27 de maio de 2017

Capítulo 14 - Celbedeil

A manhã sem alvorada encontrou Eragon atravessando o salão principal de Undin, ouvindo o chefe do clã falar com Orik na língua dos anões. Undin interrompeu seu discurso assim que Eragon se aproximou e disse:
— Oh, Matador de Espectros. Dormiu bem?
— Sim.
— Bom. — Ele gesticulou para Orik. — Andamos pensando na partida de vocês. Esperava que pudessem passar algum tempo conosco. Mas sob as atuais circunstâncias, parece melhor retomarem a jornada amanhã bem cedo, quando haverá pouca gente nas ruas que possa perturbá-los. Os suprimentos e o transporte estão sendo preparados enquanto falamos. Hrothgar ordenou que vocês fossem escoltados por guardas até Ceris. Aumentei o número de três para sete.
— E até lá, o que faremos?
Ûndin encolheu seus ombros cobertos de peles de animais.
— Pretendia lhes mostrar as maravilhas de Tarnag, mas seria uma tolice passear com vocês pela minha cidade. No entanto, Grimstborith Gannel os convidou para passarem o dia em Celbedeil. Aceitem se quiserem. Vocês estarão seguros ao seu lado. — O chefe do clã parecia ter esquecido sua declaração anterior de que Az Sweldn rak Anhûin não iria maltratar um convidado.
— Obrigado, pode ser. — Assim que Eragon deixou o salão, ele puxou Orik para o lado e perguntou: — Até que ponto essa rixa é realmente séria? Preciso saber a verdade.
Orik respondeu com uma relutância óbvia.
— No passado, não era incomum que vendetas durassem gerações. Famílias inteiras eram extintas. Foi imprudente da parte de Az Sweldn rak Anhûin evocar as tradições antigas, tal coisa não é feita desde as últimas guerras entre os clãs... Até que eles rescindam seu juramento, você terá que se prevenir contra sua traição, seja por um ano ou por um século. Lamento que a sua amizade por Hrothgar tenha lhe causado tamanho transtorno, Eragon. Mas você não está sozinho. Dûrgrimst Ingeitum está ao seu lado nisso.
Assim que saiu, Eragon correu para Saphira, que havia passado a noite enrolada no pátio. Você se importa se eu for visitar Celbedeil?
Vá se tiver que ir. Mas leve Zar’roc. Ele seguiu seu conselho, e também carregou consigo o pergaminho de Nasuada dentro da túnica.
Quando Eragon se aproximou dos portões do muro que cercava o castelo, cinco anões empurraram o madeiramento tosco para o lado, e depois o cercaram, com as mãos em seus machados e espadas, ao mesmo tempo em que inspecionavam a rua. Os guardas permaneceram ao lado de Eragon enquanto este refazia o caminho do dia anterior até a entrada bloqueada do primeiro patamar de Tarnag.
Eragon estremeceu. A cidade parecia estranhamente vazia. Portas trancadas, janelas fechadas e os poucos pedestres à vista viravam o rosto e entravam em alamedas para não ter de passar a seu lado. Eles estão com medo de serem vistos junto comigo, percebeu. Talvez porque saibam que Az Sweldn rak Anhûin fará retaliações contra quem quer que me ajude. Ansioso para escapar das ruas abertas, Eragon levantou a mão para bater, mas antes que pudesse fazê-lo, uma porta rangeu para fora, e um anão, usando um manto negro, o chamou de dentro. Apertando o cinturão de sua espada, Eragon entrou, deixando os guardas do lado de fora.
Sua primeira percepção foi a cor. Um gramado verde incandescente estendia-se obliquamente até o alto da colina de Celbedeil, como se fosse um manto caído sobre o grandioso pilar simétrico que sustentava o templo. Heras estrangulavam as antigas paredes da construção, metro após metro de raízes retorcidas, com o orvalho ainda brilhando em suas folhas pontudas. E curvando-se por cima de tudo, exceto as montanhas, havia uma grande cúpula branca guarnecida com ouro entalhado.
Sua percepção seguinte foi o odor. Os perfumes de flores e incensos se misturavam num aroma tão etéreo, que Eragon pensou que poderia sobreviver só de cheiros.
