22 de maio de 2017

Capítulo 14 - A espada de um Cavaleiro

A aflição tomou conta de Eragon quando ele acordou. Embora mantivesse os olhos fechados, não conseguia deter uma nova torrente de lágrimas. Ele tentava se lembrar de alguma coisa, procurava alguma ideia que o ajudasse a preservar a sanidade. Não posso viver assim, lastimou-se.
Então, não viva assim. As palavras de Saphira reverberaram na mente dele.
Como? Garrow partiu para sempre! E, com o tempo, terei o mesmo destino. Amor, família, realizações – tudo isso é tirado de nós, e ficamos sem nada. Que valor têm as coisas que fazemos?
O valor está no ato. O seu valor acaba quando você se rende ao desejo de mudar, de viver a vida. As opções estão à sua frente, escolha uma e dedique-se a ela. As ações darão a você uma nova esperança e um novo propósito.
Mas o que posso fazer?
A única orientação verdadeira está dentro do seu coração. Nada menos do que o seu desejo supremo pode ajudá-lo.
Ela o deixou pensando em suas afirmações. Eragon examinou suas emoções. Ficou surpreso ao ver que, mais do que o pesar, também achou dentro de si uma raiva abrasadora.
O que você quer que eu faça? Que vá atrás dos estranhos?
Isso.
A resposta franca o confundiu. Ele respirou fundo, tremendo.
Por quê?
Lembra-se do que você disse na Espinha? Como você me lembrou dos meus deveres enquanto dragão? E como voltei com você apesar de meus instintos dizerem o contrário? Então, você também deve se controlar. Eu pensei e refleti muito nos últimos dias e percebi o que significa ser um dragão e um Cavaleiro: o nosso destino é tentar fazer o impossível, tentar realizar grandes feitos apesar do medo. É a nossa responsabilidade quanto ao futuro.
Não importa o que você diga, essas razões não são fortes o bastante para eu partir! Gritou Eragon.
Então, aqui vão mais outras. As minhas pegadas foram vistas, e as pessoas estão cientes da minha presença. Finalmente, eu serei exposta. Além disso, não resta mais nada aqui para você. Não há mais fazenda,família e...
Roran não morreu! Disse ele com veemência.
Mas, se você ficar, terá de explicar o que aconteceu de verdade. Ele tem o direito de saber como e por que o pai dele morreu. O que ele fará assim que souber da minha existência?
Os argumentos de Saphira giravam na mente de Eragon, mas ele não queria pensar na ideia de deixar o vale Palancar, pois lá era seu lar.
Entretanto, o pensamento de se vingar contra os estranhos era algo extremamente confortante.
Eu sou forte o bastante para isso?
Você me tem.
A dúvida o assolava. Seria uma coisa desesperada e radical de se fazer.
O desprezo por sua indecisão aumentou, e um sorriso hostil surgiu em seus lábios. Saphira estava certa. Nada importava mais, exceto o ato em si.
Agir é o certo. E o que lhe daria mais satisfação do que caçar os estranhos?
Uma energia incrível e uma grande força começaram a crescer dentro dele, reunindo suas emoções e forjando-as em uma barra sólida de ira, com uma palavra gravada nela: vingança. A cabeça dele latejou quando falou com convicção: Eu vou me vingar.
Interrompeu o contato com Saphira e levantou-se da cama. Seu corpo estava tenso como uma mola de aço apertada. Ainda era de manhã bem cedo. Dormira apenas algumas horas.
Nada é mais perigoso do que um inimigo que não tem nada a perder, pensou ele.
E é isso que eu virei.
Ontem, ele tinha dificuldade para andar aprumado, mas agora movia se com mais segurança, era mantido ereto por sua força de vontade implacável. A dor que seu corpo produzia foi desafiada e ignorada.
Quando saía sorrateiramente da casa, ouviu o murmúrio de duas pessoas conversando. Curioso, parou para escutar. Elain falava com sua voz delicada:
— ... Um lugar onde ficar. Nós temos espaço de sobra.
Horst respondeu algo inaudível com sua voz grave.
— É, o pobre rapaz — respondeu Elain.
Desta vez, Eragon conseguiu ouvir a resposta de Horst.
— Talvez... — Houve uma longa pausa. — Andei pensando no que Eragon disse e acho que ele não nos contou tudo.
