22 de maio de 2017

Capítulo 18 - Revelação em Yazuac

Embora tenham conseguido reabastecer seus odres, ainda que parcialmente durante a tempestade, eles beberam a última reserva de água que tinham naquela manhã.
— Espero que estejamos na direção certa — disse Eragon, apertando o odre vazio. — Pois estaremos encrencados se não chegarmos a Yazuac hoje.
Brom não parecia estar perturbado.
— Já viajei por aqui. Yazuac estará ao alcance da vista antes de anoitecer.
Eragon sorriu de modo duvidoso.
— Talvez você veja algo que eu não veja. Como pode ter certeza disso se tudo parece ser exatamente igual a centenas de quilômetros?
— É porque eu não me guio pela terra, mas pelas estrelas e pelo sol. Eles não nos deixam sair do caminho. Venha! Vamos continuar. É tolice criar temor se tal temor não existe. Yazuac estará bem à nossa frente.
As palavras dele provaram ser verdadeiras. Saphira avistou o vilarejo primeiro, mas foi só no final do dia que o resto o viu, parecendo uma elevação escura no horizonte. Yazuac ainda estava muito longe, só visível devido à uniformidade do terreno da planície. Conforme se aproximavam, uma linha sinuosa aparecia em ambos os lados da cidade e desaparecia ao longe.
— É o rio Ninor — disse Brom, apontando para ele.
Eragon puxou as rédeas, fazendo Cadoc parar.
— Saphira será vista se ficar conosco por muito tempo. Será que ela não deveria se esconder enquanto estivermos em Yazuac?
Brom coçou o queixo e olhou para a cidade.
— Está vendo aquela curva do rio? Peça que ela nos espere lá. Fica longe o bastante de Yazuac para alguém poder vê-Ia, mas também fica perto o suficiente para ela não ficar para trás. Nós iremos à cidade, compraremos o que precisamos e, depois, vamos encontrá-la.
Não gostei disso, disse Saphira quando Eragon explicou-lhe o plano. Isso está me deixando irritada, ter de viver me escondendo como se fosse uma criminosa.
Você sabe o que aconteceria se fôssemos descobertos.
Ela reclamou, mas acabou cedendo e voou para longe, bem perto do chão.
Eles mantiveram o passo acelerado pensando nas comidas e nas bebidas das quais desfrutariam em breve. Quando se aproximaram das casinhas, viram fumaça saindo de uma dúzia de chaminés, mas não havia ninguém nas ruas. Um silêncio anormal tomava conta do vilarejo. Sem falarem nada, pararam em frente à primeira casa. Eragon disse de repente:
— Não há nenhum cachorro latindo.
— Não.
— Mas isso não quer dizer nada.
— ... Não.
Eragon fez uma pausa.
— Alguém já deve ter nos visto.
— Já.
— Então, por que ninguém saiu?
Brom apertou os olhos em direção ao sol.
— Podem estar com medo.
— Pode ser — ponderou Eragon. Ele ficou em silêncio por um momento. — E se isso for uma armadilha? Os Ra’zac podem estar esperando por nós.
— Precisamos de provisões e água.
— Lá está o Ninor.
— Ainda precisamos de provisões.
— De fato. — Eragon olhou em volta. — Então, vamos entrar?
Brom bateu com suas rédeas.
— Vamos, mas não como tolos. Esta é a entrada principal de Yazuac. Se prepararam uma emboscada, deve ter sido por aqui. Ninguém espera que cheguemos de uma direção diferente.
— Então, vamos dar a volta pelo lado? — quis saber Eragon. Brom concordou com a cabeça e desembainhou sua espada, atravessando a lâmina em cima de sua sela. Eragon esticou seu arco e preparou uma flecha.
Deram a volta na cidade em silêncio e entraram cuidadosamente. As ruas estavam vazias, exceto por uma pequena raposa que saiu correndo quando eles se avizinharam. As casas estavam escuras e sinistras, com janelas quebradas.
Muitas portas pendiam nas dobradiças danificadas. Os cavalos moviam os olhos de uma maneira tensa. As palmas das mãos de Eragon formigavam, mas resistiu ao ímpeto de coçá-las. Quando entravam no centro da cidade, agarrou seu arco com mais força e ficou pálido.
— Meu Deus do céu — sussurrou.
