22 de maio de 2017

Capítulo 17 - Trovoadas e relâmpagos

Na manhã seguinte, Eragon evitou relembrar qualquer um dos eventos mais recentes, eram dolorosos demais. Em vez disso, concentrou suas energias em descobrir um meio de achar e matar os Ra’zac.
Vou matá-los com o meu arco, decidiu, imaginando como aquelas figuras que usavam mantos ficariam com flechas atravessadas em suas silhuetas.
Ele tinha dificuldade até para ficar em pé. Seus músculos doíam com o menor movimento. E um dos seus dedos estava quente e inchado. Quando estavam prontos para partir, montou em Cadoc e disse amargamente:
— Se isso continuar, você vai me fazer em pedacinhos.
— Eu não exigiria tanto se achasse que você não é suficientemente forte.
— Pelo menos uma vez, eu não me importaria em ser menosprezado — resmungou Eragon.
Cadoc empinou nervosamente quando Saphira se aproximou. Ela olhou para ele com uma expressão muito próxima da repugnância e disse:
Não há onde se esconder nas planícies. Então, não vou me preocupar em tentar ficar fora de vista. Voarei acima de vocês a partir de agora.
Ela decolou, e eles começaram a descer a vereda íngreme. Em alguns locais, a trilha desaparecia por completo, deixando por conta deles acharem o caminho. Às vezes, tinham de desmontar e guiar os cavalos a pé, segurando-se em árvores para que não caíssem lá embaixo. O chão estava salpicado de pedras soltas, o que tornava a caminhada traiçoeira. A provação os deixou com calor, apesar do frio, e irritados.
Pararam para descansar quando chegaram lá embaixo, por volta do meio-dia.
O rio Anora virava para a esquerda e corria rumo ao norte. Um vento cortante varria a terra, açoitando-os sem piedade. O solo estava ressecado, e a poeira voava, caindo nos olhos.
Eragon sentiu-se intimidado por tudo ser tão plano. Não havia outeiros ou montículos. Viveu a vida inteira cercado por montanhas e colinas. Sem elas, sentia-se exposto e vulnerável, como um rato sob o olhar aguçado de uma águia.
A trilha dividiu-se em três assim que eles chegaram à planície. A primeira ramificação voltava-se para o norte, na direção de Ceunon, uma das maiores cidades daquela área. A segunda atravessava a planície. E a última se dirigia para o sul. Examinaram as três em busca dos rastros dos Ra’zac e, finalmente, acharam as pegadas deles, que seguiam diretamente para a savana.
— Parece que eles foram para Yazuac — deduziu Brom com um ar de perplexidade.
— Onde fica isso?
— Para o leste, a quatro dias de distância, se tudo der certo. É um pequeno vilarejo situado perto do rio Ninor. — Ele apontou para o Anora, que corria para longe, em direção ao norte. — Essa é a nossa última fonte de água. Devemos reabastecer os nossos odres antes de tentar atravessar a planície. Não há outro lago ou riacho entre onde estamos e Yazuac.
A emoção da caçada começou a aumentar dentro de Eragon. Em poucos dias, talvez em menos de uma semana, usaria suas flechas para vingar a morte de Garrovv. E depois... Ele se recusou a pensar no que poderia acontecer depois.
Encheram os odres, deram água aos cavalos e beberam o máximo que podiam no rio. Saphira juntou-se a eles e tomou vários goles de água. Refeitos, seguiram para leste e começaram a travessia da planície.


