27 de maio de 2017

Capítulo 13 - Az sweldn rak anhûin

A luz irrompeu dentro do túnel assim que as portas se abriram. Eragon estremeceu, seus olhos extremamente desacostumados à luz do dia depois de tanto tempo no subterrâneo. Ao lado dele, Saphira sibilava e arqueava o pescoço para ter uma visão melhor dos arredores.
Haviam levado dois dias para percorrer a passagem subterrânea de Farthen Dûr, embora parecesse mais para Eragon, devido ao crepúsculo interminável que os cercava e ao silêncio imposto pela escuridão ao grupo. No todo, só conseguia se lembrar de um punhado de palavras sendo trocadas durante a jornada.
Eragon esperara poder aprender um pouco mais sobre Arya enquanto viajavam juntos, mas a única informação que recolheu foi simplesmente resultado de sua observação. Ele não havia jantado ao seu lado antes e ficou surpreso ao ver que ela havia trazido a sua própria comida e não comia carne. Quando ele lhe perguntou o porquê, Arya disse:
— Você jamais irá consumir a carne de um animal novamente depois de estar treinado ou, se o fizer, será apenas na mais rara da ocasiões.
— Por que eu devo desistir de comer carne? — zombou ele.
— Não posso explicar com palavras, mas você entenderá assim que chegarmos a Ellesméra.
Tudo aquilo foi esquecido enquanto ele corria para a soleira, ansioso para ver o seu destino. Encontrou-se em pé num afloramento de granito, mais de trinta metros acima de um lago violeta, brilhante sob o sol do leste. Como no Kóstha-mérna, a água ia de montanha a montanha e preenchia toda a extensão do vale. No ponto mais distante do lago, o Az Ragni fluía para o norte, seguindo entre os picos até — muito ao longe —
desembocar precipitadamente nas planícies ao leste.
A sua direita, as montanhas eram desertas, exceto por algumas trilhas, mas à sua esquerda... à sua esquerda havia a cidade anã de Tarnag. Ali, os anões haviam remodelado as aparentemente imutáveis Beor, transformaram-nas numa série de terraços. Os mais baixos eram, em grande parte, fazendas — pátios de terra esperavam para serem cultivados — de castelos baixos e largos feitos inteiramente de pedra. Acima daqueles platôs, erguiam-se, patamar sobre patamar, construções conectadas até culminarem num domo gigante branco e dourado. Era como se toda a cidade fosse um lance de degraus que levassem ao domo. A cúpula reluzia como se fosse uma pedra-da-lua polida, uma pérola láctea que flutuava no topo de uma pirâmide de ardósia. Orik antecipou-se à pergunta de Eragon, dizendo:
— Este é Celbedeil, o maior templo do reino dos anões e lar do Dûrgrimst Quan, o clã Quan, cujos membros agem como servidores e mensageiros dos deuses.
Eles governam Tarnag?, perguntou Saphira. Eragon repetiu a questão.
— Não — afirmou Arya, andando para adiante. — Embora os Quan sejam fortes, ainda são poucos, apesar do poder que têm sobre a vida após a morte... e o ouro. É o Ragni Hefthyn, o Guardião do Rio, que controla Tarnag. Ficaremos com o chefe desse clã, Ûndin, enquanto estivermos aqui. Enquanto eles seguiam a elfa, afastando-se do afloramento e adentrando a floresta retorcida que cobria a montanha, Orik sussurrou para Eragon:
— Não ligue para ela. Arya vem brigando com o Quan há mais de um ano. Toda vez que ela visita Tarnag e conversa com um sacerdote, isso origina brigas violentas capazes de assustar um Kull.
— Arya?
Orik acenou severamente com a cabeça.
— Não conheço os detalhes, mas já ouvi dizer que ela discorda fortemente de grande parte da prática Quan. Parece que os elfos não aprovam essa história de “murmurar no ar em busca de ajuda”.
