27 de maio de 2017

Capítulo 21 - Feridas do passado

Durante três dias e meio, os cidadãos de Carvahall discutiram o último ataque, a tragédia da morte do jovem Elmund e o que poderia ser feito para escapar daquela situação tenebrosa. O debate fervilhava como uma fúria amarga em cada cômodo de cada lar. Por causa de uma palavra qualquer, amigos se voltavam contra amigos, maridos contra esposas, crianças contra pais, apenas para fazer as pazes alguns instantes depois em sua tentativa desvairada de descobrir uma maneira de sobreviver.
Alguns diziam que, como Carvahall estava condenada de qualquer jeito, eles também deviam matar os Ra’zac e os soldados restantes, para pelo menos terem a sua vingança. Outros diziam que, se Carvahall estivesse realmente condenada, a única conduta lógica seria se render e ficar à mercê do rei, mesmo que isso significasse tortura e morte para Roran e escravidão para todos os demais. E ainda havia aqueles que não tomaram partido, em vez disso desencadearam uma fúria negra e taciturna dirigida a todos os responsáveis por tal calamidade. Muitos faziam o melhor possível para esconder seu pânico nas profundezas de uma caneca de cerveja.
Os próprios Ra’zac haviam aparentemente percebido que, com onze soldados mortos, não tinham mais força suficiente para atacar Carvahall e, por isso, recuaram mais na estrada, satisfeitos em manter sentinelas por todo o vale Palancar e esperar.
— Se querem saber, estou esperando as tropas pulguentas de Ceunon e Gil’ead — disse Loring numa reunião. Roran ouviu isso e mais, conduzia mentalmente sua própria assembleia e avaliava em silêncio as várias estratégias. Todas pareciam perigosamente arriscadas.
Roran ainda não dissera a Sloan que ele e Katrina estavam noivos. Sabia ser uma tolice esperar, mas temia a reação do açougueiro quando descobrisse que o casal desprezara a tradição e, ao fazê-lo, minara sua autoridade de pai. Somando-se a isso, havia bastante trabalho para desviar a atenção de Roran, ele se convenceu de que aumentar as fortificações em torno de Carvahall era sua tarefa mais importante no momento.
Conseguir gente para ajudá-lo foi mais fácil do que Roran havia pensado. Depois da última batalha, os habitantes do vilarejo estavam mais dispostos a ouvi-lo e obedecê-lo — quer dizer, não o culpavam por ter provocado aquela situação desagradável. Ele estava confuso com sua nova autoridade, até que percebesse que ela era resultado do medo, do respeito e talvez até mesmo do temor que as mortes causadas por ele haviam trazido à tona. Eles o chamavam de Martelo Forte. Roran Martelo Forte.
O nome o agradava.
Quando a noite tragou o vale, Roran se recostou a um canto da sala de jantar de Horst com os olhos fechados. A conversa fluía entre homens e mulheres sentadas em torno da mesa iluminada pela luz de velas. Kiselt explicava a situação dos suprimentos de Carvahall.
— Não iremos passar fome — concluiu —, mas se não pudermos cuidar logo dos nossos campos e dos nossos rebanhos, talvez seja preferível cortarmos as nossas gargantas antes do próximo inverno. Seria um destino melhor.
Horst resmungou.
— Bobagem!
— Bobagem ou não — afirmou Gertrude — duvido que tenhamos uma chance de descobrir. Éramos dez para cada soldado deles quando chegaram. Eles perderam onze homens, nós perdemos doze, e estamos cuidando de outros nove feridos. O que vai acontecer, Horst, quando para cada um de nós houver dez deles?
— Daremos aos bardos um motivo para lembrarem dos nossos nomes — retrucou o ferreiro. Gertrude balançou a cabeça com tristeza. Loring bateu com o punho na mesa.
— E eu digo que é nossa vez de atacar, antes que nós estejamos em menor número. Tudo de que precisamos são uns poucos homens, escudos, lanças e poderemos eliminar sua infestação. Isso poderia ser feito hoje à noite!
Roran mudou de posição, irrequieto. Ele já havia ouvido tudo isso antes e, como antes, a proposta de Loring acendeu uma discussão que consumiu o grupo. Uma hora depois, o debate ainda não mostrava sinal de conclusão, nem novas ideias chegaram a ser apresentadas, exceto pela sugestão de Thane de que Gedric deveria dar uma surra nele mesmo, o que quase resultou numa pancadaria.
