27 de maio de 2017

Capítulo 18 - Flutuando

No decorrer da manhã, o vale foi se alargando enquanto as balsas seguiam rapidamente na direção de uma fenda reluzente entre duas montanhas. Eles alcançaram a abertura ao meio-dia e se viram sem sombras, sobre uma pradaria ensolarada que sumia rumo ao norte.
Então a corrente os empurrou para além dos rochedos congelados e as muralhas do mundo foram diminuindo gradualmente para revelar um céu colossal e um horizonte plano. Quase imediatamente o ar foi ficando mais quente. O Az Ragni fez uma curva para leste, beirando os contrafortes da cordilheira de um lado e a planície do outro.
A vastidão parecia estar deixando os anões perturbados. Eles murmuraram algo entre si e fitaram ansiosamente a fenda cavernosa que havia ficado para trás.
Eragon achou a luz do sol revigorante. Era difícil se sentir realmente acordado quando três quartos do dia eram passados na penumbra. Detrás da balsa dele, Saphira se lançou para fora d’água e voou por sobre a pradaria até se encolher e se tornar uma mancha no firmamento azul-celeste mais acima.
O que você está vendo?, perguntou Eragon.
Vejo enormes bandos de gazelas indo para o norte e para o leste. Para o oeste, o Deserto Hadarac. Isso é tudo.
Ninguém mais? Nem Urgals, traficantes de escravos ou nômades?
Estamos sozinhos.


Naquela noite, Thorv escolheu uma pequena enseada para acamparem. Enquanto Dûthmér preparava o jantar, Eragon limpou um espaço ao lado de sua tenda e depois sacou Zar’roc e ficou rapidamente na posição que Brom lhe havia ensinando quando ambos duelaram pela primeira vez. Eragon sabia que estava em desvantagem em comparação com os elfos, e não estava com a menor intenção de chegar em Ellesméra sem prática.
Com uma lentidão excruciante, virou Zar’roc por sobre a sua cabeça e a trouxe novamente para baixo com ambas as mãos, como se fosse rachar o elmo de um inimigo. Sustentou a pose por um segundo. Mantendo seus movimentos sob controle total, girou para a direita — apertando o cabo de Zar’roc para aparar um golpe imaginário — e depois parou com os braços rígidos.
De soslaio, Eragon reparou que Orik, Arya e Thorv o observavam. Ignorou-os e se concentrou apenas na lâmina cor de rubi em suas mãos, a segurava como se fosse uma cobra que pudesse se debater, se desvencilhar e morder seu braço.
Ao se virar novamente, começou a fazer uma série de posições, fluindo de uma para a outra com uma naturalidade disciplinada, enquanto aumentava gradualmente a sua velocidade. Em sua mente, não estava mais na enseada sombria, mas cercado por um monte de Urgals e Kull. Desviava e atacava, aparava e revidava golpes, pulava para o lado e apunhalava oponentes girando com muita presteza. Lutava com uma energia negligente, como o fizera em Farthen Dûr, sem pensar na segurança de sua própria carne, golpeando e rasgando seus inimigos imaginários.
Ele girava Zar’roc — numa tentativa de jogar o cabo de uma das mãos para a outra — e então deixou cair sua espada assim que uma pontada de dor rasgou suas costas ao meio. Cambaleou e tombou. Acima de onde estava, Eragon chegou a ouvir Arya e os anões balbuciando, mas tudo que pôde ver foi uma espécie de névoa vermelha cintilante, como se um véu sangrento tivesse caído sobre o mundo. Não havia outra sensação além da dor. Ela maculava o pensamento e a razão, deixando apenas um animal selvagem gritando para ser solto.
Quando Eragon se recuperou o suficiente para notar seu paradeiro, notou que havia sido colocado dentro de sua tenda e enrolado por cobertores. Arya estava sentada a seu lado, e a cabeça de Saphira estava enfiada no meio das abas de entrada.
Eu fiquei muito tempo apagado?, perguntou Eragon.
Um tanto. Você dormiu um pouco no fim das contas. Tentei puxá-lo do seu corpo para o meu, afim de protegê-lo da dor, mas não podia fazer muita coisa com você inconsciente.
Eragon acenou com a cabeça e fechou os olhos. Todo o seu corpo palpitava. Depois de respirar bem fundo, levantou os olhos na direção de Arya e perguntou calmamente:
— Como posso treinar?... Como posso lutar ou usar a magia?... Sou um vaso quebrado. — Seu rosto parecia envelhecido enquanto ele falava.
