8 de maio de 2017

Capítulo 14

Sapato furado
Mais alguns feitiços falsos
Toma chuva de hera

EU NÃO QUERIA IR com Calipso, com ou sem bolinhos.
Infelizmente, minha única outra opção era ficar escondido no café até os homens do imperador me encontrarem ou o gerente da lanchonete chegar e me mandar cozinhar.
Calipso foi na frente, correndo de esconderijo em esconderijo como a ninja urbana que era. Vi o germânico solitário de sentinela uns quinze metros do outro lado da praça, mas ele estava ocupado observando o carrossel. Apontou a lança com cautela para os cavalos pintados, como se pudessem ser carnívoros.
Chegamos do outro lado do cruzamento sem atrair a atenção dele, mas eu ainda estava nervoso. Pelo que sabíamos, Litierses era bem capaz de ter vários grupos nos caçando pelo parque. Em um poste telefônico perto da loja de souvenires, uma câmera de segurança olhava para nós. Se o Triunvirato era tão poderoso quanto Nero alegava, eles podiam facilmente controlar o sistema de segurança do Zoológico de Indianápolis. Ele já sabia que estávamos aqui.
Pensei em atirar uma flecha na câmera, mas devia ser tarde demais. As câmeras me amam. Sem dúvida meu rosto estava em todos os monitores de segurança.
O plano de Calipso era contornar os orangotangos e cortar caminho pela exposição de répteis, ladeando o perímetro do parque até chegarmos à estação do trem. Mas, quando passamos pelo habitat dos macacos, vozes de uma patrulha germânica que se aproximava nos assustaram. Entramos no complexo dos orangotangos para nos esconder.
Tudo bem... eu me assustei e corri para me esconder. Calipso sussurrou “Não, seu idiota!”, mas me seguiu lá para dentro. Juntos, nos agachamos atrás de um muro de contenção quando dois germânicos passaram, conversando casualmente sobre técnicas de esmagar cabeças.
Olhei para a direita e sufoquei um gritinho. Do outro lado de uma vitrine, um orangotango grande me observava, os olhos cor de âmbar curiosos. Ele fez alguns sinais com as mãos — linguagem de sinais? Agamedes talvez reconhecesse. A julgar pela expressão do primata, ele não estava muito feliz em me ver. Dentre os grandes primatas, só os humanos são capazes de ter a admiração adequada pelos deuses. O lado positivo dos orangotangos é que eles têm um pelo laranja incrível que nenhum humano jamais conseguirá ter.
Calipso cutucou minha perna.
— Temos que seguir em frente.
Corremos pelo salão de exibição. Nossos movimentos símios devem ter divertido o orangotango. Ele deu uma risada.
— Cala a boca! — sussurrei meio alto para ele.
Na saída, nós nos encolhemos atrás de uma cortina de rede camuflada. Aninhei os bolinhos junto ao peito e tentei manter a respiração em um ritmo regular.
Ao meu lado, Calipso cantarolou baixinho, um hábito dela quando ficava nervosa. Eu queria que parasse. Sempre que ela cantarolava uma melodia, eu tinha vontade de cantar a harmonia bem alto, o que revelaria nossa posição.
Finalmente, sussurrei:
— Acho que podemos ir.
Saí e dei de cara com outro germânico. Sério, quantos bárbaros Cômodo tinha? Estava comprando no atacado?
Por um momento, nós três ficamos surpresos demais para falar ou nos mexer. Mas um som profundo saiu do peito do bárbaro, como se ele estivesse prestes a gritar por ajuda.
— Segure isto!
Joguei o pacote de bolinhos de grifo em cima dele.
Por reflexo, ele segurou. Afinal, um homem entregando seus bolinhos é sinal de rendição em muitas culturas. Ele franziu a testa, olhando para o pacote, e nesse meio tempo dei um passo para trás, tirei o arco do ombro e disparei uma flecha no pé esquerdo dele.
Ele berrou e largou o pacote. Apanhei o embrulho e saí correndo, com Calipso logo atrás.
— Muito bem — disse ela.
— Exceto pelo fato de que ele deve ter alertado... Para a esquerda!
Mais um germânico vinha a toda velocidade da área dos répteis. Meio sem jeito, conseguimos evitá-lo e corremos na direção de uma placa que dizia VISTA PANORÂMICA.
Ao longe havia um teleférico, fios presos entre duas torres acima das árvores, uma única gôndola verde pendurada quinze metros no ar. Eu me perguntei se seria possível usar o transporte para chegar à área secreta do zoológico, ou pelo menos ter a diferença de altura como uma vantagem contra eles, mas a entrada estava fechada com cadeado.
