27 de maio de 2017

Capítulo 17 - Descendo as águas impetuosas

No primeiro dia depois que saíram de Tarnag, Eragon fez um esforço para aprender os nomes dos guardas de Undin. Eles eram Ama, Tríhga, Hedin, Ekksvar, Shrrgnien — nome que Eragon julgou impronunciável, embora tivessem lhe dito que significava Coração de Lobo — Dûthmér e Thorv.
Cada balsa possuía uma pequena cabine no centro. Eragon preferia passar seu tempo sentado na beira dos troncos, olhando para as montanhas Beor que iam passando. Martins-pescadores e gralhas adejavam ao longo do rio claro, enquanto as garças azuis ficavam paradas, como se tivessem pernas-de-pau, na margem pantanosa, que estava escondida em meio a fachos de luz que caíam através dos galhos de aveleiras, faias e salgueiros. De vez em quando, uma rã coaxava em cima de uma samambaia.
Quando Orik se sentou ao seu lado, Eragon disse:
— Isso aqui é lindo.
— É mesmo. — O anão acendeu calmamente o seu cachimbo, depois se reclinou e deu uma baforada.
Eragon ouviu o rangido de madeira e corda enquanto Tríhga pilotava a balsa com o longo remo que ficava na popa.
— Orik, você poderia me dizer por que Brom se juntou aos Varden? Conheço tão pouco dele. Durante a maior parte da minha vida ele era apenas um contador de histórias da cidade.
— Ele nunca se juntou aos Varden, ele ajudou a criá-los. — Orik fez uma pausa para bater algumas cinzas dentro d’água. — Depois que Galbatorix se tornou rei, Brom era o único Cavaleiro ainda vivo, tirando os Renegados.
— Mas ele não era um Cavaleiro, não naquela época. Seu dragão foi morto na luta em Dorú Araeba.
— Bem, um Cavaleiro por formação. Brom foi o primeiro a organizar os amigos e aliados dos Cavaleiros que foram forçados a se exilar. Foi ele quem convenceu Hrothgar a permitir que os Varden vivessem em Farthen Dûr e quem obteve a ajuda dos elfos.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo.
— Por que Brom desistiu da liderança? — perguntou Eragon. Orik sorriu de um jeito esquisito.
— Talvez ele nunca a tivesse querido. Isso foi antes de Hrothgar me adotar, por isso vi pouco de Brom em Tronjheim... Ele estava sempre longe lutando contra os Renegados ou envolvido com uma ou outra conspiração.
— Seus pais estão mortos?
— Sim. A peste os levou quando eu era bem novo, e Hrothgar foi bondoso o suficiente para me receber em seu castelo e, como ele não tinha filhos, me fez seu herdeiro.
Eragon pensou em seu elmo, marcado com o símbolo dos Ingeitum. Hrothgar também foi gentil comigo.
Quando chegou o crepúsculo, os anões penduraram lanternas redondas em cada canto das balsas. As lanternas eram vermelhas pois, pelo que Eragon se lembrava, serviam para preservar a visão noturna. Ele se pôs de pé ao lado de Arya e observou a profundidade límpida e inerte das lanternas.
— Você sabe como elas foram feitas?
— Foi um encanto que demos para os anões há muito tempo. Eles o usam com muita habilidade.
Eragon se esticou e coçou o queixo e as bochechas, sentindo a barba que havia começado a aparecer em seu rosto.
— Você poderia me ensinar mais mágicas enquanto viajamos?
Ela o encarou, perfeitamente equilibrada nas toras que ondulavam.
— Essa não é a minha função. Um professor está esperando por você.
— Então me diga pelo menos uma coisa. O que significa o nome da minha espada?
Arya falou muito suavemente.
— Desgraça é a sua espada. E assim era até você a brandir.
Eragon olhou com aversão para Zar’roc. Quanto mais aprendia coisas sobre sua arma, mais malévola ela parecia ser, como se a lâmina pudesse trazer azar por livre e espontânea vontade. Não só Morzan matou Cavaleiros com ela, como o próprio nome de Zar’roc é demoníaco. Se Brom não a tivesse lhe dado, e se não fosse pelo fato de que Zar’roc jamais ficava cega e não podia ser quebrada, Eragon a teria jogado no rio na mesma hora.