Eragon ficou olhando para as costas de Arya enquanto desciam, perguntando a si próprio se as palavras de Orik eram verdadeiras e, se fossem, no que a própria Arya acreditava... Ele respirou bem fundo, tentando tirar a questão da cabeça. Era maravilhoso estar de volta ao ar livre, onde podia sentir o cheiro dos musgos, das samambaias e das árvores da floresta, onde o sol esquentava o seu rosto e as abelhas e os outros insetos fervilhavam alegremente.
A trilha os levou mais abaixo, para a beira do lago, antes que ascendessem novamente em direção a Tarnag e de seus portões abertos.
— Como vocês conseguiram esconder Tarnag de Galbatorix? — perguntou Eragon. — Farthen Dûr eu até entendo, mas isto... nunca vi nada igual.
Orik riu delicadamente.
— Esconder? Isso seria impossível. Não, depois da queda dos Cavaleiros, fomos forçados a abandonar todas as nossas cidades acima do solo e nos refugiar em nossos túneis para que conseguíssemos escapar de Galbatorix e dos Renegados. Eles costumavam voar com alguma frequência por sobre as Beor, matando qualquer um que encontrassem.
— Eu achava que os anões sempre viveram no subterrâneo.
As sobrancelhas grossas de Orik se encontraram numa carranca.
— Por que deveríamos? Podemos ter uma certa afinidade pelas pedras, mas gostamos de ficar ao ar livre tanto quanto os elfos ou os humanos. No entanto, foi apenas há uma década e meia, desde que Morzan morreu, que ousamos retornar para Tarnag e outras de nossas antigas moradas. Galbatorix pode ser terrivelmente poderoso, mas até ele não atacaria uma cidade inteira sozinho. É claro, ele e seu dragão poderiam nos causar problemas sem fim se quisessem, mas nos últimos tempos eles raramente deixam Urû’baen, mesmo para fazer viagens curtas. Galbatorix não poderia trazer um exército para cá sem antes derrotar Buragh ou Farthen Dûr.
O que ele quase conseguiu, comentou Saphira.
Depois de alcançar o cume de um pequeno morro, Eragon agitou-se, surpreso, assim que um animal irrompeu do meio da vegetação rasteira em direção à trilha. A criatura macilenta parecia com um bode montanhês da Espinha, exceto pelo fato de que era um terço maior e possuía chifres gigantes e curvados que davam a volta em torno de suas bochechas, fazendo um Urgal não parecer maior que um ninho de andorinha. Mais estranho ainda era a sela amarrada nas costas do bode e o anão sentado em cima dela com firmeza, mirando no ar um arco puxado pela metade.
— Hert Dûrgrimst? Fild rastn? — gritou o estranho anão.
— Orik Thrifkz menthiv oen Hrethcarach Eragon rak Dûrgrimst Ingeitum. Wharn, az vanyali-carharûg Arya. Né oc Undinz grimstbelardn. — O bode olhou cautelosamente para Saphira. Eragon notou como seus olhos eram cintilantes e inteligentes, embora seu rosto fosse um tanto engraçado com sua barba coberta de gelo e sua expressão lúgubre. Ele notou como o animal tinha jeito de anão. O bode o lembrou Hrothgar, o que quase o fez gargalhar.
— Azt jok jordn rast — veio a resposta.
Sem nenhum comando compreensível da parte do anão, o bode pulou para a frente, alcançou-os de uma distância tão extraordinária que parecia que iria levantar voo a qualquer momento. Depois disso, cavaleiro e montaria sumiram entre as árvores.
— O que era aquilo? — perguntou Eragon, assombrado. Orik retomou a caminhada.
— Um Feldûnost, um dos cinco animais típicos destas montanhas. Cada um deles intitula um clã. No entanto, o Dûrgrimst Feldûnost é talvez o mais corajoso e reverenciado dos clãs.
— Por que isso?
