27 de maio de 2017

Capítulo 2 - O Conselho de Anciãos

Eragon despertou e rolou para a beirada da cama, olhando em volta o quarto iluminado pelo brilho opaco da lanterna. Ele se sentou e ficou observando Saphira dormir. Os músculos de seus flancos se expandiam e se contraíam à medida que os grandes foles de seus pulmões forçavam a saída do ar pelas narinas escamosas. Eragon pensou no calor infernal que ela agora podia invocar à vontade e projetar do estômago para fora em meio a rugidos. Era espetacular poder ver chamas, quentes o suficiente para derreter metal, passando pela sua língua e seus dentes de marfim sem feri-los.
Desde a primeira vez em que exalou fogo durante a luta dele contra o Espectro — ao mergulhar do topo de Tronjheim em direção aos dois —, Saphira vinha estando insuportavelmente orgulhosa de sua nova habilidade. Ela soltava, constantemente, ligeiros jatos de fogo e aproveitava qualquer oportunidade para incendiar objetos.
Pelo fato de Isidar Mithrim estar destruída, Eragon e Saphira não tiveram mais como permanecer no abrigo para dragões que ficava acima da estrela de safira. Os anões lhes deram alojamentos numa antiga sala de guarda no nível mais baixo de Tronjheim. Era um quarto amplo, mas com teto baixo e paredes escuras.
A angústia se apoderou de Eragon ao lembrar-se dos acontecimentos do dia anterior. Lágrimas encheram os seus olhos, derramando-se sobre seu rosto. Ele aparou uma delas e cercou-a em sua mão. Não tiveram nenhuma notícia de Arya até tarde da noite, quando emergiu do túnel, esgotada e com os pés feridos. Apesar de seus maiores esforços — e de toda a sua magia —, os Urgals haviam escapado.
— Encontrei isso aqui — disse ela. E depois mostrou um dos mantos cor de violeta dos Gêmeos, rasgado e ensanguentado, e a túnica e as manoplas de couro de Murtagh. — Estavam espalhados ao longo da beirada de uma fenda escura, cujo fundo nenhum túnel poderia alcançar. Os Urgals devem ter roubado as armaduras e as armas e jogado os corpos dentro da fenda. Tentei me valer da cristalomancia para descobrir o paradeiro de Murtagh e dos Gêmeos e não vi nada além das sombras do precipício. — Seus olhos encontraram os de Eragon. — Lamento, mas eles sumiram.
Agora, nos confins de sua mente, Eragon sofria por Murtagh. Era um sentimento terrível e crescente de perda e pavor, piorado pelo fato de que ele havia se familiarizado ainda mais com tal sensação ao longo dos últimos meses.
Enquanto contemplava a lágrima em sua mão — um pequeno domo resplandecente —, Eragon decidiu procurar sozinho no cristal os três homens. Sabia que era uma esperança inútil e desesperada, mas tinha de tentar para se convencer de que Murtagh havia realmente partido. Mesmo assim, não tinha certeza se queria ter sucesso onde Arya falhara, se poderia sentir-se melhor vislumbrando Murtagh caído e dilacerado na base de um despenhadeiro abaixo de Farthen Dûr.
Ele sussurrou:
— Draumr kópa. — A escuridão envolveu o líquido, transformando-o num pequeno ponto escuro na palma de sua mão prateada. Este começou a se mexer e tremeluzir, imitando o sibilar de um pássaro que cruzava uma lua nublada... e depois nada.
Outra lágrima se juntou à primeira.
Eragon respirou fundo, inclinou-se para trás, e deixou que a calma se instalasse nele. Desde que começou a se recuperar do ferimento que lhe foi infligido pelo Espectro, reconhecera — com toda a humildade que lhe cabia — que só havia vencido por pura sorte. Se um dia eu chegar a enfrentar outro Espectro, ou os Ra’zac, ou Galbatorix, terei de ser mais forte se quiser vencer. Brom poderia ter me ensinado mais, sei que poderia. Mas, sem ele, só tenho uma opção: os elfos.
A respiração de Saphira acelerou e ela abriu os olhos, bocejando largamente.
Bom dia, pequenino.
