22 de maio de 2017

Capítulo 20 - A magia é uma coisa muito simples

— Por que você acha que aqueles dois Urgals ainda estavam em Yazuac? — perguntou Eragon depois que eles estavam na trilha já há algum tempo. — Não parece que havia nenhum motivo para que tivessem ficado para trás.
— Suspeito que tenham abandonado o grupo principal para saquearem a cidade. O que acho mais estranho em tudo isso, pelo que sei, é que os Urgals se uniram para atacar em conjunto apenas duas ou três vezes na história. É perturbador estarem fazendo isso agora.
— Você acha que os Ra’zac provocaram o ataque?
— Não sei. O melhor que podemos fazer é afastar-nos de Yazuac o mais depressa que pudermos. Além disso, estamos na direção que os Ra’zac tomaram: sul.
Eragon concordou.
— Mas ainda precisamos de provisões. Há outra cidade por perto?
Brom balançou a cabeça.
— Não, mas Saphira pode caçar para nós se precisarmos comer apenas carne para sobreviver. Este bosque pode parecer pequeno para você, mas há muitos animais nele. O rio é a única fonte de água em um raio de vários quilômetros, então a maioria dos animais da planície vem aqui para beber. Não passaremos fome.
Eragon permaneceu em silêncio, satisfeito com a resposta de Brom. Conforme eles cavalgavam, pássaros barulhentos passavam voando rapidamente em volta deles, e o rio corria pacificamente. Era um lugar ruidoso, cheio de vida e energia. Eragon perguntou:
— Como aquele Urgal pegou você? As coisas aconteceram tão rápido e eu não vi nada.
— Foi falta de sorte — resmungou Brom. — Ele não era páreo para mim, então deu um chute no Fogo na Neve. O imbecil do cavalo recuou e me desequilibrou. Era tudo que aquele Urgal precisava para me dar este corte. — Ele coçou o queixo. — Suponho que ainda esteja pensando sobre a magia. O fato de tê-la descoberto lhe apresentou um problema delicado. Poucos sabem, mas todos os Cavaleiros podiam usar magia, embora cada um tivesse um poder diferente. Eles mantinham essa habilidade em segredo, mesmo no auge de seu poder, pois lhes dava uma vantagem sobre o inimigo. Se todos tivessem sabido, teria sido difícil lidar com as pessoas comuns. Muitos acham que os poderes mágicos do rei vêm do fato de ele ser um bruxo ou feiticeiro. Não é verdade. Ele faz magia porque é um Cavaleiro.
— Qual é a diferença? O fato de eu ter feito magia não faz de mim um feiticeiro?
— É claro que não! Um feiticeiro, como um Espectro, usa espíritos para realizar os seus desejos. É algo completamente diferente do seu poder. E também não faz de você um mágico, cujos poderes surgem sem a ajuda de espíritos ou de dragões. E você, com certeza, também não é um bruxo ou um mago, que consegue poder ao fazer poções e encantos. E isso me leva ao ponto de partida: o problema que você arranjou. Jovens Cavaleiros, como você, passavam por um treinamento rigoroso para fortalecer o corpo e aprimorar o controle mental. Isso se estendia durante vários meses, ocasionalmente anos, até que os Cavaleiros tivessem responsabilidade bastante para lidar com a magia. Até lá, não se revelava aos alunos o potencial de seus poderes. Se um deles descobrisse a magia por acidente, ele ou ela era separado do grupo para receber um treinamento particular. Era raro alguém descobrir a magia sozinho. — Ele inclinou a cabeça em direção a Eragon. — Contudo, eles nunca sofreram a mesma pressão que você sofreu.
— Então, quando eles, finalmente, eram treinados para usar a magia? — perguntou Eragon. — Não vejo como você poderia ensinar isso a alguém. Se tentasse me explicar isso há dois dias, nada faria o menor sentido.
— Os alunos deveriam fazer vários exercícios tolos que visavam apenas frustrá-los. Por exemplo: recebiam a ordem de deslocar pilhas de pedras usando apenas os pés, como também encher barris de drenagem com água e outras coisas impossíveis. Depois de um tempo, eles ficavam com raiva o bastante para usar a magia. Na maior parte das vezes, isso dava certo.
“O que isso significa é que você estará em desvantagem se, um dia, encontrar um inimigo que tenha recebido esse treinamento. Ainda há alguns inimigos velhos que estão bem vivos; o rei é um deles, sem falar nos elfos. Qualquer um deles poderia acabar com você facilmente.”
— Então, o que posso fazer?
