27 de maio de 2017

Capítulo 20 - Ceris

Na manhã do quarto dia, enquanto Eragon andava ao lado de Shrrgnien, o anão disse:
— Então me diga, os homens realmente possuem dez dedos nos pés, como se diz por aí? Para falar a verdade, jamais viajei para além das nossas fronteiras antes.
— É claro que nós temos dez dedos! — disse Eragon, surpreso. Ele se virou na sela de Fogo na Neve, levantou o pé direito, tirou a bota e a meia, e sacudiu os dedos sob o olhar assombrado de Shrrgnien. — Vocês não?
Shrrgnien balançou a cabeça.
— Não, nós temos sete em cada pé. Foi assim que Helzvog nos fez. Cinco é muito pouco e seis é o número errado, mas sete... sete é perfeito. — Ele olhou novamente para o pé de Eragon, e depois esporeou seu burro para que seguisse em frente e começou a falar animadamente com Ama e Hedin que, enfim, lhe deram algumas moedas de prata.
Acho, disse Eragon enquanto calçava a bota novamente, que eu fui apenas o motivo para uma aposta. Por algum motivo, Saphira achou aquilo imensamente divertido.
Enquanto anoitecia e a lua cheia ia surgindo, o rio Edda foi se aproximando cada vez mais da periferia de Du Weldenvarden. Eles seguiram por uma trilha estreita em meio a um emaranhado de cornisos e roseiras em plena floração, que enchiam o ar noturno com o aroma ativo das flores.
A ansiedade e a expectativa foram aumentando em Eragon enquanto ele olhava para a floresta negra, sabendo que já haviam adentrado o domínio dos elfos e estavam perto de Ceris. Inclinou-se para a frente sobre a sela de Fogo na Neve, apertava e puxava as rédeas com força. A excitação de Saphira era igual à dele, ela voava, movia o rabo de um lado para o outro com impaciência.
Eragon se sentia como se eles tivessem entrado num sonho. Não parece real, disse ele.
Isso. Aqui as lendas do passado ainda protegem a terra.
Finalmente eles chegaram até uma pequena campina entre o rio e a floresta.
— Parem aqui — disse Arya num tom de voz baixo. Andou mais à frente até ficar sozinha no meio do gramado viçoso, para depois gritar na língua antiga: — Saiam de onde estão, meus irmãos! Vocês não têm nada a temer. Sou eu, Arya de Ellesméra. Meus companheiros são amigos e aliados, eles não irão nos causar mal. — Ela acrescentou outras palavras, algumas que Eragon desconhecia totalmente.
Durante alguns minutos, o único som era o do rio que passava atrás deles, até que do meio do silêncio das folhas brotou uma voz falando na língua dos elfos, tão rápida e fugaz que Eragon não compreendeu o significado. Arya respondeu:
— O.K.
Com um farfalhar, dois elfos se ergueram no meio da floresta e outros dois surgiram nos galhos de um carvalho nodoso. Os que estavam no chão carregavam longas lanças com lâminas brancas, ao passo que os outros portavam arcos. Todos usavam túnicas cor de musgo e casca de árvore sob capas esvoaçantes presas aos ombros com broches de marfim.
Um deles tinha madeixas longas e negras como as de Arya. Três deles tinham cabelos claros iguais à luz das estrelas.
Os elfos pularam das árvores e abraçaram Arya, riam com suas vozes claras e puras. Deram-se as mãos e dançaram numa roda em torno dela como se fossem crianças, cantaram alegremente enquanto giravam sobre a grama.
Eragon ficou olhando a cena estupefato. Arya jamais lhe dera razões para suspeitar que os elfos gostavam de — ou até podiam — rir. Era um som magnífico, como se fossem harpas e flautas trinando de felicidade com a própria música que tocavam. Ele gostaria de ficar escutando aquilo para sempre.
Até que Saphira pairou sobre o rio e pousou ao lado de Eragon. Assim que ela se aproximou, os elfos gritaram alarmados e apontaram as armas em sua direção. Arya falou rapidamente num tom apaziguador, gesticulando primeiro na direção de Saphira e depois na de Eragon. Quando ela parou para respirar, Eragon arregaçou a luva que estava em sua mão direita, inclinou a palma de modo que a gedwëy ignasia refletisse a luz da lua, e disse, como já havia dito a Arya há muito tempo:
— Eka aí fricai un Shur’tgal. — Sou um Cavaleiro e amigo. Lembrando-se da aula que teve na véspera, ele tocou seus lábios e acrescentou: — Atra esterní ono thelduin.
