8 de maio de 2017

Capítulo 18

Meu querido Cômodo
Por favor, não cause incômodos
Ah, não, outra visão

POR QUE AS PESSOAS sempre estragavam minhas refeições?
Primeiro, me serviram comida. Depois, explicaram como eu tinha grandes chances de morrer em breve. Eu desejava estar de volta ao Monte Olimpo, onde poderia me preocupar com coisas mais interessantes, como os últimos sucessos do tecno-pop, saraus de poesia e destruir comunidades sanguinárias com minhas flechas da vingança. Uma coisa que aprendi com a minha experiência como mortal: contemplar a morte é muito mais divertido quando é a de outra pessoa.
Antes que Britomártis nos desse nossa “recompensa”, ela insistiu em ser informada sobre o que Josephine e Emmie tinham feito o dia todo, com a ajuda de Leo, para preparar a Estação Intermediária para um cerco.
— Esse cara é bom. — Josephine deu um soco carinhoso no braço de Leo. — As coisas que ele sabe sobre esferas de Arquimedes... Muito impressionante.
— Esferas? — perguntou Meg.
— É — disse Leo. — São umas coisas redondas.
— Cala a boca.
Meg voltou a ingerir carboidratos.
— Reposicionamos e abastecemos todas as bestas das torres de artilharia — continuou Jo. — Carregamos as catapultas. Fechamos todas as saídas e colocamos a Estação Intermediária em modo de vigilância vinte e quatro horas. Se alguém tentar entrar, vamos saber.
— E eles vão tentar — prometeu Britomártis. — É só questão de tempo.
Levantei a mão.
— E, hã, Festus?
Esperava que a tristeza na minha voz não estivesse óbvia demais. Não queria que os outros pensassem que eu estava pronto para sair voando no nosso dragão de bronze e deixar que a Estação Intermediária resolvesse seus próprios problemas. (Embora estivesse pronto para fazer exatamente isso.)
Emmie balançou a cabeça.
— Procurei na região da prefeitura ontem à noite e hoje de manhã. Nada. Os blemmyae devem ter levado a mala de bronze para o palácio.
Leo estalou a língua.
— Aposto que está com Litierses. Quando eu botar a mão naquele hijo de...
— O que nos leva a uma questão importante — interrompi. — Como Leo... quer dizer, como nós encontramos o palácio?
Britomártis tirou os pés da mesa. Inclinou-se para a frente.
— O portão principal do palácio do imperador fica embaixo do Monumento aos Soldados e Marinheiros.
Josephine grunhiu.
— Eu devia ter percebido.
— Por quê? — perguntei. — O que é isso?
Josephine revirou os olhos.
— É uma coluna enorme no meio de uma praça, alguns quarteirões ao norte daqui. É bem o tipo de construção chamativa e exagerada que se esperaria que um imperador tivesse na entrada de casa.
— É o maior monumento da cidade — acrescentou Emmie.
Tentei conter meu ressentimento. Soldados e marinheiros são gente boa, mas, se o maior monumento da sua cidade não é para Apolo, tem alguma coisa errada.
— Imagino que o palácio seja bem protegido, não é?
Britomártis riu.
— Até pelos meus padrões, o monumento é uma armadilha mortal. Torres de artilharia com metralhadoras. Lasers. Monstros. Tentar entrar pela porta da frente sem ser convidado teria consequências catastróficas.
Meg engoliu um pedaço enorme de pão, conseguindo de alguma forma não se engasgar.
— O imperador nos deixaria entrar.
— Bem, é verdade — concordou Britomártis. — Ele adoraria que você e Apolo aparecessem na porta dele e se entregassem. Mas só menciono a entrada principal porque vocês devem evitá-la a todo custo. Se vocês quiserem entrar no palácio sem serem presos e torturados até a morte, há outra possibilidade.
Leo mordeu um pedaço de queijo, que ficou com o formato de um sorriso. Ele o segurou na frente da boca.
— Leo fica feliz quando não está sendo torturado até a morte.
Meg não conseguiu segurar a risada. Um pedaço babado de pão saiu pela narina direita, mas ela não teve nem o decoro de parecer constrangida. Percebi que Leo e Meg não seriam boas influências um para o outro.
— Então, para entrar — disse a deusa —, vocês precisam usar a rede de águas e esgotos.
— O encanamento — falei. — Na minha visão da sala do trono do imperador, vi canais abertos de água corrente. Você sabe como ter acesso a eles?
Britomártis piscou para mim.
— Espero que você não tenha mais medo de água.
— Eu nunca tive medo de água! — Minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia.
— Hum... — refletiu Britomártis. — Então por que será que os gregos sempre rezavam para você quando estavam em águas perigosas e queriam aportar em segurança?
— P-porque minha mãe ficou presa em um barco quando estava tentando me dar à luz! E a Ártemis também! Eu entendo querer estar em terra firme!
— E os boatos de que você não sabe nadar? Eu me lembro da festa na piscina do Tritão...
Claro que eu sei nadar! Só porque eu não quis brincar de Marco Polo com você no fundo com minas navais...
— Ei, pessoalzinho divino — interrompeu Meg. — A rede de águas e esgotos?
— Certo! — Pela primeira vez, fiquei aliviado pela impaciência de Meg. — Deusa, como chegamos à sala do trono?
Britomártis estreitou os olhos na direção de Meg.
Pessoalzinho divino? — Ela parecia estar refletindo como McCaffrey ficaria enrolada em uma rede com pesos de chumbo e jogada na Fossa das Marianas. — Bom, srta. McCaffrey, para acessar o sistema de águas do imperador, vocês vão precisar procurar no Canal Walk.
— O que é isso? — perguntou Meg.
Emmie bateu de leve na mão da menina.
— Eu posso mostrar a você. É um antigo canal que atravessa o centro. Reformaram a área, construíram vários prédios residenciais e restaurantes e sei lá mais o quê.
Leo colocou o sorriso de queijo na boca.
— Eu adoro sei lá mais o quê.
Britomártis sorriu.
— Que sorte, Leo Valdez. Porque suas habilidades vão ser necessárias para encontrar a entrada, desarmar as armadilhas e sei lá mais o quê.
— Espere aí. Encontrar a entrada? Achei que você fosse nos dizer onde fica.
— Eu acabei de dizer — retrucou a deusa. — Em algum lugar do canal. Procurem uma grade. Vocês vão saber quando encontrarem.
