22 de maio de 2017

Capítulo 16 - Therinsford

O amanhecer estava acinzentado, nublado e com um vento cortante. A floresta estava silenciosa.
Depois de um café da manhã leve, Brom e Eragon jogaram água em cima da fogueira e colocaram suas sacas no ombro, preparando-se para partir. Eragon pendurou o seu arco e as suas flechas ao lado de sua saca, onde poderia pegá-los facilmente, Saphira usava a sela, teria de carregá-la até que eles arranjassem cavalos. Eragon amarrou Zar’roc cuidadosamente nas costas também, pois não queria carregar aquele peso extra. Além disso, em suas mãos, aquela espada não seria mais eficaz do que uma clava.
Eragon sentia-se seguro na clareira, mas, fora dela, a cautela regia seus movimentos. Saphira levantou voo e circulava acima deles. As árvores escasseavam conforme voltavam à fazenda.
Eu verei este lugar de novo, insistia Eragon consigo mesmo, olhando as construções destruídas. Isso não pode ser, não será um exílio definitivo. Um dia, quando for seguro, eu voltarei... Jogando os ombros para trás, ele se virou para o sul, para as terras estranhas e selvagens que estavam à sua frente.
Conforme caminhavam, Saphira mudou de direção, indo para o oeste, rumo às montanhas, saindo de vista. Eragon não ficou tranquilo ao vê-la ir embora. Até mesmo agora, sem ninguém por perto, não podiam ficar juntos. Saphira tinha de ficar escondida caso encontrassem algum viajante.
As pegadas dos Ra’zac estavam quase apagadas na neve, mas Eragon não estava preocupado. Era improvável que tivessem seguido por outro caminho que não fosse pela estrada, que era o melhor caminho para sair do vale, indo pela floresta. Uma vez fora de Palancar, contudo, a estrada se dividia em várias direções. Seria difícil determinar qual os Ra’zac tomaram.
Viajavam em silêncio, priorizando a velocidade. As pernas de Eragon continuavam a sangrar onde as cascas dos machucados eram arrancadas. Para afastar a mente desse desconforto, perguntou:
— O que exatamente os dragões podem fazer? Você disse que sabia algumas coisas sobre as habilidades deles.
Brom riu. Seu anel de safira brilhava no ar enquanto ele gesticulava.
— Infelizmente, sei muito pouco comparado ao que eu gostaria de saber. As pessoas tentam responder a sua pergunta há séculos. Então, entenda que o que eu disser estará, por sua própria natureza, incompleto. Os dragões sempre foram misteriosos, embora não façam isso de propósito.
“Antes que eu possa verdadeiramente responder à sua pergunta, você precisa aprender algumas coisas básicas sobre dragões. Seria extremamente confuso começar no meio de um tópico muito complexo sem entender primeiro a base de todo esse assunto. Começarei com o ciclo de vida dos dragões. E se isso não cansar você poderemos passar para outro tópico.”
Brom explicou como os dragões acasalavam e quais eram as condições para os ovos deles eclodirem.
— Sabe — prosseguiu —, quando um dragão fêmea põe um ovo, o filhote dentro dele está pronto para nascer. Mas ele espera, às vezes durante anos, pelas circunstâncias adequadas. Quando os dragões viviam nas florestas, tais circunstâncias eram ditadas pela disponibilidade de alimento. Porém, depois que eles fizeram uma aliança com os elfos, um certo número de ovos, não mais do que um ou dois, eram dados aos Cavaleiros todos os anos. Esses ovos, ou os filhotes dentro deles, não eclodiam até que a pessoa destinada a ser o Cavaleiro ficasse diante deles, embora não seja conhecido o modo como eles pressentiam isso. As pessoas faziam filas para tocar os ovos, esperando serem escolhidas.
— Quer dizer então que Saphira poderia não ter nascido para mim?
— É bem provável, se ela não tivesse gostado de você.
Sentiu-se honrado, pois de todas as pessoas na Alagaësia, ela o escolheu. Ficou pensando em quanto tempo Saphira esperou e afligiu-se ao imaginar que ela permaneceu confinada dentro de um ovo, cercada pela escuridão.
Brom continuou a sua aula. Explicou o que e quando os dragões comiam. Um dragão adulto, sedentário, poderia ficar meses sem comer, mas na temporada do acasalamento, tinham de se alimentar toda semana. Algumas plantas podiam curar suas doenças. Outras podiam causar enfermidades. Havia várias maneiras de cuidar de suas garras e de limpar suas escamas.