Será mesmo? Ele olhou para baixo e se inclinou sobre suas mãos, comprimindo o colchão. É terrível... Murtagh e Ajihad... Por que as sentinelas dos túneis não nos avisaram dos Urgals? Eles não conseguiriam rastrear o grupo de Ajihad sem serem notados... Arya tinha razão, isso não faz sentido.
Pode ser que nunca venhamos saber a verdade, disse Saphira delicadamente. Ela se levantou, e as asas roçaram no teto. Você precisa comer, depois temos de descobrir o que os Varden estão planejando. Não podemos perder tempo, um novo líder pode ser escolhido em questão de horas.
Eragon concordou, pensando em como eles haviam deixado todos ontem: Orik saíra em disparada para contar as novidades ao rei Hrothgar, Jörmundur levava o corpo de Ajihad para um lugar onde ficaria até o funeral, e Arya, que ficara sozinha observando o que acontecia.
Eragon se levantou, amarrou Zar’roc e seu arco, para depois se curvar e erguer a sela de Fogo na Neve. Uma dor pungente se espalhou pelo seu tronco, fazendo-o ir ao chão, se contorcer e se arrastar. Parecia que o jovem estava sendo cortado ao meio. Saphira urrou quando a sensação dilacerante a invadiu. Ela tentou acalmá-lo com sua própria mente, mas não tinha condições de aliviar o seu sofrimento. Sua cauda se levantou instintivamente, como se estivesse pronta para a luta.
Levou minutos para que os espasmos diminuíssem de intensidade e a última palpitação desaparecesse, deixando Eragon ofegante. O suor molhou o seu rosto, deixando seu cabelo espetado e seus olhos vidrados. Ele colocou a mão nas costas e alisou cuidadosamente o topo de sua cicatriz. Estava quente, esbraseada e sensível ao toque.
Saphira abaixou o nariz e tocou no braço do jovem. Oh, pequenino...
Foi pior desta vez, disse ele, enquanto se erguia, cambaleando. Ela deixou que Eragon se apoiasse em seu corpo para enxugar o suor com um pano, depois ele tentou uns passos rumo à porta.
Você tem força suficiente para prosseguir?
Precisamos ter. Somos obrigados, como dragão e Cavaleiro, afazer uma escolha pública do próximo líder dos Varden, e talvez até influenciar na seleção. Não vou ignorar a força da nossa posição, nós agora exercemos uma grande autoridade sobre os Varden. Pelo menos os Gêmeos não estão aqui para se apoderar desta posição. Esse é o único lado bom da situação.
Muito bem, mas Durza teria que sofrer mil anos de tortura pelo que fez a você.
Ele grunhiu. Apenas fique perto de mim. Juntos, os dois seguiram por Tronjheim, em direção à cozinha mais próxima. Nos corredores e nos saguões, as pessoas paravam para se curvar perante ambos, murmurando “Argetlam” ou “Matador de Espectros”. Até os anões faziam reverências, mas não com tanta frequência. Eragon comoveu-se com as expressões melancólicas dos humanos e com as roupas escuras que usavam para expressar sua tristeza. Muitas mulheres vestiam preto dos pés à cabeça, com véus de renda cobrindo seus rostos.
Na cozinha, Eragon pegou um alguidar com alimentos e o levou até uma mesa baixa. Saphira ficou observando-o atentamente para o caso de ele ter um outro ataque. Várias pessoas tentaram se aproximar do Cavaleiro, mas ela levantava o lábio e rosnava, fazendo-as fugir apressadas. Eragon ciscou a comida e fingiu ignorar o transtorno. Finalmente, para tentar desviar seus pensamentos de Murtagh, ele perguntou: Quem você acha que teria condições de assumir o controle dos Varden agora que Ajihad e os Gêmeos se foram?
Ela hesitou. É possível que você tenha, caso as últimas palavras de Ajihad sejam interpretadas como uma benção para assegurar a liderança. Quase ninguém iria se opor a você. No entanto, esse não me parece um sábio caminho a trilhar. Só vejo problemas nessa direção.
Concordo. Além do mais, Arya não aprovaria e poderia ser um inimiga perigosa. Elfos não conseguem mentir na língua antiga, mas não possuem tal inibição quando usam a nossa — ela poderia negar que Ajihad chegou a proferir tais palavras se isso servisse aos seus propósitos. Não, não quero essa posição... E quanto a Jörmundur?