— Aham. E vai ter uma armadilha.
— Claro! Mas a segurança não vai ser tão reforçada quanto na entrada principal da fortaleza. E Apolo vai ter que superar o medo de água.
— Eu não tenho medo... — falei.
— Cala a boca — disse Meg, transformando minhas cordas vocais em blocos de cimento. Ela apontou uma cenoura para Leo. — Se encontrarmos a grade, você consegue dar um jeito de a gente entrar?
A expressão de Leo fez com que ele parecesse tão sério e perigoso quanto possível para um pequeno semideus élfico usando o macacão de uma garotinha (um limpo, veja só, que ele procurou intencionalmente e vestiu).
— Sou um filho de Hefesto, chica. Eu levo jeito para essas coisas. Esse tal Litierses já tentou me matar. E também acabar com os meus amigos. Agora, ameaçou Calipso! É, vou botar a gente pra dentro daquele palácio. Depois, vou encontrar Lit e...
— Iniciar um litígio contra ele? — sugeri, surpreso, mas satisfeito de perceber que conseguia falar de novo tão pouco tempo depois de me mandarem calar a boca.
Leo franziu a testa.
— Hã? Que piadinha infame.
— Quando sou eu quem fala, é poesia — garanti.
— Bem. — Britomártis se levantou, anzóis e pesos tilintando no vestido. — Quando Apolo começa a recitar poesia é sinal de que devo ir embora.
— Quem me dera saber disso antes — comentei.
Ela jogou um beijo para mim.
— Sua amiga Calipso deve ficar aqui. Josephine, veja se pode ajudá-la a recuperar o controle sobre seus poderes mágicos. Ela vai precisar para a batalha que vem por aí.
Josephine tamborilou os dedos na mesa.
— Faz muito tempo que não treino ninguém nas artes de Hécate, mas vou fazer o possível.
— Emmie — continuou a deusa —, cuide dos meus grifos. Heloísa pode botar o ovo a qualquer momento.
O couro cabeludo de Emmie ficou vermelho.
— E Georgina? Você nos mostrou como entrar no palácio do imperador. Agora espera que fiquemos aqui em vez de ir libertar nossa menina?
Britomártis levantou a mão pedindo cautela, como quem diz Você está prestes a cair numa armadilha, minha querida.
— Confie em Meg, Leo e Apolo. Esta tarefa é deles: encontrar e libertar os prisioneiros, recuperar o Trono de Mnemosine...
— E pegar Festus — acrescentou Leo.
— E principalmente Georgina — completou Jo.
— Podemos fazer umas compras também — ofereceu Leo. — Reparei que o molho de pimenta está acabando.
Britomártis preferiu não destruí-lo, embora, pela expressão dela, eu tenha percebido que foi por pouco.
— Amanhã, à primeira luz, procurem a entrada.
— Por que não antes? — perguntou Meg.
A deusa deu um sorrisinho.
— Você é destemida. Respeito isso. Mas precisa estar descansada e preparada para encontrar as forças do imperador. Seu ferimento na perna deve ser tratado. E desconfio que não dorme direito há muitas noites. Além do mais, o incidente no zoológico deixou a segurança do imperador em alerta total. É melhor deixar a poeira baixar. Se ele pegar você, Meg McCaffrey...
— Eu sei.
Ela não demonstrou medo. O tom era o de uma criança que foi lembrada pela quinta vez de arrumar o quarto. O único sinal da ansiedade de Meg: no último pedaço de pão que segurava, tinha começado a brotar trigo.
— Enquanto isso — disse Britomártis —, vou tentar localizar as Caçadoras de Ártemis. Elas estiveram em uma missão por aqui não faz muito tempo. Talvez ainda estejam perto o bastante para vir ajudar.
Uma risadinha histérica escapou da minha boca. Pensar em vinte ou trinta outras arqueiras competentes ao meu lado, mesmo sendo donzelas que juraram fidelidade a Ártemis sem o menor senso de humor, fez com que eu me sentisse mais seguro.
— Isso seria bom.
— Mas, se eu não encontrar — disse a deusa —, vocês devem estar preparados para lutarem sozinhos.
— Típico. — Suspirei.
— E lembrem-se: a cerimônia de nomeação do imperador é depois de amanhã.
— Muito obrigado — falei. — Eu tinha até esquecido.
— Ah, não faça essa cara, Apolo! — Britomártis me lançou um último sorriso sedutor, irritante de tão bonitinho. — Se você sair dessa vivo, a gente pode ir ao cinema juntos. Prometo.
O vestido preto fino girou em torno do corpo dela como um tornado feito de redes. E ela sumiu.
Meg se virou para mim.
— Cerimônia de nomeação?
— É. — Eu olhei para o pão verde e meio peludo dela e me perguntei se ainda era comestível. — O imperador é bem megalomaníaco. Planeja renomear esta capital em homenagem a ele mesmo, como fazia na Roma Antiga. Provavelmente, vai renomear o estado, os habitantes e os meses do ano também.
Meg riu.
— Cidade Cômoda?
Leo deu um sorriso hesitante.
— Como é?
— O nome dele é...
— Não, Meg — avisou Josephine.
— ... Cômodo — continuou Meg, e franziu a testa. — Por que não devo dizer o nome dele?
— Ele presta atenção a essas coisas — expliquei. — É melhor não deixá-lo saber que estamos falando sobre...
Meg respirou fundo e gritou:
— CÔMODO, CÔMODO, CÔMODO, CÔMODO! CIDADE CÔMODA, COMODIANA, DIA CÔMODO, MÊS DE CÔMODO! HOMEM INCÔMODO!
O salão tremeu, como se a própria Estação Intermediária estivesse ofendida. Emmie ficou pálida.
Nos ninhos, os grifos piaram de nervosismo.
— Você não deveria ter feito isso, querida — repreendeu Josephine.
Leo deu de ombros.
— Bom, se o tal Homem Incômodo não estava prestando atenção ao canal dele antes, acho que está agora.
— Que besteira — disse Meg. — Não o tratem como se ele fosse tão poderoso. Meu padrasto... — A voz dela falhou. — Ele... ele disse que Cômodo é o mais fraco dos três. Nós podemos vencê-lo.
As palavras dela me atingiram em cheio como uma das flechas de ponta grossa de Ártemis.
(Posso garantir, dói muito.)
Nós podemos vencê-lo.
O nome do meu antigo amigo, gritado sem parar.
Cambaleei até ficar de pé, com ânsia de vômito, minha língua tentando se soltar da garganta.
— Opa, Apolo. — Leo correu para perto de mim. — Você está bem?
— Eu...
Mais um episódio de ânsia de vômito. Cambaleei na direção do banheiro mais próximo na mesma hora que uma visão me envolveu... me levando de volta para o dia em que cometi assassinato.