Finalmente, quando a conversa acalmou, Roran seguiu mancando até a mesa, o mais rápido que sua panturrilha permitia.
— Tenho algo a dizer. — Para ele, sua decisão de expor sua ideia equivalia a pisar num espinho longo e depois puxá-lo sem parar para pensar na dor, tinha de ser feito, e quanto mais rápido melhor.
Todos os olhares — rígidos, furiosos, gentis, indiferentes e curiosos — se voltaram em sua direção, e Roran respirou fundo.
— A indecisão irá nos matar tão certamente quanto uma espada ou uma flecha. — Orval revirou os olhos, mas o resto ainda escutava. — Não sei se devemos atacar ou fugir...
— Para onde? — bufou Kiselt.
—...mas de uma coisa eu sei: nossas crianças, nossas mães e nossos enfermos têm de ser protegidos do perigo. Os Ra’zac barraram o caminho que vai para a casa de Cawley e para as outras fazendas vale abaixo. E daí? Conhecemos estas terras melhor do que qualquer um na Alagaësia e há um lugar... há um lugar onde os nossos amados estarão seguros: a Espinha.
Roran estremeceu enquanto uma artilharia de vozes ultrajantes o fuzilou. Sloan era o que falava mais alto e gritava:
— Serei enforcado antes de colocar meus pés naquelas montanhas malditas!
— Roran — disse Horst, sobrepujando a comoção. — Você, entre todas as pessoas, deve saber que a Espinha é perigosa demais. Foi lá que Eragon encontrou a pedra que atraiu os Ra’zac! As montanhas são frias e estão cheias de lobos, ursos e outros monstros. Por que as mencionou?
Para manter Katrina salva!, quis gritar Roran. Em vez disso, ele disse:
— Porque não importa quantos soldados os Ra’zac convocarem, jamais ousarão entrar na Espinha. Não depois que Galbatorix perdeu metade de seu exército por lá.
— Isso foi há muito tempo — disse Morn, incerto. Roran aproveitou a deixa:
— E as histórias vão ficando cada vez mais assustadoras à medida que vão sendo contadas! Já existe uma trilha para o topo das cataratas Igualda. Tudo que temos a fazer é mandar as crianças e os outros lá para cima. Estarão na borda das montanhas, mas ainda assim estarão seguros. Se Carvahall for tomada, poderão esperar até os soldados se retirarem e depois encontrarão um refúgio em Therinsford.
— E perigoso demais — resmungou Sloan. O açougueiro agarrou a beirada da mesa com tanta força que as pontas dos seus dedos ficaram brancas. — O frio, as feras. Nenhum homem são irá mandar sua família para conviver com isso.
— Mas... — hesitou Roran, já que perdera as estribeiras com a resposta de Sloan. Embora soubesse que o açougueiro odiava a Espinha mais do que a maioria (pois sua esposa havia caído do despenhadeiro atrás das cataratas Igualda para a morte), ele esperara que o desejo extremo de proteger Katrina fosse forte o bastante para vencer sua aversão. Roran entendia agora que teria que persuadir Sloan exatamente como a todos os outros. Adotando um tom apaziguador, Roran disse: — Não é tão ruim. A neve já está derretendo nos picos. Não faz mais frio na Espinha do que fazia aqui há alguns meses. E duvido que lobos e ursos venham a perturbar um grupo tão grande.
Sloan fez uma careta, mordendo os lábios, e balançou a cabeça.
— Você não encontrará nada além de morte na Espinha.
Os outros pareciam concordar, o que só fortaleceu a determinação de Roran, pois ele estava convencido de que Katrina iria morrer a não ser que pudesse influenciá-los.
Ele vasculhou aquele roda de rostos, buscando alguém que expressasse solidariedade.
—Delwin, eu sei que é cruel da minha parte dizer isso, mas se Elmund não estivesse em Carvahall, ele ainda estaria vivo. Tenho certeza de que você concorda que isso é a coisa mais certa a fazer! Você tem a oportunidade de salvar outros pais do seu sofrimento.
Ninguém respondeu.