Antes que eu pudesse pedir a Calipso para fazer seu truque com o grampo, os germânicos nos encurralaram. O da área dos répteis avançou, carregando sua lança na altura do peito. O do espaço dos orangotangos saiu rosnando e mancando atrás, minha flecha ainda espetada na bota de couro ensanguentada.
Prendi outra flecha no arco, mas não tinha como derrubar os dois antes de eles nos matarem. Já tinha visto germânicos levarem seis ou sete flechas no coração e continuarem lutando.
— Apolo, quando eu amaldiçoar você, finja desmaiar — murmurou Calipso.
— O quê?
Ela se virou para mim e gritou:
— Você fracassou comigo pela última vez, escravo!
Fez uma série de gestos que reconheci da Antiguidade, pragas e maldições que ninguém nunca tinha ousado fazer na minha direção. Fiquei tentado a dar um tapa nela. Em vez disso, segui suas instruções: ofeguei e desabei.
Por olhos entrefechados, vi Calipso se virar para os nossos inimigos.
— Agora é sua vez, tolos!
Ela começou a fazer os mesmos gestos rudes na direção dos germânicos.
O primeiro parou. O rosto ficou pálido. Ele olhou para mim, caído no chão, se virou e saiu correndo, passando pelo amigo.
O germânico com o pé ferido hesitou. A julgar pelo ódio nos olhos dele, o homem queria vingança pela flecha que destruiu sua bota esquerda. Calipso, nada intimidada, balançou os braços e começou a entoar feitiços. Seu tom fez parecer que ela estava convocando os piores demônios do Tártaro, embora as palavras, em fenício antigo, fossem na verdade uma receita de panqueca.
O germânico ferido gritou e saiu mancando, deixando uma trilha de pegadas vermelhas para trás.
Calipso estendeu a mão para me ajudar a levantar.
— Vamos embora. Só consegui atrasá-los por alguns segundos.
— Como você...? Sua magia voltou?
— Quem me dera. Era tudo fingimento. Metade da magia é agir como se fosse funcionar. A outra metade é escolher um alvo supersticioso. Eles vão voltar. Com reforços.
Admito que fiquei impressionado. O “feitiço” dela me deixou nervoso. Fiz um gesto rápido para afastar o mal, só para o caso de Calipso ser melhor do que ela imaginava. Em seguida, corremos juntos ao longo da cerca.
No cruzamento seguinte, ela disse:
— Este é o caminho para o trem.
— Tem certeza?
Ela assentiu.
— Sou boa em decorar mapas. Uma vez, fiz um de Ogígia: reproduzi cada metro quadrado daquela ilha. Foi a única maneira que arranjei de me manter sã.
Parecia um péssimo jeito de alguém se manter são, mas deixei que ela me guiasse. Atrás de nós, mais germânicos gritavam, mas pareciam estar indo na direção dos portões do teleférico, de onde tínhamos saído. Eu me permiti ter esperanças de que não haveria ninguém na estação de trem.
HA-HA-HA. Eu estava errado.
Nos trilhos havia um trem em miniatura, uma locomotiva verde a vapor com assentos ao ar livre. Ao lado, na plataforma da estação, debaixo de uma cobertura cheia de hera, Litierses estava de pé, a espada desembainhada apoiada no ombro, como a trouxinha de um viajante sem destino. Uma armadura de couro surrada estava presa por cima da camiseta do NEBRASCA. O cabelo cacheado escuro caía em mechas por cima da bandana vermelha, dando a impressão de que havia uma aranha grande na cabeça dele, pronta para pular.
— Bem-vindos. — O sorriso do prefeito pretoriano seria simpático, não fossem as cicatrizes espalhadas por seu rosto. Ele tocou em alguma coisa na orelha. Um dispositivo bluetooth, talvez. — Eles estão aqui na estação — anunciou. — Venham até aqui, mas devagar e com calma. Eu estou bem. Quero esses dois vivos.
Ele deu de ombros como quem pede desculpas.
— Meus homens podem ficar um pouco entusiasmados demais quando o assunto é matar alguém. Ainda mais depois de vocês terem aprontado com eles.
— Foi um prazer.
Duvido que eu tenha conseguido o tom seguro e arrogante que queria. Minha voz falhou. Havia suor no meu rosto. Eu segurava o arco de lado, como uma guitarra, o que não era uma posição apropriada para disparo, e, na outra mão, em vez da flecha que poderia ser útil, trazia um pacote de bolinhos de batata congelados.
Provavelmente, não faria diferença. No meu sonho, vi como Litierses manejava a espada com agilidade. Se eu tentasse disparar nele, nossas cabeças sairiam rolando pelo chão antes de eu puxar a corda do arco.
— Você sabe usar um telefone — reparei. — Ou walkie-talkie, ou seja lá o que for isso. Odeio quando os vilões conseguem falar entre si e nós não.