A última foi o som, pois apesar dos passos dos sacerdotes andando por caminhos que formavam mosaicos e terrenos espaçosos, o único ruído que Eragon podia discernir era o agitar suave de asas de uma gralha voando mais acima.
O anão o chamou novamente e saiu andando pela avenida principal que dava em Celbedeil. Ao passarem por debaixo do seu beirai, Eragon pôde simplesmente se maravilhar com a riqueza e a arte que o cercavam. As paredes estavam repletas de joias de todas as cores e feitios — aliás, impecáveis — e ouro vermelho havia sido forjado por dentro dos veios que guarneciam os tetos de pedra, paredes e chão. Pérolas e prata davam tonalidades ao cenário. Ocasionalmente, eles passavam por uma divisória talhada inteiramente em jade.
O templo era desprovido de decorações em pano. Na falta delas, os anões haviam talhado uma profusão de estátuas, muitas representando monstros e divindades presas em batalhas épicas.
Depois de subir diversos andares, atravessaram uma porta de cobre encerada com verdete e ornada com emaranhado de nós desenhados, adentrando uma sala vazia com piso de madeira. Havia armaduras mal penduradas nas paredes, junto com prateleiras cheias de espadas idênticas àquela com a qual Angela havia lutado em Farthen Dûr.
Gannel estava lá, treinava contra três oponentes anões mais jovens. O manto do chefe do clã estava preso acima de suas coxas para que ele pudesse se mover livremente. Seu rosto era uma carranca furiosa enquanto o cabo de madeira girava em suas mãos, lâminas cegas moviam-se rapidamente como vespas irritadas.
Dois dos anões adversários deram um bote em Gannel, só para serem bloqueados num soar de madeira e metal enquanto ele girava na frente de ambos, atingindo seus joelhos e cabeças, jogando-os no chão. Eragon sorria enquanto observava Gannel desarmando seu último oponente numa rajada brilhante de golpes.
Finalmente o chefe do clã notou Eragon e dispensou os outros anões. Assim que Gannel colocou sua arma numa prateleira, Eragon disse:
— Todos os Quan são tão peritos assim no manejo da espada? Parece uma habilidade estranha para sacerdotes.
Gannel o encarou.
— Precisamos ter condições de nos defendermos, não? Muitos inimigos espreitam esta terra.
Eragon acenou com a cabeça, concordando.
— Essas espadas são únicas. Nunca vi nada parecido, exceto uma usada por uma herbolária na batalha de Farthen Dûr.
O anão prendeu a respiração e depois deixou o ar sair por entre os dentes.
— Angela. — Sua expressão ficou amarga. — Ela ganhou seu bastão de um sacerdote durante um jogo de adivinhações. Foi um truque sórdido, já que somos os únicos com permissão de usar a hûthvírn. Ela e Arya... — Ele encolheu os ombros e foi até uma pequena mesa, onde encheu duas canecas com cerveja. Ao passar uma delas a Eragon, ele disse: — Convidei-o para vir aqui hoje a pedido de Hrothgar. Ele me disse que, se você aceitasse sua oferta para se tornar Ingeitum, eu deveria inteirá-lo das tradições dos anões.
Eragon bebericou a cerveja e se manteve em silêncio, observando como a sobrancelha grossa de Gannel retinha a luz, as sombras cobriam seu rosto.
O chefe do clã continuou:
— Nunca antes nossas crenças secretas foram transmitidas para um ádvena, e você não deverá falar delas para humanos ou elfos. Porém, sem este conhecimento, você não poderá defender o que significa ser knurla. Você é Ingeitum agora: nosso sangue, nossa carne, nossa honra. Você entende?
— Sim.
— Então venha. — Com sua cerveja na mão, Gannel tirou Eragon do salão de duelos e o conduziu por cinco grandes corredores, parando na arcada de uma câmara escura enevoada de incenso. De frente para eles, o contorno atarracado de uma estátua se expandia pesadamente do chão até o teto, uma luz fraca projetava-se sobre o rosto meditativo do anão, talhado com uma crueza incomum em granito marrom.
— Quem é ele? — perguntou Eragon, intimidado.