Ele explicou as técnicas que se deviam usar ao se atacar montado em um dragão e o que fazer se estivesse lutando contra um deles a pé, a cavalo ou em outro dragão. A barriga deles era protegida, mas suas axilas não eram. Eragon interrompia frequentemente para fazer perguntas, e Brom parecia satisfeito com as indagações. As horas passaram rápido enquanto conversavam.
Quando a noite chegou, estavam perto de Therinsford. Enquanto o céu escurecia e eles procuravam um lugar para acampar, Eragon perguntou:
— Qual Cavaleiro era dono da Zar’roc?
— Era um poderoso guerreiro — informou Brom. — Era muito temido em sua época e tinha muito poder.
— Qual era o nome dele?
— Não direi. — Eragon protestou, mas Brom se manteve firme. — Não quero que você ignore os fatos, longe disso, mas saber de certos detalhes seria perigoso e iria distraí-lo agora. Não há nenhum motivo para eu perturbá-lo com tais coisas, até você ter o tempo e o poder para lidar com elas. Eu só desejo protegê-lo daqueles que poderiam usá-lo para o mal.
Eragon olhou fixamente para ele.
— Sabe de uma coisa? Acho que você adora falar por meio de enigmas. Já estou com vontade de abandoná-lo para não ter de me aborrecer mais com isso. Se for dizer alguma coisa, fale de uma vez e não fique dando voltas com frases vagas.
— Paz. Tudo será dito ao seu tempo — disse Brom calmamente. Eragon resmungou, duvidoso.
Encontraram um lugar confortável para passar a noite e armaram acampamento. Saphira juntou-se a eles quando o jantar estava sendo colocado no fogo.
Você teve tempo para caçar alguma coisa para comer?, indagou Eragon.
Ela bufou fazendo graça.
Se vocês dois andassem um pouco mais devagar, eu teria tempo para atravessar o oceano voando e voltar para cá sem ficar para trás.
Você não precisa nos insultar. Além disso, viajaremos mais rápido quando tivermos cavalos.
Ela soltou uma pequena nuvem de fumaça.
Talvez, mas será o bastante para pegar os Ra’zac? Eles têm uma vantagem de vários dias e muitos quilômetros. E temo que eles suspeitem que os estejamos seguindo. Por que eles destruíram a fazenda de uma maneira tão impressionante? Só podia ser para provocá-lo e para que fôssemos atrás deles.
Sei lá, disse Eragon perturbado. Saphira enroscou-se ao lado dele, e ele recostou-se na barriga dela, aproveitando seu calor. Brom sentou no outro lado da fogueira, cortando duas longas varas com um canivete. De repente, Brom jogou uma para Eragon, que a pegou por reflexo depois que ela passou voando por cima das chamas crepitantes.
— Defenda-se! — gritou Brom, ficando em pé.
Eragon olhou para a vara que segurava na mão e reparou que tinha a forma improvisada de uma espada. Será que Brom queria lutar? Que chance aquele velho teria? Se ele quer brincar, tudo bem, mas se ele acha que vai me vencer, terá uma surpresa.
Eragon se levantou enquanto Brom rodeava a fogueira. Eles se encararam por um momento, até que Brom atacou, balançando sua vara. Eragon tentou bloquear o ataque, mas foi lento demais. Gritou quando Brom o atingiu nas costelas e tropeçou para trás.
Sem pensar, jogou-se para a frente, mas Brom impediu o ataque sem a menor dificuldade. Eragon chicoteou com a vara em direção à cabeça de Brom, mas desviou no último minuto, tentando atingir o lado do corpo. A batida seca de madeira batendo em madeira ecoou pelo acampamento.
— Improvisação... Bom! — exclamou Brom com um brilho nos olhos.
O braço dele deslocou-se com uma velocidade incrível, produzindo um borrão, e Eragon sentiu uma explosão de dor no lado de sua cabeça. Eragon caiu como um saco vazio, atordoado.
Um jato de água gelada despertou-o, e ele sentou, esbravejando. A cabeça latejava e havia sangue seco em seu rosto. Brom estava em pé, perto dele, segurando uma panela com água produzida com a neve derretida.
— Você não precisava ter feito isso — disse Eragon zangado, colocando-se de pé. Sentia-se tonto e confuso.
Brom arqueou uma de suas sobrancelhas.
— É? Um inimigo de verdade jamais bateria com menos força, então eu também tenho de fazer isso. Será que devo levar em conta a sua... incompetência, para você se sentir melhor? Acho que não. — Pegou a vara que Eragon havia deixado cair e a ofereceu a ele. — Agora, defenda-se.
