8 de maio de 2017

Capítulo 16

Ó, filho de Midas
Você é muito idiota
Aqui vai um avestruz

NOS MEUS QUATRO MIL ANOS de vida, eu tinha procurado muitas coisas: mulheres bonitas, homens bonitos, os melhores arcos compostos, o palácio perfeito à beira-mar e uma Gibson Flying V de 1958. Mas nunca me passou pela cabeça buscar um lugar perfeito para morrer.
— Calipso — falei, com voz fraca.
— O quê?
— Se nós morrermos aqui, eu só gostaria de dizer que você não é tão ruim quanto eu pensava.
— Obrigada, mas nós não vamos morrer. Isso me impediria de matar você mais tarde.
Litierses riu.
— Ah, vocês dois. Brigando como se tivessem futuro. Deve ser difícil para quem costumava ser imortal aceitar que a morte é algo real. Eu mesmo já morri. Tenho que admitir que não é divertido.
Fiquei tentado a cantar para ele do jeito que cantei para os grifos. Talvez conseguisse convencê-lo de que éramos os dois vítimas ali. Alguma coisa me disse que não daria muito certo. Para completar, os bolinhos de batata tinham acabado.
— Você é filho do rei Midas — comentei. — Voltou para o mundo mortal quando as Portas da Morte se abriram?
Eu não sabia muita coisa sobre esse incidente, mas houve uma fuga em massa do Mundo Inferior durante a guerra recente com os gigantes. Hades reclamou sem parar que Gaia tinha roubado todos os mortos dele para trabalharem para ela. Sinceramente, eu não posso culpar a Mãe Terra. Mão de obra boa e barata é terrivelmente difícil de encontrar.
O espadachim deu um meio sorriso.
— É, nós passamos pelas Portas da Morte. Mas o idiota do meu pai morreu rapidinho, graças a uma briga com Leo Valdez e o pessoal dele. Só sobrevivi porque fui transformado em estátua de ouro e coberto com um tapete.
Calipso recuou na direção dos grifos.
— Essa é... uma história e tanto.
— Não importa — rosnou o espadachim. — O Triunvirato me ofereceu trabalho. Reconheceram o valor de Litierses, Ceifeiro de Homens!
— Título impressionante — falei.
Ele ergueu a espada.
— É merecido, pode acreditar. Meus amigos me chamam de Lit, mas meus inimigos me chamam de Morte!
— Vou chamar você de Lit — decidi. — Embora você não me pareça muito amigável. Sabia que seu pai e eu éramos grandes amigos? Uma vez, eu até lhe dei orelhas de burro.
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi que aquilo talvez não fosse a melhor prova da minha amizade.
Lit deu um sorriso cruel.
— Eu sei, cresci ouvindo sobre a competição de música que você obrigou meu pai a julgar. Você deu orelhas de burro a ele porque meu pai declarou seu oponente o vencedor, não foi? É. Ele ficou com tanto ódio de você por causa disso que quase me dá vontade de gostar de você. Quase. — Ele treinou com a espada, cortando o ar. — Vai ser um prazer matar você.
— Espere! — gritei. — E aquela história de traga-os vivos?
Lit deu de ombros.
— Mudei de ideia. Primeiro, aquele telhado caiu em cima de mim. Depois meus guarda-costas foram engolidos por um bambuzal. Vocês não saberiam o que aconteceu, saberiam?
Eu sentia o sangue pulsando nos meus ouvidos.
— Não.
— Certo. — Ele olhou para Calipso. — Acho que vou deixar você viva por enquanto, para matá-la na frente do Valdez. Vai ser divertido. Mas esse antigo deus aqui... — Lit deu de ombros. — Vou ter que dizer para o imperador que ele resistiu à prisão.
Então ia ser assim. Depois de quatro milênios de glória, eu morreria em uma jaula de grifos em Indianápolis. Confesso que não foi desse jeito que eu tinha imaginado minha morte. Não tinha imaginado nadinha sobre ela, mas, se eu tinha que bater as botas, queria muito mais explosões e holofotes ofuscantes, um grupo de lindos deuses e deusas chorando e gritando Não! Nos leve no lugar dele! e bem menos estrume.
Com certeza, Zeus acabaria intercedendo. Ele não podia permitir que minha punição na Terra incluísse uma morte de verdade! Ou talvez Ártemis aparecesse para matar Lit com uma flecha mortal. Ela sempre podia se justificar para Zeus falando que tinha sido uma falha técnica esquisita do seu arco. No mínimo, eu esperava que os grifos me ajudassem, considerando que havia acabado de alimentá-los e cantar para eles com tanta doçura.