Os elfos abaixaram suas armas enquanto seus rostos angulosos se iluminaram com uma alegria radiante. Eles tocaram seus lábios com os dedos indicadores e se curvaram para ele e para Saphira, murmurando suas respostas na língua antiga.
Depois eles levantaram suas armas apontando para os anões e riram como se fosse de alguma piada secreta. Voltando para dentro da floresta, os elfos acenaram com as mãos e gritaram:
— Venham, venham!
Eragon seguiu Arya com Saphira e os anões, que murmuravam entre si. Enquanto passavam entre as árvores, as copas os lançou numa escuridão aveludada, exceto onde fragmentos de luz lunar penetravam através de fendas na superfície das folhas sobrepostas. Eragon podia ouvir os elfos cochichando e rindo o tempo todo, embora não pudesse vê-los. De vez em quando eles indicavam a direção certa quando o humano e os anões erravam o caminho.
Mais adiante, uma fogueira brilhava no meio das árvores, ela projetava sombras que corriam como espíritos pelo chão folhoso. Quando Eragon adentrou na área iluminada, viu três pequenas cabanas agrupadas em torno de um enorme carvalho. Lá no alto da árvore havia uma plataforma coberta onde um vigia podia observar o rio e a floresta. Uma vara havia sido amarrada entre duas das cabanas: nela se dependuravam feixes de plantas secas.
Os quatro elfos sumiram dentro das cabanas e depois voltaram com os braços repletos de frutas e vegetais — mas nada de carne — e começaram a preparar uma refeição para os seus convidados. Cantavam com os lábios fechados enquanto trabalhavam, passavam de uma canção para outra de acordo com sua vontade. Quando Orik perguntou os seus nomes, o elfo de cabelos escuros apontou para si mesmo e disse:
— Sou Lifaen da Casa Rílvenar. E meus companheiros são Edurna, Celdin e Narí.
Eragon se sentou ao lado de Saphira, feliz pela oportunidade de descansar e observar os elfos. Embora todos os quatro fossem do sexo masculino, seus rostos lembravam o de Arya, com lábios delicados, narizes finos e olhos grandes, rasgados e brilhantes. O resto dos seus corpos eram iguais, com ombros estreitos, braços e pernas finas. Cada um deles era mais belo e nobre do que qualquer humano que Eragon já havia visto, embora de um jeito raro e exótico.
Quem poderia pensar que um dia eu iria visitar a terra natal dos elfos?, admirou-se Eragon. Sorriu e se recostou em uma cabana, sonolento por causa do calor do fogo. Acima dele, os olhos azuis e dançantes de Saphira rastreavam os elfos com absoluta precisão.
Há mais magia nesta raça, assinalou ela enfim, do que nos humanos e nos anões. Eles não sentem que vieram da terra ou da pedra, mas sim de um outro reino, metade interno, metade externo, como reflexos num espelho d’água.
Eles com certeza são elegantes, disse ele. Os elfos se moviam como dançarinos, cada um de seus gestos era leve e sereno.
Brom havia dito a Eragon que era deselegante falar mentalmente com o dragão de um Cavaleiro sem permissão, e os elfos aderiram a esse costume, faziam em alto e bom tom seus comentários para Saphira, que respondia a eles diretamente. Saphira normalmente se abstinha de tocar os pensamentos de humanos e anões, e permitia que Eragon retransmitisse suas palavras, já que poucos membros dessas raças tinham o treinamento adequado para proteger suas mentes caso desejassem ter alguma privacidade. Isso também parecia uma imposição para se usar tal forma íntima de contato para trocas casuais. Porém os elfos não tinham tais inibições, receberam bem Saphira em suas mentes, deleitaram-se com sua presença.
Até que finalmente a comida ficou pronta e foi servida em pratos esculpidos que pareciam terem sido feitos de ossos espessos, embora desse para notar a textura da madeira em meio às flores e às videiras que decoravam as bordas. Eragon também foi servido de uma jarra de vinho de groselha — feita do mesmo material incomum — com um dragão entalhado em sua alça.
Enquanto comiam, Lifaen juntou uma série de tubos de bambu e começou a tocar uma melodia doce, seus dedos corriam pelos vários buracos. Logo, o elfo mais alto de cabelo prateado, Narí, ergueu a voz e cantou:

