8 de maio de 2017

Capítulo 19

Me chame de Narciso
Vou nos exercitar e
Depois matá-lo

SEI O QUE VOCÊ está pensando. Mas, Apolo, você é divino! Nunca cometeria um assassinato. Qualquer morte que você porventura provocasse seria apenas a manifestação da vontade dos deuses e não poderia ser recriminada. Inclusive seria uma honra ser morto por você!
Você está certíssimo, querido leitor. É verdade que destruí cidades inteiras com minhas flechas em chamas. Infligi pragas incontáveis à humanidade. Uma vez, Ártemis e eu massacramos uma família de doze pessoas porque a matriarca falou uma coisa ruim sobre a nossa mãe. Que audácia!
Enfim. Para mim, nada disso tinha sido assassinato.
Mas, quando cambaleei para o banheiro, pronto para vomitar em uma privada que eu mesmo tinha limpado no dia anterior, lembranças horríveis me consumiram. Eu me vi na Roma Antiga, em um dia frio de inverno, quando realmente cometi um ato horrível.
Um vento gelado percorreu os salões do palácio. Chamas ardiam nos braseiros. Os rostos dos guardas pretorianos não mostravam qualquer sinal de desconforto, mas, ao passar por eles nos corredores, ouvia as armaduras tilintando com o tremor de seus corpos.
Ninguém se pôs no meu caminho enquanto eu me dirigia aos aposentos do imperador. E por que me parariam? Eu era Narciso, o personal trainer de confiança do soberano.
Naquela noite, meu disfarce mortal não estava funcionando muito bem. Meu estômago estava agitado. Suor escorria pela nuca. O choque dos jogos daquele dia ainda transtornava meus sentidos: o fedor de carcaças no chão da arena; a multidão com sede de sangue, gritando “CÔMODO! CÔMODO!”; o imperador em uma armadura dourada resplandecente e vestimentas roxas, jogando as cabeças cortadas dos avestruzes nos assentos dos senadores, apontando para os homens idosos com a espada: Você é o próximo.
Laetus, o prefeito pretoriano, tinha me puxado para um canto uma hora antes: Nós falhamos no almoço. Esta é nossa última chance. Podemos derrotá-lo, mas só com a sua ajuda.
Márcia, a amante de Cômodo, chorou enquanto segurava meu braço. Ele vai matar todos nós. Vai destruir Roma. Você sabe o que precisa ser feito!
Eles estavam certos. Eu tinha visto a lista de inimigos reais ou imaginários que Cômodo pretendia executar no dia seguinte. Márcia e Laetus estavam no topo da lista, seguidos de senadores, nobres e vários sacerdotes do templo de Apolo Sosiano. Eu não podia ignorar o que estava para acontecer. Cômodo faria picadinho deles com a mesma facilidade que destroçava seus avestruzes e leões.
Abri as portas de bronze da câmara do imperador.
Das sombras, Cômodo gritou:
— VÁ EMBORA!
Uma jarra de bronze passou raspando pela minha cabeça e bateu na parede com tanta força que rachou os azulejos do mosaico.
— Oi para você também — falei. — Nunca gostei muito daquele afresco.
O imperador piscou, tentando focar o olhar.
— Ah... é você, Narciso. Pode entrar. Ande logo! Tranque as portas!
Eu fiz o que ele pediu.
Cômodo se ajoelhou no chão, apoiado no sofá. Na opulência do quarto, com cortinas de seda, mobília dourada e paredes com afrescos coloridos, o imperador parecia deslocado, como um mendigo tirado de um beco de Subura. Os olhos estavam arregalados. A barba brilhava com baba. Vômito e sangue manchavam a túnica branca, o que não me surpreendeu, considerando que sua amante e seu prefeito tinham envenenado o vinho dele no almoço.
Mas, se você conseguisse desconsiderar essa cena, Cômodo não tinha mudado muito desde que tinha dezoito anos e estava relaxando na barraca do pai na Floresta do Danúbio. Ele estava com trinta e um agora, mas os anos mal haviam tocado nele. Para o horror dos fashionistas de Roma, ele deixara o cabelo crescer e usava uma barba desgrenhada para ficar parecido com seu ídolo, Hércules. Fora isso, era a imagem da perfeição romana, e podia ser facilmente confundido com um deus imortal, como ele tanto alegava ser.
— Eles tentaram me matar — rosnou ele. — Eu sei que foram eles! Mas não vou morrer. Vou mostrar para eles do que sou capaz!
