22 de maio de 2017

Capítulo 19 - Repreensões

Assim que um pouco de força voltou, Eragon saiu cambaleante do beco, contornando os monstros mortos. Não precisou andar muito, Cadoc logo trotava a seu lado.
— Ótimo, você não se feriu — balbuciou Eragon.
Notou, sem dar muita importância, que suas mãos tremiam violentamente e que seus movimentos estavam instáveis. Ele se sentia alheio, como se tudo o que viu tivesse acontecido com outra pessoa.
Eragon viu Fogo na Neve empinando perto de uma casa, com as narinas dilatadas e com as orelhas abaixadas, encostadas na cabeça, pronto para sair correndo. Brom ainda estava caído e imóvel na sela.
Eragon fez contato mental e acalmou o cavalo. Assim que Fogo na Neve ficou calmo, Eragon aproximou-se de Brom.
Havia um corte grande, ensopado de sangue, no braço direito do velho sábio. A ferida sangrava muito, mas não era profunda nem era larga. Ainda assim, Eragon sabia que tinha de estancar o sangramento antes que Brom perdesse muito sangue. Acariciou Fogo na Neve por alguns instantes e tirou Brom da sela. O peso era grande demais para ele, e Brom caiu pesadamente no chão. Eragon ficou chocado com sua própria fraqueza.
Um grito de raiva encheu sua cabeça. Saphira apareceu mergulhando no céu e pousou violentamente à sua frente, mantendo as asas meio erguidas. Ela sibilava furiosa, seus olhos queimavam.
Saphira chicoteou a cauda, e Eragon recuou quando ela estalou em cima da cabeça dele.
Você está ferido? Perguntou, a raiva fervia em sua voz.
— Não — respondeu enquanto colocava Brom deitado de costas.
Ela rosnou e exclamou:
Onde estão os monstros que fizeram isso? Vou fazê-los em pedaços!
Ele, de um modo que demonstrava sua exaustão, apontou para a direção do beco.
— Não vai adiantar nada, eles já estão mortos.
Você os matou? Saphira parecia surpresa.
Ele respondeu que sim com a cabeça.
— Ainda não sei como. — Com palavras sucintas, contou a ela o que aconteceu enquanto mexia em seu alforje, procurando os panos em que a Zar’roc estava embrulhada.
Saphira disse com um tom soberbo: Você cresceu.
Eragon resmungou. Ele achou um pedaço de pano comprido e, cuidadosamente, arregaçou a manga de Brom. Com alguns golpes hábeis, limpou o corte e apertou-o com o pano.
Eu queria que nós ainda estivéssemos no vale Palancar, disse a Saphira. Lá, pelo menos, eu saberia que plantas usar para tratá-lo. Aqui, não tenho a menor ideia do que posso jazer para ajudá-lo. Ele pegou a espada do chão, limpou-a e colocou-a de volta na bainha, que estava na cintura de Brom.
Devemos partir, aconselhou Saphira. Pode haver mais Urgals à espreita.
Você consegue carregar Brom? A sela não vai deixá-lo cair, e você poderá protegê-lo.
Consigo, mas não vou deixá-lo sozinho.
Tudo bem, voe perto de mim, mas vamos sair daqui. Colocou a sela em Saphira e pôs os braços em volta de Brom para tentar levantá-lo, mas, novamente, suas poucas forças não permitiram que isso acontecesse.
Saphira... Ajude-me.
Ela passou a cabeça por cima dele e prendeu a parte de trás do manto de Brom entre seus dentes. Arqueando o pescoço, ela levantou o velho do chão, como uma gata levanta seu filhote, e colocou-o em suas costas. Depois, Eragon prendeu as pernas de Brom nas correias da sela e ajustou-as. Levantou o olhar quando o ancião gemeu e se virou.
Brom piscou por causa da vista ofuscada, colocando a mão na cabeça. Ele baixou o olhar em direção a Eragon, preocupado.
— Saphira chegou aqui a tempo?
Eragon sacudiu a cabeça.
— Explicarei tudo mais tarde. Seu braço está ferido. Fiz o melhor curativo que pude, mas você precisa de um lugar seguro para descansar.
— Isso — disse Brom, tocando seu braço com cuidado. — Você sabe onde a minha espada... Ah, já vi que você a encontrou.
Eragon terminou de ajeitar as correias.
— Saphira levará você e me seguirá pelo ar.
— Tem certeza que quer que eu monte nela? — perguntou Brom. — Posso ir montado no Fogo na Neve.
