27 de maio de 2017

Capítulo 16 - Sob um céu obscuro

Naquela noite choveu.
Camada sobre camada de carregadas nuvens acobertavam o vale Palancar, agarrando-se às montanhas com braços tenazes e enchendo o ar de um nevoeiro frio e pesado. Abrigado, Roran observava como os fios de água cinzenta desabavam sobre as árvores com suas folhas borbulhantes, enlameavam a trincheira em volta de Carvahall e lutavam com dedos ásperos contra os telhados e os beirais de sapé, enquanto as nuvens expeliam sua carga. Tudo raiado, indistinto e escondido por trás da inexorável torrente.
Lá pela metade da manhã, a tempestade havia diminuído, embora uma garoa contínua ainda se infiltrasse pela cerração. A chuva encharcou rapidamente o cabelo e as roupas de Roran quando ele assumiu a vigília na barricada da estrada principal. Ele se agachou perto dos troncos que estavam em pé, sacudiu sua manta, puxou o capuz sobre o rosto e tentou ignorar o frio.
Apesar da temperatura, Roran estava nas alturas e exultava de felicidade por causa da resposta de Katrina. Eles estavam noivos! Em sua cabeça, era como se uma parte deslocada do mundo finalmente houvesse sido encaixada no local certo, como se lhe tivesse sido outorgada a confiança de um guerreiro invulnerável. Que importância tinham os soldados, os Ra’zac ou o próprio Império perante um amor como o deles? Não passavam de faíscas.
No entanto, apesar de toda essa felicidade, seu pensamento estava completamente focado no que havia se tornado o enigma mais importante de sua existência: como garantir que Katrina sobrevivesse à ira de Galbatorix? Não havia pensado em mais nada desde que acordou. A melhor coisa seria Katrina ir para a casa de Cawley, decidiu, enquanto olhava para a estrada enevoada, mas ela jamais concordaria em partir... a não ser que Sloan a obrigasse. Pode ser que eu o convença, estou certo de que ele a quer longe do perigo tanto quanto eu.
Enquanto Roran pensava em maneiras de abordar o açougueiro, as nuvens engrossavam novamente e a chuva castigou mais uma vez o vilarejo, caía na forma de ondas lancinantes. A sua volta, as poças ganhavam vida à medida que pequenas gotas d’água tamborilavam em suas superfícies, saltando como se fossem gafanhotos assustados.
Quando Roran ficou com fome, passou seu turno para Larne — o filho caçula de Loring — e foi tentar encontrar um almoço, saltava da proteção de um beirai para o outro. Assim que contornou a esquina, surpreendeu-se ao ver Albriech na varanda de uma casa, discutindo violentamente com um grupo de homens.
Ridley gritou:
—... Você é cego, siga os choupos e eles jamais verão! Pegue aquela trilha mais tortuosa.
— Experimente-a se quiser — retrucou Albriech.
— Eu o farei!
— Daí você vai poder me dizer qual é o gosto das flechadas.
— Talvez — disse Thane —, não temos pés tão tortos como o seu. Albriech se virou em sua direção de modo ríspido.
— Suas palavras são tão turvas quanto a sua inteligência. Não sou suficientemente estúpido para colocar a minha família em risco protegida por algumas poucas folhas que eu jamais vi antes. — Os olhos de Thane se arregalaram e seu rosto assumiu um tom profundamente corado. — Como é que é? — provocou Albriech. — Você não tem língua?
Thane rugiu e acertou Albriech no rosto com um soco. Este último riu.
— Seu braço é tão fraco quanto o de uma mulher. — Depois disso ele agarrou o ombro de Thane e o arremessou para fora da varanda, sobre a lama, onde ficou caído de lado, atordoado.
Segurando sua lança como uma bengala, Roran pulou e ficou ao lado de Albriech, a fim de evitar que Ridley e os outros encostassem nele.
— Chega — rugiu Roran, furioso. — Temos outros inimigos. Uma assembleia poderá ser convocada e juizes irão decidir qual dos dois, se Albriech ou Thane, deve indenizar o outro. Mas até lá, não podemos brigar entre nós.
— É fácil para você falar — vociferou Ridley. — Você não tem mulher nem filhos. — Ele ajudou Thane a se levantar e saiu com o grupo de homens. Roran olhou furioso para Albriech e para a mancha roxa que se formava por debaixo de seu olho direito.
— Quem começou isso? — perguntou.
— Eu... — Albriech parou fazendo uma careta e tocou em seu maxilar. — Eu estava fazendo um reconhecimento do terreno com Darmmen. Os Ra’zac colocaram soldados em várias montanhas. Eles podem ver o que acontece além do Anora e acima e abaixo do vale. Pode ser, pode ser, que um ou dois de nós consiga passar por eles rastejando sem que seja notado, mas jamais conseguiremos levar as crianças para o sítio de Cawley sem encontrar os soldados, e mesmo assim estaremos dizendo aos Ra’zac para onde estamos indo.
Um temor arrebatou Roran, irrigando seu coração e suas veias como se fosse veneno. O que posso fazer? Enjoado devido a uma sensação de desgraça iminente, colocou um braço sobre o ombro de Albriech.