— Não temos tempo para uma instrução formal, mas podemos fazer muita coisa enquanto viajamos — informou Brom. — Conheço muitas técnicas que você pode praticar e que lhe darão força e controle, mas você não pode obter a disciplina que os Cavaleiros tinham da noite para o dia. Você — ele olhou para Eragon jocosamente — terá de acumular todo esse conhecimento durante a nossa viagem. Será difícil no começo, mas as recompensas serão grandes. Acho que vai deixá-lo satisfeito saber que nenhum Cavaleiro na sua idade conseguiu usar magia do modo como você usou ontem contra aqueles dois Urgals.
Eragon sorriu com o elogio.
— Obrigado. Esta língua tem um nome?
Brom riu.
— Tem, mas ninguém sabe. Seria uma palavra de um poder incrível, algo com o qual você poderia controlar a língua inteira e todos as que a usassem. As pessoas procuram por ela há muito tempo, mas ninguém a encontrou.
— Ainda não entendo como esta magia funciona — disse Eragon. — Como vou usá-la, exatamente?
Brom ficou surpreso.
— Já não deixei isso claro?
— Não.
Brom respirou fundo e disse:
— Para usar a magia, a pessoa precisa ter um poder inato, o que está cada vez mais raro nos dias de hoje. Você também tem a capacidade de convocar este poder à vontade. Uma vez que o tenha convocado, você deve usá-lo ou liberá-lo. Entendeu? Bem, se quiser utilizar esse poder, deve pronunciar a palavra ou frase da linguagem antiga que descreva a sua intenção. Por exemplo: se você não tivesse dito brisingr ontem, nada teria acontecido.
— Então, sou limitado pelo meu conhecimento dessa linguagem?
— Exatamente — exclamou Brom. — E também, enquanto a estiver falando, é impossível mentir.
Eragon balançou a cabeça.
— Impossível. As pessoas sempre mentem. Os sons das palavras antigas não podem evitar que uma pessoa minta.
Brom ergueu uma sobrancelha e disse:
— Fethrblaka, eka weohnata neiat haina ono. Blaka eom iet lam.
De repente, um pássaro voou rapidamente de um galho e pousou na mão dele. Ele cantou alegremente e olhou para eles com seus olhos grandes. Depois de um instante, Brom disse:
— Eitha. — E o passarinho saiu voando.
— Como você fez isso? — perguntou Eragon espantado.
— Prometi não lhe fazer mal. Ele pode não saber exatamente o que falei, mas na linguagem do poder, o significado das minhas palavras estavam evidentes. O pássaro acreditou em mim porque sabe o que todos os animais sabem: aqueles que falam nessa língua estão presos à sua palavra.
— E os elfos falam essa língua?
— Falam.
— Então, eles nunca mentem?
— Não é bem assim — admitiu Brom. — Eles afirmam que não mentem, e de certa forma isso é verdade, mas eles aperfeiçoaram a arte de dizer uma coisa que significa outra. Nunca sabemos exatamente qual é a intenção deles ou se compreendemos o que falaram. Muitas vezes, revelam apenas parte da verdade e ocultam o resto. Só uma mente refinada e sutil pode lidar bem com a cultura deles.
Eragon ponderou sobre isso.
— O que os nomes próprios significam nessa língua? Eles dão poder sobre as pessoas?
Os olhos de Brom brilharam em sinal de aprovação.
— É claro. Aqueles que falam essa língua têm dois nomes. O primeiro é para ser usado no dia-a-dia e tem pouca autoridade. Mas o segundo é o nome verdadeiro e só é compartilhado com algumas pessoas de confiança. Houve uma época em que ninguém escondia seu nome verdadeiro, mas não vivemos em tempos melhores do que aqueles. Quem conhecer o seu nome verdadeiro terá um poder enorme sobre você. É como pôr a sua vida nas mãos de outra pessoa. Todo mundo tem um nome oculto, mas poucos o conhecem.
— Como descobrimos nosso nome verdadeiro?
— Os elfos sabem os deles instintivamente. Ninguém mais tem esse dom. Os Cavaleiros humanos, geralmente, faziam expedições para descobri-lo, ou achavam um elfo que lhes pudesse dizer, o que era raro, pois os elfos não repassam esse dom gratuitamente — respondeu Brom.
— Eu gostaria de saber o meu — disse Eragon desejosamente.
A expressão do rosto de Brom se fechou.
— Tenha cuidado. Pode ser um conhecimento terrível. Saber quem você é, sem qualquer ilusão ou piedade, é um momento de revelação do qual ninguém sai ileso. Algumas pessoas ficaram loucas por causa dessa realidade absoluta. A maioria tenta esquecer. Assim como o nome pode dar poder aos outros, você também poderá ganhar poder sobre si mesmo, se a verdade não acabar com você.
E tenho certeza de que isso não aconteceria, afirmou Saphira.
— Ainda assim, quero saber — insistiu Eragon, determinado.
