8 de maio de 2017

Capítulo 21

Uma legião
E toneladas de pedras
Amo muito isso

NÃO GOSTO DE SERPENTES.
Desde minha famosa batalha com Píton, eu passei a ter fobia de criaturas reptilianas escamosas. (E pode incluir aí minha madrasta, Hera. AHÁ!) Eu não suportava nem as cobras do caduceu de Hermes, George e Martha. Eram até simpáticas, mas ficavam atrás de mim dia e noite, implorando para que eu escrevesse uma música para elas sobre a alegria de comer ratos, uma alegria que eu não sentia.
Eu disse a mim mesmo que a criatura no canal não era uma serpente aquática. A água era fria demais, não devia haver muitos peixes suculentos para ela comer.
Por outro lado, eu conhecia Cômodo. Ele amava colecionar monstros exóticos, e logo me veio à mente uma serpente em particular que ele amaria, uma que poderia sobreviver facilmente comendo deliciosos passageiros de pedalinho...
Apolo mau!, pensei, afastando aquele pensamento. Concentre-se na sua missão!
Nós seguimos por mais uns quinze metros, e eu comecei a me perguntar se tinha exagerado na preocupação. Talvez o monstro não passasse de um jacaré de estimação abandonado pelos donos. Tinha isso no Meio-Oeste? Uns muito educados, talvez?
Leo me cutucou.
— Olha ali.
Na margem mais distante, vi um arco de alvenaria acima de uma velha adutora de esgoto, a entrada bloqueada por grades douradas.
— Quantos esgotos você já viu com grades douradas? — perguntou Leo. — Aposto que aquela entrada vai direto para o palácio do imperador.
Franzi a testa.
— Isso foi fácil demais.
— Ei. — Meg cutucou minha nuca. — Lembra o que Percy disse pra gente? Nunca diga coisas como Conseguimos ou Foi fácil. Vai dar azar!
— Minha existência toda é um azar.
— Pedale mais rápido.
Como foi uma ordem direta de Meg, eu não tinha escolha. Minhas pernas já estavam virando carvões em brasa, mas eu acelerei. Leo desviou nosso navio pirata de plástico azul-petróleo na direção da entrada de esgoto.
Estávamos a três metros quando acionamos a Primeira Lei de Percy Jackson. Nosso azar pulou da água na forma de um arco cintilante com pele de serpente.
Talvez eu tenha gritado. Leo berrou um aviso totalmente inútil:
— Cuidado!
O barco se inclinou para o lado. Mais arcos de dorso de serpente surgiram ao nosso redor, colinas ondulantes verdes e marrons cobertas de nadadeiras serrilhadas. As lâminas gêmeas de Meg surgiram com um brilho. Ela tentou ficar de pé, mas o pedalinho virou, nos jogando em uma explosão verde e fria de bolhas e membros se debatendo.
Meu único consolo: o canal não era fundo. Meus pés encontraram o chão, e consegui me levantar ofegando e tremendo, com água até os ombros. Uma parte do corpo da serpente, com um metro de diâmetro, envolveu o pedalinho e o espremeu. O casco implodiu, pedaços de plástico azul-petróleo se espalhando pelo ar. Um estilhaço quase acertou meu olho esquerdo.
Leo apareceu na superfície, o queixo quase debaixo da água. Ele foi até a grade do esgoto, subindo em um pedaço de serpente que estava no caminho. Meg, abençoado seja seu coração heroico, atacou o monstro, mas suas espadas não tiveram muito sucesso na pele lisa e escorregadia.
Então a cabeça da criatura irrompeu da água, e perdi todas as esperanças de chegar em casa a tempo de comer enchilada de tofu.
A cabeça triangular do monstro era tão larga que podia servir de estacionamento para um carro compacto. Os olhos brilhavam em um tom tão laranja quanto o de Agamedes. Quando abriu a bocarra, eu me lembrei de outro motivo pelo qual odiava serpentes. O bafo era pior do que o cheiro das roupas de Hefesto depois de um dia de trabalho.
A criatura tentou morder Meg. Apesar de estar com água até o pescoço, ela conseguiu enfiar a lâmina esquerda no olho da serpente.
O monstro jogou a cabeça para trás e sibilou, formando um redemoinho de pele de serpente que me derrubou e me fez submergir mais uma vez.
Quando voltei à superfície, Meg McCaffrey estava ao meu lado, o peito subindo e descendo enquanto ela tentava respirar, os óculos tortos e cobertos por água verde do canal. A cabeça da serpente balançava de um lado para o outro, como se tentando jogar longe a cegueira do olho machucado. O maxilar bateu no prédio mais próximo, quebrando janelas e enchendo a parede de rachaduras. Uma faixa no alto dizia QUASE PRONTO! Eu esperava que isso indicasse que o prédio estava vazio.
Leo alcançou a grade. Passou os dedos pelas barras douradas, talvez procurando botões, interruptores ou armadilhas. Meg e eu estávamos agora a dez metros dele, uma distância enorme quando havia uma serpente no caminho.
— Anda logo! — gritei para ele.
— Nossa, valeu! — respondeu ele. — Eu nem tinha pensado nisso.
O canal se agitou quando a serpente movimentou o corpo. A cabeça surgiu dois andares acima de nós. O olho direito tinha ficado escuro, mas a íris brilhante da esquerda e a bocarra horrenda me lembraram aquelas abóboras que os mortais enfeitam no Halloween. Que tradição boba. Eu sempre preferi correr por aí com minha fantasia de pele de cabra na Februália. Era bem mais digno.
Meg espetou a barriga da criatura. A lâmina dourada só produziu fagulhas.
— O que é essa coisa? — perguntou ela.
— A Serpente Cartaginense — falei. — Uma das feras mais temíveis a enfrentar as tropas romanas. Na África, quase afogou uma legião inteira de...