Ajihad o chamava de seu braço direito. Infelizmente, sabemos quase nada sobre ele ou os outros líderes dos Varden. Passou-se pouco tempo desde que viemos para cá. Teremos de fazer um julgamento baseado em nossos sentimentos e impressões, sem a vantagem de conhecer o contexto histórico.
Eragon empurrou seu peixe para o lado junto com o purê de tubérculos. Não se esqueça de Hrothgar e dos clãs de anões, eles não ficarão omissos nesse processo. Exceto Arya, os elfos não têm qualquer influência na sucessão — uma decisão será tomada antes mesmo de a notícia alcançá-los. Mas os anões não podem nem serão ignorados. Hrothgar apoia os Varden, mas se uma quantidade suficiente de clãs lhe fizer oposição, ele poderá ser manobrado a favorecer alguém inadequado para o comando.
E quem poderia ser?
Uma pessoa facilmente manipulável. Ele fechou os olhos e se inclinou para trás. Poderia ser qualquer um em Farthen Dûr, simplesment qualquer um.
Durante algum tempo trocaram considerações sobre as questões com as quais se confrontavam. De repente Saphira disse: Eragon, há alguém aqui que deseja vê-lo. Não posso afugentá-lo.
Hã? Seus olhos se abriram num estalo e ficaram piscando até se acostumarem à luz. Um jovem pálido estava em pé, ao lado da mesa, olhando Saphira como se temesse ser devorado a qualquer momento.
— O que foi? — perguntou Eragon sem ser rude.
O garoto começou a falar, se confundiu e depois fez uma reverência.
— Você foi convocado, Argetlam, para falar perante o Conselho de Anciãos.
— Quem são eles?
A pergunta deixou o rapaz ainda mais confuso.
— O... O Conselho é... são... pessoas que nós... quer dizer, os Varden... escolheram para falar em nome de Ajihad. Foram seus conselheiros de confiança e agora querem vê-lo. É uma grande honra! — finalizou com um rápido sorriso.
— Você me levará até eles?
— Sim.
Saphira olhou para Eragon com um ar indagador. Ele encolheu os ombros e deixou a comida intacta no prato, sinalizando ao jovem que lhe indicasse o caminho. Enquanto caminhavam, o garoto admirava Zar’roc com os olhos radiantes, mas depois baixou o olhar timidamente.
— Como você se chama? — perguntou Eragon.
— Jarsha, senhor.
— Bom nome. Você levou bem a sua mensagem, devia estar orgulhoso. — Jarsha sorriu e acelerou o passo.
Os dois alcançaram uma porta de pedra convexa, Jarsha a abriu. O salão era circular, a cúpula era azul da cor do céu, decorada com constelações. No centro da câmara, uma mesa de mármore redonda ostentava um timbre do clã lngeitum marchetado — um martelo em posição vertical circundado por doze estrelas. Sentados ali estavam Jörmundur e mais dois homens, um alto e um outro corpulento, uma mulher com lábios comprimidos, olhos muito próximos e bochechas meticulosamente pintadas, e uma segunda mulher com grande parte do cabelo grisalho cobrindo-lhe um rosto matronal que contrastava com o cabo de uma adaga que aflorava de dentro das vastas protuberâncias do seu corpete.
— Você pode ir — disse Jörmundur dirigindo-se a Jarsha, que rapidamente fez uma reverência e saiu.
Consciente de que estava sendo observado, Eragon vasculhou o salão e depois se sentou no meio de uma fileira de cadeiras vazias, para que os membros do Conselho fossem forçados a se virar em seus assentos para olhá-lo de frente. Saphira se acocorou logo atrás dele. O jovem podia sentir a respiração quente do dragão no topo de sua cabeça.
Jörmundur curvou-se ligeiramente em reverência e depois voltou a se sentar.
— Obrigado por ter vindo, Eragon, muito embora você tenha sofrido as suas próprias perdas. Estes são Umérth — o homem alto, — Falberd — o corpulento, — Sabrae e Elessari — as duas mulheres.
Eragon inclinou a cabeça e depois perguntou:
— E os Gêmeos, eles faziam parte deste Conselho?