Antes que ficasse mais escuro, Eragon nadou até onde Saphira estava. Os dois voaram juntos pela primeira vez desde que deixaram Tronjheim e planaram por sobre o Az Ragni, onde o ar era rarefeito e a água lá embaixo não passava de um filete roxo. Sem a sela, Eragon se agarrou fortemente a Saphira com seus joelhos, e sentiu suas escamas duras roçarem nas cicatrizes do seu primeiro voo.
Enquanto Saphira se inclinava para a esquerda, subindo junto com uma corrente de ar quente, ele viu três manchas marrons se lançando da encosta da montanha abaixo e ascendendo rapidamente. A princípio, Eragon achou que fossem falcões, mas à medida que se aproximavam, percebeu que os animais tinham quase sete metros de comprimento, caudas delgadas e asas rígidas. De fato, se pareciam com dragões, embora seus corpos fossem menores, mais finos e mais sinuosos do que o de Saphira. Não só suas escamas brilhavam como estavam salpicadas de verde e marrom.
Agitado, ele os apontou para Saphira. Será que são dragões?, perguntou.
Não sei. Ela flutuava no lugar, inspecionando os recém-chegados enquanto giravam em torno deles. As criaturas pareciam desconcertadas com a presença de Saphira. Elas se lançaram em sua direção, só para sibilar e arremeter para cima no último instante.
Eragon arreganhou os dentes e alcançou-os com a mente, tentando tocar seus pensamentos. Enquanto o fazia, os três recuavam e berravam, abrindo suas gargantas como se fossem cobras famintas. O grito lancinante era, ao mesmo tempo, físico e mental. Feria Eragon com uma força selvagem, buscando incapacitá-lo. Saphira sentiu a mesma coisa. Continuando a tortura, as criaturas atacaram com suas garras afiadas.
Aguenta aí, avisou Saphira. Ela dobrou sua asa esquerda e deu um meio giro, desviando-se de dois dos animais, para depois bater as duas rapidamente, elevando-se acima do terceiro. Ao mesmo tempo, Eragon se esforçava furiosamente para bloquear o guincho. No momento em que sua mente serenou, ele apelou para a magia. Não as mate, disse Saphira. Eu quero viver a experiência.
Embora as criaturas fossem mais ágeis do que Saphira, ela tinha a vantagem do tamanho e da força. Uma delas mergulhou em sua direção. O dragão virou de cabeça para baixo — caindo para trás — e chutou o animal no peito.
O grito diminuiu de intensidade assim que seu antagonista ferido recuou.
Saphira abriu as asas, foi para a direita, e por isso encarou os outros dois enquanto ambos convergiam em sua direção. Ela arqueou o pescoço, Eragon sentiu um ruído surdo e profundo entre suas costelas, e um jato de chama brotou de sua mandíbula. Uma auréola de azul fundido engolfou a cabeça de Saphira, lançando uma luz fugaz sobre suas escamas que mais pareciam joias, até ela reluzir gloriosamente como se tivesse sido acesa por dentro.
As duas bestas protestaram com gritos e viraram uma para cada lado. A investida mental cessou enquanto elas se afastavam correndo, sumindo novamente na direção da encosta.
Você quase me jogou lá embaixo, disse Eragon, soltando os braços que estavam agarrados ao pescoço da fera.
Ela o encarou, cheia de si. Quase, mas não joguei.
É verdade, riu ele.
Excitados com a emoção da vitória, os dois voltaram para as balsas. Enquanto Saphira aterrissava no meio de dois grandes braços d’água, Orik gritou:
— Vocês estão feridos?
— Não — gritou Eragon de volta. A água gelada rodopiava em torno de suas pernas enquanto Saphira nadava até o bordo de uma das balsas. — Será que eles eram uma raça exclusiva das Beor?
Orik o puxou para dentro da balsa.
— Nós os chamamos de Fanghur. Não são tão inteligentes quanto os dragões e não conseguem soltar fogo pela boca, mas ainda assim são adversários formidáveis.
— Isso nós descobrimos. — Eragon massageou suas têmporas numa tentativa de aliviar a dor de cabeça provocada pelo ataque dos Fanghur. — No entanto, Saphira foi demais para eles.
É claro, disse ela.
— É assim que eles caçam — explicou Orik. — Eles usam suas mentes para imobilizar suas vítimas enquanto as matam.
Saphira jogou água em Eragon com a cauda. É uma boa ideia. Talvez venha a experimentá-la na próxima vez em que sair para caçar.
