27 de maio de 2017

Capítulo 19 - Arya Svit-Kona

Eragon e sua companhia seguiram pelo Az Ragni até ele desembocar no rio Edda, o qual corria depois para o leste desconhecido. Na junção entre os rios, visitaram o entreposto de comércio dos anões, Hedarth, e trocaram suas balsas por burros. Anões nunca usavam cavalos por causa do seu tamanho.
Arya recusou a montaria que lhe foi oferecida, dizendo:
— Eu não retornarei para a terra dos meus ancestrais nas costas de um asno.
Thorv franziu a testa.
— Como é que você vai acompanhar o nosso ritmo?
— Correrei. — E foi o que ela fez, deixou Fogo na Neve e os burros para trás, só para ficar sentada esperando no próximo morro ou matagal. Apesar de seu esforço, ela não demonstrava nenhum sinal de fadiga quando todos pararam para dormir, nem inclinação alguma para proferir mais do que algumas palavras entre o café da manhã e o jantar. A cada passo, ela parecia ficar mais tensa.
De Hedarth, o grupo seguiu para o norte, subindo o rio Edda na direção da sua nascente no lago Eldor.
Du Weldenvarden tornou-se visível três dias depois. A floresta apareceu primeiro como uma serra enevoada no horizonte, e depois se expandiu rapidamente num mar esmeralda de carvalhos, faias e bordos antigos. Nas costas de Saphira, Eragon viu que as florestas permaneciam no horizonte, tanto para o norte quanto para o oeste, e ele sabia que se estendiam para muito além disso, cobriam toda a extensão da Alagaësia.
Para ele, as sombras sob os galhos arqueados das árvores pareciam misteriosas e sedutoras, assim como perigosas, pois elfos viviam lá. Escondida em algum lugar no coração de Du Weldenvarden estava Ellesméra — onde iria completar o seu treinamento —, assim como Osilon e outras cidades elfas, que poucos forasteiros visitaram desde a queda dos Cavaleiros. A floresta era um lugar perigoso para mortais, sentia Eragon, certo de que teria de se deparar com uma magia estranha e com criaturas mais estranhas ainda.
É como se fosse um outro mundo, observou. Um par de borboletas movia-se em espiral, uma em volta da outra, enquanto saíam do interior tenebroso da floresta.
Espero, disse Saphira, que haja espaço para eu passar em meio às árvores, seja lá qual for a trilha que os elfos usem. Não posso voar o tempo todo.
Tenho certeza de que eles encontraram maneiras de acomodar os dragões durante o tempo dos Cavaleiros.
Hum.
Naquela noite, na hora que Eragon estava prestes a se deitar, Arya apareceu atrás do seu ombro, como se fosse um espírito se materializando em pleno ar. Seu gesto furtivo o fez saltar, não conseguia entender como a elfa se movia tão discretamente.
Antes que pudesse perguntar o que ela queria, sua mente tocou a dele e se pronunciou: Siga-me o mais silenciosamente que puder.
O contato o surpreendeu tanto quanto o pedido. Eles partilharam alguns pensamentos durante o voo até Farthen Dûr — fora a única maneira que Eragon pôde usar para se comunicar durante seu coma auto-induzido — mas desde que Arya se recuperou, ele não fez nenhuma tentativa de tocar em sua mente outra vez. Era uma experiência profundamente pessoal. Sempre que ele penetrava na consciência de uma outra pessoa, parecia que uma faceta de sua alma se abria e tocava a do receptor. Parecia grosseiro iniciar algo tão particular sem um convite, assim como uma traição da confiança de Arya, por mais leve que ela fosse. Além do mais, Eragon temia que tal ligação fosse revelar seus sentimentos novos e confusos para Arya, e ele não desejava ser ridicularizado por causa disso.
Ele a acompanhou enquanto saía do círculo de tendas, esquivou-se de Tríhga cuidadosamente, que assumiu a primeira vigília, e passou bem longe de onde os anões podiam ouvir. Dentro dele, Saphira ficou bem atenta à sua marcha, pronta para agir se fosse necessário.
Arya se agachou numa tora devorada por musgos e abraçou os joelhos sem nem ao menos olhar para ele.
— Há coisas que você deve saber antes de chegarmos a Ceris e a Ellesméra, para que não envergonhe a si e a mim por ignorância.
— Como o quê? — Ele se agachou ao seu lado, curioso. Arya hesitou.