Uma montanha de corpos erguia-se acima deles, os cadáveres estavam duros e tinham expressões horríveis no rosto. As roupas estavam ensopadas de sangue, que também manchava o solo pisoteado. Havia homens mortos deitados em cima das mulheres que tentaram proteger, mães ainda agarradas a seus filhos, e namorados que tentaram salvar um ao outro jaziam mortos em um frio abraço. Havia flechas negras espetadas em todos eles. Nem as crianças nem os idosos foram poupados. Mas o pior daquilo tudo era uma lança bem pontuda que sobressaía no topo da pilha, nela estava espetado o corpo branco de um bebê.
As lágrimas embaçaram a visão de Eragon, ele tentou desviar o olhar, mas os rostos mortos prendiam sua atenção. Fitava os olhos abertos e pensava em como a vida se esvaiu tão facilmente. Qual é o sentido da nossa existência quando acabamos dessa maneira? Uma onda de desânimo tomou conta dele.
Um corvo desceu, vindo do céu, como uma sombra preta e se empoleirou na lança. Ele jogou a cabeça para o lado e começou a examinar o corpo da criança.
— Ah, não! Nada disso! — proferiu Eragon irritado enquanto esticava seu arco e liberava a corda, produzindo um estalo. Soltando um monte de penas, o corvo caiu para trás, uma flecha saía do seu peito.
Eragon preparou outra flecha no arco, mas um enjoo subiu de seu estômago e vomitou ao lado de Cadoc.
Brom deu-lhe alguns tapinhas nas costas. Quando Eragon terminou, Brom perguntou delicadamente:
— Quer esperar por mim fora de Yazuac?
— Não... Eu ficarei — respondeu Eragon, trêmulo, limpando a boca. Evitou olhar novamente a cena terrível que estava diante deles. — Quem poderia ter feito... — Ele não conseguia pronunciar as palavras.
Brom inclinou a cabeça.
— Aqueles que sentem prazer na dor e no sofrimento dos outros. Têm muitos rostos e usam muitos disfarces, mas há apenas um nome para eles: maldade. Não há explicação para isso. Tudo o que podemos fazer é lamentar e honrar as vítimas.
Ele desmontou de Fogo na Neve e andou pelo local, examinando cuidadosamente os rastros no solo.
— Os Ra’zac passaram por aqui — disse lentamente. — Mas isso não foi obra deles. Isso foi trabalho dos Urgals, a lança foi feita por eles. Uma guarnição passou por aqui, talvez uns cem. É estranho. Sei apenas de algumas raras ocasiões em que eles se reuniram em tamanha...
Ele se ajoelhou e examinou uma das pegadas cautelosamente. Xingando, voltou correndo para Fogo na Neve e pulou para cima dele.
— Corra! — ordenou com um sussurro, dando esporadas no cavalo para andar para a frente. — Ainda há Urgals aqui!
Eragon cravou seus calcanhares em Cadoc. O cavalo deu um pulo para a frente e correu atrás de Fogo na Neve. Passaram pelas casas em disparada e estavam quase na saída da cidade quando a palma da mão de Eragon formigou de novo. Ele viu, de relance, um movimento à sua direita, e depois um punho gigantesco atingiu-o, derrubando-o da sela. Ele voou para trás, por cima de Cadoc e caiu batendo em uma parede, mas sem soltar seu arco por puro instinto. Ofegante e abalado, cambaleante, ficou em pé, apertando o lado do corpo.
Um Urgal estava a sua frente, com um olhar malicioso no rosto. O monstro era alto, forte e mais largo do que os umbrais de uma porta. Tinha pele cinzenta e olhos suínos e amarelados. Os músculos se destacavam nos braços e no peito, que estava protegido por uma pequena placa de metal. Um capacete de metal estava sobre o par de chifres de carneiro que se enroscavam a começar de suas têmporas. E um escudo redondo estava preso em um de seus braços. Sua mão forte segurava uma espada curta e de aspecto malévolo.
Atrás dele, Eragon viu Brom puxar as rédeas de Fogo na Neve e fazer a volta, mas foi interrompido pela aparição de um segundo Urgal, este empunhava um machado.
— Corra, seu tolo! — gritou Brom para Eragon, afastando-se de seu inimigo. O Urgal na frente de Eragon rosnou e brandiu sua espada majestosamente. Eragon jogou-se para trás, gritando, quando a arma passou assoviando perto de sua bochecha. Ele virou-se e correu para o centro de Yazuac, seu coração batia freneticamente.