Nada disso aconteceu. Abelardo sibilou para Litierses, mas pareceu relutante em atacar. Talvez Litierses tivesse usado aqueles instrumentos de treinamento sinistros nele e na companheira.
O espadachim partiu para cima de mim com velocidade vertiginosa. Golpeou com a espada, bem na direção do meu pescoço. Meu último pensamento foi o quanto o cosmos sentiria minha falta. O último cheiro que senti foi o de maçãs assadas.
Mas, de algum lugar no alto, uma pequena forma humanoide caiu entre mim e meu inimigo. Com um estalo metálico e uma explosão de fagulhas, a espada de Litierses parou no meio de um X dourado: as lâminas cruzadas de Meg McCaffrey.
Talvez eu tenha chorado um pouco. Nunca tinha ficado tão feliz de ver alguém, e isso inclui Jacinto na vez que ele usou aquele smoking incrível no nosso encontro, então dá para ver que estou falando sério.
Meg usou suas espadas para empurrar Litierses, que cambaleou para trás. O cabelo preto curto estava cheio de pequenos galhos e grama. Ela usava os habituais tênis de cano alto vermelhos, sua legging amarela e o vestido verde que Sally Jackson lhe emprestou no dia que nos conhecemos.
Achei isso comovente, de um jeito estranho.
Litierses a encarou com desprezo, mas não pareceu muito surpreso.
— Eu estava me perguntando se ameaçar esse deus idiota acabaria tirando você do seu esconderijo. Você assinou sua sentença de morte, fedelha.
Meg descruzou as espadas e respondeu de sua forma poética habitual.
— Nem a pau.
Calipso olhou para mim. Movendo os lábios, mas sem emitir qualquer som, perguntou:
— ESTA é Meg?
— Esta é Meg — concordei, uma frase que explicava muita coisa.
Litierses chegou para o lado e bloqueou a saída. Ele estava mancando um pouco, talvez por causa do incidente com o toldo.
— Você derrubou aquele telhado coberto de hera em mim. Fez os bambus atacarem meus homens.
— Aham — disse Meg. — Você é burro que dói.
Lit sibilou com irritação. Eu entendia o efeito que Meg exercia sobre as pessoas. Mesmo assim, meu coração estava cantarolando em um dó médio perfeito, de pura felicidade. Minha jovem protetora tinha voltado! (Eu sei, eu sei, tecnicamente ela era minha senhora, mas não vamos nos ater a detalhes.) Ela havia percebido seus erros. Tinha se rebelado contra Nero. Agora, ficaria ao meu lado e me ajudaria a recuperar minha divindade. A ordem cósmica estava restaurada!
Ela olhou para mim. Em vez de sorrir de alegria, de me abraçar ou de pedir desculpas, Meg disse:
— Saia daqui.
A ordem me deixou profundamente abalado. Dei um passo para trás, como se tivesse sido empurrado. Fui tomado por um desejo repentino de fugir. Quando nos separamos, Meg me disse que eu estava liberado dos serviços dela. Agora, estava evidente que nosso relacionamento de senhora e servo não seria rompido com tanta facilidade. Zeus queria que eu seguisse as ordens dela até que eu morresse ou me tornasse deus de novo. Não tenho certeza de que ele se importava com o resultado.
— Mas, Meg — supliquei. — Você acabou de chegar. Temos...
— Vá — disse ela. — Pegue os grifos e saia. Vou segurar o burrão.
Lit riu.
— Eu ouvi dizer que você é boa com as espadas, McCaffrey, mas nenhuma criança pode chegar aos pés do Ceifeiro de Homens.
Ele girou a espada como Pete Townshend rodava a guitarra (um gesto que eu ensinei a ele, embora nunca tenha aprovado a forma como ele quebrava o instrumento nos alto-falantes depois — que desperdício!).
— Deméter também é minha mãe — continuou Lit. — Os filhos dela são os melhores espadachins. Nós entendemos a necessidade de ceifar. É o outro lado de plantar, não é, irmãzinha? Vamos ver o que você sabe sobre ceifar vidas!
Ele investiu contra ela. Meg se defendeu do ataque e o empurrou para trás. Eles ficaram traçando círculos um em volta do outro, três espadas girando em uma dança mortal, como lâminas de um liquidificador fazendo uma vitamina de ar.