13 comentários:

  1. meg algumas vezes e insurportavel

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  2. Leo mordeu um pedaço de queijo, que ficou com o formato de um sorriso. Ele o segurou na frente da boca.
    — Leo fica feliz quando não está sendo torturado até a morte.
    Meg não conseguiu segurar a risada. Um pedaço babado de pão saiu pela narina direita, mas ela não teve nem o decoro de parecer constrangida. Percebi que Leo e Meg não seriam boas influências um para o outro.



    Pensa em alguem que esta rindo ate 2030

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  3. MEG Á MARAVILHOSA! HAHUAHAUHAU

    Isso com certeza vai dar em problemas, mas ela é tão espontânea e comicamente infantil que eu simplesmente não consigo não amar! <3

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  4. Caraaaa! Amo a Meg!!! Ela eh uma versão minha mais nova!!!😆😃❤

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  5. Vcs perceberam q toda vez q Apolo sai em missão nesse livro ele tem dois acompanhantes. Primeiro, Leo e Calipso. Depois, Calipso e Meg. E agr, Leo e Meg.

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  6. É pq dizem ser mais adequado uma missão em 3, mas parece que o Tio Rick esquece pq tava escrito isso em Herois do Olimpo mas aqui nesse livro ele colocou uma missão para Apolo e Calipso

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    1. Tecnicamente apolo tem dupla personalidade (apolo e lester) entao ja tem 3. Ou... Se preferir.... Veja que a meg tambem estava la e ajudou eles, entao foram 3 do mesmo jeito.

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  7. Leo mordeu um pedaço de queijo, que ficou com o formato de um sorriso. Ele o segurou na frente da boca.
    — Leo fica feliz quando não está sendo torturado até a morte.
    Meg não conseguiu segurar a risada. Um pedaço babado de pão saiu pela narina direita, mas ela não teve nem o decoro de parecer constrangida. Percebi que Leo e Meg não seriam boas influências um para o outro.

    Obviamente, mas ter um ou dois momentos n faz mal a ngm né :3

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  8. Damon Herondale, filho de Zeus21 de setembro de 2017 18:16

    "Homem Incômodo"
    Kkkkk

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Boa leitura :)