Ó!

O dia acabou, as estrelas brilham,
As folhas estão quietas, a lua é alva!
Ria de dor e ria do oponente,
A filha da Menoa esta noite está salva!

Criança da floresta que perdemos na guerra,
Filha das matas pega pela vida em instantes!
Livre do medo e livre da chama,
Salvou um Cavaleiro das trevas reinantes!

Mais uma vez os dragões ganham os céus,
E vinguemos o sofrimento deles, é a lei!
Com espadas fortes e braços fortes,
A hora é propícia para a morte de um rei!

Ó!

O vento é leve, o rio é profundo,
As árvores são altas, as aves a espreita!
Ria de dor e ria do oponente,
Chegou a hora feliz da colheita!

Quando Narí terminou, Eragon soltou um suspiro contido. Jamais havia escutado voz como aquela antes, parecia que o elfo havia revelado sua essência, sua verdadeira alma.
— Isso foi lindo, Narí-vodhr.
— É uma composição mal-acabada, Argetlam — objetou Narí. — Todavia, lhe agradeço.
Thorv resmungou.
— Muito bonito, mestre elfo. No entanto, temos assuntos muito mais sérios a tratar do que recitar versos. Será que ainda teremos que acompanhar Eragon?
— Não — respondeu Arya rapidamente, atraindo o olhar dos outros elfos. — Vocês podem voltar para casa pela manhã. Nós asseguramos que Eragon chegará a Ellesméra.
Thorv abaixou a cabeça.
— Então nossa tarefa está terminada.
Assim que Eragon se deitou na roupa de cama que os elfos lhe haviam arrumado, concentrou-se para ouvir a fala de Arya, que vinha de uma das cabanas. Embora ela usasse muitas palavras, pouco familiares, na língua antiga, ele deduziu que a elfa estava explicando aos seus anfitriões como havia perdido o ovo de Saphira e os acontecimentos que se seguiram.
Houve um longo silêncio depois que ela parou de falar, até que um elfo disse:
— É bom que você tenha voltado, Arya Dröttningu. Islanzadí ficou bastante aflita quando você foi capturada e o ovo roubado, e nada menos do que por Urgals! Ela ficou, e está, com o coração despedaçado.
— Quieto, Edurna... quieto — repreendeu um outro. — Os dvergar são pequenos, mas possuem ouvidos aguçados e estou certo de que irão contar tudo para Hrothgar.
Daí suas vozes baixaram e Eragon nada mais pode discernir do murar de vozes, que se confundiu com o farfalhar das folhas enquanto ele adormecia com a canção do elfo repetindo-se sem parar em seus sonhos.