— Como assim? — quis saber Elain. Havia um tom de preocupação em sua voz.
— Quando fomos até a fazenda, havia marcas na estrada ao lado da maca na qual ele arrastou Garrow. Depois, chegamos a um ponto em que a neve estava repleta de pegadas, remexida. Os rastros e os sinais da maca pararam ali, mas também vimos as mesmas pegadas gigantes da fazenda. E quanto às pernas dele? Não acredito que ele não tenha notado a perda de tanta pele. Eu não queria pressioná-lo antes, mas acho que agora farei mais pressão.
— Talvez o que viu o assustou tanto que não quer falar sobre isso — sugeriu Elain. — Você viu como ele estava confuso.
— Isso ainda não explica como conseguiu trazer Garrow até perto da cidade sem deixar nenhum rastro.
Saphira estava certa, pensou Eragon. É hora de partir. Muitas perguntas de muitas pessoas. Mais cedo ou mais tarde, todos descobrirão as respostas. Ele continuou a andar pela casa, ficando tenso sempre que o piso rangia.
As ruas estavam vazias, poucas pessoas saíam a essa hora do dia. Ele parou um instante e fez força para se concentrar. Não preciso de um cavalo. Saphira será a minha montaria, mas preciso de uma sela. Ela pode caçar para nós dois, então não preciso me preocupar com a comida – embora eu deva arranjar um pouco agora. E as outras coisas de que preciso acharei enterradas na nossa casa.
Ele foi até o curtume de Gedric nos arredores de Carvahall. O cheiro horrível o fez encolher-se, mas não parou e seguiu em direção a um barracão, perto de uma colina, onde as peles curadas eram guardadas.
Ele pegou três peles grandes de vaca da fileira pendurada no teto. O roubo fez Eragon sentir-se culpado, mas ele ponderou: Não é um roubo de verdade. Pagarei Gedric algum dia, e a Horst também. Eragon enrolou o couro grosso e levou-o até um aglomerado de árvores longe do vilarejo. Ele escondeu as peles entre os galhos de uma árvore e voltou para Carvahall.
Agora, vou arranjar comida. Foi até a taverna, com a intenção de tirar comida de lá, mas depois deu um sorriso maroto e mudou de direção. Se ia roubar, que fosse de Sloan.
Entrou sorrateiramente na casa do açougueiro. A porta da frente ficava trancada sempre que Sloan não estava lá, mas a porta lateral ficava fechada com uma fina corrente, que ele conseguiu quebrar facilmente. Os cômodos lá dentro estavam escuros. Tateou cegamente até que suas mãos encontraram pilhas de carne enroladas com panos. Eragon enfiou o máximo possível de peças de carne embaixo de sua camisa, voltando correndo para a rua e, furtivamente, fechando a porta.
Uma mulher gritou o nome dele ali perto. Ele segurou a parte de baixo de sua camisa para que a carne não caísse e se abaixou ao virar uma esquina. Tremeu quando Horst passou entre duas casas, a poucos metros de distância.
Eragon correu assim que Horst saiu de vista. Suas pernas queimavam enquanto corria por um beco, de volta às árvores. Escondeu-se em meio aos troncos e virou-se para ver se estava sendo perseguido. Não havia ninguém por perto. Aliviado, respirou mais tranquilo e foi pegar o couro na árvore. Mas não estava mais lá.
— Está indo a algum lugar?
Eragon se virou depressa. Brom fez uma cara feia para ele. Havia uma ferida feia na lateral de sua cabeça. Um espadim pendia de seu cinto em uma bainha marrom. As peles estavam nas mãos dele.
Eragon estreitou os olhos, irritado. Como aquele velho conseguiu espionar o que ele estava fazendo? Tudo estava tão quieto, que podia jurar que não havia ninguém por perto.
— Trate de me devolver isso! — disparou.
— Por quê? Para que você possa fugir antes mesmo de Garrow ser enterrado? — A acusação foi dura.
— Isso não é da sua conta! — gritou visivelmente nervoso. — Por que você me seguiu?
— Eu não segui — resmungou Brom. — Estava esperando você aqui. Bem, aonde está indo?
— A lugar nenhum. — Eragon jogou-se em direção às peles e tirou-as das mãos de Brom, que não fez nada para impedi-lo.
— Espero que tenha carne o bastante para alimentar o seu dragão.
