8 de maio de 2017

Capítulo 20

Ferro nas canelas
Pedalando com estilo
Mais um deus aos gritos

PELO MENOS NÃO PRECISEI limpar as privadas.
Passei a tarde no ninho dos grifos, tocando música para Heloísa, acalmando-a enquanto ela botava o ovo. Ela gostou de Adele e de Joni Mitchell, o que forçou consideravelmente minhas cordas vocais, mas não curtiu a minha imitação de Elvis Presley. Os gostos musicais dos grifos são um mistério.
Em determinado momento, vi Calipso e Leo no salão, andando com Emmie, os três conversando, absortos. Agamedes flutuava para lá e para cá pelo salão, contorcendo as mãos. Tentei não pensar na mensagem da Bola 8 Mágica: NÓS NÃO PODEMOS FICAR, que não era animadora nem útil para alguém que estava tentando tocar uma música que combinasse com botar ovos.
Cerca de uma hora depois que comecei minha segunda setlist, Jo voltou a trabalhar no rastreador, o que me obrigou a encontrar canções que soassem bem com o barulho de um maçarico. Ainda bem que Heloísa gostou de Patti Smith.
A única pessoa que não vi durante a tarde foi Meg. Presumi que estivesse no telhado, fazendo o jardim crescer em um ritmo cinco vezes mais rápido do que o normal. De vez em quando, eu olhava para cima, me perguntando quando o telhado iria desabar e me enterrar em nabos.
Na hora do jantar, meus dedos estavam com bolhas de tanto tocar o ukulele de combate. Minha garganta parecia o Vale da Morte. No entanto, Heloísa estava piando com alegria em cima do ovo recém-botado.
Eu me sentia surpreendentemente melhor. Música e cura, afinal, não eram tão diferentes. Eu me perguntei se Jo havia me mandado até o ninho não só para ajudar Heloísa, mas para meu próprio bem. Aquelas mulheres da Estação Intermediária eram ardilosas.
Naquela noite, dormi como um morto, um de verdade, não do tipo inquieto, sem cabeça e alaranjado. Ao amanhecer, armados com as instruções de Emmie para chegar ao Canal Walk, Meg, Leo e eu já estávamos prontos para percorrer as ruas de Indianápolis.
Antes de sairmos, Josephine falou comigo em separado:
— Eu queria ir com vocês, Raio de Sol. Vou fazer o possível para treinar sua amiga Calipso hoje de manhã, para ver se ela consegue recuperar o controle sobre sua magia. Enquanto você estiver fora, vou me sentir melhor se usar isto.
Ela me deu uma algema de ferro.
Observei o rosto dela, mas ela não parecia estar brincando.
— Isso é um grilhão de grifo.
— Não! Eu nunca faria um grifo usar um grilhão.
— Mas você está dando um para mim. Não é o que prisioneiros usam?
— Não é a mesma coisa. Isto é o rastreador em que eu estava trabalhando.
Ela pressionou uma pequena cavidade na beirada do grilhão. Com um clique, asas metálicas se abriram dos dois lados, zumbindo como as asas de um beija-flor. O negócio quase pulou das minhas mãos.
— Ah, não — protestei. — Não me peça para usar um dispositivo alado. Hermes me enganou uma vez e acabou me convencendo a usar os sapatos dele. Cochilei em uma rede em Atenas e acordei na Argentina. Nunca mais vou cometer esse erro.
Jo desligou as asas.
— Você não precisa voar. A ideia inicial era fazer duas tornozeleiras, mas não tive tempo. Eu ia mandá-las para... — ela fez uma pausa, tentando controlar as emoções — ... para procurar Georgina e trazê-la para casa. Como não posso fazer isso, se você tiver problemas, se a encontrar... — Jo apontou para uma segunda cavidade no grilhão. — Isso ativa o sinalizador. Vai me dizer onde você está e aí, acredite em mim, vamos mandar reforços.
Eu não sabia como Josephine conseguiria fazer aquilo. Elas não tinham uma cavalaria. Eu também não queria usar um dispositivo de rastreamento, por uma questão de princípios. Era contra a própria natureza de ser Apolo. Eu sempre devia ser a fonte de luz mais óbvia e mais brilhante no mundo. Se fosse preciso me procurar, alguma coisa estava errada.
Por outro lado, Josephine estava me olhando do mesmo jeito que minha mãe, Leto, sempre olhava quando tinha medo de eu ter me esquecido de escrever uma música nova para ela no Dia das Mães. (É uma espécie de tradição. E, sim, eu sou um filho maravilhoso, obrigado.)
— Muito bem.
Prendi o grilhão no tornozelo. Ficou um pouco apertado, mas pelo menos dava para esconder embaixo da barra da calça jeans.
— Obrigada. — Jo encostou a testa na minha. — Não morra.
Ela deu meia-volta e saiu andando com determinação para a oficina, sem dúvida ansiosa para criar mais dispositivos que servissem para me prender.