O aroma das flores pesava no ar quando Eragon acordou e olhou para uma Du Weldenvarden banhada pelo sol. Acima dele, uma panóplia mosqueada de folhas que se amontoavam e descreviam um arco, era sustentada por troncos grossos enterrados no solo seco e árido. Apenas musgo, líquen e uns poucos arbustos sobreviviam naquela penumbra verde e penetrante. A escassez de vegetação rasteira permitia que se enxergasse a longas distâncias entre os pilares nodosos e que se circulasse livremente sob o teto de folhas.
Assim que despertou, Eragon viu que Thorv e seus guardas já haviam levantado acampamento e estavam prontos para partir. O burro de Orik estava amarrado atrás da montaria de Ekksvar. Eragon se aproximou de Thorv e disse:
— Muito obrigado a todos vocês por terem protegido a mim e a Saphira. Por favor, transmitam a minha gratidão a Ûndin.
Thorv bateu com o punho no peito.
— Vou levar as suas palavras. — Ele hesitou e olhou novamente para as cabanas. — Os elfos são uma raça esquisita, cheia de luz e sombra. De manhã, bebem com você, à noite, o apunhalam. Não deixe de ficar encostado em paredes, Matador de Espectros. Excêntricos, é isso que eles são.
— Vou me lembrar disso.
— Hum. — Thorv gesticulou na direção do rio. — Eles planejam viajar pelo lago Eldor em canoas. O que você fará com seu cavalo? Poderíamos levá-lo para Tarnag conosco, e de lá até Tronjheim.
— Canoas! — gritou Eragon com espanto. Ele sempre planejara levar Fogo na Neve para Ellesméra. Era conveniente ter um cavalo sempre que Saphira estivesse distante, ou em lugares muito apertados para seu tamanho. Tocou com os dedos nos ralos pelos que cresciam no seu maxilar. — Essa é uma oferta gentil. Vocês me garantem que Fogo na Neve será bem tratado? Não suportaria se algo acontecesse com ele.
— Pela minha honra — garantiu Thorv —, você voltará e o encontrará gordo e de pelo escovado.
Eragon soltou Fogo na Neve e transferiu o garanhão, sua sela e seus suprimentos para os cuidados de Thorv. Despediu-se de cada um dos guerreiros. Ele, Saphira e Orik ficaram observando os anões retornarem ao longo da mesma trilha pela qual tinham chegado.
Regressando às cabanas, Eragon e o resto de seu grupo seguiram os elfos até uma moita na beira do rio Edda. Lá, ancoradas nos lados de uma grande pedra redonda, havia duas canoas brancas com videiras entalhadas ao longo de seus bordos.
Eragon embarcou na mais próxima e pôs sua bagagem entre os pés. Ficou pasmo com a leveza da embarcação, ele poderia levantá-la com uma única mão. Mais espantoso ainda, os cascos pareciam ter sido feitos com painéis de madeira de bétula combinados num todo, sem qualquer emenda. Curioso, tocou no costado. A madeira era dura e retesada, como um pergaminho esticado, além de estar fria por causa do contato com a água. Ele bateu nela com o nó de um dos dedos. A casca fibrosa reverberava como se fosse um tambor abafado.
— Todas as suas canoas são feitas dessa maneira? — perguntou ele.
— Todas, exceto as maiores — respondeu Narí, sentado na proa da embarcação de Eragon. — Para estes, nós cantamos para que o cedro e o carvalho de melhor qualidade fiquem na forma exata.
Antes que Eragon pudesse perguntar o significado de tal frase, Orik entrou na mesma canoa enquanto Arya e Lifaen se apropriavam da outra. A elfa se virou para Edurna e Celdin — que estavam em pé na margem — e disse:
— Vigiem este caminho de forma que ninguém nos siga, e não falem a quem quer que seja sobre nossa presença. A rainha deve ser a primeira a saber. Mandarei reforços assim que chegarmos em Sílthrim.
— Arya Dröttningu.
— Que as estrelas os protejam — respondeu a elfa.
Inclinando-se para frente, Narí e Lifaen tiraram varas pontudas com três metros de comprimento de dentro das canoas e começaram a impelir as embarcações rio acima. Saphira deslizava dentro d’água atrás deles e nadou até emparelhar com as embarcações. Quando Eragon olhou em sua direção, pestanejou preguiçosamente e depois submergiu, forçando o rio a avolumarse num montículo sobre suas costas denteadas. Os elfos riram quando ela executou tal movimento e fizeram muitos elogios ao seu tamanho e força.
Uma hora depois, alcançaram o lago Eldor, que era um pouco agitado por ondas pequenas e recortadas. Aves e insetos fervilhavam ao longo de uma muralha de árvores na margem a oeste, enquanto a do leste dava na planície. Nesse lado corriam centenas de cervos.
Assim que se livraram da correnteza do rio, Narí e Lifaen guardaram as varas e distribuíram remos com pás de folhas. Arya e Orik já sabiam como conduzir uma canoa, mas Narí teve que explicar o processo para Eragon.
— Viramos na direção do bordo no qual você está remando — explicou o elfo. —— Portanto, se eu remar na direita e Orik na esquerda, então você deve remar primeiro de um bordo e depois do outro, caso contrário vamos sair do nosso curso. — A luz do dia, o cabelo de Narí reluzia como arame finíssimo, cada fio era uma linha flamejante. Eragon logo dominou a técnica e, à medida que o movimento ia tornando-se automático, sua mente estava livre para sonhar acordada.
Dessa maneira, ele flutuava sobre o lago frio, perdido nos mundos fantásticos escondidos por trás de seus olhos. Quando fez uma pausa para descansar os braços, mais uma vez pegou o jogo de argolas de Orik em seu cinto e se esforçou para arrumar os teimosos aros de ouro da forma correta. Narí notou o que ele estava fazendo.
— Posso ver essa argola?
Eragon passou-o para o elfo, que lhe deu as costas. Durante alguns instantes, Eragon e Orik manobraram a canoa sozinhos, enquanto Narí se ocupava com anéis entrelaçados. Então, exclamando de satisfação, Narí levantou a mão e o anel completo brilhava no seu dedo médio.
— Que enigma delicioso — disse Narí. Ele tirou o anel e o sacudiu, para que voltasse ao estado original, e a devolveu para Eragon.
— Como foi que você resolveu? — perguntou Eragon, espantado e invejoso por ele ter decifrado a charada com tanta facilidade. — Espere... Não me diga. Quero descobrir sozinho.
— É claro — disse Narí, sorrindo.

Um comentário:

  1. Os elfos parecem ser gente boa.
    Eles me lembram a Luna Lovegood de Harry Potter

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Boa leitura :)