Enquanto isso, eu me vi forçado a andar na direção dos grifos, seguindo as ordens de Meg. Tentei ir devagar. Estava relutante em tirar os olhos da batalha, como se, só por ficar observando Meg, eu estivesse emprestando força a ela. Antes, quando era deus, isso seria possível, mas agora, como um Lester Papadopoulos na plateia poderia ajudar?
Calipso parou na frente de Heloísa, protegendo a futura mãe com o corpo. Alcancei a feiticeira.
— Você é mais leve do que eu — falei. — Monte em Heloísa. Tome cuidado com a barriga dela. Eu vou em Abelardo.
— E Meg? — perguntou Calipso. — Nós não podemos deixá-la aqui.
No dia anterior mesmo eu tinha considerado abandonar Calipso com os blemmyae quando foi ferida. Gostaria de poder dizer que não levei aquela ideia a sério, mas levei, ainda que por pouco tempo. Agora, ela se recusava a deixar Meg, que mal conhecia. Aquilo quase me fez questionar se eu era mesmo uma boa pessoa. (Gostaria de enfatizar a palavra quase.)
— Você está certa, claro. — Olhei para a arena. Na jaula oposta, os avestruzes de combate estavam espiando pelo vidro, completamente vidrados na luta de espadas. — Precisamos nos mandar, todos nós.
Eu me virei para falar com Abelardo.
— Peço desculpas adiantado. Sou péssimo montando grifos.
O grifo piou como quem diz Vá em frente, cara. Ele deixou que eu subisse e prendesse as pernas atrás da base das asas dele.
Calipso seguiu meu exemplo e montou com todo o cuidado no lombo de Heloísa. Os grifos, impacientes para sair dali, passaram com cuidado pela luta até a arena. Litierses me atacou quando passei por ele, e teria cortado fora meu braço direito, mas Meg bloqueou o golpe dele com uma espada enquanto atacava os pés de Lit com a outra, forçando-o a recuar novamente.
— Se você levar esses grifos, só vai sofrer mais! — avisou Lit. — Todos os prisioneiros do imperador vão morrer lentamente, a garotinha em especial.
Minhas mãos tremeram de raiva, mas consegui prender uma flecha no arco.
— Meg — gritei —, venha!
— Eu já falei para você ir embora! — reclamou ela. — Você é um péssimo escravo.
Nisso pelo menos nós concordávamos.
Litierses avançou para cima dela de novo, cortando o ar. Eu não era especialista em luta de espadas, mas, embora Meg fosse boa, Litierses era melhor. Ele tinha mais força, velocidade e, com braços e pernas mais compridos, mais alcance também. Tinha o dobro do tamanho de Meg, além de incontáveis anos de prática. Se Litierses não houvesse se ferido recentemente com a queda do toldo na cabeça dele, desconfio que aquela luta talvez já tivesse acabado.
— Vá em frente, Apolo! — provocou Lit. — Dispare essa flecha em mim.
Eu tinha visto como ele podia ser rápido. Sem dúvida daria uma de Atena e cortaria minha flecha no ar antes que o atingisse. Tão injusto! Mas disparar nele não fazia parte do meu plano.
Eu me inclinei na direção da cabeça de Abelardo e disse:
— Voe!
O grifo se lançou no ar como se meu peso a mais não fosse nada. Circulou as arquibancadas do estádio, chamando a companheira para se juntar a ele.
Heloísa teve mais dificuldade. Andou por metade da arena, batendo as asas e rosnando com desconforto antes de decolar. Com Calipso agarrada desesperadamente a seu pescoço, Heloísa começou a voar em um círculo apertado atrás de Abelardo. Nós não tínhamos para onde ir, não com a rede acima de nós, mas eu tinha problemas mais imediatos.
Meg cambaleou e mal conseguiu conter o golpe de Lit. A tentativa seguinte cortou a coxa da menina e rasgou a legging. O tecido amarelo logo ficou laranja com o sangue.
Lit sorriu.
— Você é boa, irmãzinha, mas está ficando cansada. Não tem energia para me enfrentar.
— Abelardo — murmurei. — Precisamos pegar a garota. Mergulhe!
O grifo aceitou o pedido com um pouco de entusiasmo demais. Eu quase errei o alvo. Apontei minha flecha não na direção de Litierses, mas da caixa de controle ao lado do assento do imperador, mirando em uma alavanca em que reparei antes, a que dizia OMNIA: tudo.
PLAFT! A flecha acertou o alvo. Com uma série de estalos gratificantes, todas as paredes de vidro que separavam as jaulas se abriram.
