Ela fincou os calcanhares e lutou, seu cabelo cor de cobre caía sobre o seu rosto como se estivesse numa tempestade de poeira.
Furioso, Roran se jogou sobre Sloan e o afastou de Katrina, empurrando o peito do açougueiro, fazendo-o cair sentado no chão a alguns metros de distância.
— Pare! Fui eu que quis que ela fosse. Sloan olhou fixamente e rosnou:
— Você não tem o direito!
— Tenho todo o direito. — Roran olhou para a roda formada pelos observadores que se amontoaram e declarou para todos poderem ouvir: — Katrina e eu estamos noivos e queremos nos casar, e eu não quero queminha futura esposa seja tratada desta maneira! — Pela primeira vez naquele dia, os moradores do vilarejo fizeram o mais completo silêncio, até o burros calaram-se.
Surpresa e uma profunda e inconsolável mágoa se espalharam pelo rosto vulnerável de Sloan, junto com algumas poucas lágrimas. Por um momento, Roran sentiu alguma compaixão por ele, até que uma série de contorções distorceu o semblante de Sloan, cada uma mais violenta do que a anterior, até sua pele ficar vermelha igual a uma beterraba. Ele disse uma série de palavrões e exclamou:
— Seu covarde de duas caras! Como você pôde me olhar de frente e falar  omigo como um homem honesto enquanto, ao mesmo tempo, cortejava a minha filha sem permissão? Lidei com você usando da minha boa-fé, e agora o vejo saqueando a minha casa enquanto estou de costas.
— Esperava poder fazer isso da forma apropriada — disse Roran —, mas os acontecimentos conspiraram contra mim. Nunca foi a minha intenção causar-lhe mágoa. Muito embora as coisas não tenham acontecido do jeito que nós dois desejávamos, ainda quero a sua benção, se você estiver disposto a dá-la.
— Preferia ter um porco crivado por vermes como filho! Você não possui fazenda. Você não tem família. E não tem que se meter com a minha filha! — O açougueiro continuou vociferando. — E ela não tem nada a fazer na Espinha!
Sloan tentou se aproximar de Katrina, mas Roran bloqueou o caminho, com o rosto tão firme quanto os punhos cerrados. Separados apenas por uma mão de distância, os dois se encararam, trêmulos por conta da intensidade de suas emoções. Os olhos vermelhos de Sloan brilhavam com uma intensidade psicótica.
— Katrina, venha para cá — ordenou Sloan.
Roran se afastou do açougueiro — de modo que os três formassem um triângulo — e olhou para Katrina. Lágrimas rolavam do rosto da moça enquanto ela lançava seu olhar ora para seu pai ora para seu amado.
Ela deu um passo à frente, hesitou, e depois, com um grito longo e angustiado, puxou os cabelos num frenesi de indecisão.
— Katrina! — exclamou Sloan com um grito estridente de causar medo.
— Katrina — murmurou Roran.
Ao som de sua voz, as lágrimas de Katrina cessaram e ela se ergueu com uma expressão calma. E disse:
— Lamento, pai, decidi me casar com Roran. — E andou até onde estava seu noivo.
Sloan ficou lívido. Mordeu o lábio com tanta força que uma gota de sangue vermelho e vivo apareceu.
— Você não pode me deixar! Você é a minha filha! — Deu um bote em sua direção com as mãos arqueadas. Naquele instante, Roran gritou e se lançou sobre o açougueiro com toda a força, derrubando-o e fazendo com que ele se estatelasse sobre a lama na frente de todo o vilarejo.
Sloan se levantou lentamente, com o rosto e o pescoço corados por causa da humilhação. Quando olhou Katrina novamente, o açougueiro parecia estar dobrando para dentro, perdendo altura e a forma, até Roran sentir que estava olhando para o fantasma do homem que ali havia. Num sussurro em voz bem baixa, ele se pronunciou:
— É sempre assim, aqueles que estão mais perto do seu coração são os que trazem mais dor. Você não receberá mais nada de mim, sua cobra, nem a herança de sua mãe. — Chorando amargamente, Sloan se virou e fugiu em direção à sua loja.
Katrina se recostou em Roran, que a abraçou. Ao mesmo tempo, eles se agarraram um ao outro enquanto as pessoas se amontoavam, oferecendo condolências, conselhos, dando parabéns e desaprovando tudo aquilo. Apesar da comoção, Roran não queria saber de mais nada a não ser da mulher que estava abraçando e que o abraçava.
Naquele momento, Elain correu alvoroçada, o mais rápido que sua gravidez permitia.