Meu coração ficou apertado ao vê-lo daquele jeito. No dia anterior, eu tive tanta esperança. Tínhamos treinado técnicas de luta a tarde toda. Forte e confiante, ele lutou comigo no chão e teria quebrado meu pescoço se eu fosse um mortal comum. Depois que me deixou levantar, passamos o restante do dia rindo e conversando, como fazíamos antigamente. Não que ele soubesse minha verdadeira identidade, mas, mesmo assim... Na pele de Narciso, eu tinha certeza de que poderia fazer aflorar a bondade do imperador e acabar reacendendo as brasas do homem glorioso que eu já tinha conhecido.
Mas, naquela manhã, ele acordou mais lunático e sedento de sangue do que nunca.
Eu me aproximei com cautela, como se ele fosse um animal ferido.
— Você não vai morrer com o veneno. Você é forte demais para isso.
— Exatamente! — Ele subiu no sofá, os nós dos dedos brancos por causa do esforço. — Vou me sentir melhor amanhã, assim que decapitar aqueles traidores.
— Talvez fosse melhor descansar alguns dias — sugeri. — Tirar um tempo para se recuperar e refletir.
— REFLETIR? — Ele fez uma careta de dor. — Eu não preciso refletir, Narciso. Vou matá-los e contratar novos conselheiros. Você, talvez? O que acha?
Eu não sabia se ria ou chorava. Cômodo só queria saber de seus amados jogos, e acabava atribuindo as responsabilidades do Império a prefeitos e amigos... que geralmente tinham uma expectativa de vida muito curta.
— Sou só um treinador — falei.
— E daí? Vou transformar você em nobre! Você vai governar Comodiana!
Franzi a testa ao ouvir aquele nome. Fora do palácio, ninguém aceitava o novo nome que o imperador dera a Roma. Os cidadãos se recusavam a se chamar de comodianos. As legiões estavam furiosas por agora serem conhecidas como comodianae. As proclamações malucas de Cômodo foram a gota d’água para seus sofridos conselheiros.
— Por favor, Cômodo — implorei. — Dê um tempo nas execuções e nos jogos. Para se curar. Para considerar as consequências dos seus atos.
Ele arreganhou os dentes, os lábios salpicados de sangue.
— Não comece você também! Parece meu pai. Não quero mais pensar nas consequências!
Meu ânimo desabou. Eu sabia o que aconteceria nos dias seguintes. Cômodo sobreviveria ao envenenamento. Ordenaria a purgação implacável de seus inimigos. A cidade seria decorada com cabeças em estacas. Cruzes se enfileirariam pela Via Ápia. Meus sacerdotes morreriam. Metade do senado morreria. A própria cidade de Roma, o bastião dos deuses olimpianos, seria abalada para sempre. E Cômodo ainda assim seria assassinado... algumas semanas ou meses depois, de alguma outra forma.
Eu baixei a cabeça, acatando a ordem do imperador.
— Claro, meu senhor. Posso preparar um banho para você?
Cômodo grunhiu em concordância.
— É melhor eu tirar essas roupas imundas mesmo.
Como sempre fazia depois das nossas sessões de treinamento, enchi a grande banheira de mármore com água de rosas fumegante. Ajudei-o a tirar a túnica suja e o guiei até a banheira. Por um momento, ele relaxou e fechou os olhos.
Eu me lembrei dele ainda adolescente, dormindo ao meu lado. Me lembrei de sua gargalhada gostosa enquanto corríamos pela floresta e do jeito como o rosto dele se franzia de forma adorável quando eu fazia as uvas quicarem em seu nariz.
Com uma esponja, limpei a baba e o sangue da barba e lavei delicadamente seu rosto. Então, fechei as mãos ao redor do pescoço.
— Sinto muito.
Afundei a cabeça dele e apertei o pescoço.
Cômodo era forte. Mesmo em seu estado enfraquecido, ele se debateu e lutou. Tive que canalizar meu poder divino para mantê-lo submerso, e, ao fazer isso, devo ter revelado minha verdadeira identidade.
Ele ficou parado, os olhos azuis arregalados de surpresa e decepção. Não conseguiu falar, mas movimentou os lábios e formou as palavras Você. Me. Abençoou.
A acusação arrancou um soluço da minha garganta. No dia em que o pai dele morreu, prometi a Cômodo: Você sempre vai ter minhas bênçãos. Agora, eu estava encerrando o reinado dele. Estava interferindo em questões mortais, não só para salvar vidas, ou para salvar Roma, mas porque não conseguiria suportar ver meu belo Cômodo morrer nas mãos de outra pessoa.