— Gûntera, rei dos Deuses. Ele é um guerreiro e um sábio, embora instável, por isso queimamos oferendas para nos assegurarmos de sua afeição nos solstícios, antes da semeadura, e em mortes e nascimentos. — Gannel torceu a mão num gesto estranho e se curvou para a estátua. — É para ele que rezamos antes das batalhas, por ele ter moldado esta terra a partir dos ossos de um gigante e instituir a ordem do mundo. Todos os
reinos são de Gûntera.
Depois, Gannel instruiu Eragon sobre como venerar apropriadamente o deus, explicando os sinais e as palavras que eram usadas para homenageá-lo. Ele elucidou o significado do incenso — símbolo da vida e da felicidade — e passou longos minutos repassando lendas sobre Gûntera, como o deus nasceu totalmente formado do ventre de uma loba durante o despertar de estrelas, como ele havia enfrentado monstros e gigantes para ganhar um lugar para sua família em Alagaësia, e como tomou Kílf, a deusa dos rios e do mar, como sua companheira.
Em seguida, os dois foram até a estátua de Kílf, esculpida com extraordinária delicadeza numa pedra azul clara. Seu cabelo esvoaçava para trás em ondulações suaves, descia pelo pescoço e emoldurava encantadores olhos de ametista. Em suas mãos, ela segurava uma vitória-régia e um pedaço de uma pedra vermelha e porosa que Eragon não reconheceu.
— O que é aquilo? — perguntou ele, apontando.
— Um coral tirado do fundo do mar que beira as Beor.
— Coral?
Gannel tomou um gole de cerveja e depois disse:
— Nossos mergulhadores o encontraram enquanto procuravam pérolas. Parece que, na água salgada, algumas pedras crescem iguais às plantas.
Eragon o fitou maravilhado. Ele nunca havia pensado que seixos ou rochas pudessem estar vivos, no entanto ali estava uma prova de que tudo de que precisavam era água e sal para florescer. Aquilo finalmente explicava como as rochas haviam continuado a aparecer em seus campos no vale Palancar, mesmo depois que o solo era limpo a cada primavera. Elas cresciam!
Eles prosseguiram até chegar em Urûr, deus do ar e dos céus, e seu irmão Morgothal, deus do fogo. Na estátua carmim de Morgothal, o sacerdote contou que os irmãos se amavam tanto que nenhum dos dois podia existir independentemente. Consequentemente o palácio de Morgothal queimava o céu durante o dia e de sua fornalha faíscas vagueavam pela noite no alto. E também por consequência, Urûr alimentava constantemente o irmão para que ele não morresse. Só sobraram mais dois deuses depois disso: Sindri — a mãe da terra — e Helzvog.
A estátua de Helzvog era diferente das outras. O deus nu estava semicurvado sobre um bloco de pederneira cinzenta, do tamanho de um anão, e a acariciava com a ponta de seu dedo indicador. Os músculos de suas costas se enfeixavam e se atavam com uma tensão inumana, contudo sua expressão era incrivelmente afável, como se houvesse um bebê recém nascido diante dele.
A voz de Gannel tornou-se baixa e estridente:
— Gûntera pode ser o rei dos Deuses, mas é Helzvog que segura nossos corações. Foi ele que sentiu que a terra deveria ser povoada depois que os gigantes foram derrotados. Os outros deuses discordaram, mas Helzvog os ignorou e, em segredo, criou o primeiro anão a partir da base de uma montanha.
Ele fez uma pausa e prosseguiu:
— Quando seu plano foi descoberto, o ciúme se abateu sobre os deuses, e Gûntera criou os elfos para controlar a Alagaësia ele mesmo. Então Sindri fez os humanos nascerem do solo, e Urûr e Morgothal combinaram sua sabedoria e soltaram dragões no reino. Só Kílf se conteve. Assim as primeiras raças surgiram neste mundo.
Eragon absorveu as palavras de Gannel, reconhecendo a sinceridade do chefe do clã, mas incapaz de sufocar uma simples indagação: Como ele sabe? No entanto, Eragon sentiu que seria uma pergunta deselegante e simplesmente acenou com a cabeça enquanto escutava.