— Oh, pobrezinha! — exclamou ela, abraçando Katrina, enquanto a tirava dos braços de Roran. — E verdade que vocês estão noivos? — Katrina acenou positivamente e sorriu, então irrompeu num choro histérico encostada ao ombro de Elain. — Calma, calma. — Elain acolheu Katrina delicadamente, afagando-a e tentando acalmá-la, mas sem sucesso. Toda vez que Roran pensava que ela estava prestes a se recuperar, Katrina começava a chorar novamente, com intensidade renovada. Por fim, Elain olhou por sobre o ombro trêmulo da amiga e disse: — Estou levando-a de volta para casa.
— Eu vou junto.
— Não vai não — retrucou Elain. — Ela precisa de algum tempo para se acalmar, e você tem trabalho a fazer. Quer um conselho? — Roran acenou em silêncio com a cabeça. — Fique longe dela até o anoitecer. Garanto que até lá ela estará recuperada. E poderá se juntar aos outros amanhã. — Sem esperar pela resposta dele, Elain conduziu a soluçante Katrina para longe da muralha de árvores adelgaçadas.
Roran se ergueu com as mãos pendendo displicentemente nas laterais do corpo, sentindo-se confuso e impotente. O que fizemos? Lamentou não ter revelado seu noivado para Sloan antes. Lamentava que ele e Sloan não pudessem unir esforços para proteger Katrina do Império. E lamentava que Katrina tivesse sido forçada a renunciar a sua única família por causa dele. Roran, agora, era duplamente responsável por seu bem-estar. Eles não tinham escolha a não ser casarem. Transformei tudo isso numa grande confusão. Suspirou e cerrou o punho, estremecendo enquanto os nós dos seus dedos se alongavam.
— Como você está? — perguntou Baldor, vindo para seu lado. Roran deu um sorriso forçado.
— As coisas não foram exatamente como eu esperava. Sloan perde a razão quando se trata da Espinha.
— E de Katrina.
— Também. Eu... — Roran ficou em silêncio quando Loring parou diante deles.
— Isso que você fez foi uma verdadeira tolice! — resmungou o sapateiro, torcendo o nariz. Depois ele levantou o queixo, sorriu e expôs seus dentes malcuidados. — Mas espero que você e a garota tenham toda a sorte possível. — Ele balançou a cabeça. — Vocês vão precisar, Martelo Forte!
— Todos precisaremos — vociferou Thane assim que passou ao lado dos dois.
Loring acenou com a mão.
— Bah, seu rabugento. Ouça, Roran. Eu vivo em Carvahall há muitos, muitos anos e, pela minha experiência, é melhor que isso tenha acontecido agora do que num momento em que estivéssemos todos seguros e bem acomodados.
Baldor concordou acenando com a cabeça, mas Roran perguntou:
— Por quê?
— Não é óbvio? Normalmente, você e Katrina seriam alvos de fofocas durante nove meses seguidos. — Loring colocou o dedo na lateral do nariz. — Mas dessa maneira, vocês dois logo serão esquecidos em meio a tudo do mais que está acontecendo, e até poderão ter um pouco de paz.
Roran franziu a testa.
— Preferia que estivessem falando da minha vida do que ter esses profanadores acampados na estrada.
— Como todos nós. Ainda assim, é algo pelo qual você precisa se sentir grato, e todos nós precisamos nos sentir gratos por alguma coisa... especialmente quando você estiver casado. — Loring deu uma gargalhada e apontou para Roran. — Seu rosto ficou roxo, garoto!
Roran resmungou e começou a recolher as coisas de Katrina que estavam espalhadas pelo chão. Enquanto o fazia, era interrompido por comentários de quem quer que passasse por perto — nenhum deles ajudava a acalmar seus nervos.
— Ordinários — murmurou para si próprio depois de um comentário especialmente hostil.
Embora a expedição para a Espinha tivesse se atrasado por causa da cena incomum que os habitantes do vilarejo testemunharam, a caravana de gente e burros só começou a subir a trilha aberta na lateral da montanha Narnmor até o topo das cataratas Igualda um pouco depois da metade da manhã. Era uma escalada íngreme e necessariamente lenta, por causa das crianças e do tamanho das cargas.
Roran passou a maior parte do seu tempo preso atrás de Calitha — a esposa de Thane — e de seus cinco filhos. Ele não estava se importando, pois isso lhe dava a oportunidade de cuidar da sua panturrilha ferida e de avaliar minuciosamente os acontecimentos recentes. Ficou perturbado por causa do confronto com Sloan. Pelo menos, consolou-se, Katrina não iria ficar muito mais tempo em Carvahall. Roran estava convencido, do fundo do coração, que o vilarejo logo seria tomado. Era uma ideia preocupante, porém inevitável.