Sabrae balançou negativamente a cabeça na mesma hora e bateu com sua longa unha em cima da mesa.
— Eles não tinham nada a ver conosco. Eram repugnantes... pior do que repugnantes... sanguessugas que só trabalhavam em benefício próprio. Não desejavam servir aos Varden. Assim sendo, não tinham lugar neste Conselho. — Eragon podia sentir o perfume dela vindo lá do outro lado da mesa, era denso e oleoso, como uma flor apodrecendo. Ele sorriu em segredo ao pensar nisso.
— Basta. Não estamos aqui para falar dos Gêmeos — disse Jörmundur. — Estamos enfrentando uma crise que deve ser sanada rapidamente e de forma eficaz. Se não escolhermos o sucessor de Ajihad, alguém o fará. Hrothgar já nos contatou para oferecer suas condolências. Embora tenha sido mais do que cortês, ele com certeza estava elaborando os seus planos ao mesmo tempo em que conversávamos. Também temos que considerar os Du Vrangr Gata, os usuários de magia. A maior parte deles é leal aos Varden, mas é difícil prever suas ações, mesmo na melhor das hipóteses. Eles podem decidir se opor à nossa autoridade em beneficio próprio. É por isso que precisamos da sua ajuda, Eragon, para fornecer a legitimidade necessária para qualquer um que assuma o lugar de Ajihad.
Falberd se ergueu, apoiando suas mãos carnudas na mesa.
— Nós cinco já decidimos quem iremos apoiar. Não temos dúvidas de quem é a melhor pessoa. Mas — ele fez uma pausa para levantar um dedo grosso — antes de revelarmos o seu nome, você deve nos dar a sua palavra de honra de que, concordando ou não conosco, nada relativo a nossa conversa sairá deste salão.
Por que eles iriam querer isso?, perguntou Eragon para Saphira.
Não sei, disse ela, bufando. Pode ser uma armadilha... E uma aposta que você terá de fazer. Lembre-se, no entanto, de que eles não me pediram para prometer nada. Poderei contar para Arya o que eles conversaram, caso seja necessário. Tolos são eles ao se esquecerem que eu sou tão inteligente quanto qualquer ser humano.
Satisfeito com tal pensamento, Eragon disse:
— Muito bem, vocês têm a minha palavra. E então, quem vocês querem que lidere os Varden?
— Nasuada.
Eragon ficou desconcertado pela surpresa da indicação, mas pensou rápido. Ele não cogitara o nome de Nasuada para a sucessão por conta de sua juventude — ela era mais velha do que ele apenas alguns anos. Claro, não havia uma razão para que não fosse a líder, mas por que o Conselho de Anciãos iria querê-la? Que vantagens teriam? Ele se lembrou do conselho de Brom e tentou analisar todos os ângulos da questão, sabendo que teria de tomar uma decisão rapidamente.
Nasuada tem aço dentro de si, observou Saphira. Ela seria como o pai.
Talvez, mas quais seriam os motivos para escolhê-la? Para ganhar tempo, Eragon fez uma pergunta:
— Por que não você, Jörmundur? Ajihad dizia que você era o seu braço direito. Isso não é um indício de que você deveria tomar o seu lugar agora que ele se foi?
Uma certa intranquilidade se espalhou pelo Conselho: Sabrae se ajeitou ainda mais na cadeira com as mãos fechadas a sua frente, Umérth e Falberd olhavam um para o outro de um jeito sombrio, ao passo que Elessari simplesmente sorria, sacolejando o cabo de sua adaga em seu peito.
— Porque na época — respondeu Jörmundur, escolhendo cuidadosamente as palavras — Ajihad referia-se apenas a questões militares. Além do mais, sou membro deste Conselho, que só tem poder porque apoiamos um ao outro. Seria insensato e perigoso que um de nós ficasse acima do resto. — O Conselho relaxou assim que ele terminou de falar, e depois Elessari bateu no antebraço de Jörmundur.
Ah!, exclamou Saphira. Ele provavelmente teria tomado o poder se fosse possível obrigar os outros a apoiá-lo. Veja só como eles o contemplam. Ele parece um lobo no meio deles.
Um lobo no meio de um bando de chacais, talvez.
— Será que Nasuada possui experiência suficiente? — perguntou Eragon.