— Isso — disse Gannel, terminando de beber toda a sua cerveja — leva ao nosso mais importante ritual, o qual sei que Orik discutiu com você... Todos os anões devem ser sepultados em pedra, caso contrário nossos espíritos jamais se juntarão a Helzvog em seu castelo. Não somos da terra, do ar ou do fogo, mas da pedra. E como Ingeitum, é sua responsabilidade garantir um lugar de descanso apropriado para qualquer anão que morra na sua companhia. Se você falhar — sem a causa ser por ferimentos ou inimigos — Hrothgar o exilará, e nenhum anão irá reconhecer a sua presença até depois de sua morte. — Ele endireitou os ombros, e olhou fixamente para Eragon. — Você tem muito mais o que aprender, mas se defender os costumes que resumi hoje, você se sairá bem.
— Não esquecerei — afirmou Eragon.
Satisfeito, Gannel o levou para longe das estátuas e juntos subiram uma escada em espiral. Enquanto subiam, o chefe do clã enfiou a mão no seu manto e tirou um colar simples, uma corrente que atravessava o cabo de um martelo de prata em miniatura. Ele o deu para Eragon.
— Este é outro favor que Hrothgar me pediu — explicou Gannel. —Ele teme que Galbatorix possa ter se apossado de uma imagem sua retirada das mentes dos Ra’zac, do Espectro ou dos inúmeros soldados que o viram por todo o Império.
— Por que eu deveria temer isso?
— Porque Galbatorix poderia localizá-lo a partir daí. Talvez já o tenha feito. — Um tremor de apreensão serpenteava pelo corpo de Eragon, como se fosse uma cobra gelada. Devia ter pensado nisso, repreendeu a si próprio. — O colar impedirá que alguém vigie você ou o seu dragão enquanto o estiver usando. Eu mesmo fiz o encanto, por isso ele se manterá mesmo perante a mente mais poderosa. Mas esteja avisado, quando ativado, o colar irá se alimentar das suas forças até você o retirar ou o perigo passar.]
— E se eu estiver dormindo? Será que o colar poderia consumir toda a minha energia antes que eu me apercebesse?
— Não. Ele o acordará.
Eragon rolou o martelo entre os dedos. Era difícil anular feitiços dos outros, muito menos os de Galbatorix. Se Gannel é tão talentoso, que outros encantos podem estar escondidos em seu presente? Ele notou uma linha de runas entalhada ao longo do cabo do martelo. Lia-se Astim Hefthyn.
Quando terminaram os degraus ele perguntou:
— Por que os anões escrevem com as mesmas runas que os humanos?
Pela primeira vez desde que se conheceram, Gannel riu, e sua voz reverberava pelo templo enquanto seus ombros largos tremiam.
— É o contrário, os humanos é que escrevem com as nossas runas. Quando os seus ancestrais aportaram na Alagaësia, eram tão analfabetos quanto coelhos. No entanto, logo adotaram o nosso alfabeto e o combinaram com esta linguagem. Algumas das suas palavras até vêm de nós, como pai, que originalmente era farthen.
— Então Farthen Dûr significa...? — Eragon deslizou o colar pela cabeça e o enfiou dentro da túnica.
— Nosso pai.
Parando numa porta, Gannel conduziu Eragon por uma galeria curva localizada logo abaixo da cúpula. A passagem se ligava a Celbedeil, oferecendo, através das arcadas abertas, uma vista das montanhas atrás de Tarnag, assim como da cidade coberta de terraços bem lá embaixo. Eragon mal apreciou a vista, pois a parede interna da galeria estava coberta por uma pintura única e contínua, um gigantesco painel narrativo que começava com uma descrição da criação dos anões sob a mão de Helzvog. As figuras e os objetos estavam em alto relevo, dando ao panorama uma sensação hiper-realista com suas cores brilhantes, fortes e detalhadas.
Fascinado, Eragon perguntou:
— Como isso foi feito?
— Cada cena é entalhada em pequenas chapas de mármore, que são queimadas com esmalte e depois encaixadas numa única peça
— Não seria mais fácil usar tinta comum?
— Seria — disse Gannel —, mas não se quiséssemos que ela durasse séculos... milênios até... sem mudar de aparência. O esmalte nunca desbota ou perde o seu brilho, ao contrário da tinta a óleo. A primeira parte foi entalhada simplesmente uma década depois da descoberta de Farthen Dúr, bem antes dos elfos colocarem os pés na Alagaësia.