— Dependemos do Feldûnost para leite, lã e carne. Sem provimento, não poderíamos viver nas Beor. Quando Galbatorix e seus Cavaleiros traiçoeiros estavam nos aterrorizando, foi o Dûrgrimst Feldûnost que se arriscou, e ainda o faz, para cuidar dos rebanhos e dos campos. Dessa forma, todos estamos em dívida para com eles.
— Todos os anões andam em Feldûnost? — Ele gaguejou um pouco para falar aquela palavra incomum.
— Só nas montanhas. Os Feldûnost são fortes e confiáveis, mas são mais adequados para despenhadeiros do que planícies abertas.
Saphira cutucou Eragon com o nariz, fazendo Fogo na Neve se esquivar. Isso daria uma boa caçada, melhor do que qualquer uma que eu já tive na Espinha ou longe daqui! Se tiver tempo em Tarnag...
Não, disse ele. Não podemos ofender os anões.
Ela bufou, irritada. Eu poderia pedir permissão antes.
Agora, a trilha que os ocultou por tanto tempo sob galhos escuros, adentrou a grande clareira que cercava Tarnag. Grupos de observadores já haviam começado a se reunir nos campos quando sete Feldûnost com arreios cravejados de joias saíram pulando da cidade. Seus cavaleiros traziam lanças com flâmulas nas pontas que chicoteavam o ar. Montado em sua estranha fera, o anão que vinha na frente disse:
— Vós sois bem-vindos a esta cidade de Tarnag. Em otho de Ûndin e Gannel, eu, Thorv, filho de Brokk, ofereço, em paz, o abrigo de nossos alojamentos. — Seu sotaque era um grunhido irritante, com uma pronúncia áspera bem diferente da de Orik.
— E, com otho de Hrothgar, nós do Ingeitum aceitamos a sua hospitalidade — respondeu Orik.
— Assim como eu, em nome de Islanzadí — acrescentou Arya.
Parecendo satisfeito, Thorv gesticulou para seus colegas cavaleiros, que esporearam seus Feldûnost, a fim de que se postassem em volta dos quatro. Com um floreio, os anões seguiram em frente, guiando-os até Tarnag e todos atravessaram os portões da cidade.
O muro externo tinha doze metros de espessura e formava uma passagem em túnel sombrio que dava na primeira de muitas fazendas que circundavam Tarnag. Cinco patamares mais — cada um defendido por um portão fortificado — os levaram para além dos campos e para dentro da cidade propriamente dita.
Em contraste com as trincheiras espessas de Tarnag, os prédios em seu interior, embora fossem de pedra, foram moldados com destreza suficiente para dar a impressão de graça e leveza. Esculturas fortes e arrojadas, normalmente de animais, enfeitavam as casas e as lojas. No entanto ainda mais impressionantes eram as pedras em si: cores vibrantes, do escarlate brilhante ao mais sutil dos verdes, vitrificavam as pedras com
camadas translúcidas. E penduradas por toda a cidade estavam as lanternas sem chamas dos anões, cujas faíscas multicoloridas eram arautos do longo crepúsculo e noite das Beor.
Ao contrário de Tronjheim, Tarnag havia sido construída de acordo com as proporções dos anões, sem nenhuma concessão para visitantes humanos, elfos ou dragões. No máximo, as portas tinham um metro e meio de altura, e normalmente tinham um metro e trinta e sete. A altura de Eragon era mediana, mas agora se sentia um gigante transportado para um palco de marionetes.
As ruas eram amplas e abarrotadas. Anões de vários clãs corriam por todos os lados para tomar conta de seus negócios, cuidar de seus problemas ou ficar pechinchando nas lojas. Muitos usavam trajes estranhos e exóticos, como um grupo de anões de cabelos negros selvagens que usavam elmos prateados forjados no formato de cabeças de lobo. Eragon olhou mais para as mulheres anãs. Só as tinha visto em breves relances em Tronjheim. Elas eram mais largas do que os homens, e seus rostos eram mais carregados, contudo seus olhos reluziam, seus cabelos resplandeciam e suas mãos acariciavam com carinho suas crianças diminutas. Evitavam usar roupas e bugigangas vistosas, exceto broches pequenos e trabalhados em ferro e pedra.