Ele assentiu com a cabeça. Isso poderia vir a calhar numa briga também. Arya veio para a beira da balsa.
— Fico feliz por você não tê-los matado. Os Fanghur são tão raros que aqueles três teriam feito uma grande falta.
— Eles ainda conseguem comer grande parte dos nossos rebanhos — rosnou Thorv de dentro da cabine. O anão marchou até onde Eragon estava, rangendo os dentes de um jeito irritante sob os nós trançados de sua barba. — Não voe mais enquanto estiver no meio destas Montanhas Beor, Matador de Espectros. Já é difícil mantê-lo a salvo sem você e o seu dragão lutarem contra essas víboras aéreas.
— Vamos ficar no chão até alcançarmos à planície — prometeu Eragon.
— Ótimo.
Com a chegada da escuridão, os anões atracaram as balsas a faias perto da embocadura de um pequeno riacho para ali passarem a noite. Ama acendeu uma fogueira enquanto Eragon ajudava Ekksvar a puxar Fogo na Neve para a terra firme. Eles amarraram o garanhão numa faixa de grama. Thorv inspecionou a construção de seis grandes tendas. Hedin juntou lenha para durar até o amanhecer enquanto Dûthmér retirava suprimentos da segunda balsa e começava a preparar o jantar. Arya ficou de vigília na beira do acampamento, Ekksvar, Ama e Tríhga se juntaram a ela assim que terminaram as suas tarefas.
Quando Eragon percebeu que ele não tinha nada para fazer, resolveu se sentar ao redor da fogueira junto com Orik e Shrrgnien.
Enquanto Shrrgnien tirava as luvas e estendia suas mãos cheias de cicatrizes sobre as chamas, Eragon notou uma cabeça de prego de aço polido — com mais ou menos meio centímetro — se projetando de cada nó dos dedos do anão, com exceção dos polegares.
— O que são essas coisas? — perguntou ele. Shrrgnien olhou para Orik e riu.
— São meus Ascûdgamln... meus “punhos de aço”. — Sem se levantar, ele torceu e esmurrou o tronco de uma faia, deixando quatro buracos simétricos na casca da árvore. Shrrgnien riu novamente. — Eles são bons para bater, não?
A curiosidade e a inveja de Eragon foram provocadas.
— Como eles foram feitos? Quer dizer, como os pregos foram presos às suas mãos?
Shrrgnien hesitou, tentando encontrar as palavras certas.
— Um curandeiro o coloca em sono profundo, por isso você não sente dor alguma. Depois disso é feito um buraco... com uma broca nas juntas... — Ele parou e falou rapidamente com Orik na língua dos anões.
— Um tubo é embutido em cada buraco — explicou Orik. — A mágica é usada para fixá-lo e, quando o guerreiro está plenamente recuperado, pregos de vários tamanhos podem ser enrascados nos tubos.
— Isso, veja — disse Shrrgnien, sorrindo. Ele agarrou a cabeça do prego que estava sobre o seu dedo indicador esquerdo, desenroscou-o cuidadosamente da junta e o passou para Eragon. Este sorriu enquanto rolava a peça afiada pela sua palma.
— Eu não me importaria de ter “punhos de aço” — afirmou antes de devolver o prego para Shrrgnien.
— E uma operação perigosa — avisou Orik. — Poucos knurlan recebem Ascûdgamln pois você pode perder facilmente a capacidade de usar as mãos caso a broca vá fundo demais. — Ele levantou o punho e o mostrou para Eragon. — Nossos ossos são mais grossos do que os seus. Pode não dar certo com um humano.
— Vou me lembrar disso. — Mesmo assim, Eragon não pôde deixar de imaginar como seria lutar com os Ascûdgamln, poder atacar qualquer coisa que quisesse impunemente, incluindo Urgals com armaduras. Ele adorou a ideia.
Depois de comer, Eragon se retirou para sua tenda. O fogo fornecia luz suficiente para que ele pudesse ver a silhueta de Saphira aninhada fora da tenda, como se fosse uma figura cortada em papel preto e colada na parede de lona.
Eragon se sentou com os cobertores puxados por sobre as pernas e olhou para o seu colo. Sentia-se sonolento mas relutava em dormir imediatamente. Sem querer, sua mente voltou os pensamentos para sua casa. Ele se perguntou como estavam Roran, Horst e todo o resto de Carvahall, e se a temperatura no vale Palancar estava quente o bastante para que os fazendeiros pudessem começar a plantar suas safras. A saudade e a tristeza subitamente se apossaram de Eragon.