O Urgal o perseguiu, pesadas botas retumbavam. Eragon enviou um pedido de socorro desesperado à Saphira e tentou correr ainda mais rápido, O Urgal ganhou terreno rapidamente apesar dos esforços de Eragon, suas grandes presas eram separadas por um bramido insondável. Com o Urgal quase em cima, Eragon preparou uma flecha, virou, parou, mirou e disparou. O Urgal levantou o braço rapidamente e aparou o projétil com o seu escudo. O monstro se chocou com Eragon antes que ele pudesse atirar de novo, os dois caíram, engalfinhando-se no chão.
Eragon ficou de pé rapidamente e correu em direção a Brom, que trocava golpes com seu oponente enquanto estava montado em Fogo na Neve. Onde está o resto dos Urgals? Pensou freneticamente Eragon. Será que só há estes dois em Yazuac? Ouviu-se um estalo alto, e Fogo na Neve recuou, relinchando. Brom se curvou inconsciente sobre sua sela, o sangue corria em seu braço. O Urgal ao lado dele uivou triunfante e ergueu seu machado para dar o golpe final.
Um grito ensurdecedor saiu de Eragon quando ele mergulhou para cima do Urgal. O monstro parou perplexo e começou a encará-lo com um ar de desdém, balançando seu machado. Eragon conseguiu esquivar-se do golpe dado com as duas mãos e feriu o lado do corpo do Urgal, produzindo sulcos ensanguentados. O rosto do monstro contorceu-se de raiva. Ele deu outro golpe, mas errou de novo, pois Eragon se atirou para o lado e correu para um beco.
Eragon concentrou-se em atrair os Urgals para longe de Brom. Esgueirou-se por uma passagem estreita entre duas casas, percebeu que era um beco sem saída e parou derrapando. Tentou voltar, mas os Urgals já haviam bloqueado a entrada. Eles avançaram, xingando-o com suas vozes roucas. Eragon virou a cabeça de um lado para o outro, procurando uma saída, mas não havia nenhuma.
Quando encarava os Urgals, imagens passavam por sua mente: aldeões mortos empilhados em volta de uma lança e um bebê inocente que nunca chegaria à idade adulta. Ao pensar no destino deles, uma força ardente, que queimava, emanou de todas as partes de seu corpo. Era mais do que o desejo por justiça. Era seu corpo inteiro rebelando-se contra a realidade da morte: ele deixaria de existir. A força aumentava cada vez mais, até que se sentiu preparado para liberar toda aquela energia contida.
Ele se pôs ereto, esticando o tronco, e todo o medo havia desaparecido. Ergueu seu arco suavemente. Os Urgals riram e levantaram seus escudos. Eragon alinhou o olho à flecha, como já havia feito centenas de vezes, e apontou-a para o alvo. A energia dentro dele ardia em um nível quase insuportável.
Tinha de liberá-la ou ela iria consumi-lo. De repente, uma palavra escapou de seus lábios. Ele disparou, gritando:
— Brisingr!
A flecha sibilava no ar, brilhando com uma luz azul crepitante.
Ela atingiu o primeiro Urgal na testa, e uma explosão ressoou no ar.
Uma onda de choque azul emanou da cabeça do monstro, matando o outro Urgal instantaneamente.
Ela chegou a Eragon antes que ele tivesse tempo para reagir, mas passou por ele sem produzir nenhum mal, dissipando-se contra as casas.
Eragon estava em pé, ofegante, e olhou para a palma da sua mão gelada. A gedwëy ignasia brilhava como um metal branco derretido, e, enquanto olhava, ela voltou ao normal. Fechou o punho, e uma onda de cansaço tomou conta dele. Sentiu-se estranho e fraco, como se não comesse há dias. Seus joelhos bambearam, e ele sucumbiu, recostando-se em uma parede.

3 comentários:

  1. Eu estava esperando por isso, saber quando ele ia usar essa magia!!!

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  2. LuaMara dragão Opala17 de junho de 2017 20:13

    sim eu adoro esse trecho do livro!

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Boa leitura :)