* * *

Meia hora depois, descobri uma coisa importante: nunca use um grilhão de ferro enquanto anda de pedalinho.
Nosso meio de transporte foi ideia de Leo. Quando chegamos às margens do canal, ele descobriu uma barraca que alugava pedalinhos, mas que estava fechada para a temporada. Ele decidiu “pegar emprestado” um pedalinho azul-petróleo e insistiu que o chamássemos de Temível Pirata Valdez. (Meg adorou isso. Eu me recusei.)
— É o melhor jeito de encontrar a tal grade da entrada secreta — garantiu ele enquanto estávamos pedalando. — Estamos no nível da água agora, não dá para não ver. Além do mais, estamos tirando a maior onda!
Meu conceito de tirar onda era obviamente bem diferente do dele.
Leo e eu ficamos na frente, pedalando. Sob o grilhão de ferro, meu tornozelo parecia estar sendo arrancado aos poucos por um dobermann. Minhas panturrilhas queimavam. Eu não entendia por que os mortais pagavam para ter essa experiência. Se o barquinho fosse puxado por hipocampos, talvez, mas trabalho físico? Argh.
Enquanto isso, no banco de trás, Meg observava a paisagem. Ela alegou que estava procurando a entrada secreta do esgoto, mas parecia mesmo estar relaxando.
— E aí, o que rola entre você e o imperador? — perguntou Leo, pedalando alegremente, como se o esforço não o incomodasse em nada.
Sequei a testa suada.
— Não sei do que você está falando.
— Pare com isso, cara. No jantar, quando Meg começou a gritar sobre cômodas, você saiu correndo para o banheiro e botou tudo pra fora.
— Eu não botei tudo pra fora. Eu praticamente arremessei.
— Desde aquela hora, você anda muito quieto.
Ele tinha razão. Ficar quieto não era algo típico de Apolo. Normalmente, eu tinha tantas coisas interessantes para dizer e músicas lindas para cantar. Percebi que devia contar para os meus companheiros sobre o imperador. Eles mereciam saber para onde nossas pedaladas nos levariam.
Mas articular as palavras era difícil.
— Cômodo me culpa pela morte dele — falei.
— Por quê? — perguntou Meg.
— Provavelmente porque eu o matei.
— Ah. — Leo assentiu, compreensivamente. — Faz sentido.
Consegui narrar a história. Não foi fácil. Fiquei imaginando o corpo de Cômodo deslizando sob a superfície do canal, pronto para se erguer das profundezas verdes e geladas e me acusar de traição. Você. Me. Abençoou.
Quando terminei a falação, Leo e Meg ficaram em silêncio. Nenhum dos dois gritou Assassino!, mas também nenhum dos dois me olhou nos olhos.
— Que difícil, cara — disse Leo. — Mas parece que o Imperador Incômodo precisava morrer.
Meg fez um som que lembrava o espirro de um gato.
— É Cômodo. Ele é bonito, aliás.
Olhei para trás.
— Você o conheceu?
Meg deu de ombros. Em algum momento no dia anterior, uma pedrinha brilhante caiu da moldura dos óculos dela, como se uma estrela tivesse se apagado para sempre. Fiquei aborrecido por ter reparado em um detalhe tão pequeno.
— Eu o encontrei uma vez. Em Nova York. Ele visitou meu padrasto.
— Nero — pedi. — Chame-o de Nero.
— É. — Manchas vermelhas apareceram nas bochechas dela. — Cômodo era bonito.
Revirei os olhos.
— Ele também é vaidoso, orgulhoso, egoísta...
— Então ele é tipo seu rival? — perguntou Leo.
— Ah, cala a boca.
Por um tempo, o único som no canal era o do movimento do nosso pedalinho. Ecoava nas margens de três metros de altura e pelas laterais dos armazéns de tijolo que estavam sendo transformados em condomínios e restaurantes. As janelas escuras dos prédios nos olhavam, me deixando ao mesmo tempo com uma sensação de claustrofobia e exposição.