Eragon ficou paralisado.
— O que você está falando?
Brom cruzou os braços.
— Não brinque comigo. Sei de onde vem aquela marca na sua mão, a gedwëy ignasia, a palma brilhante: você tocou um dragão recém-nascido. Sei por que você me procurou para fazer todas aquelas perguntas e sei que, mais uma vez, os Cavaleiros vivem.
Eragon soltou o couro e a carne. Finalmente, aconteceu... Eu preciso fugir! Não posso correr mais do que ele com as pernas machucadas, mas se...
Saphira! Gritou.
Durante alguns segundos agonizantes, ela não respondeu, mas depois:
Sim.
Nós fomos descobertos! Preciso de você! Ele enviou-lhe uma imagem de onde estava, e ela decolou imediatamente. Agora, ele tinha apenas de se livrar de Brom.
— Como você descobriu? — perguntou Eragon com uma voz cavernosa.
Brom olhou para o horizonte e mexeu os lábios sem produzir som algum, como se estivesse falando com outra pessoa. Depois, ele disse:
— Havia pistas e detalhes por toda parte. Eu só tive de prestar atenção. Qualquer um com o conhecimento apropriado teria feito o mesmo. Diga, como está o seu dragão?
— Ela está bem — disse Eragon. — Nós não estávamos na fazenda quando os estranhos chegaram.
— Ah, as suas pernas. Você estava voando?
Como Brom deduziu? E se os estranhos o tivessem forçado a fazer isso? Talvez eles queiram que Brom descubra aonde estou indo, para preparar uma emboscada. E onde está Saphira? Ele a procurou com a mente e achou-a circulando no alto, acima deles. Venha!
Não, esperarei a hora certa.
Por quê?
Por causa do massacre em Dom Areaba.
O quê?
Brom se recostou em uma árvore com um leve sorriso no rosto.
— Eu falei com ela, e ela concordou ficar acima de nós até resolvermos as nossas diferenças. Como pode ver, você não tem escolha a não ser responder às minhas perguntas. Agora diga: aonde você está indo?
Confuso, Eragon pôs a mão em sua têmpora. Como Brom conseguiu falar com a Saphira? Sua nuca doía, e as ideias se agitavam em sua mente. Mas voltava sempre à mesma conclusão: ele tinha de contar alguma coisa ao velho. Ele disse:
— Eu ia encontrar um lugar seguro para ficar até minhas feridas sararem.
— E depois disso?
A pergunta não podia ser ignorada. A dor na cabeça piorou. Era impossível pensar, nada mais parecia estar claro. Tudo o que queria era contar a alguém os eventos ocorridos nos últimos meses. Ele ficava arrasado ao pensar que seus segredos causaram a morte de Garrow. Ele desistiu e disse trêmulo:
— Eu ia atrás dos estranhos para matá-los.
— É uma tarefa gigantesca para alguém tão jovem — opinou Brom em um tom de voz normal, como se Eragon tivesse proposto a coisa mais óbvia e apropriada para se fazer. — Certamente, é um esforço válido e você está apto a realizá-lo, mas também me ocorre que alguma ajuda não seria nada mal. — Esticou o braço para trás de um arbusto e pegou um grande embrulho. O tom de sua voz ficou mais ríspido. — E também não ficarei para trás enquanto um jovem sai por aí com um dragão.
Será que ele está oferecendo ajuda de verdade ou está preparando uma armadilha? Eragon tinha medo do que seus inimigos misteriosos podiam fazer.
Mas Brom convenceu Saphira a acreditar nele, e eles conseguiram conversar por telepatia. Se ela não está preocupada... Decidiu, então, deixar as suspeitas de lado por hora.
— Eu não preciso de ajuda — disse Eragon e acrescentou rudemente: — Mas você pode vir.
— Então, é melhor irmos logo — disse Brom. Seu rosto ficou imóvel por um momento. — Acho que o seu dragão vai ouvi-lo de novo.
Saphira? Perguntou Eragon.
Fale.
Ele resistiu à ânsia de interrogá-la.
Você pode nos encontrar na fazenda?
Posso. Vocês chegaram a um acordo?
Acho que chegamos. Ela interrompeu o contato e voou para longe.
Eragon olhou para Carvahall e viu pessoas correndo de casa em casa.
— Acho que estão procurando por mim.