Ele parou depois de percorrer três quartos do caminho até a montanha e se recostou numa árvore enquanto admirava a vista aérea do vale Palancar. Roran tentou avistar o acampamento dos Ra’zac — sabia que estava logo à esquerda do rio Anora e da estrada para o sul — mas não a como distinguir nem ao menos uma coluna de fumaça.
Roran ouviu o estrondo que faziam as cataratas Igualda bem antes delas surgirem. As quedas apareciam para todo o mundo igual a uma enorme crina branca, como neve que encapelava-se e se jogava do topo escarpado de Narnmor em direção ao vale oitocentos metros abaixo. A pesada torrente fazia várias curvas, em diversas direções, enquanto caía, como resultado da ação de diferentes rajadas de vento.
Passada a saliência de um rochedo esverdeado, onde o rio Anora se lançava pelo ar, descia um vale estreito e profundo repleto de anêmonas, que caía finalmente numa ampla clareira guardada de um lado por uma pilha de seixos, Roran percebeu que aqueles que estavam à frente da procissão já haviam começado a montar acampamento. A floresta ressoava com o choro e os gritos das crianças.
Ao tirar a saca das costas, Roran desamarrou um machado que estava em cima e depois começou a cortar a vegetação rasteira do local junto com alguns outros homens. Quando terminaram, começaram a cortar árvores suficientes para cercar o acampamento. O aroma da seiva do pinheiro encheu o ar. Roran trabalhava rapidamente, as lascas de madeira voavam de acordo com seu movimento rítmico.
Na hora em que as fortificações foram concluídas, o acampamento já havia sido levantado com dezessete tendas de lã, quatro pequenas fogueiras para cozinhar e expressões abatidas tanto das pessoas como dos burros. Ninguém queria partir, ninguém queria ficar.
Roran vistoriou os meninos e velhos que seguravam lanças, e pensou, tanta experiência e tão pouca. Os vovôs sabem como lidar com ursos e coisas do gênero, mas será que os netos têm força de fato para isso? Até que ele notou um brilho vigoroso nos olhos das mulheres e percebeu que, ao mesmo tempo em que podiam segurar um bebê ou se manterem ocupadas cuidando de um braço arranhado, seus próprios escudos e lanças nunca estavam longe de seu alcance. Roran sorriu. Talvez... talvez ainda tenhamos esperança.
Ele viu Nolfavrell sentado sozinho numa tora — olhando em direção ao vale Palancar — e se juntou ao garoto, que o encarou com seriedade.
— Você já está indo embora? — perguntou Nolfavrell. Roran assentiu com a cabeça, impressionado com o equilíbrio e determinação do rapaz. — Você vai fazer o melhor que puder, não, para matar os Ra’zac e vingar o meu pai? Eu o faria, mas mamãe diz que eu tenho de proteger meus irmãos e irmãs.
— Eu mesmo vou lhe trazer suas cabeças, se puder — prometeu Roran.
O queixo do menino tremeu.
— Isso é bom!
— Nolfavrell... — hesitou Roran como se estivesse procurando as lavras certas. — Você é o único por aqui, além de mim, que já matou homem. Isso não quer dizer que somos melhores ou piores do que qualquer um, mas significa que posso confiar em você para lutar com perícia caso vocês sejam atacados. Quando Katrina vier para cá amanhã, você me garante que ela será bem protegida?
O peito de Nolfavrell se encheu de orgulho.
— Vou vigiá-la onde quer que ela vá! — Mas depois ele parecia arrependido. — Quer dizer... quando não tiver que zelar pela...
Roran entendeu.
— Oh, a sua família vem primeiro. Mas talvez Katrina possa ficar na tenda junto com os seus irmãos e irmãs.
— Sim — afirmou o garoto, lentamente. — Sim, acho que isso daria certo. Pode contar comigo.
— Obrigado. — Roran bateu no ombro do rapaz. Poderia ter feito tal pedido para um homem mais velho e capaz, mas os adultos estavam muito ocupados com suas responsabilidades para defender Katrina como ele esperava. Nolfavrell, no entanto, teria a oportunidade e a disposição para se certificar de que ela ficaria segura. Ele pode ficar no meu lugar enquanto estivermos separados. Roran ficou ali de pé enquanto Birgit se aproximava.
Olhando-o de frente, ela disse:
— Vamos, é hora. — Depois disso ela abraçou seu filho e continuou a seguir em direção às cataratas junto com Roran e os outros habitantes do vilarejo que voltariam para Carvahall. Atrás deles, todos os que ficaram no pequeno acampamento se aglomeraram perto das árvores derrubadas e olharam desamparados por entre suas barras de madeira.

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