— Durante os meus anos como embaixadora de Islanzadí, observei que humanos e anões são muito parecidos. Vocês partilham muitas das mesmas crenças e paixões. Mais de um humano já viveu confortavelmente no meio dos anões porque podem entender sua cultura, como eles entendem a de vocês. Tanto um quanto o outro amam, desejam, odeiam, lutam e criam mais ou menos da mesma maneira. Sua amizade com Orik e sua aceitação do Dûrgrimst Ingeitum são exemplos disso. — Eragon acenou com a cabeça, embora suas diferenças parecessem maiores do que isso para ele. — Os elfos, no entanto, não são como outras raças.
— Você fala como se não fosse um deles — afirmou ele, ecoando as palavras que a elfa disse em Farthen Dûr.
— Vivi com os Varden anos suficientes para me acostumar com suas tradições — respondeu Arya num tom irritadiço.
— Ah... Então com isso você quer dizer que os elfos não sentem as mesmas emoções que os humanos e os anões? Acho isso difícil de acreditar. Todas as coisas vivas têm os mesmos desejos e necessidades básicas.
— Não foi isso que eu quis dizer! — Eragon recuou e depois franziu a testa e estudou-a. Não era comum ela ser tão rude. Arya fechou os olhos e colocou os dedos nas têmporas, respirando bem fundo. — Pelo fato dos elfos viverem tanto tempo, consideramos a cortesia a mais alta virtude social. Você não pode permitir-se ofender ninguém, pois um ressentimento pode durar décadas ou séculos. A cortesia é a única maneira de impedir que tal hostilidade se acumule. Nem sempre dá certo, mas seguimos os nossos rituais rigorosamente, pois nos protegem dos extremos. Nem os elfos são tão fecundos, por isso é vital que evitemos conflitos entre nós. Se partilhássemos da mesma proporção de crimes que vocês e os anões, logo estaríamos extintos.
“Há uma maneira apropriada de cumprimentar os sentinelas em Ceris, certos padrões e formas que você deve observar quando for apresentado à rainha Islanzadí, e uma centena de maneiras diferentes de cumprimentar aqueles que estão a sua volta, caso contrário é melhor permanecer quieto.”
— Com todos os seus costumes — Eragon arriscou dizer —, parece que vocês só tornaram mais fácil a incidência de ofensas.
Um sorriso passou rapidamente por seus lábios.
— Talvez. Você sabe tão bem quanto eu que será julgado pelos mais altos padrões. Se cometer um erro, os elfos acharão que você fez de propósito. E só a injúria virá se descobrirem que ele nasceu da ignorância. E bem melhor que pensem que você é rude e capaz do que rude e incapaz, caso contrário corre o risco de ser manipulado como A Serpente num jogo de Runas. Nossa política se move em círculos que são ao mesmo tempo delicados e prolongados. O que você vê ou ouve de um elfo num dia pode ser apenas um movimento sutil dentro de uma estratégia que se estende para milênios no passado, e pode não ter peso algum em como tal elfo irá se comportar amanhã. É um jogo que todos nós fazemos mas poucos controlam, um jogo no qual você está prestes a entrar.
E prosseguiu:
— Agora talvez você entenda por que eu digo que os elfos não são iguais às outras raças. Os anões também são longevos, contudo são muito mais prolíficos do que nós e não partilham das nossas limitações ou do nosso gosto pela intriga. E humanos... — Ela deixou sua voz diminuir de intensidade até cair num silêncio diplomático.
— Humanos — disse Eragon — fazem o melhor que podem com o que lhes é dado.
— Correto.
— Por que você não diz tudo isso para o Orik também? Ele vai ficar em Ellesméra, assim como eu.
A voz de Arya soou ríspida.
— Ele já está familiarizado com a nossa etiqueta. No entanto, como Cavaleiro, você faria bem em aparentar ser mais educado do que ele.
Eragon aceitou sua repreensão sem protestar.
— O que devo aprender?
Então Arya começou a instruí-lo e, através dele, introduziu Saphira às sutilezas da sociedade dos elfos. Primeiro ela explicou que, quando um elfo encontra o outro, eles param e tocam os lábios com seus dois primeiros dedos para indicar que “não devemos distorcer a verdade durante a nossa conversa”. A isso se segue a frase “Atra esterní ono thelduin” a qual o outro responde “Atra du evarínya ono varda”.
— E — disse Arya — se você estiver sendo especialmente formal, uma terceira resposta é dada: “Un atra mor’ranr lífa unin hjarta onr”, que significa “que a paz viva no seu coração”. Esses versos foram retirados de uma oração que foi feita por um dragão quando o nosso pacto com eles foi acertado. É assim:

Atra esterní ono thelduin,
Mor’ranr Ufa unin hjarta onr,
Un du evarínya ono varda.