Eragon olhou perplexo para o pedaço de madeira e balançou a cabeça.
— Esqueça. Já chega. — Ele se virou e tropeçou quando foi atingido com força nas costas. Voltou-se rosnando.
— Nunca vire as costas para o inimigo! — berrou Brom, depois jogou a vara para ele e atacou. Eragon recuou para trás da fogueira, tentando se livrar do ataque.
— Braços para a frente. Joelhos flexionados — gritava Brom. Continuou a dar instruções, depois parou para ensinar a Eragon como aplicar um certo golpe com perfeição. — Faça novamente, mas, desta vez, mais devagar — Eles ensaiaram os movimentos antes de recomeçarem uma calorosa luta. Eragon aprendia rapidamente, mas não importava quanto tentasse, ele não conseguia deter mais do que alguns golpes de Brom.
Quando terminaram, Eragon caiu pesadamente em seus cobertores e gemeu. Sentia dores em todas as partes do corpo. Brom não foi nem um pouco clemente com sua vara. Saphira soltou um rosnado longo e tossido e ergueu o lábio até que um conjunto formidável de dentes aparecesse.
O que há de errado com você? Perguntou irritado.
Nada, respondeu ela. É engraçado ver um filhote como você ser derrotado por um ancião. Ela produziu aquele som de novo, e Eragon ficou vermelho quando notou que ela estava rindo. Tentando preservar um pouco de dignidade, virou-se para o lado e dormiu.
Sentia-se ainda pior no dia seguinte. Hematomas cobriam seus braços e o corpo doía demais, dando aquela vontade de não se mexer. Brom olhou por cima do mingau que servia e sorriu.
— Como está se sentindo?
Eragon resmungou e engoliu apressadamente seu desjejum.
Na estrada, viajaram rápido para chegar a Therinsford antes do meio-dia. Depois de cinco quilômetros, o caminho se alargou, e eles viram fumaça ao longe.
— É melhor você dizer a Saphira para voar distante e nos esperar do outro lado de Therinsford — orientou Brom. — Ela deve tomar muito cuidado por aqui, pois as pessoas poderão notar sua presença.
— Por que você não lhe diz isso? — desafiou Eragon.
— É considerado falta de educação interferir com o dragão de outra pessoa.
— Você não teve nenhum problema para fazer isso no Carvahall.
Os lábios de Brom se agitaram em um sorriso.
— Fiz o que tinha de fazer.
Eragon olhou para ele de modo ameaçador, mas acabou passando as instruções. Saphira alertou: Cuidado. Os servos do Império podem estar escondidos em qualquer lugar.
Conforme os sulcos na estrada ficavam mais fundos, Eragon notava mais pegadas. Fazendas indicavam que eles se aproximavam de Therinsford. O povoado era maior do que Carvahall, mas havia sido construído desordenadamente. As casas não seguiam nenhum padrão de alinhamento.
— Mas que bagunça! — observou Eragon. Ele não podia ver o moinho de Dempton. Baldor e Albriech já devem ter falado com Roran agora. Mas isso não importava, pois Eragon não queria falar com o primo naquele momento.
— No mínimo, é feio — concordou Brom.
O rio Anora corria entre eles e a cidade e era cruzado por uma ponte resistente. Ao se aproximarem dela, um homem sujo saiu de trás de um arbusto e impediu a passagem. A camisa dele era curta, e sua barriga imunda transbordava por cima do cinto de corda. Atrás de seus lábios rachados, os dentes pareciam lápides deterioradas.
— Vocês não podem ficar parados aí. Esta ponte é minha. Quem quiser passar tem que pagar.
— Quanto? — indagou Brom com um tom de voz resignado. Ele pegou uma bolsa, e os olhos do dono da ponte brilharam.
— Cinco coroas — declarou, abrindo um largo sorriso. Eragon ficou irritado por causa do preço exorbitante e começou a reclamar calorosamente, mas Brom silenciou-o com um rápido olhar. As moedas foram passadas de uma mão para outra em silêncio. O homem colocou-as em um saco que pendia em seu cinto.
— Muito agradecido — disse com um tom de deboche e saiu da frente. Ao andar para a frente, Brom tropeçou e se agarrou no braço do dono da ponte para não cair no chão.
— Olhe onde pisa — resmungou o homem sujo, saindo do caminho.