— Vamos, é bom Gertrude dar uma olhada em você.
— Não — disse Albriech, afastando-o. — Ela tem casos bem mais urgentes do que o meu. — Ele tomou bastante fôlego, como se estivesse se preparando para mergulhar num lago, e saiu movendo-se com dificuldade em meio ao aguaceiro, em direção à ferraria.
Roran o viu partir, depois balançou a cabeça e entrou. Encontrou Elain sentada no chão com uma fileira de crianças, afiando uma pilha de pontas de lança com limas e pedras de amolar. Roran gesticulou para Elain. Assim que estavam em outro quarto, ele lhe contou o que havia acabado de acontecer.
Elain xingou com veemência — assustando-o, por ele jamais a ouvira usar tal linguagem — e depois perguntou:
— Thane possui algum motivo para declarar uma vendeta?
— Possivelmente — admitiu Roran. — Eles insultaram um ao outro, mas as pragas que Albriech rogou foram mais fortes... No entanto, Thane atacou primeiro. Vocês mesmo poderiam dar início a uma vendeta.
— Bobagem — assegurou Elain, enrolando um xale em torno dos ombros. — Essa contenda tem de ser resolvida em juízo. Se tivermos de pagar uma multa, que seja assim, no entanto que seja evitado o derramamento de sangue. — Ela seguiu em direção à porta da frente, com uma lança já acabada nas mãos.
Agitado, Roran encontrou pão e carne na cozinha e depois ajudou as crianças a afiar as pontas das lanças. Assim que Felda, uma das mães, chegou, Roran deixou os pequenos sob seus cuidados e, tenso, atravessou Carvahall para retornar à estrada principal.
Enquanto ele se agachava na lama, um feixe de luz solar irrompeu por debaixo das nuvens e iluminou a chuva de modo que cada gota reluzia um fulgor cristalino. Roran olhou, espantado, ignorando a água que escorria pelo seu rosto. A fenda nas nuvens se alargou até que uma massa de nuvens pesadas pairou sobre três quartos da área oeste do vale Palancar, de frente para uma faixa de puro céu azul. Devido ao teto encrespado e ao ângulo do sol, o cenário molhado por causa da chuva estava brilhantemente aceso de um lado e pintado com nuvens carregadas do outro, dando aos campos, aos arbustos, às árvores, ao rio e às montanhas as cores mais extraordinárias. Era como se o mundo inteiro tivesse sido transformado numa escultura de metal polido.
Bem naquele instante, um movimento chamou a atenção de Roran, que olhou para baixo e viu um soldado em pé na estrada, com sua cota brilhando como gelo. O homem olhava embasbacado para as novas fortificações de Carvahall, depois se virou e fugiu para dentro do nevoeiro dourado.
— Soldados! — gritou Roran. Ele gostaria de estar com seu arco, mas o havia deixado dentro de casa para protegê-lo das forças da natureza. Seu único consolo era que os soldados teriam ainda mais problemas para manter suas armas secas.
Homens e mulheres saíram correndo de suas casas, se aglomeraram ao longo da trincheira e ficaram olhando pela muralha de pinheiros. Dos longos galhos pingavam gotas de umidade, cabochões translúcidos que refletiam fileiras de olhos ansiosos.
Roran se viu em pé ao lado de Sloan. O açougueiro segurava um dos escudos improvisados de Fisk em sua mão esquerda, e na direita um cutelo curvado como se fosse uma meia-lua. Seu cinto estava enfeitado com pelo menos umas doze facas, todas elas grandes e amoladas no fio da navalha. Ele e Roran trocaram acenos rápidos e depois se voltaram para o ponto onde o soldado havia desaparecido.
Menos de um minuto depois, a voz desencarnada de um Ra’zac saía como a de uma serpente de dentro do nevoeiro:
— Por continuarem a defender Carvahall, vocccêsss proclamaram a sssua opçççção e ssselaram a sssua ruína. Por isssso morrerão!
Loring respondeu:
— Mostrem suas caras de vermes se tiverem coragem, seus patifes covardes, de pernas tortas e olhos de cobra! Vamos esmagar seus crânios e engordar nossos porcos com seu sangue!
Uma forma escura fluiu na direção deles, seguida pelo baque pesado de uma lança que se fixou numa porta a poucos centímetros do braço esquerdo de Gedric.
— Protejam-se! — gritou Horst do meio da linha. Roran se ajoelhou atrás do seu escudo e ficou olhando através de uma fenda finíssima que havia entre duas das tábuas. Ele o fez na hora certa, pois umas seis lanças passaram por cima da muralha de árvores e se enterraram em moradores do vilarejo que estavam agachados.
De algum lugar no meio da neblina veio um grito agonizante. O coração de Roran pulou e sentiu uma dolorosa palpitação. Ele ofegava, embora não houvesse se movido, e suas mãos estavam escorregadias por causa do suor. Ele ouviu o som leve de vidro se despedaçando na extremidade norte de Carvahall... e depois veio o estrondo de uma explosão e de madeira se despedaçando.