Brom levantou uma sobrancelha.
— Provavelmente. Vamos?
Eragon hesitou.
— Eu gostaria de deixar uma mensagem para Roran. Não parece certo fugir sem contar a ele o motivo.
— Já cuidei disso — tranquilizou-o Brom. — Deixei uma carta para ele com Gertrude, explicando algumas coisas. Também tive o cuidado de alertá-lo quanto a certos perigos. Isso será satisfatório?
Eragon concordou com a cabeça. Enrolou a carne com o couro e começou a andar. Tiveram o cuidado de ficar fora de vista até chegarem à estrada, depois apertaram o passo, ansiosos para se distanciarem de Carvahall. Eragon avançava determinado, suas pernas queimavam. O ritmo acelerado da caminhada liberou sua mente para pensar. Assim que chegarmos em casa, não darei, mais um passo com Brom até obter algumas respostas, pensou decidido. Espero que ele possa me falar mais sobre os Cavaleiros e sobre quem vou enfrentar.
Quando os restos da fazenda ficaram ao alcance da vista, as sobrancelhas de Brom se ergueram com raiva. Eragon ficou consternado quando viu como a natureza reclamava a fazenda de volta. Neve e terra já começavam a se empilhar dentro da casa, ocultando a violência do ataque dos estranhos. Tudo que restava do galpão era um retângulo de fuligem que se deteriorava rapidamente.
Brom virou depressa a cabeça para o alto quando o som das asas de Saphira surgiu acima das árvores. Vindo por trás, ela mergulhou na frente deles, quase raspando na cabeça dos dois. Cambalearam quando um golpe de ar os atingiu. As escamas de Saphira brilharam quando circundou a fazenda e pousou graciosamente.
Brom andou para a frente com uma expressão ao mesmo tempo solene e alegre. Os olhos dele brilhavam. Uma lágrima brilhou na maçã do seu rosto antes de desaparecer em sua barba. Ele ficou parado um tempo, ofegante, enquanto a observava e ela, a ele. Eragon ouviu-o balbuciando algo e se aproximou para escutar.
“Então... Vai começar de novo. Mas como e onde terminará? Minha visão está encoberta. Não posso dizer se será uma tragédia ou uma farsa, pois elementos dessas duas coisas estão presentes... Seja lá como for, minha posição não mudou, e eu...”
O que ele dizia foi sumindo aos poucos enquanto Saphira se aproximava orgulhosamente deles.
Eragon passou por Brom, fingindo não ter ouvido nada, e cumprimentou-a. Havia algo diferente entre eles agora, como se se conhecessem mais intimamente, embora ainda fossem estranhos. Ele acariciou o pescoço dela, e a palma da mão dele formigou quando suas mentes se tocaram. Uma grande curiosidade veio dela.
Nunca vi humanos exceto você e Garrow, e ele estava muito ferido, explicou.
Você já viu pessoas através dos meus olhos.
Não é a mesma coisa. Ela se aproximou e virou sua cabeça comprida para poder examinar Brom com um grande olho azul. Vocês, realmente, são criaturas esquisitas, disse de modo crítico e continuou a olhar para ele.
Brom ficou imóvel enquanto ela farejava o ar e, depois, estendeu a mão a ela. Saphira abaixou a cabeça lentamente e deixou que ele tocasse a sua testa. Soltando um bufo, ela pulou para trás e se escondeu atrás de Eragon. A cauda abanava no chão.
O que foi?, perguntou Eragon, mas ela não respondeu. Brom virou-se para ele e perguntou em voz baixa:
— Qual é o nome dela?
— Saphira. — Uma expressão peculiar se formou no rosto de Brom.
Ele bateu com a ponta do seu cajado no chão com tanta força que as juntas dos seus dedos ficaram brancas.
— De todos os nomes que você me deu, esse foi o único que ela gostou. E acho que era apropriado para ela — acrescentou Eragon rapidamente.
— De fato — aquiesceu Brom. Havia algo na voz dele que Eragon não conseguiu identificar. Será que era perda, admiração, medo, inveja? Ele não tinha certeza, poderia ser tudo isso ou nada disso. Brom elevou o tom da voz e disse:
— Saudações, Saphira. É uma honra conhecê-la. — Ele fez um trejeito estranho com a mão e se curvou.