— Não tô nem aí. — Meg e a serpente se olharam com cautela, como se um monstro gigante e uma garotinha de doze anos fossem oponentes à altura. — Como eu mato esse bicho?
Minha mente disparou. Eu não raciocinava muito bem em momentos de pânico, o que resumia a maioria das situações em que estive recentemente.
— Eu... eu acho que a legião a esmagou com milhares de pedras.
— Eu não tenho uma legião — disse Meg. — Nem milhares de pedras.
A serpente sibilou novamente, borrifando veneno no canal. Puxei meu arco, mas me deparei com aquele probleminha chato de manutenção outra vez. Um arco e uma flecha molhados eram algo problemático, principalmente se eu planejava acertar um alvo pequeno como o outro olho da serpente. E havia toda a parte física de atirar com água até os ombros.
— Leo — chamei.
— Quase! — Ele bateu com uma chave inglesa na grade. — Continuem distraindo a fera!
Engoli em seco.
— Meg, se você puder perfurar o outro olho ou a boca...
— Enquanto você faz o quê? Se esconde?
Aquela garota realmente conseguia entrar na minha cabeça. Que ódio.
— Claro que não! Vou estar, hã...
A serpente atacou. Meg e eu mergulhamos em direções opostas. A cabeça da criatura provocou um tsunami entre nós, me fazendo girar e dar piruetas sob a água. Engoli alguns litros de esgoto e subi cuspindo, mas engasguei de horror quando vi Meg presa no rabo da serpente. O monstro a ergueu até a altura do olho que restava. Meg se debatia e atacava, mas ele a manteve longe, olhando para ela como quem pensa: O que é essa coisa colorida com cor de sinal de trânsito?
De repente, começou a espremer.
— Consegui! — gritou Leo.
Clang. As barras douradas se abriram.
Leo se virou, todo orgulhoso, mas então viu Meg.
— Nada disso!
Ele levantou uma das mãos e tentou conjurar fogo. Só conseguiu uma baforada de vapor. Lançou a chave inglesa, que quicou na serpente sem causar dano algum.
A cauda da cobra apertou a cintura de Meg, deixando seu rosto vermelho-tomate. Ela bateu com a espada no monstro. Nem um arranhãozinho.
Fiquei paralisado, sem conseguir ajudar, sem conseguir pensar.
Sabia como uma serpente daquelas era forte. Me lembrei de quando Píton me capturou, minhas costelas divinas estalando, meu ícor divino espremido na cabeça e ameaçando jorrar pelas orelhas.
— Meg! — gritei. — Aguenta aí!
Ela olhou para mim de cara feia, os olhos saltados, a língua inchada, como se pensando E eu tenho escolha?
A serpente me ignorou, sem dúvida interessada demais em despedaçar Meg como havia feito com o pedalinho. Atrás da cabeça da cobra estava a fachada destruída do prédio residencial, e a entrada do esgoto ficava logo à direita.
Eu sabia que a legião romana que lutara com aquela coisa jogara uma chuva de pedras nela. Se ao menos aquela parede de tijolos fosse da Estação Intermediária, eu poderia mandar...
A ideia me agarrou como se fosse uma serpente.
— Leo! — gritei. — Entre no túnel!
— Mas...
— Vá!
Alguma coisa começou a inflar no meu peito. Eu esperava que fosse poder, e não o meu café da manhã.
Enchi os pulmões e gritei no barítono que costumava reservar para óperas italianas:
— VÁ EMBORA, COBRA! EU SOU APOLO!
A frequência foi perfeita.
A parede tremeu e rachou. Uma cortina de três andares de tijolos se soltou e desabou nas costas da serpente, fazendo sua cabeça afundar. A cauda afrouxou, e Meg mergulhou no canal.
Ignorando a chuva de tijolos, eu me adiantei (de forma muito corajosa, acho eu) e puxei Meg para a superfície.
— Anda, pessoal! — gritou Leo. — A grade está fechando de novo!
Arrastei Meg para o esgoto (porque é para isso que os amigos servem), enquanto Leo tentava segurar a grade aberta com uma chave de roda.
Que os deuses abençoem esses corpos magrelos mortais! Nós passamos bem na hora que a grade fechou.
Lá fora, a serpente surgiu novamente depois do batismo de tijolos. Sibilou e bateu a cabeça meio cega na grade, mas achamos melhor não ficar ali para bater papo. Seguimos em frente, na escuridão das águas do imperador.

8 comentários:

  1. Desde minha famosa batalha com Píton, eu passei a ter fobia de criaturas reptilianas escamosas. (E pode incluir aí minha madrasta, Hera. AHÁ!)
    nem apolo gosta dela

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    1. E quem é que gosta dessa rainha bovina/reptiliana?
      Kkkkkkkkkk

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    2. Ela amaldiçoou a mãe dele

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  2. Fico pensando quando o rio Estige (nao lembro como escreve) vai ferrar com ele

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  3. Ainda bem que ele especificou o bicho, mas não antes que eu imaginasse se não era um tataraneto da Serpente do Mundo. Primeira Lei de Percy Jackson: um semideus em repouso permanece em repouso, até que uma profecia seja aplicada sobre ele. Não sei se formulei certo, mas deu pra entender a comparação.

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  4. "Primeira lei de Percy Jackson" 😂😂😂

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  5. As pessoas zoam por sermos magrelas,mas no final quem se salva de uma serpente gigante passando por barras de ouro no último segundo?nós.
    Isso porque o Apolo diz que tem uma enorme pancinha

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Boa leitura :)