Ao ouvirem o som agudo dos passos do Feldûnost, os anões se voltaram para olhar os recém-chegados. Eles não saudaram Eragon com vivas como ele esperava, mas em vez disso se curvavam e murmuravam:
— Matador de espectros.
Assim que viam o martelo e as estrelas no elmo de Eragon, a admiração era substituída pelo choque e, em muitos casos, pela fúria. Um certo número de anões mais irascíveis se encolheram em volta do Feldûnost, e ficaram olhando para Eragon por entre os animais, rogando pragas. A nuca de Eragon formigava. Parece que me adotar não foi a decisão mais popular que Hrothgar poderia tomar.
Claro, concordou Saphira. Ele pode ter aumentado o controle que tem sobre você, mas ao custo de indispor muitos dos anões... E melhor sumirmos de vista antes que o sangue comece a ser derramado.
Thorv e os outros guardas seguiam em frente como se a multidão não existisse, abrindo o caminho através de sete patamares adicionais até que um único portão os separasse da grandeza de Celbedeil. Então Thorv virou à esquerda, em direção a um grande castelo espremido contra a lateral da montanha e protegido na frente por um barbacã com duas torres munidas de balestreiros.
Enquanto eles se aproximavam do castelo, um grupo de anões armados saía do meio das casas e formava uma barricada, para bloquear a rua. Longos véus lilases cobriam os seus rostos e caíam por sobre os seus ombros, como coifas de cota de malha.
Os guardas imediatamente puxaram as rédeas de seus Feldûnost e suas expressões, inflexíveis.
— O que foi? — perguntou Eragon para Orik, mas o anão apenas balançou a cabeça e seguiu em frente, com a mão em seu machado.
— Etzil nithgech! — gritou um anão com véu, levantando o punho cerrado. — Formv Hrethcarach... formv Jurgencarmeitder nos eta goroth bahst Tarnag, dûr encesti rak kythn! Jok is warrev az barzülegür dúr dûrgrimst, Az Sweldn rak Anhûin, môgh tor rak Jurgenvren? Né ûdim etal os rast knurlag. Knurlag ana... — Durante um longo minuto, ele continuou a falar em voz alta com um mau humor crescente.
— Vrron! — vociferou Thorv, interrompendo-o, e depois os dois anões começaram a discutir. Apesar da troca de palavras pouco amável, Eragon reparou que Thorv parecia respeitar o outro anão. Eragon andou um pouco para o lado — tentando obter uma visão melhor por trás do Feldûnost de Thorv — e o anão velado caiu abruptamente em silêncio, fitando o elmo de Eragon com uma expressão de pavor.
— Knurlag qana qirânû Dûrgrimst Ingeitum! — gritou. — Qarzûl ana Hrothgar oen volfild...
— Jok is frekk Dûrgrimstvren? — interrompeu Orik calmamente, enquanto puxava o seu machado. Preocupado, Eragon olhou para Arya, mas ela estava muito concentrada no confronto para notá-lo. Ele, então, secretamente, deslizou sua mão para baixo até segurar o punho de Zar’roc envolto de arame.
O estranho anão olhou fixamente para Orik. Em seguida, retirou um anel de ferro do bolso, arrancou três fios de sua barba, enrolou-os em volta do anel e o jogou na rua, o que provocou um tinido prolongado. Por último, Orik cuspiu. Sem dizer uma palavra, os anões com mantos púrpura ficaram enfileirados.
Thorv, Orik e os outros guerreiros recuaram assim que o anel quicou no chão de granito. Até mesmo Arya parecia perplexa. Dois dos anões mais jovens empalideceram e pegaram as suas espadas, para depois deixarem cair as mãos quando Thorv vociferou:
— Eta!