— Não com o braço ferido. Em Saphira, mesmo se você desmaiar, não cairá.
Brom concordou com a cabeça.
— Sinto-me honrado. — Ele segurou o pescoço dela com seu braço bom, e ela decolou de modo agitado, subindo alto no céu. Eragon afastou-se, depois de ser atingido pelos golpes de vento produzidos pelas asas, e voltou aos cavalos.
Amarrou Fogo na Neve atrás de Cadoc e saiu de Yazuac, voltando para a trilha e seguindo-a em direção ao sul. O caminho levava a uma área rochosa, desviando-se para a esquerda, e continuava ao longo das margens do rio Ninor. Samambaias, musgos e arbustos pontilhavam os lados da trilha. O clima embaixo das árvores era refrescante, mas Eragon não deixou que o ar reconfortante o iludisse, passando uma falsa sensação de segurança. Ele parou rapidamente para encher os odres e deixar os cavalos beberem água. Ao olhar para baixo, viu o rastro dos Ra’zac. Pelo menos, estamos na direção certa. Saphira dava voltas no céu, tomando conta dele.
Ficou perturbado por terem visto apenas dois Urgals. Os aldeões foram mortos e Yazuac foi saqueada por um bando grande. Entretanto, onde eles estavam? Talvez os que encontramos cobriam a retaguarda ou cuidavam de uma armadilha que foi deixada para quem quisesse seguir o grupo principal.
Seus pensamentos se voltaram para como ele matou os Urgals. Uma ideia, uma revelação, foi se esgueirando lentamente em sua mente. Ele, Eragon, um menino de uma fazenda do vale Palancar, havia usado magia. Magia! Era a única palavra que podia descrever o que aconteceu. Parecia impossível, mas ele não podia negar o que tinha visto. De alguma maneira, virei um feiticeiro ou mago! Mas ele não sabia como usar seu novo poder novamente e desconhecia as limitações e os perigos que podiam existir. Como posso ter esta habilidade? Isso era comum entre os Cavaleiros? Se Brom sabia disso, por que não me contou? Ele balançou a cabeça pensativo e confuso.
Ele falou com Saphira para checar o estado de Brom e para compartilhar seus pensamentos. Ela estava tão surpresa quanto ele com relação à magia.
Saphira, você consegue achar um lugar onde possamos ficar? Não posso ver o que está muito longe daqui.
Enquanto ela procurava, ele continuou a acompanhar a margem do Ninor. O chamado chegou bem na hora em que a luz do dia se esvaía.
Venha. Saphira enviou para ele a imagem de uma clareira oculta pelas árvores perto do rio. Eragon virou os cavalos para a nova direção e os fez trotar. Com a ajuda de Saphira, foi fácil achar a clareira, mas era tão bem escondida que ele duvidava que alguém mais soubesse de sua existência.
Uma pequena fogueira, que não produzia muita fumaça, já estava acesa quando ele entrou na clareira. Brom estava sentado próximo a ela, cuidando de seu braço, que mantinha em um ângulo estranho. Saphira estava deitada do lado dele, seu corpo estava tenso. Ela olhou seriamente para Eragon e perguntou:
Você tem certeza de que não está ferido?
Pelo menos, no lado de fora... Mas não tenho tanta certeza quanto ao resto de mim.
Eu devia ter chegado antes.
Não se culpe. Todos nós cometemos erros hoje. O meu foi não ter ficado perto de você. A gratidão dela pelo comentário ficou evidente naquele momento. Ele olhou para Brom.
— Como você está?
O ancião olhou para o braço.
— É um arranhão grande e dói terrivelmente, mas deve sarar rápido. Preciso de uma atadura limpa, esta não durou tanto quanto eu esperava.
Ferveram água para lavar a ferida de Brom, que depois amarrou um trapo limpo em seu braço e disse:
— Preciso comer. E você também parece estar com fome. Vamos comer primeiro, conversaremos depois.
Quando a barriga deles estava cheia e aquecida, Brom acendeu o cachimbo.
— Bem, acho que chegou a hora de você me contar o que aconteceu enquanto eu estava inconsciente. Estou muito curioso. — O rosto refletia a luz crepitante do fogo, e suas espessas sobrancelhas projetavam-se, demonstrando curiosidade.