Eu gosto dele, disse Saphira baixinho.
É claro que gosta, todo mundo gosta de ser bajulado. Eragon tocou-a no ombro e foi para a casa em ruínas. Saphira foi atrás dele com Brom. O velho estava com uma aparência vibrante, viva.
Eragon entrou na casa e arrastou-se por baixo da porta, atrás da qual estavam os restos do seu quarto. Ele mal o reconheceu sob as pilhas de madeira quebrada. Guiado pela memória, procurou no lugar onde ficava uma parede interna e achou a sua saca vazia. Parte da armação estava quebrada, mas o dano podia ser reparado facilmente. Ele continuou a remexer nos destroços e, por acaso, achou a ponta do seu arco, que ainda estava em seu tubo de pele de veado.
Embora o couro estivesse arranhado e gasto, ele ficou feliz ao ver que a madeira do arco estava intacta. Até que enfim, um pouco de sorte. Ele esticou o arco e puxou para testá-lo. O arco se curvou graciosamente, sem estalar ou rachar. Satisfeito, começou a caçar a aljava das flechas, que achou soterrada bem perto. Muitas das flechas estavam quebradas.
Afrouxou o arco e passou-o, junto com a aljava, para Brom, que disse:
— É preciso ter um braço forte para puxar isto. — Eragon aceitou o elogio em silêncio. Procurou no resto da casa outros itens que poderiam ser úteis e jogou os objetos perto de Brom. Era uma pilha bem pequena. — E agora? — perguntou Brom. Os olhos dele estavam brilhantes e inquisidores. Eragon olhou para o lado.
— Acharemos um lugar para nos esconder.
— Tem algum em mente?
— Tenho. — Eragon embrulhou todos os suprimentos, exceto o arco, formando um embrulho apertado, e o amarrou. Jogando-o nas costas, ele disse: — Por aqui — e saiu na direção da floresta.
Saphira, siga-nos pelo ar. As suas pegadas são facilmente visíveis e fáceis de seguir.
Tudo bem. Ela decolou atrás deles.
O destino deles ficava perto, mas Eragon tomou uma rota tortuosa para confundir quem quisesse persegui-los. Passou mais de uma hora até que ele finalmente parasse perto de um arbusto bem escondido.
A clareira que havia no meio do bosque era grande o bastante para abrigar uma fogueira, duas pessoas e um dragão. Esquilos vermelhos corriam nas árvores, reclamando em protesto da intrusão deles.
Brom se soltou dos galhos de uma videira e olhou em volta interessado.
— Alguém mais conhece este lugar? — perguntou ele.
— Não. Eu o achei quando nos mudamos para cá. Levei uma semana para chegar até o centro e outra para retirar todos os galhos mortos. — Saphira pousou ao lado deles e dobrou as asas, tendo o cuidado de evitar os espinhos. Ela se enroscou, quebrando galhos finos com suas escamas duras, e descansou a cabeça no chão. Seus olhos misteriosos os observavam atentamente.
Brom inclinou-se sobre o seu cajado e fixou o olhar nela. Seu escrutínio deixou Eragon nervoso.
Eragon os observou até que a fome o forçou a agir. Ele fez uma fogueira, encheu uma panela com neve e a colocou em cima das chamas para derretê-la. Quando a água estava quente, cortou pedaços de carne e os jogou na panela junto com uma pitada de sal. Não é uma refeição de primeira, pensou com raiva, mas vai servir. Provavelmente, comerei só isso por algum tempo, então é melhor ir me acostumando.
O cozido fervia em fogo brando silenciosamente, soltando um rico aroma na clareira. A ponta da língua de Saphira saiu de sua boca e provou o ar. Quando a carne estava macia, Brom se aproximou, e Eragon serviu a comida. Eles comeram em silêncio, evitando cruzar os olhares. Depois, Brom pegou o cachimbo e acendeu-o vagarosamente.
— Por que você quer viajar comigo? — perguntou Eragon.
Uma nuvem de fumaça saiu dos lábios de Brom e subiu em espiral através das árvores até desaparecer.
— Tenho interesse pessoal em mantê-lo vivo — disse.
— Como assim? — exigiu uma resposta Eragon.