Ela respondeu de um jeito igualmente suave:
— Você pode sentar e observar. Pode ouvir. Pode ler. E pode aprender.
Não obstante as suas palavras, ouviu um quê de incerteza, até mesmo de medo, em sua voz. O Cavaleiro rolou para o lado evitando encará-la. Estava envergonhado por parecer tão impotente em sua presença.
— Como o Espectro pôde fazer isso comigo?
— Não tenho respostas, Eragon. Não sou a elfa mais sábia, nem a mais forte. Fazemos o melhor que podemos e você não pode ser culpado por isso. Talvez o tempo cure a sua ferida. — Arya colocou o dedo em sua testa e murmurou: — Sé mor’anr ono finna — depois deixou a tenda.
Eragon se sentou e estremeceu enquanto alongava seus músculos posteriores que sentiam câimbras. Ele olhou para as suas mãos sem as ver. Gostaria de saber se a cicatriz de Murtagh o fazia sentir tanta dor nas costas quanto eu sinto.
Não sei, disse Saphira.
Um silêncio mortal se seguiu. E depois: Estou com medo.
Por quê?
Porque... hesitou. Porque nada que eu faça irá impedir um outro acesso. Não sei quando e onde ele irá acontecer, só sei que é inevitável. Por isso espero, e a cada momento temo que, se erguer algo muito pesado ou me alongar de maneira errada, a dor possa voltar. Meu próprio corpo se tornou meu inimigo.
Saphira fez um zumbido profundo com a garganta. Também não tenho respostas. A vida é dor e prazer ao mesmo tempo. Se esse é o preço que você deve pagar pelas horas em que se diverte, será que é demais?
Sim, vociferou. Ele saiu de debaixo dos cobertores e a empurrou para que pudesse passar, cambaleando até o centro do acampamento, onde Arya e os anões estavam sentados em volta de uma fogueira.
— Sobrou comida? — perguntou Eragon.
Sem dizer nada, Dûthmér encheu uma tigela e a passou para ele. Com uma expressão respeitosa, Thorv perguntou:
— Você está melhor agora, Matador de Espectros? — Ele e os outros anões pareceram ficar apavorados com o que haviam visto.
— Estou bem.
— Você carrega um fardo pesado, Matador de Espectros.
Eragon fechou a cara e caminhou abruptamente para a beirada da área das tendas, onde se sentou sozinho no meio da escuridão. Dava para sentir que Saphira estava por perto, mas ela o deixou em paz. Rogou pragas em voz baixa e atacou o ensopado de Dûthmér com fúria.
Assim que deu a primeira mordida, Orik falou por trás:
— Você não devia tratá-los assim.
Eragon olhou para o rosto sombreado de Orik.
— O quê?
— Thorv e seus homens foram enviados para proteger você e Saphira. Morrerão por você se houver necessidade e lhe confiaram seus rituais fúnebres. Você devia se lembrar disso.
Eragon conteve uma resposta agressiva e olhou para a superfície negra do rio — sempre se movendo, nunca parando — numa tentativa de acalmar a mente.
— Você tem razão. Eu perdi um pouco do equilíbrio.
Os dentes de Orik brilharam quando ele sorriu no meio da noite.
— É uma lição que todo comandante deve aprender. Ela me foi imposta por Hrothgar, depois que joguei minha bota num anão que deixou sua alabarda num local onde alguém poderia pisar nela.
— Você bateu nele?
— Quebrei seu nariz — afirmou Orik, rindo à socapa. Sem querer, Eragon também riu.
— Vou me lembrar de não fazer isso. — Ele segurou sua tigela com ambas as mãos para mantê-las quentes. Eragon ouviu o ruído do metal quando Orik tirou algo de dentro de uma algibeira.
— Veja — disse o anão, deixando cair um monte de anéis de ouro entrelaçados nas mãos de Eragon. — É um jogo no qual testamos a inteligência e a destreza. São oito anéis. Se você as arrumar da forma adequada, formarão um único anel. Descobri que isso é ótimo para me distrair quando estou inquieto.
— Obrigado — murmurou Eragon, arrebatado pela complexidade daquele jogo reluzente.
— Se você conseguir resolver o enigma, poderá ficar com os anéis.
Quando voltou para sua tenda, Eragon deitou de barriga para baixo e examinou os anéis, valendo-se da luz turva da fogueira que penetrava pelas abas da entrada. Quatro anéis enlaçavam quatro outros. Todos eram lisos na parte de baixo e formavam uma massa sinuosa e assimétrica no topo, onde entrelaçavam-se.