Eragon apertou suas mãos nervosamente e contou a história sem acrescentar nenhum encanto. Brom ficou em silêncio o tempo todo, o rosto trazia uma expressão enigmática. Quando Eragon terminou, Brom olhou para o chão. Durante um longo tempo, o único som que se ouvia era o crepitar do fogo. Até que, finalmente, Brom se mexeu.
— Você já usou esse poder antes?
— Não. Você sabe alguma coisa sobre ele?
— Um pouco. — Brom tinha uma expressão pensativa no rosto. — Parece que estou em dívida com você por ter salvado a minha vida. Espero poder retribuir o favor algum dia. Você devia se orgulhar; poucos escaparam ilesos depois de enfrentar seu primeiro Urgal. Mas o modo como você fez isso foi muito perigoso. Poderia ter destruído a si mesmo e a cidade inteira.
— Eu não tive escolha — defendeu-se Eragon. — Os Urgals estavam quase em cima de mim. Se eu tivesse esperado, eles teriam me feito em pedaços!
Brom mordeu com força o tubo do cachimbo, deixando nele a marca dos seus dentes.
— Você não tinha a menor ideia do que estava fazendo.
— Então, me diga o que fiz — desafiou Eragon. — Vivo procurando respostas para esse mistério, mas nada faz o menor sentido. O que aconteceu? Como eu poderia ter usado magia? Nunca ninguém me ensinou ou me mostrou como fazer um encanto.
Os olhos de Brom faiscaram.
— Isso não é algo que você deveria aprender, muito menos usar!
— Bem, eu já usei e pode ser que precise usar de novo em uma luta. Mas não poderei fazer se você não me ajudar, O que há de errado? Há algum segredo que não devo saber até ser velho e sábio? Ou será que você não sabe nada sobre magia?
— Rapaz! — urrou Brom. — Você exige respostas com uma insolência que raramente é vista. Se você soubesse o que está pedindo, não teria tanta pressa em perguntar. Não me provoque. — Ele fez uma pausa, depois relaxou, adotando um semblante mais gentil. — O conhecimento que você almeja é mais complexo do que a sua capacidade de compreendê-lo.
Eragon protestou exaltado:
— Sinto como se tivesse sido jogado em um mundo cheio de regras estranhas que ninguém consegue explicar.
— Entendo — disse Brom. Ele pegou um pedaço de grama e começou a brincar. — Já está tarde e devemos dormir, mas direi algumas coisas para que você pare de me perturbar. Esta magia, pois é magia mesmo, tem suas regras como tudo no mundo. Se você desobedecer às regras, o castigo é a morte, sem exceção. Seus atos são limitados pela sua força, pelas palavras que você sabe e pela sua imaginação.
— O que quer dizer com palavras?
— Mais perguntas! — gritou Brom. — Por um instante, pensei que você não tinha mais nenhuma pergunta em mente. Mas fez bem ao perguntar. Quando atirou nos Urgals, você não disse alguma coisa?
— Disse brisingr. — O fogo aumentou e um calafrio correu pelo corpo de Eragon. Algo naquela palavra o fez sentir-se incrivelmente vivo.
— Foi o que pensei. Brisingr vem de uma língua antiga que todas as coisas viventes falavam. Contudo, ela foi esquecida com o passar do tempo e ficou sem ser falada durante um longo período na Alagaësia, até que os elfos levaram-na de volta para o mar. Eles a ensinaram a outras raças, que a usaram para fazer coisas poderosas. A língua tem um nome para cada coisa, se você conseguir achar.
— Mas o que isso tem a ver com magia? — interrompeu Eragon.
— Tudo! Isso é a base de todo poder. A língua descreve a natureza verdadeira das coisas e não o aspecto superficial que todos veem. Por exemplo, o fogo se chama brisingr. Esse não é apenas um nome para o fogo, este é o nome do fogo. Se você tiver força o bastante, pode usar brisingr para que o fogo faça o que você quiser. E foi o que aconteceu hoje.
Eragon pensou durante um momento.
— Por que o fogo era azul? Como ele fez exatamente o que eu queria, se tudo o que falei foi fogo?