— Uma coisa que não entendo — disse Leo. — Por que Cômodo? Se esse Triunvirato é formado pelos três maiores e mais cruéis imperadores, o dream team de supervilões... Nero faz sentido. Mas o Incômodo? Por que não um cara mais malvado, mais famoso, como Máximo Matador ou Átila, o Huno?
— Átila, o Huno não foi um imperador romano — expliquei. — Quanto a Máximo Matador... Bom, é um ótimo nome, mas não um imperador de verdade. Quanto a por que Cômodo é parte do Triunvirato...
— Acham que ele é fraco — disse Meg.
Ela manteve o olhar nas águas agitadas pelo nosso pedalinho, como se visse seus próprios fantasmas sob a superfície.
— Como você sabe disso? — perguntei.
— Meu pa... Nero me contou. Ele e o terceiro, o imperador do Oeste, queriam Cômodo entre os dois.
— O terceiro imperador — falei. — Você sabe quem é?
Meg franziu a testa.
— Só o vi uma vez. Nero nunca usou o nome dele. Só o chamava de meu parente. Acho que até Nero tem medo dele.
— Fantástico — murmurei.
Qualquer imperador que intimidasse Nero não era alguém que eu quisesse conhecer.
— Então Nero e o sujeito do Oeste querem que Cômodo aja como um amortecedor entre os dois. Tipo a Suíça, alguém neutro — concluiu Leo.
Meg esfregou o nariz.
— É. Nero me disse... Ele falou que Cômodo era como Pêssego. Um bichinho feroz. Mas controlável.
A voz dela tremeu ao falar o nome do companheiro karpos.
Eu fiquei com medo de Meg me mandar dar um tapa na cara ou pular no canal, mas perguntei:
— Onde está Pêssego?
Ela fez um biquinho.
— O Besta...
— Nero — corrigi delicadamente.
— Nero o pegou. Ele disse... disse que eu não merecia ter um bichinho enquanto não me comportasse.
A raiva me fez pedalar mais rápido, me fez quase gostar da dor do grilhão esfolando meu tornozelo. Eu não sabia como Nero conseguiu aprisionar o espírito, mas entendia por que ele fez aquilo. Queria que Meg dependesse totalmente dele. Ela não tinha permissão de ter bens próprios, amigos próprios. Tudo na vida dela tinha que ser contaminado pelo veneno de Nero.
Se ele botasse as mãos em mim, sem dúvida me usaria da mesma forma. Fossem quais fossem as torturas horríveis que ele tinha planejado para Lester Papadopoulos, não seriam tão ruins quanto o que ele havia feito com Meg. Ele ainda a faria se sentir responsável por minha dor e morte.
— Vamos recuperar Pêssego — prometi.
— É, chica — concordou Leo. — O Temível Pirata Valdez nunca abandona um membro da tripulação. Não se preocupe com...
— Pessoal. — A voz de Meg ficou tensa. — O que é aquilo?
Ela apontou para estibordo. Uma série de ondulações surgiu na água verde, como se uma flecha tivesse sido disparada e percorrido a superfície.
— Você viu o que era? — perguntou Leo.
Meg assentiu.
— Uma... uma barbatana, talvez? Canais têm peixes?
Eu não sabia a resposta, mas não gostei do tamanho das ondas. Minha garganta parecia estar abrigando brotos de trigo.
Leo apontou para a frente.
— Ali.
Bem na nossa frente, um centímetro abaixo da superfície, escamas verdes ondularam e submergiram.
— Isso não é um peixe — falei, me odiando por ser tão perceptivo. — Acho que é outra parte da mesma criatura.
— Daquela ali? — Meg apontou para estibordo de novo. As duas agitações na água aconteceram com pelo menos doze metros de distância uma da outra. — Isso quer dizer que a criatura é maior do que o pedalinho.
Leo observou a água.
— Apolo, alguma ideia do que é essa coisa?
— Só um palpite. Vamos torcer para eu estar errado. Pedale mais rápido. Temos que encontrar a tal grade.