Litierses estava ocupado demais para perceber o que tinha acontecido. Um grifo, em pleno voo, mergulhando na cabeça de uma pessoa costuma atrair todas as atenções. Lit recuou, permitindo que Abelardo apanhasse Meg McCaffrey com suas patas e voltasse para o alto.
Lit ficou boquiaberto.
— Belo truque, Apolo. Mas para onde você vai? Você está...
Foi nessa hora que ele foi atropelado por uma horda de avestruzes de armadura. O espadachim desapareceu embaixo de uma onda de penas, arame farpado e pernas rosadas e cheias de verrugas.
Enquanto Litierses berrava, se encolhendo todo para se proteger, as serpentes aladas, os cavalos cuspidores de sangue e o touro etíope foram se juntar à festa.
— Meg! — Eu estiquei o braço. Enquanto estava precariamente segura pelas patas de Abelardo, ela fez as espadas voltarem a ser anéis de ouro. Ela pegou minha mão. De alguma forma, consegui puxá-la para Abelardo e sentá-la na minha frente.
As serpentes voadoras foram na direção de Heloísa, que guinchou de um jeito desafiador e bateu as asas poderosas, subindo na direção da rede. Abelardo foi atrás.
Meu coração estava disparado no peito. Nós não conseguiríamos passar pela rede. Ela devia ter sido feita para aguentar força bruta, bicos e garras. Eu nos imaginei batendo na barreira e sendo jogados no chão da arena, como uma cama elástica que quica para baixo em vez de para cima.
Parecia um jeito nem um pouco digno de morrer.
Antes de batermos na rede, Calipso levantou os braços. Berrou de fúria, e a rede explodiu para cima, arrancada dos apoios, e foi atirada ao céu como um lenço de papel gigantesco no meio de um vendaval.
Livres e ilesos, nós voamos para fora da arena. Olhei para Calipso, impressionado. Ela parecia tão surpresa quanto eu. Em seguida, desabou e caiu meio de lado. Heloísa compensou a posição e mudou o ritmo, para não deixar a feiticeira cair. Calipso, parecendo quase inconsciente, tentou se agarrar ao pelo do grifo.
Conforme nossas nobres montarias subiam ao céu, olhei para a arena. Os monstros estavam em uma luta livre, mas não vi sinal de Litierses.
Meg se virou para me olhar, a boca transparecendo uma raiva feroz.
— Você devia ter ido embora!
Em seguida, passou os braços ao meu redor e me deu um abraço tão apertado que senti minhas costelas se fraturando. Meg soluçava, o rosto enfiado na minha camisa, o corpo todo tremendo.
Quanto a mim, não chorei. Não, tenho certeza de que meus olhos estavam bem secos. Eu não berrei como um bebê, nem um pouco. O máximo que vou admitir é o seguinte: com as lágrimas dela umedecendo minha camisa, os óculos de gatinho espetando com desconforto meu peito, seu cheiro de maçãs assadas, terra e suor atacando minhas narinas, fiquei bem feliz por ser irritado mais uma vez por Meg McCaffrey.

11 comentários:

  1. E natural, depois do ela fez
    Mas eu gosto dela, e quero muito confiar nela

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  2. Que saudade dessa pirralha! Poderes de volta. Isso é Calipsooo! Nossa, essa sai sem querer, que ridículo! Isso explica a capa do livro.

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  3. o shipp e forte demais para aguentat

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  4. Eu to na dúvida se confio nela ou não

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  5. "Ó, filho de Midas
    Você é muito idiota
    Aqui vai um avestruz"

    Ai cara... eu rio horrores desses haicais sem noção kkkk

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  6. AAAAAAHHH MEG QUE SAUDADES DE VOCÊ!
    Calipso com poderes de volta? AMO!

    Só a espera dos poderes do meu tio (apolo)

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  7. ISSO SIM É UMA FEITICEIRA! CALIPSOOOOOOOOOOOO *LIKE JOELMA*

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  8. marília milhosa20 de maio de 2017 20:00

    a cena que eu esperei por um ano. maravilhooooosa.

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Boa leitura :)