— Sinto muito — desculpou-se Brom e continuou a atravessar a ponte com Eragon.
— Por que você não pechinchou? Ele quase arrancou o seu couro! — exclamou Eragon quando eles estavam fora do alcance da audição do homem. — Ele nem deve ser o dono da ponte. Poderíamos ter forçado nossa passagem por ele.
— Provavelmente — concordou Brom.
— Então, por que você o pagou?
— Porque não podemos discutir com todos os tolos do mundo. É mais fácil deixar que eles pensem que conseguiram o que queriam e enganá-los quando não estiverem prestando atenção. — Brom abriu a mão, e um monte de moedas brilhou.
— Você cortou a bolsa dele! — exclamou Eragon incrédulo. Brom colocou o dinheiro no bolso enquanto piscava o olho.
— E havia uma quantia muito boa. Ele não devia deixar tantas moedas em um só lugar. — Eles ouviram um grito zangado do outro lado do rio. — Eu diria que nosso amigo descobriu a sua perda. Se você vir algum vigia, avise-me. — Ele agarrou o ombro de um menino que corria entre as ruas e perguntou: — Você sabe onde podemos comprar cavalos? — A criança olhou para eles com a cara fechada e apontou para um grande galpão que ficava perto dos limites de Therinsford. — Obrigado — disse Brom, jogando uma pequena moeda para o garoto.
As grandes portas duplas do galpão estavam abertas, revelando duas longas fileiras de estábulos. A parede oposta estava coberta por selas, arreios e outros apetrechos. Um homem de braços musculosos estava lá no fundo, escovando um garanhão branco. Ergueu a mão e fez sinal para que eles se aproximassem.
Quando chegaram mais perto, Brom disse:
— Este é um belo animal.
— Sem dúvida. O nome dele é Fogo na Neve. E o meu é Haberth. — Estendeu a mão grossa e cumprimentou vigorosamente Eragon e Brom. Houve uma pausa de cortesia, enquanto ele esperava ouvir os nomes dos estranhos. Quando percebeu que eles não diriam nada, Haberth perguntou: — Posso ajudá-los?
Brom concordou com a cabeça.
— Precisamos de dois cavalos e arreios para ambos. Os animais devem ser velozes e fortes. Vamos viajar muito.
Haberth ficou pensativo por alguns momentos.
— Não tenho muitos animais assim. E os que tenho não são baratos.
O garanhão se movia impacientemente. Haberth acalmou-o com alguns tapinhas.
— O preço não é problema. Levarei os melhores que você tiver — declarou Brom.
Haberth concordou e amarrou silenciosamente o garanhão em uma baia. Ele foi até a parede e começou a pegar as selas e outros itens. Logo, montou duas pilhas idênticas. Depois, dirigiu-se até as baias e pegou dois cavalos. Um era castanho-claro e o outro tinha pelo branco com malhas escuras. O castanho fazia resistência à corda que o puxava.
— Ele é um pouco nervoso, mas quem tiver a mão firme não terá problemas com ele — disse Haberth, passando a corda para Brom.
Brom deixou que o cavalo cheirasse sua mão, e o animal, por sua vez, deixou que ele acariciasse seu pescoço.
— Vamos levá-lo — assegurou e olhou para o cavalo malhado. — Mas não estou certo com relação ao outro.
— Ele tem patas muito fortes.
— Humm... Quanto você cobraria pelo Fogo na Neve?
Haberth olhou com carinho para o garanhão.
— Eu preferia não vendê-lo. É o melhor animal que já criei. Espero começar uma bela linhagem com ele.
— Se você estivesse disposto a se separar dele, quanto isso me custaria? — perguntou Brom.
Eragon tentou pôr a mão no cavalo castanho como Brom havia feito, mas o animal se afastou. Ele, automaticamente, tentou fazer contato mental com o animal para tranquilizá-lo e ficou surpreso ao conseguir tocar a mente do cavalo. O contato não foi claro ou direto como era com Saphira, mas conseguiu se comunicar com o cavalo castanho em um certo nível. Hesitante, fez o animal entender que era um amigo. O cavalo acalmou-se e olhou para ele com seus olhos castanho-claros.
Haberth usou os dedos para calcular o preço da compra.
— Duzentas coroas e nada menos do que isso — sorriu, confiante de que ninguém pagaria tanto dinheiro.
Em silêncio, Brom abriu a bolsa e contou o dinheiro.
— Isto basta? — quis saber.