Ele e Sloan se viraram e correram em direção à Carvahall, onde encontraram uns seis soldados arrastando os restos fragmentados de várias árvores. Mais atrás, pálidos e fantasmagóricos em meio aos filamentos resplandecentes de chuva, estavam os Ra’zac montados em seus cavalos negros. Sem se deter, Roran pulou em cima do primeiro homem, cravando a sua lança. Sua primeira e segunda estocadas foram desviadas por um braço erguido, até que Roran acertou o soldado no quadril e, quando ele caiu, na garganta.
Sloan urrava como uma fera enfurecida, jogou seu cutelo e cortou ao meio o elmo de um dos homens, esmigalhando seu crânio. Dois soldados investiram contra ele com espadas desembainhadas. Sloan deu um passo para o lado, rindo, e bloqueou seus ataques com o escudo. Um dos soldados atacou com tanta ferocidade que sua espada ficou presa na beira do escudo. Sloan o puxou para mais perto e enfiou uma das facas de trinchar do seu cinto no olho do sujeito. Ao puxar um segundo cutelo, o açougueiro cercou seu outro oponente com um sorriso forçado e maníaco.
— Posso destripar e aleijar você? — perguntou ele, quase empinado, numa terrível e sanguinária alegria.
Roran perdeu sua lança para os dois outros homens que ele enfrentara. Quase não conseguiu puxar o seu martelo a tempo de impedir uma espada de arrancar sua perna. O soldado que havia arrancado a lança das mãos de Roran agora apontava a arma em sua direção, mirando o seu peito. Roran largou o martelo e pegou a lança no meio do ar — o que surpreendeu tanto a ele quanto aos soldados — a virou no sentido contrário, e a usou para atravessar a couraça e as costelas do homem que a lançara.
Desarmado, Roran foi forçado a recuar perante o soldado que restou. Ele tropeçou num cadáver, cortando sua panturrilha numa espada assim que caiu, e rolou para o lado evitando um golpe em que o soldado usava as duas mãos. Arrastou-se freneticamente na lama, que estava na altura de seu tornozelo, em busca de algo, qualquer coisa que ele pudesse usar como arma. Um cabo bateu em seus dedos e ele o puxou de dentro do lamaçal, golpeando a mão do soldado que a segurava, arrancando seu polegar.
O homem lançou um olhar idiota para o coto reluzente e disse:
— Isso é o que acontece quando eu não me protejo com o escudo.
— Sim — concordou Roran antes de decapitá-lo.
O último soldado entrou em pânico e fugiu em direção aos impassíveis Ra’zac, enquanto Sloan o bombardeava com uma torrente de insultos e impropérios. Quando o soldado finalmente atravessou a cortina cintilante de chuva, Roran viu, horrorizado, as duas figuras negras se inclinarem para baixo, montadas em seus cavalos, cada uma de um lado, e agarrarem a nuca do sujeito com as mãos tortas. Os dedos cruéis a apertaram enquanto o homem urrava e se agitava desesperadamente, para depois ficar com o corpo mole. Os Ra’zac colocaram o soldado morto atrás de uma de suas selas antes de virarem seus cavalos e se afastarem dali. Roran estremeceu e olhou para Sloan, que estava limpando suas lâminas.
— Você lutou bem. — Ele jamais havia suspeitado que o açougueiro tinha tanta ferocidade dentro de si.
Sloan disse em voz baixa.
— Eles jamais pegarão Katrina. Nunca, mesmo que eu tenha que arrancar a pele de um monte deles ou lutar com uns mil Urgals e com o rei também. Eu faria o próprio céu desabar e deixaria o Império se afogar em seu próprio sangue antes que ela sofresse um simples arranhão. — Ele se calou, enfiou a última de suas facas no cinto e começou a arrastar as três árvores partidas de volta para o lugar onde estavam.
Enquanto o fazia, Roran rolou os soldados mortos em meio a lama pesada, para longe das fortificações. Agora eu matei cinco. Depois de terminar a sua tarefa, ele se esticou e olhou em volta, intrigado, pois tudo o que ouviu foi o silêncio e a chuva sibilante. Por que ninguém veio nos ajudar?
Perguntando a si mesmo o que poderia ter acontecido, ele voltou com Sloan para  o cenário do primeiro ataque. Dois soldados estavampendurados e mortos nos galhos da muralha de árvores, mas não foi isso que captou sua atenção. Horst e os outros habitantes do vilarejo estavam ajoelhados num círculo, em volta de um pequeno corpo. Roran prendeu sua respiração. Era Elmund, filho de Delwin. O menino de dez anos havia sido atingido por uma lança na lateral do seu corpo. Seus pais estavam sentados na lama, ao seu lado, com os rostos pálidos.
Algo tem de ser feito, pensou Roran, enquanto se ajoelhava e se inclinava na direção de sua lança. Poucas crianças sobreviviam aos seus cinco ou seis anos. Mas perder o filho mais velho agora, quando tudo indicava que iria crescer com força e saúde para assumir o lugar de seu pai em Carvahall, era o suficiente para despedaçar o coração. Katrina... as crianças... todas elas precisam ser protegidas. Mas onde?... Onde?... Onde?... Onde!

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