Enquanto experimentava várias configurações, Eragon ficou rapidamente frustrado com um simples fato: parecia impossível fazer os dois conjuntos de anéis ficarem paralelos, de modo que ficassem nivelados. Absorvido pelo desafio, esqueceu-se do terror sentido há pouco.


Eragon acordou pouco antes do amanhecer. Esfregando os olhos cheios de sono, ele saiu da tenda e se alongou. Sua respiração ficou branca no meio do ar fresco matinal. Acenou para Shrrgnien, que estava tomando conta do fogo e depois caminhou até a beira do rio e molhou o rosto, pestanejando devido ao choque do encontro com a água fria.
Ele localizou Saphira com um movimento repentino de sua mente, enfiou Zar’roc no cinto, e seguiu em sua direção atravessando as faias que beiravam o Az Ragni. Logo as mãos e o rosto de Eragon estavam brilhantes com o orvalho de uma muralha de arbustos de cerejeira que obstruíam a sua passagem. Com algum esforço, atravessou a rede de galhos e fugiu para a planície silenciosa. Uma colina arredondada se erguia diante dele. Em seu cume — como se fossem duas estátuas antigas — estavam Saphira e Arya.
Ambas olhavam para o leste, onde um brilho fundido se arrastava na direção do céu e lustrava o âmbar da pradaria. Assim que a luz clara caiu sobre as duas figuras, Eragon se lembrou de como Saphira havia visto o nascer do sol da cabeceira da sua cama, apenas algumas horas depois que irrompeu o seu ovo. Ela parecia um gavião ou um falcão com os olhos firmes e cintilantes sob a sua espinha ossuda, o arquear impetuoso de seu pescoço e a força ainda escassa em cada fibra de seu corpo. Ela era uma caçadora, dotada de toda a beleza selvagem associada ao termo. As feições angulosas de Arya e a sua graça de pantera combinavam perfeitamente com o dragão que estava ao seu lado.
Não existia nenhuma discrepância entre suas condutas enquanto ambas se banhavam nos primeiros raios da manhã. Um formigamento de temor e alegria estremeceu a espinha de Eragon. Esse era o seu destino, ser um Cavaleiro. De todas as coisas na Alagaësia, ele teve sorte de se ligar a isso. Tal milagre fez lágrimas brotarem em seus olhos e um sorriso de júbilo que afastava todas as dúvidas e medos num surto de pura emoção.
Ainda sorrindo, subiu a colina e ocupou seu lugar ao lado de Saphira enquanto ambos faziam o reconhecimento de um novo dia.
Arya se voltou para ele. Eragon captou o seu olhar e algo o fez balançar por dentro. O Cavaleiro ficou ruborizado sem saber por que, sentindo uma súbita conexão com ela, e teve a impressão de que a elfa o entendia mais do que qualquer um, excetuando Saphira. Aquela reação o deixou confuso, pois ninguém o havia afetado daquela maneira antes.
Pelo resto do dia, tudo o que Eragon teve de fazer foi pensar naquele momento para sorrir e se agitar por dentro com uma mistura de sensações estranhas que não conseguia identificar. Passou a maior parte do seu tempo sentado e encostado na cabine da balsa, trabalhando no anel de Orik e observando a mudança da paisagem.
Por volta do meio-dia, passaram pela entrada de um vale e outro rio desembocou no Az Ragni, dobrando o seu tamanho e a sua velocidade até as margens ficarem a mais de um quilômetro e meio de distância. Era tudo que os anões podiam fazer para impedir que as balsas fossem jogadas para cima, como destroços de uma embarcação ante a inexorável corrente e para evitar que se chocassem com as árvores que boiavam ocasionalmente.
Um quilômetro e meio depois que os rios se encontraram, o Az Ragni virou para o norte e fluiu em direção a um pico isolado e envolto por nuvens que ficava separado da parte principal da cordilheira das Beor, como se fosse uma gigantesca torre de observação construída para vigiar as planícies.
Os anões se curvaram em direção ao pico quando o viram, e Orik disse para Eragon:
— Aquela é Moldûn, a Orgulhosa. É a última montanha de verdade que veremos nesta jornada.
Quando as balsas ancoraram ao anoitecer, Eragon viu Orik abrir uma grande caixa preta adornada com madrepérola, rubis e fios curvos prateados. Orik abriu um fecho e depois levantou a tampa para revelar um arco desencordoado, envolto em veludo vermelho. Toda a extensão recurvada do arco era escura, e servia de pano de fundo para arranjos intrincados de videiras, flores, animais e runas, todos executados no mais puro ouro. Era uma arma tão luxuosa que Eragon se perguntava como alguém ousava usá-la.