O sacerdote pegou Eragon pelo braço e o guiou ao longo do quadro. Cada passo os levava por anos incontáveis de história. Eragon viu como os anões outrora foram nômades numa planície aparentemente interminável, até que a terra ficou tão quente e desolada que foram forçados a migrar para o sul em direção às montanhas Beor. Foi assim que o Deserto Hadarac foi formado, percebeu ele, estupefato.
Enquanto os dois passavam pelo mural, seguindo em direção aos fundos de Celbedeil, Eragon testemunhou tudo desde a domesticação de Feldûnost até o entalhe de Isidar Mithrim, o primeiro encontro dos anões com os elfos e a coroação de cada novo rei dos anões. Dragões apareciam frequentemente, queimando e assassinando. Eragon teve dificuldade para evitar fazer comentários diante dessas partes.
Seus passos foram diminuindo quando a pintura começou a mostrar o episódio que ele ansiava por encontrar: a guerra entre elfos e dragões. Os anões haviam devotado um grande espaço para a destruição provocada pelas duas raças em Alagaësia. Eragon encolheu os ombros de horror ao ver os dragões e os elfos matando uns aos outros. As batalhas continuaram por metros a fio, cada imagem mais sangrenta do que a anterior, até que a escuridão se ergueu e um jovem elfo foi mostrado ajoelhado na beira de um penhasco, segurando um ovo branco de dragão.
— Esse é...? — sussurrou Eragon.
— Sim, é Eragon, o Primeiro Cavaleiro. É um belo retrato também, já que ele concordou em posar para os nossos artesãos.
Atraído pelo seu fascínio, Eragon estudou o rosto do seu homônimo. Sempre o imaginei mais velho. O elfo possuía olhos angulosos que se voltavam na direção de um nariz curvo e de um queixo estreito, dando-lhe uma aparência selvagem. Era um rosto estranho, completamente diferente do seu... e contudo seus ombros largos e tensos lembravam Eragon de como ele se sentira quando encontrou o ovo de Saphira. Não somos tão diferentes, você e eu, pensou ele, tocando no esmalte frio. E uma vez que minha sensibilidade se iguala à sua, poderemos realmente ser irmãos ao longo do tempo... Fico me perguntando se você aprovaria as minhas atitudes?
Ele sabia que os dois haviam feito pelo menos uma escolha idêntica, ambos guardaram o ovo.
Ele ouviu uma porta se abrir e se fechar e, quando se virou, viu Arya se aproximando, vindo da outra extremidade da galeria. Ela examinou cuidadosamente a parede com a mesma expressão vaga que Eragon a vira usar quando confrontou o Conselho dos Anciãos. Quaisquer que fossem suas emoções particulares, ele sentia que a elfa havia achado a situação desagradável.
Arya inclinou a cabeça:
— Grimstborith.
— Arya.
— Você andou instruindo Eragon sobre a sua mitologia?
Gannel sorriu positivamente.
— As pessoas devem sempre entender a fé da sociedade a qual pertencem.
— Contudo compreensão não implica em crença. — Ela bateu com o dedo no pilar de uma arcada. — Nem significa que aqueles que fornecem tais crenças o fazem por mais do que... ganho material.
— Você negaria os sacrifícios que o meu clã faz para trazer conforto aos nossos irmãos?
— Não nego nada, só pergunto que bem poderia advir caso a sua riqueza fosse distribuída entre os necessitados, os famintos, os desabrigados ou até mesmo usada para comprar suprimentos para os Varden. Em vez disso, você a pôs toda num monumento apenas para narrar a sua versão ilusória dos fatos.
— Chega! — O anão cerrou os punhos, e seu rosto se encheu de manchas. — Sem nós, as colheitas iriam murchar até secar. Rios e lagos iriam transbordar. Nossos rebanhos gerariam feras de um olho só. Os próprios céus iriam se despedaçar ante a fúria dos deuses! — Arya sorriu. — Só as nossas orações e serviços impedem de acontecer isso. Se não fosse por Helzvog, onde...