— E Birgit! — Roran se arrastou em sua direção, agarrando os encostos das cadeiras para que não caísse. — Você quer que Nolfavrell tenha o mesmo destino de seu pai? Ele tem que sair daqui. Você não vê, essa é a única maneira de mantê-lo em segurança... — Embora fizesse o máximo de esforço para se conter, Roran pôde sentir lágrimas enchendo seus olhos. — Isso é pelas crianças! — gritou, furioso.
O salão ficou em silêncio enquanto Roran olhava para a madeira entre suas mãos, esforçando-se para manter o controle. Delwin foi o primeiro a se pronunciar.
— Eu jamais deixarei Carvahall enquanto os assassinos do meu filho continuarem aqui. No entanto — ele fez uma pausa e depois prosseguiu com uma lentidão dolorosa — não posso negar a verdade que há em suas palavras, as crianças precisam ser protegidas.
— Como eu disse no começo — declarou Tara.
Até que Baldor falou:
— Roran tem razão. Não podemos permitir que o medo nos deixe cegos. A maioria de nós já escalou até o topo das quedas d’água uma vez ou outra. As montanhas são suficientemente seguras.
— Eu também — acrescentou Birgit, enfim — tenho que concordar com isso.
Horst acenou com a cabeça:
— Preferia não ter que fazer isso, mas sob as atuais circunstâncias... não creio que tenhamos outra opção. — Um minuto depois, os vários homens e mulheres presentes começaram a concordar, relutante, com a proposta.
— Isso é um absurdo! — explodiu Sloan. Ele se levantou e apontou um dedo acusador para Roran. — Como elas conseguirão levar comida suficiente para esperar semanas a fio? Elas não têm como carregá-la. Como irão se manter quentes? Se acenderem fogueiras, acabarão sendo vistas. Como, como, como? Se não morrerem de fome, acabarão congelando. Se não congelarem, serão devoradas. Se não forem devoradas... Quem sabe? Elas podem cair!
Roran abriu as mãos.
— Se todos nós ajudarmos, elas terão muita comida. Fogo não será um problema, caso sigam bem para dentro da floresta, coisa que terão de fazer de qualquer jeito, já que não há espaço para acampar perto das cataratas.
— Desculpas! Justificativas!
— O que você sugere que nós façamos, Sloan? — perguntou Morn, encarando-o com curiosidade.
Sloan gargalhou amargamente:
— Isso não.
— Então o quê?
— Não importa. Só sei que essa é a opção errada.
— Você não precisa participar — assinalou Horst.
— Nem irei — disse o açougueiro. — Prossigam se quiserem, mas nem eu nem aqueles do meu sangue entrarão na Espinha enquanto eu tiver tutano nos meus ossos. — Pegou o seu gorro e saiu olhando de um jeito maligno para Roran, o qual, por sua vez, também franziu a testa.
Do jeito que Roran via as coisas, Sloan estava colocando Katrina em perigo com sua teimosia e sua cabeça dura. Se ele não consegue perceber que a Espinha é um refúgio, decidiu Roran, então ele se tornou meu inimigo e eu terei que resolver a questão do meu jeito.
Horst se inclinou para frente, com os cotovelos apoiados na mesa e cruzou seus dedos grossos.
— Então... se formos usar o plano de Roran, que preparativos serão necessários? — O grupo trocou olhares cautelosos e, aos poucos, começou a discutir o assunto.
Roran esperou até se convencer de que havia atingido a sua meta, antes de sair  a sala de jantar. Caminhando pelo escuro vilarejo, procurou Sloan por todo o perímetro interno da muralha de árvores. Finalmente conseguiu avistar o açougueiro agachado embaixo de uma tocha com o escudo preso em volta dos joelhos. Roran deu a volta num só pé e correu até a loja de Sloan, onde se apressou para entrar na cozinha, pelos fundos. Katrina interrompeu a ação de arrumar a mesa e o encarou, perplexa.
— Roran! Por que você está aqui? Você contou tudo para o meu pai?