Ele retirou uma tigela de madeira de sua saca, pegou seu odre e a encheu até a borda de líquido. Até que se concentrou numa imagem de Roran e sussurrou:
— Draumr kópa.
Como sempre, a água ficou escura antes de iluminar-se, revelando o que estava sendo buscado. Eragon viu Roran sentado sozinho num quarto à luz de velas que ele reconheceu ser da casa de Horst. Roran deve ter desistido de seu emprego em Therinsford, percebeu Eragon. Seu primo se inclinou sobre os joelhos e juntou as mãos, enlaçando os dedos. Olhava para uma parede distante com uma expressão tal que Eragon logo soube que Roran estava enfrentando um problema difícil. Ainda assim, Roran parecia estar muito bem, mesmo que um pouco cansado, o que deixou Eragon aliviado. Um minuto depois, deixou de usar a magia, terminou o encanto e dissipou a imagem da superfície da água.
Despreocupado, Eragon esvaziou a tigela e depois se deitou, puxando os cobertores até a altura do queixo. Fechou os olhos e mergulhou na escuridão calorosa que separa a consciência do sono, onde a realidade se curva e balança aos ventos da fantasia, e onde a criatividade floresce com toda a sua liberdade, ultrapassando fronteiras, e onde todas as coisas são possíveis.
O sono logo dele se apossou. A maior parte do seu descanso transcorreu tranquila, mas pouco antes de Eragon acordar, os fantasmas noturnos costumeiros foram substituídos por uma visão tão clara e vibrante quanto qualquer experiência que se tem acordado.
Ele viu um céu tortuoso, negro e rubro com fumaça. Corvos e águias giravam bem acima de revoadas de flechas que formavam arcos enquanto iam de um lado para o outro de uma grande batalha. Um homem caído na lama cheia de coágulos, com o elmo amassado e a cota de malha ensanguentada — seu rosto estava escondido pelo braço estendido para cima.
Uma mão encouraçada entrou no campo de visão de Eragon. A manopla estava tão próxima que maculava metade do mundo com aço polido. Como uma máquina inexorável, o polegar e os três últimos dedos formavam um punho, deixando o dedo indicador para apontar na direção do homem caído com toda a autoridade do próprio destino.
A visão ainda preenchia a mente de Eragon quando ele arrastou-se para fora da tenda. Ele encontrou Saphira a alguma distância do acampamento, mastigando uma massa informe peluda. Quando ele lhe contou o que havia visto, ela fez uma pausa no meio de uma mordida, esticou o pescoço e engoliu um pedaço de carne.
Na última vez em que isso ocorreu, disse ela, provou ser uma previsão verdadeira de acontecimentos sucedendo em outro lugar. Você acha que está havendo uma batalha em Alagaësia?
Ele chutou um galho solto. Não tenho certeza... Brom me disse que só dava para ver pessoas, lugares e coisas que você já vira antes. Contudo, eu nunca havia visto esse lugar. Nem havia visto Arya quando sonhei com ela pela primeira vez em Teirm.
Talvez Togíra Ikonoka tenha como explicar.
Enquanto se preparavam para partir, os anões pareciam muito mais relaxados agora que estavam a uma boa distância de Tarnag. Quando começaram a impelir as balsas com varas pelo Az Ragni abaixo, Ekksvar — que guiava aquela na qual Fogo na Neve estava — começou a cantar com sua voz grave:

Descendo as águas impetuosas
Do sangue de Kílf que jorra
Andamos nas vigas entrelaçadas
Pelo lar, pelo clã, pela honra
Sob o pasto céu dos pigargos
Atravessando as florestas dos lobos da estepe
Andamos na madeira ensanguentada
Pelo ferro, pelo ouro, pelos diamantes
Deixem os sinos e os tolos barbados nas minhas mãos
E a erva tomando conta da minha pedra
Enquanto deixo os castelos dos meus antepassados
Para a terra vazia mais além.

Os outros anões se juntaram a Ekksvar, passando a cantar na língua dos anões enquanto prosseguiam entoando outros versos. A leve vibração em suas vozes acompanhava Eragon à medida que ele seguia cuidadosamente até a proa da balsa, onde Arya estava sentada de pernas cruzadas.