Elessari se apoiou na beirada da mesa enquanto se inclinava para frente.
— Eu já estava aqui há sete anos quando Ajihad se uniu aos Varden. Vi Nasuada crescer, de menina querida até a mulher que é hoje. De vez em quando ela é um pouco imprudente, mas é um bom nome para liderar os Varden. O povo irá amá-la. Agora eu — ela bateu delicadamente no peito — e meus amigos ficaremos aqui para orientá-la durante esses tempos difíceis. Nasuada não ficará sem ninguém para lhe mostrar o caminho. A inexperiência não deve ser barreira para que ocupe sua posição de direito.
A sensatez se apossou de Eragon. Eles querem uma marionete!
— O funeral de Ajihad acontecerá daqui a dois dias — interrompeu Umérth. — Estamos planejando indicar Nasuada logo depois como nossa nova líder. Ainda temos que saber se ela aceita, mas com certeza sua resposta será positiva. Queremos que você esteja presente à indicação e que jure lealdade aos Varden. Ninguém, nem mesmo Hrothgar, poderá reclamar depois. Isso devolverá a confiança que a morte de Ajihad roubou das pessoas e evitará que alguém tente criar uma dissidência nesta organização.
Lealdade!
Saphira tocou rapidamente a mente de Eragon. Note bem, eles não querem que você preste juramento a Nasuada, só aos Varden.
Sim, e eles querem ser aqueles que designarão Nasuada, o que seria um indício de que o Conselho tem mais poder do que ela. Poderiam ter pedido a Arya ou a nós que a designassem, mas isso significaria o reconhecimento de que qualquer um que o fizesse estaria acima dos Varden. Desta maneira, eles reivindicam sua superioridade perante Nasuada, passam a nos controlar através da fidelidade, e ainda se beneficiam de ter um Cavaleiro endossando Nasuada em público.
— O que vai acontecer — perguntou ele — se eu decidir não aceitar a sua oferta?
— Oferta? — perguntou Falberd, aparentemente intrigado. — Ora, nada, é claro. Apenas seria um gesto de extremo desprezo você não estar presente quando Nasuada for escolhida. Se o herói da batalha de Farthen Dûr a ignorar, o que ela poderá pensar a não ser que um Cavaleiro a ofendeu e considerou os Varden indignos para receberem seus préstimos? Quem toleraria tamanha vergonha?
A mensagem não poderia ser mais clara. Eragon agarrou o punho de Zar’roc debaixo da mesa, ansiando por gritar que era desnecessário forçá-lo a apoiar os Varden, que o faria de qualquer maneira. Agora, no entanto, ele instintivamente queria se rebelar, se livrar das algemas que pretendiam colocar em seus pulsos.
— Pelo alto conceito que se tem dos Cavaleiros, eu poderia concluir que meus esforços seriam mais bem gastos liderando os Varden por conta própria.
Os ânimos se acirraram.
— Isso não seria inteligente da sua parte — afirmou Sabrae. Eragon vasculhou sua mente à procura de uma maneira de escapar da situação.
Sem Ajihad, disse Saphira, pode ser impossível se manter independente de qualquer grupo, como ele queria que nós fizéssemos. Não podemos deixar os Varden furiosos, e se este Conselho é para controlá-los assim que Nasuada assumir o seu posto, então devemos nos sujeitar ao seu comando. Lembre-se, eles agem com tão pouco sentido de autopreservação quanto nós.
Mas o que eles irão querer de nós uma vez que estivermos sob seu controle? Será que respeitarão o pacto dos Varden com os elfos e nos mandarão para Ellesméra para treinamento, ou tomarão outra decisão? Jörmundur me parece um homem honrado, mas e quanto ao resto do Conselho? Não dá para dizer.
Saphira afagou o topo da cabeça de Eragon com a mandíbula.
Concorde em participar da cerimônia com Nasuada, isso eu acho que devemos fazer. Quanto a jurar lealdade, veja se tem como evitar se sujeitar a isso. Talvez algo ocorra entre o agora e o depois que possa mudar a nossa posição... Arya pode ter uma solução.
Sem avisar, Eragon acenou com a cabeça e disse:
— Como vocês quiserem, comparecerei à nomeação de Nasuada.
