8 de maio de 2017

Capítulo 17

Na Estação, lá vai
McCaffrey comer meu pão.
Lágrimas divinas...

HELOÍSA E ABELARDO SABIAM para onde ir. Eles sobrevoaram o telhado da Estação Intermediária até uma seção das telhas se abrir, permitindo que os grifos descessem em círculos até o salão principal.
Eles pousaram no parapeito, lado a lado no ninho, enquanto Josephine e Leo subiam a escada para se juntarem a nós.
Josephine abraçou Heloísa e depois Abelardo.
— Meus queridos! Vocês estão vivos!
Os grifos arrulharam e se aconchegaram nela.
Josephine sorriu para Meg McCaffrey.
— Bem-vinda! Sou Jo.
Meg piscou, aparentemente não muito acostumada a ser recebida com tanto entusiasmado. Calipso tombou ao descer das costas de Heloísa. Teria caído do parapeito se Leo não a tivesse segurado.
— Opa, mamacita — disse ele. — Você está bem?
Ela piscou bem devagar.
— Estou. Sem estardalhaço. E não me chame de...
Ela desabou nos braços de Leo, que fez força para mantê-la de pé.
O garoto me encarou, nervoso.
— O que você fez com ela?
— Nadinha! — protestei. — Mas acho que ela conseguiu fazer magia.
Expliquei o que havia acontecido no zoológico: nosso encontro com Litierses, a fuga e como a rede que cobria a arena foi lançada para longe como uma lula saindo de um canhão de água (um dos projetos de menos sucesso de Poseidon).
Meg acrescentou, sem ajudar muito:
— Foi bem louco.
— Litierses — murmurou Leo. — Eu odeio esse cara. Cal vai ficar bem?
Josephine checou a pulsação de Calipso, depois encostou a mão na testa dela. Apoiada no ombro de Leo, a feiticeira roncava como um porco selvagem.
— Ela pifou — anunciou Josephine.
— Pifou? — gritou Leo. — Eu não gosto quando coisas pifam!
— É só modo de falar, amigão — disse Josephine. — Ela se exauriu magicamente. Temos que levá-la para Emmie na enfermaria. Aqui.
Josephine pegou Calipso no colo. Ignorando a escada, ela pulou do parapeito e pousou tranquilamente no chão seis metros abaixo.
Leo franziu a testa.
— Eu poderia ter feito isso.
Ele se virou para Meg. Sem dúvida a reconhecia das minhas muitas histórias tristes. Afinal, não é todo dia que se vê por aí garotinhas com roupas da cor de sinais de trânsito e óculos de gatinho.
— Você é Meg McCaffrey — deduziu ele.
— Sou.
— Legal. Eu sou Leo. E, hã... — Ele apontou para mim. — Eu soube que você pode, tipo, controlar esse cara?
Limpei a garganta.
— Nós só cooperamos! Eu não sou controlado por ninguém. Não é, Meg?
— Dá um tapa na sua cara — ordenou Meg.
Eu dei um tapa na minha cara.
Leo sorriu.
— Ah, isso é bom demais. Vou dar uma olhada na Calipso, mas vamos ter uma conversinha mais tarde.
Ele deslizou pelo corrimão da escada, me deixando com um pressentimento terrível.
Os grifos se acomodaram nos ninhos, arrulhando de satisfação um para o outro. Eu não era parteiro de grifos, mas Heloísa e seu ovo, graças aos deuses, pareciam bem.
Olhei para Meg. Meu rosto estava ardendo no local onde eu tinha me estapeado. Meu orgulho foi pisoteado como Litierses embaixo de uma horda de avestruzes de combate. Ainda assim, estava imensamente feliz em ver minha jovem amiga.
— Você me salvou. — E acrescentei uma palavra que nunca ocorria com facilidade a um deus: — Obrigado.
Meg tocou nos cotovelos. Nos dedos do meio, os anéis de ouro cintilavam com o símbolo de lua crescente da mãe, Deméter. Eu tinha feito o melhor curativo que pude na coxa dela durante o percurso até a Estação Intermediária, mas Meg ainda parecia abalada.
Achei que ela fosse chorar de novo, mas, quando me encarou, tinha a expressão obstinada de sempre, como se estivesse prestes a me chamar de Cara de Cocô ou a me mandar brincar de princesa e dragão com ela. (Ela nunca me deixava ser a princesa.)