O último suspiro dele borbulhou pelos fios da barba. Fiquei curvado sobre a banheira, chorando, as mãos em volta da garganta dele, até a água esfriar.
Britomártis estava errada. Eu não tinha medo de água. Só não conseguia olhar para lagos, lagoas ou qualquer coisa do tipo sem imaginar o rosto de Cômodo, ferido pela traição, me encarando.
A visão sumiu. Meu estômago se contraiu. Eu me vi agachado próximo a outro recipiente com água, um localizado na Estação Intermediária.
Não sei bem quanto tempo fiquei ali, tremendo, com ânsia de vômito, desejando poder me livrar da minha casca mortal horrenda com a mesma facilidade com que me livrei do conteúdo do meu estômago. Depois de um tempo me dei conta de um reflexo laranja na água da privada. Agamedes estava atrás de mim, segurando a Bola 8 Mágica.
Soltei um resmungo de protesto.
— Você precisa mesmo se esgueirar atrás de mim quando estou vomitando? Sério?
O fantasma sem cabeça me entregou a esfera mágica.
— Papel higiênico seria mais útil — falei.
Agamedes esticou a mão para pegar o rolo, mas os dedos etéreos atravessaram o papel. Era estranho que ele conseguisse segurar a Bola 8 Mágica e não um rolo de papel higiênico. Talvez nossas anfitriãs tivessem preferido não gastar dinheiro com o rolo extramacio de folha dupla adequado a fantasmas.
Peguei a bola. Sem muita convicção, perguntei:
— O que você quer, Agamedes?
A resposta flutuou no líquido escuro: NÓS NÃO PODEMOS FICAR.
Grunhi.
— Não outro aviso de desgraça, por favor. Quem somos nós? Ficar onde?
Balancei a bola mais uma vez. A esfera exibiu a resposta: A PERSPECTIVA NÃO PARECE MUITO BOA.
Devolvi a Bola 8 Mágica para Agamedes, e foi como colocar a mão para fora de um veículo em movimento e sentir o vento na pele.
— Não posso brincar de adivinhação agora, Gasparzinho.
Ele não tinha rosto, mas pela postura percebi seu desamparo. O sangue do pescoço cortado escorria lentamente pela túnica. Imaginei a cabeça de Trofônio no corpo dele, os gritos agonizantes do meu filho para os céus: Me leve no lugar dele! Salve-o, Pai, por favor!
Então me veio à mente o rosto de Cômodo me encarando, magoado e traído, enquanto a carótida pulsava nas minhas mãos. Você. Me. Abençoou.
Chorei e abracei a privada, a única coisa no universo que não estava girando. Havia alguém que eu não tivesse traído e decepcionado? Algum relacionamento que eu não tivesse destruído?
Depois de uma eternidade miserável no meu universo particular do banheiro, uma voz surgiu atrás de mim.
— Ei.
Pisquei para afastar as lágrimas. Agamedes e sua bola mágica tinham sumido. No lugar dele, encostada na pia, estava Josephine. Ela me ofereceu um rolo novo de papel higiênico.
— Você devia estar no banheiro masculino? — perguntei, fungando.
Ela riu.
— Não seria a primeira vez, mas nossos banheiros são unissex.
Limpei o rosto e as roupas. Não consegui muito além de me encher de papel higiênico.
Josephine me ajudou a sentar na privada. Ela me garantiu que isso era melhor do que abraçar o vaso, embora, no momento, eu visse pouca diferença.
— O que aconteceu com você? — perguntou ela.
Sem preocupações com a minha dignidade, eu contei para ela.
Josephine tirou um pano do bolso do macacão. Molhou na pia e começou a limpar as laterais do meu rosto, nos lugares que não alcancei. Ela me tratou como se eu fosse sua Georgie de sete anos, ou mais uma de suas torres de bestas mecânicas: uma coisa preciosa, mas que dá trabalho.
— Não vou julgar você, Raio de Sol. Já fiz algumas coisas bem ruins na vida também.
Observei seu rosto, o queixo quadrado, o brilho metálico do cabelo grisalho na pele negra. Ela parecia tão gentil e afável, mas, assim como acontecia com o dragão Festus, às vezes eu tinha que parar e me forçar a lembrar: Ah, certo, é uma máquina de morte gigante que cospe fogo.
— Leo mencionou gângsteres — relembrei. — Al Capone?
Josephine deu um sorrisinho.
— Pois é. Al. E Diamond Joe. E Papa Johnny. Conheci todos os chefões da máfia. Eu era, como é que se diz? A conexão de Al com os fabricantes negros de bebidas alcoólicas.