— Falando diretamente, sou um contador de histórias e acho que você dará uma boa história. Você é o primeiro Cavaleiro a existir fora do controle do rei em mais de cem anos. O que acontecerá? Você perecerá como um mártir? Você se juntará aos Varden? Ou matará o rei Galbatorix? São perguntas fascinantes. E estarei presente para ver todos os detalhes, não importa o que eu tenha de fazer.
Um nó se formou no estômago de Eragon. Ele não podia se ver fazendo nenhuma daquelas coisas, muito menos se tornar um mártir. Eu quero a minha vingança, mas quanto ao resto... Não tenho nenhuma ambição.
— Tudo bem, mas diga-me: como consegue falar com Saphira?
Brom colocou mais fumo em seu cachimbo sem pressa. Depois de acendê-lo mais uma vez e de colocá-lo na boca, ele disse:
— Muito bem, se você quer respostas, respostas você terá. Mas talvez nem todas sejam do seu agrado. — Ele se levantou, trouxe o seu embrulho para perto do fogo e tirou um longo objeto envolvido com um pano.
Devia ter mais ou menos um metro e meio e, pelo jeito como ele o segurava, devia ser bem pesado.
Retirou o pano, faixa por faixa, como se uma múmia estivesse sendo descoberta. Eragon olhava admirado, imobilizado, quando uma espada foi revelada. O botão da espada era dourado e tinha a forma de uma lágrima, com as laterais cortadas, e tinha um rubi do tamanho de um pequeno ovo. O punho estava envolto por um fio prateado, polido até que brilhasse como uma estrela. A bainha era vermelha como o vinho e lisa como vidro, adornada unicamente por um estranho símbolo negro, entalhado nela. Ao lado da espada estava um cinto de couro com uma pesada fivela.
A última faixa de pano caiu, e Brom passou a arma para Eragon.
O punho encaixou-se na mão de Eragon como se tivesse sido feito para ele. Eragon desembainhou a espada lentamente. Ela deslizou para fora da bainha sem produzir nenhum ruído. A lâmina lisa tinha uma cor vermelha que refletia todas as cores do arco-íris e brilhou com a luz da fogueira. As laterais afiadas se curvavam graciosamente até formarem uma ponta afiada. Uma duplicata do símbolo negro estava inscrita no metal. O balanceamento da espada era perfeito, parecia uma extensão do braço dele, ao contrário das ferramentas brutas da fazenda com as quais ele estava acostumado. Um ar poderoso pairava sobre ela, como se uma força que não pudesse ser detida residisse em seu âmago. Ela foi criada para as convulsões violentas da batalha, para tirar a vida dos homens, porém também contava com uma beleza incrível.
— Uma vez, essa espada já foi de um Cavaleiro — disse Brom sério. — Quando um Cavaleiro terminava o seu treinamento, os elfos o presenteavam com uma espada. Os métodos do forjamento continuam sendo segredo. Portanto, as espadas deles são eternamente afiadas e nunca enferrujam. O costume era que a cor da lâmina combinasse com a cor do dragão do Cavaleiro, mas acho que podemos fazer uma exceção neste caso. O nome dessa espada é Zar’roc. Não sei o que significa. Talvez, algo pessoal para o Cavaleiro que a possuía. — Ele observou Eragon brandindo a espada.
— Onde a conseguiu? — quis saber Eragon. Ele, relutantemente, voltou a colocar a espada na bainha e tentou entregar a arma, mas Brom não fez nenhum movimento para pegá-la.
— Não importa — respondeu Brom. — Apenas direi que tive de passar por uma série de aventuras perigosas e desagradáveis para obtê-la. Considere-a sua. Você tem mais direito de reclamá-la do que eu e, antes de tudo, acho que precisará dela.
A oferta pegou Eragon desprevenido.
— É um presente magnífico. Obrigado. — Sem saber mais o que dizer, ele correu a mão pela bainha. — Que símbolo é este? — perguntou Eragon.
— Essa era a insígnia do Cavaleiro. — Eragon tentou interromper, mas Brom olhou fixamente para ele até que ficasse em silêncio. — Bem, se você realmente quer saber, qualquer pessoa pode aprender a falar com um dragão se tiver o treinamento apropriado. E — ele ergueu um dedo para dar ênfase — aprender somente não significa nada. Eu sei mais sobre dragões e sobre suas habilidades do que quase qualquer outra pessoa viva. Sozinho, você poderia levar anos para aprender o que tenho para lhe ensinar. Ofereço o meu conhecimento como um atalho. E quanto a como eu sei tantas coisas, guardarei isso para mim.