— Eu não fiz por você — disse ela.
Tentei entender aquela frase sem sentido.
— Então, por que...
— Aquele cara. — Ela balançou os dedos na frente do rosto, indicando as cicatrizes de Litierses. — Ele era mau.
— Bom, nisso temos que concordar.
— E os que me trouxeram de Nova York. — Ela fez sua clássica expressão de nojo. — Marcus. Vortigern. Eles disseram coisas... O que fariam em Indianápolis. — Ela balançou a cabeça. — Coisas ruins.
Eu me perguntei se Meg sabia que Marcus e Vortigern tinham sido decapitados por terem deixado que ela escapasse. Achei melhor ficar quieto. Se Meg estivesse realmente curiosa, era só dar uma olhada no Facebook.
Ao nosso lado, os grifos se acomodaram para um descanso merecido. Enfiaram a cabeça embaixo das asas e ronronaram, o que seria fofo, se o barulho não fosse igual ao de uma serra elétrica.
— Meg... — Hesitei.
Senti como se uma parede nos separasse, embora não tivesse certeza de quem estava protegendo quem. Eu queria dizer tantas coisas para ela, mas não sabia como.
Tomei coragem.
— Eu vou tentar.
Meg me observou com cautela.
— Tentar o quê?
— Dizer para você... o que sinto. Para esclarecer as coisas. Me interrompa se eu disser alguma coisa errada, mas acho que é óbvio que ainda precisamos um do outro.
Ela não respondeu.
— Eu não culpo você por nada — continuei. — Por você ter me deixado sozinho no Bosque de Dodona, por ter mentido sobre seu padrasto...
— Não.
Pensei que seu fiel servo Pêssego, o karpos, fosse cair dos céus e arrancar meu couro cabeludo. Isso não aconteceu.
— O que eu quero dizer — tentei novamente — é que sinto muito por tudo que você passou. Nada foi culpa sua. Você não devia se culpar. Aquele demônio do Nero brincou com suas emoções, distorceu seus pensamentos...
— Não.
— Talvez eu devesse botar meus sentimentos em uma música.
— Não.
— Ou contar uma história sobre uma coisa similar que aconteceu comigo uma vez.
— Não.
— Um refrão curto no meu ukulele?
— Não.
Mas, daquela vez, detectei uma leve sugestão de sorriso no canto da boca de Meg.
— Podemos pelo menos concordar em trabalhar juntos? — perguntei. — O imperador desta cidade está atrás de nós dois. Se não o impedirmos, ele vai fazer muitas outras coisas ruins.
Meg deu de ombros.
— Tá.
Um estalo suave veio do ninho do grifo. Brotos verdes surgiam do feno seco, talvez sinal da melhora do humor de Meg.
Eu me lembrei das palavras de Cleandro no meu pesadelo: Você devia ter percebido como ela está ficando poderosa. Meg tinha conseguido me rastrear no zoológico. Fez hera crescer até derrubar o toldo e bambus engolirem um grupo de germânicos. Até tinha se teletransportado para fugir dos capangas de Cômodo. Poucos filhos de Deméter eram tão poderosos.
Ainda assim, eu não era bobo de achar que a gente sairia saltitando de braços dados por aí, sem pensar nos problemas que nos aguardavam. Mais cedo ou mais tarde, ela teria que enfrentar Nero novamente. Suas lealdades seriam testadas, seus medos seriam manipulados. Eu não podia libertá-la do passado, nem com a melhor música ou com o melhor refrão de ukulele.
Meg esfregou o nariz.
— Tem comida?
Eu não tinha percebido como estava tenso até relaxar. Se Meg estava pensando em comida, estávamos voltando para o caminho da normalidade.
— Tem comida. — Baixei a voz. — Olha só, não é tão bom quanto a pastinha de sete camadas de Sally Jackson, mas o pão fresco de Emmie e o queijo caseiro são bem aceitáveis.
Uma voz disse secamente atrás de mim:
— Fico feliz que você tenha gostado.
Eu me virei.
No alto da escada, Emmie disparava garras de grifo em mim com o olhar.
— Lady Britomártis está lá embaixo. Quer falar com você.