A gargalhada de Litierses foi como uma lixa raspando metal.
— É. O Triunvirato gosta de ter certas vantagens.
— Por acaso você não nos contaria como eles conseguem... como bloqueiam as comunicações dos semideuses?
— Você não vai viver por tempo suficiente para se importar com isso. Agora, largue o arco. Quanto à sua amiga... — Ele avaliou Calipso. — Mantenha as mãos nas laterais do corpo. Nada de maldições repentinas. Eu odiaria ter que cortar essa sua bela cabecinha.
Calipso deu um sorriso doce.
— Eu estava pensando a mesma coisa sobre você. Largue sua espada e não vou destruir você.
Ela era uma boa atriz. Nota mental: convidá-la para meu acampamento de verão exclusivo no Monte Olimpo, apenas para convidados: Metodologia de Atuação com as Musas. Isso se saíssemos daquela vivos.
Litierses riu.
— Essa é boa. Gostei de você. Mas, em uns sessenta segundos, mais de dez germânicos vão lotar esta estação. Eles não vão pedir educadamente, como eu. — Ele deu um passo à frente e moveu a espada para a lateral do corpo.
Tentei bolar um plano brilhante. Infelizmente, a única coisa que me ocorria era chorar de pavor.
De repente, acima de Litierses, a hera que envolvia o toldo se agitou. O espadachim não pareceu reparar. Eu me perguntei se havia orangotangos brincando lá, ou se talvez alguns deuses olimpianos tinham se reunido para fazer um piquenique e me ver morrer. Ou talvez... Parecia bom demais para ser verdade, mas, a fim de ganhar tempo, larguei o arco.
— Apolo — sibilou Calipso. — O que você está fazendo?
Litierses respondeu por mim.
— Ele está sendo inteligente. Agora, onde está o seu companheiro de viagem?
Pisquei.
— Somos... somos só nós dois.
As cicatrizes no rosto de Litierses se enrugaram, linhas brancas na pele bronzeada, como as cristas de uma duna.
— Pare com isso. Vocês chegaram à cidade voando em um dragão. Três passageiros. Eu quero muito ver Leo Valdez de novo. Temos umas continhas para acertar.
— Você conhece o Leo?
Apesar do perigo em que estávamos, senti um pequeno alívio. Finalmente um vilão queria matar Leo mais do que queria me matar. Já era um progresso!
Calipso não pareceu tão feliz. Ela deu um passo na direção do espadachim com os punhos cerrados.
— O que você quer com o Leo?
Litierses estreitou os olhos.
— Você não é a garota que estava com ele da última vez que o vi. O nome dela era Piper. Você por acaso é namorada do Leo?
Pontos vermelhos apareceram nas bochechas e no pescoço de Calipso.
Litierses se animou.
— Ah, é sim! Que maravilha! Posso usar você para machucá-lo.
— Você não vai machucá-lo — rosnou Calipso.
Acima de Litierses, o toldo tremeu de novo, como se mil ratos estivessem correndo nos caibros. As plantas pareciam estar crescendo, a folhagem ficando mais densa e escura.
— Calipso — falei —, recue.
— Por que eu faria isso? Esse NEBRASCA acabou de ameaçar...
— Calipso! — Segurei os punhos dela e a puxei para longe da sombra na hora que o toldo desabou em cima de Litierses. O espadachim desapareceu embaixo de centenas de quilos de telhas, madeira e hera.
Observei o amontoado de plantas tremendo. Não vi orangotangos, nem deuses, ninguém que pudesse ser responsável pelo desabamento.
— Ela tem que estar aqui — murmurei.
— Quem? — Calipso arregalou os olhos para mim. — O que aconteceu?
Eu queria ter esperanças. Estava com medo de ter esperanças. Fosse qual fosse o caso, nós não podíamos ficar ali. Litierses estava gritando e lutando embaixo dos destroços, o que significava que não estava morto. Seus germânicos chegariam a qualquer segundo.
— Vamos sair daqui. — Apontei para a locomotiva verde. — Eu dirijo.

5 comentários:

  1. Eu acho que foi a Meg que fez isso, mas pode muito bem ser outra coisa

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  2. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 13:24

    Óbvio q foi a filha de Deméter.
    Bem q disseram q ela ta ficando mais forte.

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  3. Meg!!!!! Divosa da colheita!! Por um instante achei que os poderes da Calipso tinham voltado.

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  4. meg sua dilicia. foi tao legal a cal defendendo o leo

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Boa leitura :)