— A cor varia de pessoa para pessoa. Depende de quem diga a palavra. Quanto a por que ele fez o que você queria, tudo é uma questão de prática. A maioria dos iniciantes tem de dizer exatamente o que querem que aconteça. Ao ganharem mais experiência, isso não se torna tão necessário. Um verdadeiro mestre poderia dizer apenas água e criar algo completamente diferente, como uma pedra preciosa. Você não seria capaz de entender, mas o mestre teria visto a ligação entre a água e a pedra e feito disso o ponto central do seu poder. A prática é mais uma arte do que qualquer outra coisa. Você fez algo extremamente difícil.
Saphira interrompeu os pensamentos de Eragon:
Brom é um mágico! É por isso que ele conseguiu acender a fogueira na planície, Além de saber tudo sobre magia, ele também é capaz de fazê-la!
Eragon arregalou os olhos.
Você tem razão!
Pergunte sobre o poder dele, mas tenha cuidado com o que vai dizer. Não é prudente implicar com quem tem tais habilidades. Se ele for um mago ou feiticeiro, quem sabe quais motivos o levaram a passar a viver em Carvahall?
Eragon manteve isso em mente quando disse com cautela:
— Saphira e eu percebemos uma coisa. Você pode fazer magia, não é? É por isso que você conseguiu acender a fogueira no nosso primeiro dia na planície.
Brom inclinou a sua cabeça levemente.
— Sou perito até certo nível.
— Então, por que não a usou para lutar com os Urgals? De fato, posso citar várias ocasiões em que ela teria sido útil. Você poderia ter nos protegido na tempestade e evitado que a poeira caísse em nossos olhos.
Depois de reabastecer seu cachimbo, Brom disse:
— Por alguns motivos simples, na verdade. Eu não sou um Cavaleiro, o que significa que, até quando você está mais fraco, é mais forte do que eu. E já não sou mais jovem, não sou tão forte quanto costumava ser. Está ficando cada vez mais difícil usar magia.
Eragon baixou o olhar, envergonhado.
— Sinto muito.
— Não sinta — disse Brom enquanto movia o braço. — Isso acontece com todo mundo.
— Onde você aprendeu a usar magia?
— Este fato eu guardarei para mim mesmo... É suficiente dizer que foi em uma área isolada e com um professor muito bom. Posso, no mínimo, repassar o que ele me ensinou. — Brom apagou o cachimbo com uma pedrinha. — Sei que você tem mais perguntas, e vou responder a elas, mas precisa esperar pelo amanhecer.
Ele se inclinou para a frente, seus olhos brilhavam.
— Até lá, falarei algo para desencorajar quaisquer experiências: a magia consome tanta energia quanto usar seus braços e costas. Foi por isso que você se sentiu exausto depois de destruir os Urgals. E foi por isso que fiquei zangado. Você correu um risco enorme. Se a magia tivesse usado mais energia do que havia em seu corpo, ela o teria matado. Só devemos usar magia para as tarefas que não podem ser realizadas de um modo mundano.
— Como saber se um feitiço usará toda a sua energia? — perguntou Eragon assustado.
Brom ergueu as mãos.
— Na maioria das vezes, não sabemos. É por isso que os mágicos precisam conhecer bem seus limites e, mesmo assim, devem ter muito cuidado. Uma vez que você se comprometa a fazer uma magia, não é possível revertê-la, mesmo que possa matá-lo. Isto é um aviso: não tente fazer nada até ter aprendido mais. Agora, basta por esta noite.
Enquanto eles esticavam seus cobertores, Saphira comentou com satisfação:
Estamos ficando mais fortes, Eragon, nós dois. Logo, ninguém poderá ficar em nosso caminho.
É, mas qual caminho vamos escolher?
O caminho que quisermos, respondeu ela presunçosamente, preparando-se para dormir.

5 comentários:

  1. Já existe um filme com esta história? É linda...

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    1. existe, mas não teve sucesso

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    2. o filme é horrível.

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    3. como em quase todos os filmes provenientes de livros.

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Boa leitura :)