Saphira levantou-se quando Brom acabou de falar e foi zanzando até Eragon, que desembainhou a espada e mostrou-lhe a lâmina.
A espada tem poder, disse Saphira, tocando a ponta da arma com o nariz. A cor iridescente do metal ondulou como água ao encostar nas escamas. Saphira ergueu a cabeça, bufando satisfeita, e a espada voltou à sua aparência normal. Eragon, perplexo, colocoa-a na bainha.
Brom ergueu uma sobrancelha.
— É sobre esse tipo de coisa que estou falando. Os dragões nos surpreendem constantemente. Coisas... Acontecem em volta deles, coisas misteriosas que seriam impossíveis de acontecer em qualquer outro lugar. Embora os Cavaleiros trabalhassem com os dragões durante séculos, eles nunca entenderam completamente todas as habilidades dessas criaturas. Alguns dizem que até mesmo os dragões não conhecem a completa magnitude de seus próprios poderes. Estão ligados com esta terra de tal forma que conseguem superar grandes obstáculos. O que Saphira acabou de fazer ilustrou o que falei antes: há muitas coisas que você não sabe.
Houve uma longa pausa.
— Pode ser. Mas posso aprender — argumentou Eragon. — E os estranhos são a coisa mais importante que preciso conhecer melhor agora. Você tem alguma ideia de quem eles sejam?
Brom respirou fundo.
— Eles são chamados de Ra’zac. Ninguém sabe se esse é o nome da raça deles ou se é como escolheram chamar a si mesmos. Não importa, e se eles têm nomes individuais, os mantêm em segredo. Os Ra’zac nunca foram vistos antes de Galbatorix tomar o poder. Ele deve tê-los achado em uma de suas viagens e alistou-os para servi-lo. Sabe-se pouco ou quase nada sobre eles. Entretanto, posso garantir isso: não são humanos. Quando vi de relance a cabeça de um deles, parecia ter algo que lembrava um bico e tinha olhos negros do tamanho do meu punho, e ainda é um mistério para mim como conseguem falar. Sem dúvida nenhuma, o resto do corpo deles não é menos estranho. É por isso que se cobrem com mantos o tempo todo, independentemente da temperatura.
“Quanto ao poder deles, são mais fortes do que qualquer homem e podem saltar a alturas incríveis, mas não podem usar magia. Você deve agradecer por isso, pois, se pudessem, você estaria há muito tempo sob o domínio deles. Também sei que têm uma forte aversão à luz do sol, embora isso não possa detê-los se estiverem determinados. Nunca cometa o erro de subestimar um Ra’zac, pois eles são espertos e cheios de golpes baixos.”
— Quantos deles existem? — perguntou Eragon imaginando como Brom poderia saber tantas coisas.
— Pelo que sei, somente os dois que você viu. Pode haver mais, porém nunca ouvi falar deles. Talvez sejam os últimos de uma raça em extinção. Sabe, eles são os caçadores de dragões pessoais do rei. Sempre que chegam a Galbatorix boatos de que há um dragão à solta, ele manda os Ra’zac para investigar. Geralmente, um rastro de morte os segue. — Brom soprou uma série de anéis de fumaça e observou-os flutuar para cima, entre os arbustos. Eragon ignorou os anéis até notar que eles mudavam de cor e que corriam de um lado para o outro. Brom piscou o olho de modo maroto.
Eragon estava certo de que ninguém havia visto Saphira, então como Galbatorix poderia saber da existência dela? Quando ele expressou as suas objeções, Brom disse:
— Você está certo, parece pouco provável que alguém de Carvahall tenha informado o rei. Por que você não me conta onde achou o ovo e como criou Saphira? Isso pode ajudar a esclarecer a questão.
Eragon hesitou, mas contou todos os eventos desde que havia encontrado o ovo na Espinha. Era maravilhoso poder, enfim, confidenciar aquilo tudo a alguém. Brom fez algumas perguntas, mas ouviu atentamente na maior parte do tempo. O sol estava para se pôr quando Eragon terminou de contar sua história. Os dois estavam em silêncio quando as nuvens começaram a ganhar uma coloração suave cor-de-rosa.