Orik colocou a corda no arco — que era quase do seu tamanho, embora não fosse maior do que o arco de uma criança, pelos padrões de Eragon — guardou a caixa e disse:
— Vou tentar encontrar um pouco de carne fresca. Estarei de volta em uma hora. — Com isso ele desapareceu no meio da mata. Thorv resmungou em desaprovação, mas não fez nenhum movimento para impedi-lo.
Cumprindo a sua palavra, Orik voltou com um par de gansos de pescoço longo.
— Encontrei um bando empoleirado numa árvore — afirmou, enquanto jogava as aves para Dûthmér.
Enquanto Orik pegava novamente a caixa ornada de joias, Eragon perguntou:
— De que tipo de madeira o seu arco é feito?
— Madeira? — Orik riu, balançando a cabeça. — Você não pode fazer um arco pequeno assim com madeira e lançar uma flecha a mais de vinte metros, ele quebra ou arrebenta a corda depois de alguns tiros. Não, este é um arco feito com um chifre de Urgal.
Eragon encarou-o com ar suspeito, certo de que o anão estava tentando enganá-lo.
— Um chifre não é flexível ou elástico o bastante para ser usado num arco.
— Ah — disse Orik, rindo —, isso é porque você precisa saber como manejá-lo. Antes nós aprendíamos a fabricá-los com chifres de Feldûnost, mas funciona igualmente com o de um Urgal. Ele é feito cortando-se o chifre pela metade, e depois desbastando-se a espiral externa até atingirmos a espessura ideal. A peça então é fervida e lixada até atingir a sua forma definitiva, antes de ser fixada em um bastão de freixo com cola feita de escamas de peixes e da pele do céu da boca de trutas. Então a parte de trás do bastão é coberta com múltiplas camadas de fibras, o que dão ao arco a sua durabilidade. A última etapa é a decoração. Todo esse processo pode durar quase uma década.
— Nunca havia ouvido falar de um arco que tivesse sido feito assim — afirmou Eragon. Isso fazia da arma pouco mais do que um galho cortado de forma grosseira. — Até que distância ele atira?
— Veja com seus próprios olhos — disse Orik. Ele deixou Eragon pegar o arco, o qual segurou cuidadosamente, com medo de arranhar o seu acabamento. Orik tirou uma flecha de sua aljava e lhe passou. — Porém, você me deve uma flecha.
Eragon encaixou a seta na corda, mirou acima do Az Ragni e puxou. A extensão da corda puxada era menos de 60 centímetros, mas ele ficou surpreso ao perceber que seu peso era bem maior do que o do seu próprio arco, ele mal tinha forças para segurar a corda. O Cavaleiro soltou a flecha, que por sua vez sumiu fazendo um som metálico, só para reaparecer bem acima do rio. Eragon olhou estupefato enquanto a flecha caía num borrifo d’água no meio do Az Ragni.
Ele imediatamente cruzou uma barreira em sua mente para que o poder da magia o cobrisse e disse:
— Gath sem oro un lam iet. — Depois de alguns segundos, a flecha se lançou de volta no meio do ar e foi parar na sua palma da mão estendida. — E aqui está a flecha que eu lhe devo.
Orik bateu com o punho no peito e depois abraçou o arco e a flecha com um prazer evidente.
— Que maravilha! Agora eu ainda tenho exatamente uma dúzia. Caso contrário, teria que esperar até chegarmos em Hedarth para reabastecer o meu estoque. — Muito habilmente, tirou a corda do arco e o guardou, embrulhando a caixa com trapos macios para protegê-la.
Eragon viu que Arya observava tudo. Ele então perguntou a ela:
— Os elfos também usam arcos feitos com chifres? Você é tão forte, um arco de madeira iria se partir se fosse feito pesado o bastante para que o manejasse.
— Nós confeccionamos nossos arcos com árvores que não crescem. — Depois disso ela se afastou.
Durante dias eles seguiram em meio a gramados primaveris enquanto as montanhas Beor iam ficando para trás, numa muralha branca e enevoada. Muitas vezes, as margens estavam cobertas de gazelas e de gamos pequenos e vermelhos que os olhavam de um jeito suave.
Agora que os Fanghur não eram mais uma ameaça, Eragon voava com Saphira quase o tempo todo. Era a primeira oportunidade que eles tinham, desde antes de Gil’ead, para passar tanto tempo juntos no ar, e eles tiraram vantagem da situação. Além do mais, Eragon deu boas-vindas à chance de fugir do convés apertado da balsa, onde ele se sentia desajeitado e inseguro por ter Arya tão perto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)