— Ou: “Que a felicidade o guie, a paz viva no seu coração, e as estrelas zelem pelo seu caminho.”
— Como você sabe quem tem que falar primeiro?
— Se você cumprimentar alguém com mais status que você ou se quiser honrar um subordinado, então fale antes. Se você cumprimentar alguém com menos status que você, fale depois. Mas se você não tiver certeza da sua posição, dê ao seu interlocutor a chance de falar, mas se ele ficar calado, fale primeiro. A regra é essa.
Isso se aplica a mim também?, perguntou Saphira.
Arya apanhou uma folha seca que estava no chão e a amassou entre os dedos. Atrás dela, o acampamento sumiu no meio das sombras enquanto os anões apagavam a fogueira abafando as chamas com uma camada de lama, para as brasas resistirem até o amanhecer.
— Como dragão, ninguém está numa posição mais alta do que você em nossa cultura. Nem mesmo a rainha pode afirmar ter autoridade sobre você, que, aliás, pode fazer e dizer o que desejar. Não esperamos que dragões sejam limitados pelas nossas leis.
Em seguida, ela mostrou para Eragon como fazer para torcer a mão direita e a colocar sobre o esterno num gesto curioso.
— Isto — disse ela — você irá usar quando encontrar Islanzadí. Através deste gesto, você indica que está lhe oferecendo sua lealdade e obediência.
— Isso vai me vincular a ela, como meu juramento de lealdade à Nasuada?
— Não, é apenas uma cortesia, e das pequenas.
Eragon se esforçou para lembrar das várias modalidades de cumprimento que Arya o havia ensinado. As saudações variavam de homem para mulher, de adultos para crianças, de meninos para meninas, assim como por patente ou prestígio. Era uma lista intimidante, mas Eragon sabia que teria de memorizá-la perfeitamente.
Quando ele absorveu tudo que podia, Arya se levantou e tirou a poeira das mãos.
— Contanto que não se esqueça de nada, você terá um bom desempenho. — Ela se virou para partir.
— Espere — disse Eragon, que esticou a mão para detê-la, e depois escondeu-a antes que ela reparasse na sua audácia. Ela virou a cabeça para trás com uma pergunta em seus olhos escuros, e o estômago do Cavaleiro deu um nó quando ele tentava descobrir como verbalizar seus pensamentos. Apesar de todo seu esforço, ele acabou dizendo simplesmente:
— Você está bem, Arya?... Você parecia distraída e meio aborrecida desde que deixamos Hedarth.
Enquanto o rosto de Arya endurecia a ponto de virar uma máscara ele estremecia por dentro, sabendo que havia escolhido a aborda errada, embora não conseguisse entender por que a pergunta poderia ofende-la.
— Quando estivermos em Du Weldenvarden — informou a elfa —, espero que você não fale comigo de um jeito tão familiar, a não ser que queira provocar uma afronta. — Ela se afastou com gravidade e arrogância.
Corra atrás dela!, exclamou Saphira.
O quê?
Não podemos permitir que ela fique irritada conosco. Vá pedir desculpas.
Seu orgulho se rebelou. Não! A culpa é dela, não minha.
Vá pedir desculpas, Eragon, ou irei encher a sua tenda de sujeira. Não se tratava de conversa fiada.
Como?
Saphira pensou por um segundo, e depois lhe disse o que fazer. Sem discutir, ele deu um salto e correu até ficar bem na frente de Arya, forçando-a a parar. Ela o encarou com uma expressão altiva.
Ele tocou seu lábios e disse:
— Arya Svit-kona — Estava usando o título de honra que havia acabado de aprender para uma mulher de grande sabedoria. — Eu me expressei mal, e por isso imploro pelo seu perdão. Saphira e eu estávamos preocupados com o seu bem-estar. Depois de tudo que você fez por nós, parecia que o mínimo que podíamos fazer era oferecer a nossa ajuda em troca, caso você dela precise.
Finalmente, Arya relaxou e disse:
— Agradeço a sua preocupação. E eu também não me expressei direito. — Ela olhou para baixo. Na escuridão, seu corpo era dolorosamente rígido. — Você quer saber o que me aflige, Eragon? Quer realmente saber? Então vou lhe contar. — Sua voz era tão suave quanto a lanugem do cardo que flutuava ao vento. — Estou com medo.
Aturdido, Eragon nada respondeu enquanto ela se distanciava, deixava-o sozinho no meio da noite.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)