Suas reações deixaram Eragon muito mais inquieto do que a troca de palavras ditas em voz rouca. Enquanto Orik andava para a frente a passos largos e depositava o anel numa algibeira, Eragon perguntou:
— O que isso significa?
— Significa — disse Thorv — que você tem inimigos.
Eles se precipitaram pelo barbacã até um amplo pátio que ostentava três mesas para banquetes, decoradas com lanternas e estandartes. Diante delas havia um grupo de anões, tendo a frente um de barba grisalha envolto numa pele de lobo. Ele abriu os braços, dizendo:
— Bem-vindo a Tarnag, lar do Durgrimst Ragni Hefthyn. Temos ouvido muitos elogios feitos a você, Eragon Matador de Espectros. Sou Ûndin, filho de Derúnd e chefe do clã.
Outro anão se aproximou. Tinha os ombros e o peito de um guerreiro, e olhos escuros que não paravam de olhar para Eragon.
— E eu, Gannel, sou filho de Orm Blood-ax e chefe do Dûrgrimst Quan.
— É uma honra para nós sermos seus hóspedes — disse Eragon, inclinando a cabeça. Ele sentiu a irritação de Saphira por estar sendo ignorada. Paciência, murmurou ele, forçando um sorriso. Ela bufou.
Os chefes dos clãs cumprimentaram Arya e Orik, mas sua hospitalidade se perdeu com Orik, cuja única resposta foi estender a mão, com o anel de ferro na palma.
Os olhos de Undin se arregalaram e ele levantou o anel cuidadosamente, comprimindo-o entre o polegar e o indicador, como se fosse uma cobra venenosa.
— Quem lhe deu isso?
— Foi Az Sweldn rak Anhûin. E não foi para mim e sim para Eragon.
Um alarme se espalhou pelos seus rostos, a apreensão anterior de Eragon retornou. Ele havia visto alguns anões encararem um grupo inteiro dos Kull sem se esquivar. De fato o anel deve simbolizar algo temível já que podia enfraquecer a coragem deles.
Ûndin franziu a testa enquanto ouvia o murmurar de seus conselheiros e depois disse:
— Nós teremos de consultar os nossos sobre esse assunto. Matador de Espectros, um banquete está sendo preparado em sua honra. Se permitir que os meus servos o guiem até os seus aposentos, você poderá se refrescar e depois iniciaremos o festim.
— É claro. — Eragon passou as rédeas de Fogo na Neve para um anão que esperava e acompanhou o guia pelo castelo. Assim que passou pelo vão da porta, olhou para trás e viu ao longe Arya e Orik se alvoroçando com os chefes dos clãs, suas cabeças encostadas umas nas outras. Não vou demorar, prometeu ele a Saphira.
Depois de se agachar para poder transpor os corredores construídos para anões, sentiu-se aliviado ao ver que o quarto a ele destinado era espaçoso o bastante para ficar  em pé livremente. O empregado se curvou e disse:
— Vou voltar quando o Grimstborith Ûndin estiver pronto. — Assim que o anão saiu, Eragon fez uma pausa e respirou bem fundo, grato pelo silêncio. O encontro com os anões velados pairava em sua mente, sendo difícil relaxar. Pelo menos não ficaremos muito tempo em Tarnag. Isso deve impedi-los de nos atrapalhar.
Retirando as luvas, Eragon foi até uma bacia de mármore instalada no chão, ao lado de sua cama baixa. Colocou as mãos dentro d’água, e então as retirou depressa emitindo um grito involuntário. A água estava quase fervendo. Deve ser costume dos anões, percebeu. Ele esperou até que esfriasse um pouco, depois mergulhou seu rosto e seu pescoço, esfregando-se enquanto o vapor se desprendia em torvelinhos.
Revigorado, trocou as calças e a túnica pelas roupas que usara no funeral de Ajihad. Tocou em Zar’roc, mas decidiu que a espada só iria insultar a mesa de Undin e optou por enfiar no cinto sua faca de caça.