Jörmundur parecia aliviado.
— Bom, bom. Então só temos de lidar com uma questão antes de você partir: a aceitação de Nasuada. Não há razões para prolongarmos mais isso, com todos nós aqui. Vou mandar alguém chamá-la imediatamente. E chamarei Arya também. Precisamos da aprovação dos elfos antes de tornar a decisão pública. Isso não deve ser difícil de conseguir. Arya não pode ir contra este Conselho e você, Eragon. Ela terá de concordar com o nosso julgamento.
— Espere — ordenou Elessari, com um brilho frio nos olhos. — Queremos a sua palavra, Cavaleiro. Você a dará com lealdade na cerimônia?
— Sim, você deve fazer isso — concordou Falberd. — Os Varden estariam desgraçados se não pudéssemos garantir-lhes a sua total proteção.
Bela maneira de dizer isso!
Foi um teste, disse Saphira. Acho que agora você não tem escolha.
Eles não ousariam nos ameaçar se eu me recusasse.
Não, mas eles poderiam nos causar uma mágoa sem fim. Não é para o meu próprio bem que eu digo que aceite, mas para o seu. Há muitos perigos dos quais eu não posso protegê-lo, Eragon. Com Galbatorix contra nós, você precisa de aliados, não de inimigos, a seu redor. Não temos como lutar contra o Império e os Varden ao mesmo tempo.
— Eu a darei — disse Eragon finalmente.
Em volta da mesa, houve sinais de relaxamento, até mesmo um suspiro abafado de Umérth.
Eles estão com medo de nós!
Deviam mesmo estar, atacou Saphira.
Jörmundur chamou Jarsha e com algumas palavras mandou o garoto atrás de Nasuada e Arya. Enquanto o rapaz se distanciava, a conversa caiu num silêncio desconfortável. Eragon ignorou o Conselho para pensar numa maneira de sair daquele dilema. Nenhuma lhe veio à mente. Quando a porta se abriu novamente, todos se viraram ansiosos, Primeiro veio Nasuada, com o queixo levantado e o olhar firme. Seu vestido bordado tinha o tom negro mais profundo, mais até do que o de sua pele, quebrado apenas por uma faixa diagonal púrpura e escura, que ia do ombro até o quadril. Atrás dela vinham Arya, cujos passos largos eram tão ágeis e suaves quanto os de um gato, e um Jarsha totalmente intimidado.
O garoto foi dispensado e depois Jörmundur puxou uma cadeira para que Nasuada se sentasse. Eragon se apressou em fazer o mesmo para Arya, mas ela ignorou a cadeira que lhe foi oferecida e manteve certa distância da mesa.
Saphira, disse ele, deixe que ela saiba de tudo que aconteceu. Tenho a impressão de que o Conselho não lhe dirá que fui forçado a oferecer minha lealdade para os Varden.
— Arya — reconheceu Jörmundur a presença da elfa com um aceno, voltando-se em seguida em direção a Nasuada. — Nasuada, filha de Ajihad, o Conselho de Anciãos gostaria de oferecer formalmente suas mais profundas condolências pela perda que você, mais do que qualquer um, sofreu... — Num tom de voz mais baixo, ele acrescentou: — Você também tem a nossa solidariedade. Todos nós sabemos o que é ter um membro da família morto pelo Império.
— Obrigada — murmurou Nasuada, baixando seus olhos amendoados. Ela se sentou, tímida e reservada, com um ar de vulnerabilidade que fez Eragon querer confortá-la. Seu comportamento era tragicamente diferente daquele da jovem cheia de energia que os visitara – ele e Saphira – no abrigo para dragões antes da batalha.
— Embora esta seja a sua hora de luto, há um dilema que você precisa resolver. Este Conselho não pode liderar os Varden. E alguém precisa substituir o seu pai depois do funeral. Gostaríamos que você aceitasse o cargo. Como sua herdeira, o posto dele é seu por direito... os Varden esperam isso de você.
Nasuada curvou a cabeça com um olhar cintilante. A dor estava evidente em sua voz quando ela disse:
— Nunca pensei que seria chamada para ocupar o lugar do meu pai com tão pouca idade. Contudo... se vocês insistem em dizer que esse é o meu dever... Aceitarei a missão.

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