— Você não é dissuadido facilmente. Isso é bom, pois só os determinados descobrem sua identidade, mas não posso ajudá-lo. É uma busca que você terá de realizar sozinho. — Brom mexeu seu braço ferido e fez uma cara feia por causa do desconforto.
— Por que você, ou eu, não se cura usando a magia? — interrogou Eragon.
Brom piscou o olho.
— Por nenhum motivo. Eu nunca pensei nisso, pois está além das minhas forças. Você, talvez, seria capaz de fazer isso com a palavra certa, mas não quero que se canse.
— Eu poderia livrá-lo de muitos problemas e de muita dor — protestou Eragon.
— Vou superar isso — disse Brom categoricamente. — Usar magia para curar uma ferida gasta tanta energia quanto gastaria se ela fosse cicatrizar sozinha. Não quero que fique cansado nos próximos dias. Você não deveria tentar realizar uma tarefa tão difícil assim ainda.
— Bem, se eu poderia curar o seu braço, será que poderia ressuscitar os mortos?
A pergunta surpreendeu Brom, mas ele respondeu rapidamente:
— Lembra-se do que falei sobre alguns projetos que poderiam matar você? Este é um deles. Os Cavaleiros foram proibidos de tentar ressuscitar os mortos, por causa de sua própria segurança. Há um abismo além da vida onde a magia não significa nada. Basta cair nele para que toda a sua força se esgote, e sua alma desaparecerá na escuridão. Magos, feiticeiros e Cavaleiros, todos falharam e morreram naquele portal. Atenha-se ao que é possível, cortes, machucados e, talvez, alguns ossos quebrados, mas, sem dúvida, fique longe dos mortos.
Eragon franziu o rosto.
— Isso é muito mais complexo do que eu pensava.
— Exatamente! — exclamou Brom. — Se você não entender o que estiver fazendo, fará algo grande demais e morrerá. — Ele virou-se na sela e inclinou-se para baixo, pegando um punhado de seixos no chão.
Fazendo um certo esforço, ajeitou-se e jogou todas as pedrinhas fora, menos uma.
— Está vendo esta pedra?
— Estou.
— Pegue-a. — Eragon a pegou e olhou fixamente para aquela massa desinteressante. Era bem preta, lisa e do tamanho da ponta de seu polegar. Havia inúmeras pedras como aquela na trilha.
— Este será o seu treinamento.
Eragon olhou de volta para ele, confuso.
— Não entendo.
— É claro que não — impacientou-se Brom. — É por isso que estou ensinando você e não o contrário. Agora, pare de falar ou não chegaremos a lugar algum. Quero que você tente o seguinte: faça a pedra levitar na palma da sua mão e mantenha-a no ar o máximo que puder. As palavras que você usará serão stenr reisa. Diga-as.
— Stenr reisa.
— Muito bem. Tente.
Eragon concentrou-se, de mau humor, na pedra, buscando em sua mente um resquício qualquer da energia que ardeu dentro dele um dia antes. A pedra ficou imóvel enquanto ele olhava fixamente para ela, suando e frustrado. Como conseguirei fazer isso? Finalmente, ele cruzou os braços e disparou:
— É impossível.
— Não — disse Brom rispidamente. — Eu digo o que é impossível ou não. Lute pelo que quer! Não desista tão fácil. Tente novamente.
Franzindo o rosto, Eragon fechou os olhos, deixando de lado todos os pensamentos que o distraíam. Respirou fundo e explorou os limites mais distantes da sua consciência, tentando achar onde o poder dele habitava. Procurando, encontrou apenas pensamentos e lembranças, até que sentiu algo diferente: uma pequena região que era parte dele e que, ao mesmo tempo, não era. Animado, ele entrou, tentando ver o que ela guardava.
Sentiu resistência, uma barreira em sua mente, mas sabia que o poder estava no outro lado. Tentou violá-la, mas ela resistiu a seus esforços. Com mais raiva, Eragon lançou-se contra aquela barreira, empurrou-a com toda a sua força, até que ela se estilhaçasse como um fino painel de vidro, inundando sua mente com um rio de luz.
— Stenr reisa — sussurrou.
O seixo oscilou no ar acima da palma de sua mão, que brilhava fracamente. Esforçou-se para mantê-lo no ar, mas o poder escapou e esvaiu-se para trás da barreira. A pedrinha caiu em sua mão produzindo um baque bem suave, e a palma voltou à normalidade. Sentiu-se um pouco cansado, mas sorriu por causa de seu sucesso.
— Nada mal para a primeira vez — avaliou Brom.
— Por que a minha mão fica daquele jeito? Parece uma pequena lanterna.
