22 de maio de 2017

Capítulo 15 - Fazendo selas

Quando os olhos de Eragon se abriram, a lembrança da morte de Garrow caiu pesadamente sobre ele. Puxou o cobertor até a cabeça e chorou silenciosamente sob aquela proteção escura e aquecida. Era bom ficar ali embaixo... Escondido do mundo exterior. Finalmente as lágrimas pararam de cair. Ele xingou Brom. Depois, relutante, enxugou o rosto e se levantou.
Brom preparava o café da manhã.
— Bom dia — disse ele.
Eragon resmungou em resposta. Colocou os dedos gelados nas suas axilas e ficou agachado perto do fogo até a comida ficar pronta. Comeram rapidamente, tentando consumir a comida, antes que ficasse fria. Quando terminou, Eragon lavou sua tigela com neve e estendeu o couro roubado no chão.
— O que você vai fazer com isso? — perguntou Brom. — Não podemos levar conosco.
— Vou fazer uma sela para Saphira.
— Hum — disse Brom, andando para a frente. — Bem, os dragões costumavam ter dois tipos de selas. O primeiro era duro e moldado como a sela de um cavalo. Mas era demorado fazer esse tipo de sela, além de exigir ferramentas apropriadas, coisas que não temos agora. O outro tipo era fino e levemente acolchoado, nada mais do que uma camada de proteção extra entre o Cavaleiro e o dragão. Essas selas eram usadas sempre que a velocidade e a flexibilidade fossem as prioridades, embora não chegassem nem perto das moldadas, com relação ao conforto.
— Você sabe como elas eram? — perguntou Eragon.
— Melhor, sei como fazê-las.
— Então, por favor, faça — pediu Eragon, afastando-se para o lado.
— Como queira, mas preste atenção. Algum dia, você pode precisar fazer isso sozinho.
Com a permissão de Saphira, Brom mediu o pescoço e o peito dela. Depois, cortou cinco pedaços de couro e fez, mais ou menos, uma dúzia de marcações nas peles. Após terem sido cortados, fez várias tiras compridas do que restou.
Brom usou as tiras para costurar tudo, mas ele tinha de fazer dois buracos no couro para cada ponto. Eragon ajudou-o com essa tarefa. Nós complicados eram usados em vez de fivelas, e cada peça da sela era feita bem maior para acompanhar o crescimento de Saphira nos meses seguintes.
A parte principal da sela foi feita com três pedaços idênticos, costurados com um pouco de enchimento entre eles. Na frente, havia uma presilha grossa, que se encaixava confortavelmente em volta de uma das escamas do pescoço de Saphira, enquanto os pedaços costurados dos lados cobriam a barriga e eram amarrados embaixo. Em vez de estribos, havia uma série de laços que desciam pelos dois lados. Apertados, manteriam as pernas de Eragon no lugar. Uma longa tira foi feita para passar entre as patas dianteiras de Saphira, dividida em duas, e fazia a volta por trás dessas mesmas patas, voltando a se unir à sela.
Enquanto Brom trabalhava, Eragon consertava a sua saca e organizava os suprimentos. O dia terminou perto da hora em que completaram as suas tarefas. Cansado por causa do trabalho, Brom colocou a sela em Saphira e viu se servia. Ele fez pequenos ajustes e depois, satisfeito, tirou-a.
— Você fez um belo trabalho — Eragon reconheceu com má vontade.
Brom inclinou a cabeça.
— Tentei fazer o melhor. A sela deve servi-lo bem. O couro era bem forte.
Você não vai experimentar?, perguntou Saphira.
Amanhã, talvez, respondeu Eragon, guardando a sela com seus cobertores. Está muito tarde agora.
Na verdade, não estava com vontade de voar de novo, ainda mais depois do resultado desastroso da última tentativa.
O jantar foi feito rapidamente. Estava gostoso, embora fosse simples. Enquanto comiam, Brom olhou para Eragon, por cima da fogueira, e perguntou:
— Nós partiremos amanhã?
— Não há nenhuma razão para ficarmos aqui.
— Suponho que não... — Parou de falar. — Eragon, devo me desculpar pelo modo como tudo aconteceu. Eu não queria que todas essas coisas tivessem ocorrido. A sua família não merecia tamanha tragédia. Se houvesse algo que eu pudesse fazer para reverter tudo isso, eu faria. Esta é uma situação terrível para todos nós. — Eragon continuou sentado em silêncio, evitando o olhar de Brom. Depois, Brom disse: — Nós precisaremos de cavalos.
— Você, talvez. Mas eu tenho Saphira.
Brom balançou a cabeça.
— Não existe cavalo que possa ser mais veloz do que um dragão voando, mas Saphira é jovem demais para aguentar nós dois. Além disso, será mais seguro se ficarmos juntos, e cavalgar é mais rápido do que andar.
— Mas assim será mais difícil alcançar os Ra’zac — reclamou Eragon. — Com Saphira, eu poderia achá-los em um dia ou dois. Com cavalos, vai demorar muito mais, isso se for possível diminuir a vantagem que eles têm de nós seguindo por terra!
Brom falou lentamente:
— Essa é uma possibilidade, mas é preciso correr esse risco se eu for junto com você.
Eragon refletiu sobre o assunto.
— Tudo bem — resmungou. — Arranjaremos alguns cavalos. Mas teremos de comprá-los. Eu não tenho dinheiro e não quero roubar de novo. Isso é errado.
— Depende do seu ponto de vista — corrigiu-o Brom, com um leve sorriso no rosto. — Antes de partir nessa empreitada, lembre que os seus inimigos, os Ra’zac, são servos do rei. Eles estarão protegidos aonde quer que vão. Leis não vão detê-los. Nas cidades, terão acesso a recursos em abundância e a servos dispostos a ajudá-los. Também tenha em mente que nada é mais importante para Galbatorix do que recrutar ou matar você, embora notícias sobre a sua existência talvez, ainda não tenham chegado até ele. Quanto mais você conseguir iludir um Ra’zac, mais desesperado ele ficará. Ele saberá que, a cada dia, você ficará mais forte e que cada momento dará a você uma chance de se juntar aos inimigos dele. Você deve tomar muito cuidado, pois pode, rapidamente, deixar de ser o caçador para virar a caça.
Eragon ficou perplexo com as palavras fortes. Pensativo, ele rolava um graveto entre os dedos.
— Chega de conversa — cortou Brom. — Já está tarde e meus ossos estão doendo. Podemos conversar mais amanhã. — Eragon concordou com a cabeça e arrumou a fogueira para que ela queimasse por mais tempo e de modo mais lento.

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