— Não. — Ele seguiu em frente e pegou em seu braço, saboreando o toque. Só o fato de estar no mesmo cômodo que ela já o enchia de alegria. — Tenho um grande favor para lhe pedir. Foi decidido que iremos mandar as crianças e alguns outros para a Espinha, acima das cataratas Igualda. — Katrina ofegou. — Quero que você as escolte. Com uma expressão de quem estava chocada, Katrina se soltou e virou em direção à lareira, onde abraçou o próprio corpo e ficou olhando para as brasas ardentes. Durante um bom tempo ela não disse nada. Até que falou:
— Meu pai me proibiu de me aproximar das cataratas depois que mamãe morreu. A fazenda de Albem é o mais perto que já cheguei da Espinha nos últimos dez anos. — Ela estava tendo calafrios e sua voz foi assumindo um tom cada vez mais acusador. — Como você pode sugerir que eu abandone você e o meu pai? Isso aqui é o meu lar tanto quanto o seu. E por que deveria partir quando Elain, Tara e Birgit ficarão?
— Katrina, por favor. — Ele fez uma tentativa, colocando as mãos nos ombros da amada. — Os Ra’zac estão aqui à minha caça, e não quero que você se machuque por causa disso. Enquanto você estiver em perigo, não poderei me concentrar no que tem de ser feito: defender Carvahall.
— Quem me respeitaria por fugir como uma covarde? — Ela levantou o rosto. — Ficaria envergonhada de ficar ao lado das mulheres de Carvahall e de me intitular sua esposa.
— Covarde? Não há covardia nenhuma em guardar e proteger as crianças na Espinha. Se é que não requer mais coragem subir as montanhas do que ficar aqui.
— Que horror é este? — sussurrou Katrina. Ela se enroscou em seus braços, com os olhos brilhando e a boca firme. — O homem que irá se tornar meu esposo não me quer mais do seu lado.
Ele balançou a cabeça.
— Isso não é verdade. Eu...
— É verdade! E se você for morto enquanto eu estiver longe?
— Não diga...
— Não! Carvahall tem poucas chances de sobrevivência e, se tivermos de morrer, prefiro morrer ao seu lado a me esconder na Espinha sem vida e sem amor. Deixe que aqueles que têm filhos cuidem do que é seu. Assim como eu farei. — Uma lágrima rolou pelo seu rosto.
Gratidão e admiração percorreram as veias de Roran por conta da força da devoção dela. Ele olhou bem dentro dos olhos da parceira.
— E por amor que eu quero que você vá. Sei como você se sente. Sei que este é o sacrifício mais difícil que qualquer um de nós poderia fazer, e peço a você que o faça logo.
Katrina estremeceu, seu corpo inteiro ficou rígido, as mãos brancas apertaram sua faixa de musselina.
— Se eu fizer isso — disse ela, com a voz trêmula —, você terá de me prometer, aqui e agora, que jamais fará um pedido como esse novamente. Terá de me prometer que, mesmo se tivermos de encarar Galbatorix frente a frente e só um de nós puder escapar, você não me pedirá para partir.
Roran a encarou, desamparado.
— Não posso.
— Então como pode esperar que eu faça o que você não irá fazer? — gritou ela. — Este é o meu preço, nem ouro, joias ou palavras bonitas poderão substituir o seu juramento. Se você não liga para mim o suficiente, a ponto de fazer o seu próprio sacrifício, Roran Martelo Forte, então suma daqui pois jamais vou querer ver seu rosto novamente!
Não posso perdê-la. Embora aquilo lhe doesse quase mais do que era capaz de suportar, abaixou a cabeça e disse:
— Você tem a minha palavra.
Katrina acenou positivamente, afundou numa cadeira — com as costas firmes e retesadas — e enxugou suas lágrimas com o punho da manga.
Num tom de voz calmo, afirmou:
— Meu pai irá me odiar por isso.
— Como você vai lhe contar?
— Não contarei nada — disse a moça, num tom desafiador. — Ele jamais me deixaria entrar na Espinha, mas terá de aceitar minha decisão. De qualquer maneira, ele não ousará sair pelas montanhas no meu encalço, pois as teme mais do que a própria morte.
— Ele pode temer ainda mais perder você.
— Veremos. E se, ou quando, chegar a hora de voltar, espero que você já tenha lhe falado sobre o nosso noivado. Isso lhe dará tempo suficiente para se conformar com o fato.
Roran se viu concordando, e o tempo todo pensava que teria muita sorte se os acontecimentos transcorressem bem como ela pensou.

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