Eragon logo perdeu o fio da meada da discussão. Ele não entendia as críticas vagas de Arya ao Dûrgrimst Quan, mas conseguiu captar, através das respostas de Gannel que, indiretamente, ela havia deduzido que os deuses dos anões não existiam, questionando a capacidade mental de cada anão que entrava num templo, e apontado o que tomou como falhas em seu raciocínio — tudo numa voz agradável e polida.
Depois de alguns minutos, Arya levantou a mão, interrompendo Gannel.
— Esta é a diferença entre nós, Grimstborith. Você se dedica àquilo que acredita ser verdade mas não pode provar. Com isso, temos que concordar em discordar. — Ela então se virou para Eragon. — Az Sweldn rak Anhûin inflamou os cidadãos de Tarnag contra você. Ûndin acredita, assim como eu, que seria melhor você ficar resguardado no castelo dele até a hora de partirmos.
Eragon hesitou. Ele queria ver mais de Celbedeil, mas se fosse haver problemas, então seu lugar era ao lado de Saphira. Curvou-se para Gannel e implorou para ser desculpado.
— Você não precisa se desculpar, Matador de Espectros — disse o chefe do clã. Ele se voltou para Arya. — Faça o que tiver que ser feito, e que as bênçãos de Gûntera estejam sobre você.
Juntos, Eragon e Arya deixaram o templo e, cercados por uma dúzia de guerreiros, saíram a passos rápidos pela cidade. Enquanto o faziam, Eragon ouviu gritos vindos de uma multidão furiosa num pavimento inferior. Uma pedra caiu em cima de um telhado nas redondezas. Movimento atraiu seu olhar para um rolo de fumaça negra que se erguia dos limites da cidade.
Assim que chegou ao castelo, Eragon correu para o seu quarto. Lá, colocou sua cota de malha, amarrou as grevas às suas canelas e as braças aos seus antebraços, enfiou o capuz de couro, o barrete e depois o elmo sobre sua cabeça, e pegou o escudo.
Enquanto esvaziava sua saca e seus alforjes, correu de volta para o pátio, onde se sentou encostado na perna dianteira direita de Saphira.
Tamag é como um formigueiro em polvorosa, observou ela.
Espero que não sejamos mordidos.
Arya logo se juntou a eles, assim como fez um grupo de cinquenta anões fortemente armados que se posicionaram no meio do pátio. Os anões esperavam impassivelmente, falando em grunhidos baixos enquanto vigiavam o portão trancado e a montanha que se erguia atrás deles.
— Eles temem — disse Arya, sentada ao lado de Eragon — que as multidões possam evitar que alcancemos as balsas.
— Saphira poderá nos levar voando.
— Fogo na Neve também? E os guardas de Ûndin? Não, já que estamos abrigados, devemos esperar até a fúria dos anões diminuírem. — Ela estudou o céu crepuscular. — E lamentável você ter conseguido ofender tantos anões, mas talvez fosse inevitável. Os clãs sempre foram dados a briga , o que agrada um enfurece o outro.
Ele colocou o dedo em sua cota.
— Gostaria de não ter aceitado a oferta de Hrothgar.
— Ah, sim. Como foi com Nasuada, creio que você fez a única opção viável. Ninguém pode culpá-lo. A culpa, se é que há, é de Hrothgar por ter feito o convite em primeira instância. Ele devia estar bem a par das repercussões.
O silêncio reinou por alguns minutos. Meia dúzia de anões marchavam em torno do pátio, esticando suas pernas. Finalmente, Eragon perguntou:
— Você tem algum familiar em Du Weldenvarden?
Demorou um bom tempo para que Arya respondesse.
— Nenhum de que eu seja muito próxima.
— Por que... por que isso?
Ela hesitou novamente.
— Eles não gostaram da minha opção de me tornar a enviada e embaixadora da Rainha, parecia inapropriado. Tão logo ignorei suas objeções e mantive o yawë tatuado no meu ombro, que indica que eu me devotei ao bem maior da nossa raça, como é o caso do anel que você ganhou de Brom, minha família se recusou a me ver novamente.
— Mas isso foi há mais de setenta anos — protestou ele.
Arya olhou para longe, escondendo seu rosto atrás de uma cortina de cabelo. Eragon tentou imaginar como devem ter sido as coisas para ela — condenada pela família ao ostracismo e enviada para viver entre duas raças completamente diferentes. Não é de se espantar que ela seja tão introvertida, percebeu ele.