Houve um longo silêncio enquanto Haberth alternava o olhar entre as moedas e Fogo na Neve. Depois de suspirar, disse:
— Ele é todo seu, embora meu coração queira o contrário.
— Vou tratá-lo como se ele fosse filho de Gildintor, o maior cavalo de todos os tempos — garantiu Brom.
— As suas palavras me deixaram satisfeito — disse Haberth, curvando a cabeça levemente. Ele os ajudou a selar os cavalos. Quando estavam prontos para sair, Haberth declarou: — Então, adeus. Pelo bem de Fogo na Neve, faço votos que o infortúnio não caia sobre vocês.
— Não tema, cuidarei bem dele — prometeu Brom enquanto partiam. — Tome — disse ele, passando as rédeas de Fogo na Neve para Eragon. — Vá para o outro lado de Therinsford e espere lá.
— Por quê? — perguntou Eragon, mas Brom já estava se afastando. Aborrecido, ele saiu de Therinsford com os dois cavalos e parou ao lado da estrada. Ao sul ele viu o contorno nebuloso de Utgard, parecendo um monólito gigante no final do vale. Sua parte mais alta cortava as nuvens e subia ainda mais, saindo de vista, elevando-se acima das outras montanhas menores que a cercavam. Sua aparência escura e sinistra fez Eragon sentir arrepios.
Brom voltou logo depois, fazendo um gesto para Eragon segui-lo. Eles andaram até que Therinsford ficasse escondida pelas árvores. Depois, Brom disse:
— Sem dúvida nenhuma, os Ra’zac passaram por este lugar. Parece que eles pararam aqui para pegar alguns cavalos, como nós fizemos. Achei um homem que os viu. Ele descreveu-os com medo e disse que saíram galopando de Therinsford como demônios fugindo de um homem santo.
— Eles causaram uma impressão e tanto.
— Sem dúvida.
Eragon acariciou os cavalos.
— Quando estávamos no galpão, consegui tocar a mente do cavalo castanho por acidente. Não sabia que era possível fazer isso.
Brom franziu o rosto.
— É incomum alguém tão jovem ter essa habilidade. Na maioria, os Cavaleiros tinham de treinar durante anos até serem fortes o bastante para fazer contato com qualquer outra coisa além de seu dragão. — O rosto dele estava pensativo enquanto observava Fogo na Neve. Então, ordenou: — Tire todos os objetos de sua bolsa, coloque nos alforjes e amarre a bolsa em cima de tudo.
Eragon obedeceu enquanto Brom montava em Fogo na Neve.
Eragon olhou receoso para o cavalo castanho. Ele era muito menor do que Saphira, mas por um momento absurdo, imaginou se o cavalo poderia suportar o seu peso. Com um suspiro, montou de modo desajeitado na sela. Ele só havia montado em cavalos no pelo e em curtas distâncias.
— Isso fará com as minhas pernas o mesmo que a montaria em Saphira causou a elas? — perguntou.
— Como estão agora?
— Não doem muito, mas acho que qualquer solavanco mais forte poderá abrir as feridas de novo.
— Nós seguiremos com cuidado — prometeu Brom. Deu algumas instruções a Eragon, e eles começaram a cavalgar em um passo moderado. Logo, a paisagem começou a mudar, passando de campos cultivados para áreas mais selvagens. Arbustos e ervas daninhas ladeavam a estrada, juntamente com grandes roseiras, que espetavam suas roupas. Pedras altas erguiam-se do chão, testemunhas cinzentas da presença deles. Havia um clima pouco amigável no ar, uma animosidade aos intrusos.
Acima, crescente a cada passo, Utgard aparecia indistintamente, seus precipícios íngremes eram sulcados por cânions nevados. A rocha negra da montanha absorvia a luz como uma esponja e escurecia as áreas vizinhas. Havia uma fenda profunda entre Utgard e a fileira de montanhas que se formava no lado leste do vale Palancar. Era a única saída prática. A estrada levava até ela.
Os cascos dos cavalos batiam fortemente no cascalho. A estrada diminuiu, virando uma pequena trilha que rodeava a base de Utgard. Eragon olhou para cima, para o pico que se elevava sobre eles, e ficou surpreso ao ver uma torre lá no alto. A construção estava em mau estado de conservação, mas não deixava de ser uma solene sentinela de todo o vale.
— O que é aquilo? — apontou Eragon.