22 comentários:

  1. Respostas
    1. Evelin chase, filha d Atena caçadora d sombras selecionada20 de outubro de 2017 20:55

      Ss kkkkk miga ti achei

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    2. Evelin chase, filha d Atena caçadora d sombras selecionada20 de outubro de 2017 20:55

      Ss kkkk miga ti achei

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  2. Eu aposto que é uma serpente marinha

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  3. tomara q seja o kraken

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    1. O Kraken não é da mitologia grega; na verdade não é da mitologia grega, romana, egípcia, nórdica, chinesa, japonesa, indígena, judaico-cristã ou qualquer mitologia.
      É do folclore nórdico. Mais precisamente da Noruega. O fato é que monstros marinhos são muito comuns em lendas e mitos ao redor do mundo inteiro graças ao medo instintivo que o ser humano tem do desconhecido (nesse caso o mar aberto), então é comum que surjam um ou dois monstros parecidos parecidos.
      Mas, talvez pelo peso que o monstro tem na cultura moderna, ou quem sabe só pra zoar um pouquinho, o Tio Rick faz uma citação do "Espada do Verão" de "Magnus Chase e os Deuses de Asgard" e no "Mar de Monstros" há um monstro um tanto parecido: Cila. Mas não é o mesmo.
      Vai dar lá uma olhada. O livro tem nesse mesmo ótimo site.
      ^^

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    2. Mas no caso de Magnus Chade faz sentido, uma vez que a mitologia citada é a nórdica. E folclore é feito a partir do costume e da aceitação popular, pode acontecer, como no caso do Kraken, de um mito fazer parte da mitologia e do folclore local. Além disso, mais próximo até do que Cila, Temos Cetus na mitologia grega.

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  4. Nesses momentos que o Percy é útil.. mas, deixa o menino sofrer na faculdade e o Apolo continuar sendo fofo sz

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  5. Odeio serpentes marinhas

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  6. Eu não sei quem tem menos sorte.
    Apolo?
    Percy?
    ou Hércules?

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    1. Faço a mesma pergunta a eras, que se fode mais?
      Percy?
      Annabeth?
      Leo?
      Jason?
      Os sete?
      Sadie?
      Carter?
      Apolo?
      Não sei

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    2. Damon Herondale(filho de Zeus)21 de setembro de 2017 19:01

      Magnus, pq ele sempre acaba morrendo
      As lutas dele são literalmente até a morte

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  7. Adoro a narrativa de Apolo, tão engraçado!Caramba a vida como um deus é bem estressante e egoísta!

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  8. será que o terceiro imperador é Calígula?

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  9. "
    — Fantástico — murmurei.
    Qualquer imperador que intimidasse Nero não era alguém que eu quisesse conhecer."

    Nééé???

    Expectativas super elevadas desde já sobre esse terceiro

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  10. Pobre Pessego! ��

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  11. — Cômodo me culpa pela morte dele — falei.
    — Por quê? — perguntou Meg.
    — Provavelmente porque eu o matei.




    Depois dessa resposta eu estou achando super injusto essa acusação do Homem Incômodo.... Não é???

    Rindo até 2030 Apolo é d+😂😂

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Boa leitura :)