Eragon, finalmente, quebrou o silêncio:
— Eu só queria saber de onde ela veio. Mas Saphira não lembra.
Brom ergueu a cabeça.
— Não sei... Você esclareceu muitas coisas para mim. Tenho certeza de que ninguém além de nós dois viu Saphira. Os Ra’zac devem ter um informante fora deste vale, alguém que, provavelmente, deve estar morto. Você passou por maus pedaços e conseguiu fazer muitas coisas sozinho. Estou impressionado.
Eragon olhava perplexo para o horizonte e, depois, perguntou:
— O que aconteceu com a sua cabeça? Parece que alguém bateu em você com uma pedra.
— Não foi nada disso, mas é um bom palpite. — Ele deu uma forte tragada no cachimbo. — Eu estava espionando no acampamento dos Ra’zac à noite, tentando aprender o máximo possível sobre eles, quando fui surpreendido nas sombras. Foi uma boa armadilha, mas eles me subestimaram e consegui despistá-los. Mas, entretanto — disse, se contorcendo —, não consegui sair de lá sem ganhar esta lembrança da minha estupidez. Atordoado, caí no chão e só recuperei a consciência no dia seguinte. Mas, já era tarde demais, pois eles já haviam chegado à sua fazenda. Eu não poderia detê-los, mas fui atrás deles assim mesmo. Foi quando nos encontramos na estrada.
Quem ele pensa que é para achar que poderia lutar com os Ra’zac sozinho? Eles o cercaram no escuro, e ele só ficou atordoado?, pensou Eragon irritado.
— Quando você viu a marca, a gëdwey ignasia, na minha mão, por que não me disse quem eram os Ra’zac? Eu teria alertado Garrow em vez de ter ido primeiro até Saphira e nós três poderíamos ter fugido.
Brom suspirou.
— Eu não tinha certeza do que fazer naquela hora. Achei que poderia manter os Ra’zac longe de você, e assim que eles fossem embora, eu falaria com você sobre Saphira. Mas eles foram mais espertos do que eu. É um erro que lamento profundamente e que custou extremamente caro para você.
— Quem é você? — quis saber Eragon, ficando amargo de repente. — Como é que um simples contador de histórias de um vilarejo tem uma espada verdadeira de Cavaleiro? Como você sabe sobre os Ra’zac?
Brom bateu o seu cachimbo.
— Acho que já deixei bem claro que não falaria sobre isso.
— Meu tio está morto por causa disso. Morto! — exclamou Eragon, fazendo um movimento brusco com a mão. — Só confiei em você até agora porque Saphira o respeita, só isso! Você não é aquela pessoa que vi em Carvahall durante todos esses anos. Explique-se!
Durante um longo tempo, Brom olhou fixamente para a fumaça que serpenteava entre eles, rugas profundas marcavam sua testa. Quando se mexeu, foi para dar apenas outra tragada. Finalmente, ele disse:
— Provavelmente, você não deve ter pensado nisso, mas passei a maior parte da minha vida fora do vale Palancar. Foi apenas em Carvahall que adotei o status de contador de histórias. Já desempenhei vários papéis para muitas pessoas diferentes, tenho um passado complicado. Foi, em parte, por causa do desejo de fugir dele que vim para cá. Então, não sou o homem que você pensa que sou.
— Ah! — disparou Eragon. — Então, quem você é?
Brom sorriu gentilmente.
— Sou a pessoa que está aqui para ajudá-lo. Não despreze essas palavras, são as mais verdadeiras que já falei. Mas não responderei às suas perguntas. Por enquanto, você não precisa conhecer a minha história e, além disso, ainda não fez nada para merecer esse direito. Sim, tenho certos conhecimentos que Brom, o contador de histórias, nunca teria, mas sou mais do que ele. Você terá de aprender a viver com o fato de que eu não revelo detalhes da minha vida a qualquer um que pergunte!
Eragon ficou olhando fixamente para ele.
— Vou dormir — disse, deixando o fogo.
Brom não pareceu surpreso, mas havia tristeza em seus olhos. Esticou sua manta ao lado da fogueira enquanto Eragon se deitava ao lado de Saphira. Um silêncio frio pairou sobre o acampamento.

Um comentário:

  1. Eu gosto dele, disse Saphira baixinho.
    É claro que gosta, todo mundo gosta de ser bajulado

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Boa leitura :)