Apesar de estar meio para baixo, não consegui deixar de sentir uma fagulha de fascinação. A Era do Jazz era uma das minhas favoritas, porque... bom, teve o jazz.
— Para uma mulher nos anos 1920, isso é impressionante.
— Acontece que eles nunca souberam que eu era mulher — explicou Jo.
Pensei em Jo com sapatos pretos de couro, um terno risca de giz, um alfinete de gravata de diamante e um chapéu fedora preto, com a submetralhadora, Pequena Bertha, encostada no ombro.
— Entendi.
— Me chamavam de Big Jo. — Ela olhou para a parede, pensativa. Talvez fosse só meu estado mental alterado, mas a imaginei como Cômodo, jogando uma jarra com tanta força que racharia os azulejos. — Aquele estilo de vida... era contagiante, perigoso. Me levou para um caminho sombrio, quase me destruiu. Mas Ártemis me encontrou e me ofereceu uma saída.
Eu me lembrei de Hemiteia e de sua irmã Parteno se jogando de um penhasco, em uma época em que a vida das mulheres era mais dispensável do que jarros de vinho.
— Minha irmã salvou muitas jovens de situações horríveis.
— Sim. — Jo deu um sorriso melancólico. — E Emmie salvou minha vida de novo.
— Mas vocês duas podiam ser imortais — resmunguei. — Podiam ter juventude, poder, vida eterna...
— Verdade — concordou Josephine. — Mas não teríamos passado as últimas décadas envelhecendo juntas. Tivemos uma vida boa aqui. Salvamos muitos semideuses e outros excluídos, os instruímos na Estação Intermediária, deixamos que frequentassem a escola e tivessem uma infância mais ou menos normal, criamos adultos que partiram para o mundo com as habilidades de que eles precisavam para sobreviver.
Balancei a cabeça.
— Não entendo. Comparar isso com a imortalidade não faz sentido.
Josephine deu de ombros.
— Tudo bem você não entender. Mas quero que você saiba que Emmie não abriu mão do seu dom divino por algo fútil. Depois de mais de sessenta anos vivendo com as Caçadoras, nós descobrimos uma coisa. Não é por quanto tempo você vive que importa. É aquilo pelo que você vive.
Franzi a testa. Era um jeito nada divino de pensar, como se você só pudesse ter imortalidade ou uma vida com propósito, mas não as duas coisas.
— Por que você está me dizendo isso? — perguntei. — Está tentando me convencer de que eu devia ficar como... como essa abominação? — Indiquei meu corpo mortal patético.
— Não estou dizendo para você o que fazer. Mas esse pessoal todo, Leo, Calipso, Meg, eles precisam de você. Estão contando com você. Emmie e eu também, para trazer nossa filha de volta. Você não precisa ser um deus. Só faça o melhor que puder pelos seus amigos.
— Eca.
Jo riu.
— Houve uma época em que esse tipo de discurso também me faria vomitar. Eu achava que amizade era uma armadilha. A vida era cada mulher por si. Mas quando entrei para as Caçadoras, Lady Britomártis me disse uma coisa. Você sabe como ela virou deusa?
Pensei por um momento.
— Ela era uma jovem donzela fugindo do rei de Creta. Para se esconder, pulou em uma rede de pesca no porto, não foi isso? Em vez de se afogar, foi transformada.
— Certo. — Jo entrelaçou os dedos. — Redes podem ser armadilhas. Mas também podem ser redes de segurança. Você só precisa saber quando pular nelas.
Eu a encarei. Esperei um momento de revelação, quando tudo fosse fazer sentido e meu espírito se elevaria.
— Desculpe — falei, por fim. — Não tenho ideia do que isso quer dizer.
— Tudo bem. — Ela estendeu a mão. — Vamos tirar você daqui.
— Sim — concordei. — Eu gostaria de uma boa noite de sono antes de partirmos amanhã.
Jo deu seu sorriso mais afável de máquina assassina.
— Ah, não. Nada de dormir ainda. Você tem suas tarefas da tarde para fazer, amigão.

6 comentários:

  1. apolo humilde como sempre

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  2. "Inclusive seria uma honra ser morto por você!"
    Kkkkkkkkkkkk...

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  3. Só eu pensei merda com subura?

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    1. VICTÓRIA GUERREIRO -FILHA DE ARES17 de junho de 2017 21:57

      KKKKKKKKKKK achava que tinha sido só eu kkkjjk meos deuses

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Boa leitura :)