— Ninguém sabe ao certo — admitiu Brom. — Os Cavaleiros sempre preferiam canalizar seu poder para a mão que continha a gedwëy ignasia. Você pode usar a outra mão, mas não é tão fácil. — Ele olhou para Eragon durante um instante. — Comprarei luvas para você na próxima cidade, se não estiver destruída. Você consegue esconder essa marca muito bem, mas não queremos que ninguém a veja por acaso. Além disso, poderá haver situações em que não desejará alertar o inimigo.
— Você também tem essa marca?
— Não. Só os Cavaleiros as têm — esclareceu Brom. — E também você deve saber que a magia é afetada pela distância, como uma flecha ou uma lança. Se tentar levantar ou mover algo que esteja a mais de um quilômetro, isso exigirá mais energia do que se estivesse perto. Então, se vir inimigos se aproximando a mais de um quilômetro de distância, espere até eles chegarem mais perto antes de usar a magia. Agora, de volta ao trabalho! Tente levantar a pedrinha de novo.
— De novo? — perguntou Eragon desanimado por lembrar de todo esforço que teve de fazer para levantá-la apenas uma vez.
— É! E, desta vez, que seja mais rápido.
Continuaram a fazer os exercícios durante a maior parte do dia. Quando Eragon finalmente parou, estava cansado e mal-humorado. Durante aquelas horas, odiou a pedrinha e tudo relacionado a ela. Ele já ia atirá-la longe quando Brom disse:
— Não faça isso. Guarde-a. — Eragon olhou fixamente para ele e, relutante, enfiou a pedra em um bolso.
— Ainda não terminamos — alertou-o Brom. — Então, não relaxe. — Ele apontou para uma pequena planta.
— Isto se chama delois. — A partir daí, começou a ensinar a língua antiga a Eragon, dando palavras para ele decorar, desde vöndr, um galho fino e reto, até estrela da manhã, Aiedail.
Naquela noite, treinaram esgrima em volta da fogueira. Embora Brom tenha lutado com a mão esquerda, sua habilidade não diminuiu.


Os dias seguiam um mesmo padrão. Primeiro, Eragon se esforçava muito para aprender as palavras antigas e para manipular a pedrinha. Depois, à noite, ele lutava com Brom usando as espadas improvisadas.
Eragon sentia um desconforto constante, mas começou a mudar gradualmente, quase sem notar. Logo, a pedrinha deixou de vacilar quando ele a fazia levitar. Ao conseguir dominar os primeiros exercícios, Brom começou a passar outros mais difíceis, e seu conhecimento sobre a língua antiga aumentou.
Nos treinos de espada, Eragon ganhou segurança e velocidade, atacando como uma cobra. Seus golpes tornaram-se mais fortes, e o braço não tremia mais quando repelia os ataques. Os combates duravam mais tempo conforme ele aprendia a se defender dos golpes de Brom. Agora, quando iam dormir, Eragon não era o único com hematomas.
Saphira também continuou a crescer, porém mais lentamente do que antes. Seus voos demorados, juntamente com as caçadas periódicas, mantinham-na em forma e saudável. Ela agora estava mais alta do que os cavalos e muito mais comprida. Devido ao tamanho e por causa do modo como suas escamas brilhavam, era extremamente visível. Brom e Eragon preocupavam-se com isso, mas não conseguiram convencê-la a se deixar sujar de terra para ocultar o seu brilho.
Continuaram seguindo em direção ao sul, atrás dos Ra’zac. Eragon ficava frustrado, pois não importava a velocidade que eles imprimiam, os monstros sempre ficavam alguns dias à frente. Às vezes, ele estava a ponto de desistir, mas, quando achavam algum rastro ou pegada, seu ânimo era renovado.
Não havia sinal de qualquer habitação ao longo do Ninor ou na planície, deixando os três companheiros imperturbáveis ao passar dos dias. Finalmente eles se aproximaram de Daret, o primeiro vilarejo desde Yazuac.
Na noite anterior à chegada ao vilarejo, os sonhos de Eragon foram particularmente realistas. Ele viu Garrow e Roran em casa, sentados na cozinha destruída. Eles pediram a ele ajuda para reconstruir a fazenda, mas ele simplesmente balançou a cabeça, sentindo uma pontada no coração.
— Estou perseguindo seus assassinos — sussurrou para o tio.
Garrow olhou para ele desconfiado e perguntou:
— Por acaso, eu pareço estar morto?
— Não posso ajudá-lo — murmurou Eragon, sentindo as lágrimas em seus olhos.
De repente, houve um estrondo, e Garrow se transformou em um Ra’zac.
— Então, morra — eles sussurraram e pularam para cima de Eragon.
Ele acordou sentindo-se mal e ficou observando as estrelas no céu.
Tudo vai dar certo, pequenino, disse Saphira gentilmente.

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