Brom não olhou para cima, mas respondeu com tristeza e amargura:
— Era um posto avançado dos Cavaleiros. Ele data dos tempos da fundação da ordem. Foi onde Vrael se refugiou e onde, por traição, ele foi encontrado e derrotado por Galbatorix. Quando Vrael caiu, esta área ficou maculada. Edoc’sil, “Inconquistável”, era o nome desse bastião, pois a montanha é tão íngreme que quase ninguém consegue chegar ao topo, a não ser que possa voar. Depois da morte de Vrael, os cidadãos começaram a chamar o lugar de Utgard, mas ele tem outro nome, Ristvak’baen, o Lugar da Dor. Era conhecido assim pelos últimos Cavaleiros, antes de serem mortos pelo rei.
Eragon admirava com veneração. Aqui estava algo remanescente e tangível da glória dos Cavaleiros, embora estivesse escurecido pela inclemente ação do tempo. De repente, percebeu como os Cavaleiros eram antigos. Um legado de tradição e heroísmo, que datava da Antiguidade, pairava sobre ele.
Viajaram durante longas horas contornando Utgard. A montanha formava uma parede sólida, à direita deles, quando entraram na ruptura que dividia a cordilheira. Eragon ficou em pé em seus estribos, pois estava impaciente para ver o que havia fora do vale Palancar, mas tudo ainda estava longe demais. Durante um tempo, andaram por uma passagem inclinada, contornando a colina e um fosso, acompanhando o rio Anora. Depois, com o sol baixo atrás deles, chegaram a uma parte elevada onde podiam ver por cima das árvores.
Eragon ficou surpreso. Havia montanhas em ambos os lados, mas, abaixo deles, se estendia uma enorme planície que alcançava o horizonte distante, fundindo-se com o céu. O campo tinha uma cor uniforme, como a de grama seca. Nuvens grandes e nebulosas passavam por cima, moldadas pelos fortes ventos.
Agora, ele entendeu por que Brom insistiu nos cavalos. Eles levariam semanas, ou meses, para vencer tamanha distância a pé. Bem lá em cima, viu Saphira voando em círculos. Ela estava alto o suficiente para ser confundida com um pássaro.
— Esperaremos até amanhã para começarmos a descida — informou Brom. — Vamos levar quase o dia todo. Então, devemos acampar agora.
— Quanto tempo leva para atravessar a planície? — quis saber Eragon, ainda impressionado.
— De dois a três dias até mais de duas semanas, dependendo da direção que tomemos. Além das tribos nômades que vagam por esta parte da planície, ela é quase tão desabitada quanto o deserto Hadarac ao leste. Então, não encontraremos muitos vilarejos. Contudo, ao sul, as planícies são menos áridas e mais habitadas.
Saíram da trilha e desmontaram perto do rio Anora. Ao desselarem os animais, Brom apontou para o cavalo baio.
— Você deve dar um nome a ele.
Eragon pensou por um instante enquanto prendia a rédea do animal em um pedaço de madeira.
— Bem, não pensei em nada tão nobre quanto Fogo na Neve, mas talvez este sirva. — Ele pôs a mão em cima do cavalo baio e disse: — Eu o nomeio Cadoc. Era o nome do meu avô, portanto use-o bem.
Brom assentiu com a cabeça em sinal de aprovação, mas Eragon sentiu-se um pouco tolo.
Quando Saphira pousou, ele perguntou:
Como são as planícies?
Entediantes. Não há nada lá, a não ser coelhos e arbustos raquíticos em todas as direções.
Depois do jantar, Brom ficou em pé e gritou:
— Pegue!
Eragon mal teve tempo para erguer o braço e pegar o pedaço de madeira antes que atingisse a sua cabeça. Ele resmungou ao ver outra espada improvisada.
— De novo, não — reclamou.
Brom apenas sorriu e acenou com uma das mãos. Eragon, relutante, ficou em pé. Giraram rapidamente em meio à agitação das madeiras, e Eragon recuou com um braço dolorido.
O treinamento foi mais curto do que o primeiro, mas foi longo o bastante para que Eragon juntasse uma nova coleção de hematomas. Quando terminaram o treino, Eragon jogou, desgostoso, a vara no chão e afastou-se da fogueira para cuidar dos seus ferimentos.

2 comentários:

  1. Primeira a comentar! 👋

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  2. Já perceberam q essa série tem muita semelhança a STAR WARS ?
    Tipo, Eragon e Luke Skywalker ambos foram criados por seus tios, em fazenda ou colheita ( dá no mesmo) e quando o parente é morto eles partem em busca de um novo propósito..

    Além dos dois n saberem quem são os seus pais

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Boa leitura :)