* * *

A deusa não me agradeceu. Não me cobriu de elogios, não me ofereceu um beijo nem me deu uma rede mágica de presente.
Britomártis só indicou uma cadeira do outro lado da mesa de jantar e disse:
— Sente-se.
Ela estava usando um vestido preto fino por cima de meias arrastão, um visual que me lembrou Stevie Nicks por volta de 1981. (Fizemos um dueto fabuloso em “Stop Draggin’ My Heart Around”, mas meu nome nem sequer apareceu nos créditos do disco.) Ela apoiou as botas de couro na mesa de jantar como se fosse a dona da casa, o que acho que era mesmo, e enrolou o cabelo castanho entre os dedos.
Olhei minha cadeira e a de Meg para ver se havia algum dispositivo explosivo ativado por molas, mas, sem o olhar especializado de Leo, não podia ter certeza. Minha única esperança: Britomártis parecia distraída, talvez distraída demais para fazer seus joguinhos habituais. Eu me sentei.
Felizmente, meu gloutos não explodiu.
Uma refeição simples havia sido posta na mesa: mais salada, pão e queijo. Eu não tinha percebido que era hora do almoço, mas, quando vi a comida, meu estômago roncou. Estiquei a mão para pegar o pão. Com um sorriso doce, Emmie o puxou e entregou para Meg.
— Apolo, eu não ia querer que você comesse qualquer coisa que é só aceitável. Mas tem bastante salada.
Olhei com infelicidade para a tigela de alface e pepino. Meg pegou o pão inteiro e arrancou um pedaço, mastigando com gosto. Bom... mastigando é forma de dizer. Meg enfiou tanto pão na boca que era difícil saber se os dentes sequer se tocavam.
Britomártis entrelaçou os dedos. Até um simples gesto como aquele parecia uma armadilha elaborada.
— Emmie — disse ela —, como está a feiticeira?
— Descansando com conforto, minha senhora — respondeu a mulher. — Leo e Josephine estão cuidando dela... Ah, aqui estão eles agora.
Josephine e Leo foram até a mesa de jantar, os braços de Leo abertos como a estátua do Cristo Redentor.
— Podem relaxar! — anunciou ele. — Calipso está bem!
A deusa das redes grunhiu como se estivesse decepcionada.
Um pensamento me ocorreu. Eu franzi a testa para Britomártis.
— A rede na arena. Redes são seu departamento. Você ajudou a arrancá-la, não foi? Calipso não poderia ter feito aquela magia sozinha.
Britomártis deu um sorriso.
— Eu talvez tenha dado um impulsozinho no poder dela. Ela vai ser mais útil para mim se conseguir dominar as antigas habilidades.
Leo baixou os braços.
— Mas ela podia ter morrido!
A deusa deu de ombros.
— Improvável, mas é difícil dizer. É uma coisa complicada, magia. Nunca se sabe quando ou como vai sair.
Ela falou com repugnância, como se magia fosse uma função corporal mal controlada.
As orelhas de Leo começaram a soltar fumaça. Ele deu um passo na direção da deusa.
Josephine segurou o braço dele.
— Deixa pra lá, amigão. Emmie e eu vamos cuidar da sua garota.
Leo levantou um dedo para Britomártis.
— Você tem sorte de essas moças aqui serem tão incríveis. Jo me disse que, com tempo e treinamento, pode ajudar Calipso a recuperar totalmente a magia.
Josephine se remexeu, as ferramentas tilintando nos bolsos do macacão.
— Leo...
— Você sabia que ela foi uma gângster? — Ele sorriu para mim. — Jo conheceu Al Capone! Tinha uma identidade secreta e...
— Leo! — gritou ela.
Ele fez uma careta.
— E... não cabe a mim falar nada. Ah, olha, comida!
Ele se sentou e começou a cortar o queijo.
Britomártis espalmou as mãos na mesa.
— Mas chega de falar da feiticeira. Apolo, devo admitir que você foi moderadamente bem na recuperação dos meus grifos.
— Moderadamente bem? — Eu estava prestes a soltar alguns comentários bastante irritados, mas me contive. Será que os semideuses tinham que se controlar quando lidavam com deuses ingratos como ela? Não. Claro que não. Eu era especial e diferente. E merecia um tratamento melhor. — Que bom que você aprovou.
O sorriso de Britomártis foi pequeno e cruel. Imaginei redes se enrolando nos meus pés, interrompendo o fluxo de sangue nos meus tornozelos.
— Como prometi, vou recompensar você. Vou dar informações que vão levá-lo direto ao palácio do imperador, onde você vai nos deixar orgulhosos... ou ser executado de uma forma horrivelmente criativa.

18 comentários:

  1. Eu acho que ele vai acabar sendo executado de uma forma horrivelmente criativa.

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  2. Será que os semideuses tinham que se controlar quando lidavam com deuses ingratos como ela? Não. Claro que não. Eu era especial e diferente. E merecia um tratamento melhor.

    totalmente

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    1. Claro Apolo, por que todos os semideuses adoram ser pisoteados com a ingratidão depois de quase morrerem.

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  3. Será que os semideuses tinham que se controlar quando lidavam com deuses ingratos como ela?

    Nãaaaaaao magina, isso raramente acontece ne

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    1. Nossa, nuuuuuunca vi isso acontecer. Deuses? Ingratos? Magiiiiinaaaaaa.

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  4. Que deusa mais arrogante 😑

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    1. É um deus,resume tudo!

      ~golfinho~

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  5. Teria caído do parapeito se Leo não a tivesse segurado.
    — Opa, mamacita — disse ele. — Você está bem?
    Ela piscou bem devagar.
    — Estou. Sem estardalhaço. E não me chame de...
    Ela desabou nos braços de Leo, que fez força para mantê-la de pé.
    O garoto me encarou, nervoso.
    — O que você fez com ela?



    A preocupação do Leo com a Cal é fofo d++++ SUPER SHIPPOOOOOO #CALEO

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  6. O Apolo disse q Leo levantou-se UM dedo p deusa,espero que seja o dedo q marcado o número um é não outros dedo se não ele q vai morrer de forma bem criativa 😉😂😄

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  7. o tio Rick fazendo referencias ao Brasil de novo (os braços de Leo abertos como a estatua do Cristo Redentor)

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    1. Tô amando as referências ❤

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    2. Eu amo o Tio Rick por ele trazer tantas referências ao Brasil e a América Latina

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  8. Um livro e meio e apolo nao controla o ego..... Ah que vontade de enforca-lo ou empurrar a cabeca dele no flegetonte ou no estige.... Seria tao bom.......

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    1. Exatamente, ele é tão convencido, mas acho q isso faz parte d ser deus

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Boa leitura :)