Eragon concluiu que seria o vento que o enlouqueceria primeiro. Tudo que dificultava sua vida – seus lábios rachados, sua língua seca, seus olhos ardidos – era causado pelo vento. As rajadas incessantes acompanhavam-nos durante o dia. A noite fortalecia o vento ainda mais, ao invés de enfraquecê-lo.
Como não havia abrigo, eram forçados a acampar sob o céu aberto. Eragon achou uns arbustos, plantas pequenas e resistentes que sobreviviam naquele ambiente inóspito, e os arrancou da terra.
Cuidadosamente fez urna pilha e tentou tocar fogo nela, mas os galhos só produziam fumaça e exalavam um odor horrível. Frustrado, jogou a pederneira para Brom.
— Não consigo fazer isso pegar fogo, ainda mais com este vento insuportável. Veja se você consegue. Se não conseguir, comeremos nosso jantar frio.
Brom se ajoelhou perto da pilha de arbustos e olhou para ela de modo crítico. Mudou alguns galhos de lugar e tentou acender o fogo, jogando urna cascata de fagulhas em cima das plantas. Surgiu uma fumaça, mas nada além disso. Brom fez uma cara feia e tentou novamente, mas ele não teve mais sorte do que Eragon.
— Brisingr! — gritou com raiva, batendo a pederneira de novo. De repente, chamas apareceram, e ele recuou com uma expressão satisfeita no rosto. — Pronto. Já devia estar queimando no meio.
Eles treinaram com espadas improvisadas enquanto a comida cozinhava. O cansaço falou mais alto para os dois, e então fizeram este treino mais curto do que os outros. Depois de comerem, deitaram perto de Saphira e dormiram, gratos por sua proteção.
O mesmo vento frio os saudou pela manhã, varrendo aquela planície ameaçadora. Os lábios de Eragon racharam durante a noite. Sempre que sorria ou falava, gotas de sangue cobriam-nos. Lamber o sangue só piorava as coisas. O mesmo valia para Brom. Antes de montar, deixaram os cavalos beber um pouco da água que tinham. O dia resumiu-se a uma jornada monótona e cansativa.