— Eu tive uma... visão durante o meu sono — disse Eragon. Arya o fitou com interesse, enquanto ele recapitulava as imagens que havia visto. — Se for uma adivinhação, então...
— Não é uma adivinhação — afirmou Arya. Ela falou com uma lentidão deliberada, como se quisesse evitar qualquer equívoco. — Pensei durante um bom tempo sobre como você me viu aprisionada em Gil’ead, e acredito que enquanto jazia inconsciente, meu espírito procurava por ajuda, onde quer que a pudesse encontrar.
— Mas por que eu?
Arya acenou na direção de onde Saphira ondulava pela água.
— Cresci acostumada com a presença de Saphira durante os quinze anos em que guardei o seu ovo. Estava em busca de qualquer coisa que parecesse familiar quando toquei os seus sonhos.
— Você é realmente forte o bastante para contatar alguém de Gil’ead, em Teirm? Particularmente estando drogada.
Um leve sorriso tocou os lábios de Arya.
— Eu poderia ficar em pé à frente dos portões de Vroengard e ainda falar a você com a mesma clareza de agora. — Ela fez uma pausa. — Se você não adivinhou que eu estava em Teirm, então não poderia ter adivinhado este novo sonho. Deve ser uma premonição. Sabe-se que elas ocorrem com todas as raças sensitivas, mas especialmente entre os adeptos da magia.
Eragon apertou a rede que envolvia um pacote de suprimentos enquanto a balsa balançava.
— Se o que eu vi vai acontecer, então como posso fazer para mudar a ordem dos fatos? Será que nossas escolhas importam? O que aconteceria se eu me jogasse agora da balsa e me afogasse?
— Mas você não vai fazer isso. — Arya afundou seu dedo indicador esquerdo no rio e olhou para a única gota agarrada a sua pele, como se fosse uma lente trêmula. — Uma vez, há muito tempo, o elfo Maerzadi teve uma premonição na qual mataria seu filho acidentalmente no meio de uma batalha. Ao invés de viver para ver os fatos acontecendo, ele cometeu suicídio, salvando o seu filho e, ao mesmo tempo, provando que o futuro não está definido. No entanto não é necessário se matar, você pode fazer pequenas coisas para mudar o seu destino, já que não sabe que escolhas o levarão ao exato momento que viu. — Ela sacudiu a mão e a gota caiu sobre a tora que estava entre os dois. — Sabemos que é possível descobrir informações do futuro. Adivinhos podem sentir com frequência os caminhos pelos quais a vida de uma pessoa pode seguir. Mas não tivemos como refinar o processo ao ponto de poder escolher o fato, o lugar ou o momento que se quer observar.
Eragon julgou o conceito de transportar informações através do tempo, como um todo, profundamente perturbador. Isso suscitava muitas perguntas sobre a natureza da realidade. Se o destino e a sorte realmente existem, a única coisa que eu posso fazer é aproveitar o presente e viver da forma mais honrada possível. Contudo ele não pôde deixar de perguntar:
— O que me impede, no entanto, de vislumbrar uma das minhas lembranças? Já vi tudo nelas... por isso devo ser capaz de vê-las usando a magia.
Arya o fitou bem nos olhos.
— Se você dá valor à sua vida, nunca tente fazer isso. Há muitos anos, vários de nossos encantadores se dedicaram a vencer os enigmas dom tempo. Quando eles tentaram evocar o passado, só conseguiram criar uma imagem borrada em seus espelhos antes que o encanto consumisse sua energia e os matasse. Não fizemos mais experiências nesse campo. Argumentaram que tal encanto só daria certo se mais mágicos participassem, mas ninguém está disposto a correr o risco, e a teoria permanece sem comprovação. Mesmo se alguém conseguisse vislumbrar o passado, a utilidade disso seria limitada. E ao vislumbrar o futuro, se saberia exatamente o que iria acontecer, onde e quando, o que frustraria qualquer sonho.
“É um mistério, então, o fato de pessoas terem premonições enquanto estão dormindo, e poderem fazer algo inconscientemente que supera o que foi realizado por nossos maiores sábios. As premonições podem estar ligadas à própria natureza e estrutura da magia... ou podem funcionar de uma maneira parecida com as lembranças mais ancestrais dos dragões. Não sabemos. Muitos caminhos da magia ainda estão aí para serem explorados.”
Ela se levantou num único e gracioso movimento.
— Tome cuidado para não se perder neles.

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