— Há outros elfos fora de Du Weldenvarden?
Ainda mantendo seu rosto coberto, ela disse:
— Três de nós fomos enviados de Ellesméra. Fáolin e Glenwing sempre viajavam comigo quando transportávamos o ovo de Saphira entre Du Weldenvarden e Tronjheim. Só eu sobrevivi à emboscada de Durza.
— Como eram eles?
— Guerreiros orgulhosos. Glenwing adorava conversar com os pássaros com a sua mente. Ele costumava ficar no meio da floresta cercado por um bando de pássaros canoros, ouvia-os durante horas. Depois costumava nos cantar as melodias mais bonitas.
— E Fáolin? — Desta vez Arya se recusou a responder, embora suas mãos apertassem o seu arco. Sem se deixar intimidar, Eragon pensou um pouco e mudou de assunto. — Por que você tem tanta antipatia por Gannel?
Ela o encarou subitamente e tocou seu rosto com os dedos delicados. Eragon se retraiu, surpreso.
— Essa — disse ela — é uma conversa para outra hora. — Depois disso a elfa se levantou e calmamente ocupou uma nova posição no pátio.
Confuso, Eragon ficou olhando para as suas costas. Não entendo, disse ele, recostado à barriga de Saphira. Ela bufou, distraída, o envolveu com o pescoço e o rabo, e caiu no sono na mesma hora.
Enquanto o vale ia escurecendo, Eragon lutou para se manter alerta. Ele puxou o colar de Gannel e o examinou várias vezes usando a magia, mas só encontrou o encanto de proteção do sacerdote. Desistindo, enfiou o colar de novo sob a túnica, colocando o escudo na sua frente, e se aceitou para esperar a noite passar.
Ao primeiro sinal de luz no céu — embora o próprio vale ainda estivesse debaixo de sombras e permaneceria assim até o meio-dia —, Eragon acordou Saphira. Os anões já haviam despertado, ocupados em disfarçar suas armas para que pudessem rastejar por Tarnag no mais completo sigilo. Ûndin chegou até a fazer Eragon amarrar trapos em volta das garras de Saphira e dos cascos de Fogo na Neve.
Quando tudo estava pronto, Undin e seus guerreiros formaram um amplo bloco em torno de Eragon, Saphira e Arya. Os portões foram cuidadosamente abertos — não vinha som algum das dobradiças lubrificadas — e todos seguiram em direção ao lago.
Tarnag parecia deserta, as ruas vazias, ladeadas por casas onde seus habitantes jaziam abstraídos e sonhadores. Os poucos anões que eles encontravam os encaravam silenciosamente, para depois se afastar como fantasmas no crepúsculo.
No portão de cada patamar, um guarda lhes acenava sem fazer qualquer comentário. Logo se viram cruzando os campos barrentos da base de Tarnag. Além destes, alcançaram o cais de pedra que beirava a água calma e cinzenta.
Havia duas grandes balsas a espera deles, amarradas em um píer. Três anões estavam agachados dentro da primeira, quatro na segunda. Eles se levantaram assim que Ûndin apareceu.
Eragon ajudou os anões a vendar Fogo na Neve e prender suas patas, para depois persuadir o cavalo relutante a subir na segunda balsa, onde foi amarrado e forçado a se agachar. Enquanto isso, Saphira escorregava do píer para dentro do lago. Apenas sua cabeça ficou acima da superfície enquanto ela nadava dentro d’água.
Ûndin segurou o braço de Eragon.
— E aqui que nos separamos. Você está com os meus melhores homens, eles irão protegê-lo até você chegar a Du Weldenvarden. — Eragon tentou agradecê-lo, mas Ûndin balançou a cabeça. — Não é uma questão de gratidão. E o meu dever. Só fico envergonhado por sua estada ter sido manchada pelo ódio de Az Sweldn rak Anhûin.
Eragon fez uma reverência e depois embarcou na primeira balsa com Orik e Arya. As espias foram soltas e os anões se afastaram da margem usando longas varas. À medida que a alvorada se aproximava, as duas balsas flutuavam na direção da foz do Az Ragni, e Saphira ia nadando entre ambas.

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