No terceiro dia, Eragon acordou descansado. Isto, somado ao fato de que o vento havia parado, deixou-o de bom humor. Mas a alegria dele ficou um pouco ofuscada quando viu que o céu à frente estava escuro e carregado de pesadas nuvens.
Brom olhou para as nuvens e fez uma cara feia.
— Normalmente, eu não entraria em uma tempestade como aquela, mas nosso destino é enfrentar tudo o que vier pela frente, não importa o que façamos. Então, vamos tentar vencer mais um pouco da distância que nos separa deles.
Tudo ainda estava calmo quando chegaram perto da tempestade. Ao entrarem em sua sombra, Eragon olhou para cima. A nuvem tinha uma estrutura exótica, parecia formar uma enorme catedral natural com um gigantesco teto arqueado. Com um pouco de imaginação, ele conseguia ver as pilastras, as janelas, as galerias que subiam e as gárgulas zangadas. Tinha uma beleza selvagem.
Conforme Eragon baixava o olhar, ele viu urna onda gigante na relva vindo em direção a eles, achatando-a. Levou um segundo para perceber que aquela onda era provocada por uma fortíssima rajada de vento. Brom também viu aquilo, e eles encolheram os ombros, preparando-se para o vendaval.
A ventania estava, quase em cima deles quando Eragon pensou em algo horrível e se virou em cima da sela, gritando com a voz e com a mente:
Saphira! Pouse! O rosto de Brom ficou branco. Lá em cima, eles a viram mergulhando rumo ao solo. Ela não vai conseguir!
Saphira virou-se para a direção de onde eles tinham vindo para ganhar tempo. Enquanto viam aquilo, a fúria do vendaval os atingiu como um golpe de um martelo. Eragon respirou fundo e agarrou-se à sela enquanto um uivo incessante enchia seus ouvidos. Cadoc balançou e firmou seus cascos no chão, a crina dele chicoteava no ar. O vento rasgava suas roupas com dedos invisíveis, enquanto o ar se escurecia, repleto de nuvens de poeira.
Eragon comprimiu os olhos, procurando por Saphira. Ele a viu pousar bruscamente e se encolher, cravando suas garras no chão. O vento a alcançou no momento em que ela começava a dobrar as asas. Com um puxão violento, o vento as abriu e arrastou-a para o alto. Por um momento, ela ficou no ar, suspensa pela força do vendaval. Depois, caiu de costas no chão.
Por meio de uma forte puxada, Eragon fez Cadoc virar e galopar para trás na trilha, estimulando o cavalo tanto com os calcanhares quanto com a mente. Saphira!  Gritou ele. Tente ficar no chãoEstou chegando! Sentiu um agradecimento amargo da parte dela. Ao chegarem perto de Saphira, Cadoc empacou, e Eragon desmontou e correu em direção a ela.
O arco bateu na cabeça dele. Uma forte rajada de vento desequilibrou-o, e ele voou para a frente, caindo de peito. Escorregou e voltou a se pôr de pé rangendo os dentes, ignorando os profundos arranhões em sua pele.
Saphira estava a apenas três metros de distância, mas ele não podia chegar mais perto por causa de suas asas que se debatiam. Ela lutava contra a ventania para tentar dobrá-las.
Correu depressa até a sua asa direita, com a intenção de segurá-la para baixo, mas o vento pegou Saphira e deu-lhe uma cambalhota por cima dele. Os espinhos das costas passaram a poucos centímetros de sua cabeça.
Saphira enfiou as garras no chão, tentando se firmar. As asas começaram a levantar-se de novo, mas, antes que o vento a virasse, Eragon atirou-se para cima da asa esquerda. A asa se dobrou em suas juntas, e ela apertou-a com força contra o seu corpo. Eragon arqueou-se sobre as costas de Saphira e tombou em direção a outra asa.
Sem dar o menor aviso, ela foi soprada para cima, jogando-o direto para o chão. Ele amortizou a sua queda dando um rolamento, em seguida pulou e agarrou a asa novamente. Saphira começou a dobrá-la, e ele a empurrou com todas as forças. O vento lutou com eles por um segundo, mas, com um último golpe, conseguiram vencê-lo.
Eragon encostou-se em Saphira, ofegante.
Você está bem? Ele podia sentir que ela estava tremendo.
Ela demorou um momento para responder.
Eu... Acho que estou. Parecia estar abalada. Não há nada quebrado... Eu não podia fazer coisa nenhuma, o vento não me deixava ficar no chão. Eu estava indefesa. Com um tremor, ela ficou em silêncio.
Ele olhou para ela apreensivo.
Não se preocupe. Agora, você está segura. Ele viu Cadoc ali perto, em pé, de costas para o vento.
Usando a mente, Eragon instruiu o cavalo a voltar até Brom. Depois, ele se voltou para Saphira. Ela se arrastava no chão, lutando contra o vento, enquanto ele continuava agarrado às suas costas, mantendo a cabeça abaixada.
Quando alcançaram Brom, ele gritou em meio à tempestade:
— Ela está ferida?
Eragon sacudiu a cabeça e desmontou. Cadoc foi trotando até ele, relinchando. Enquanto acariciava a bochecha comprida do cavalo, Brom apontou para uma escura cortina de chuva que se deslocava em direção a eles, formando ondas cinzentas.
— O que mais pode acontecer? — bradou Eragon, apertando suas roupas. Ele se encolheu quando a torrente chegou. A chuva pungente estava fria como gelo. Logo, estavam ensopados e tremendo.
Relâmpagos cortavam o céu, perdendo e ganhando vida em um piscar de olhos. Raios azuis, com alguns quilômetros de altura, marcavam o horizonte, seguidos pelos estrondos dos trovões que faziam o solo tremer. Tudo era bonito, mas também muito perigoso. Em vários locais, incêndios eram provocados pelos raios e apagados pela chuva.
Os elementos da Natureza acalmavam-se lentamente, mas conforme o dia passava, eles se dirigiam para outro lugar. Mais uma vez, o céu ficou exposto, e o sol que se punha brilhou com fulgor. Quando os raios de luz pintaram as nuvens com cores ardentes, tudo ganhou um contraste marcante: um lado ficou brilhante, e o outro com sombras profundas. Os objetos tinham um incomparável sentido de conjunto; os talos da relva pareciam fortes pilastras de mármore. Coisas corriqueiras ganharam uma beleza extraordinária. Eragon sentiu como se eles estivessem dentro de um quadro.
A terra revigorada tinha um cheiro estimulante, limpando suas mentes e elevando seus espíritos. Saphira esticou-se, suspendendo o pescoço, e rugiu feliz. Os cavalos afastaram-se dela, mas Eragon e Brom sorriram por causa de sua exuberância.
Antes que não houvesse mais luz, pararam para passar a noite em uma pequena depressão. Cansados demais para treinar esgrima, foram dormir.

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Boa leitura :)