Em seguida retirou, de sua saca, o pergaminho que Nasuada havia lhe encarregado de entregar para Islanzadí, sentia o seu peso na mão enquanto se perguntava qual seria o melhor lugar para escondê-lo. A missiva era importante demais para ser deixada exposta, onde poderia ser lida ou roubada. Incapaz de pensar num local ideal, enfiou-o na manga de sua camisa. Ficará seguro aqui a não ser que eu entre numa briga, nesse caso terei problemas maiores com que me preocupar.
Quando o empregado finalmente retornou até Eragon, passava um pouco de uma da tarde, mas o sol já havia sumido por trás das montanhas que se assomavam, mergulhando Tarnag na escuridão. Ao sair do castelo, Eragon ficou perplexo com a transformação da cidade. Com a chegada prematura da noite, as lanternas dos anões revelaram a sua verdadeira força, enchendo as ruas com uma luz pura e intensa que fazia o vale inteiro brilhar.
Ûndin e os outros anões estavam reunidos no pátio, junto com Saphira, que havia se posicionado na cabeceira da mesa. Não apareceu ninguém interessado em disputar lugar com ela.
Alguma coisa aconteceu?, perguntou Eragon, correndo em sua direção.
Ûndin convocou guerreiros a mais, e depois bloqueou os portões.
Será que ele espera um ataque?
No mínimo, está preocupado com a possibilidade.
— Eragon, por favor, aqui, venha para perto de mim — disse Ûndin, acenando para que ele se sentasse na cadeira à direita. Assim como Eragon, o chefe do clã também se sentou, e o resto do séquito rapidamente fez o mesmo.
Eragon ficou feliz quando Orik acabou ao seu lado com Arya bem à sua frente, do outro lado da mesa, embora ambos parecessem um tanto austeros. Antes que ele pudesse perguntar a Orik sobre o anel, Ûndin bateu na mesa e berrou:
— Ignh az voth!
Empregados saíram de dentro do castelo trazendo travessas forjadas a ouro cheias de carnes, tortas e frutas. Eles se dividiram em três fileiras — uma para cada mesa — e depositaram os pratos com um floreio. Diante deles, estavam sopas e ensopados com vários tubérculos, carne assada de veado, bisnagas grandes e quentes de pão de fermento, e fileiras de bolos de mel com molho de conserva de framboesa. Sobre uma camada de hortaliças havia filés de truta salpicados de salsa e, ao lado, enguias em conserva olhavam desconsoladas dentro de uma urna de queijo, como se esperassem que, de algum modo, pudessem fugir para um rio. Havia um cisne em cada mesa, cercado por um bando de perdizes, gansos e patos recheados.
Os cogumelos estavam em toda parte: grelhados em tiras suculentas, colocados no topo das cabeças das aves como se fossem gorros ou entalhados na forma de castelos cercados por fossos de molho de carne, uma incrível variedade estava à mostra, desde cogumelos brancos e inchados do tamanho do punho de Eragon, a outros que ele poderia ter confundido com cascas de árvore ásperas, até delicados cogumelos venenosos partidos bem no meio para exibir sua carne azul.
Então o prato principal do banquete foi revelado: um gigantesco javali assado que brilhava por causa dos temperos. Pelo menos Eragon achou que fosse um javali, pois sua carcaça era tão grande quanto Fogo na Neve e foram necessários seis anões para carregá-lo. As presas eram mais compridas que os antebraços, o focinho tão grande quanto a cabeça. E o cheiro dominava totalmente o banquete em ondas pungentes que faziam seus olhos lacrimejarem tamanha era a sua força.
— Nagra — sussurrou Orik. — É um javali gigante. Ûndin está realmente honrando a sua presença esta noite, Eragon. Só os anões mais valentes ousam caçar Nagra, e o animal só é servido àqueles que possuem grande valor. Além disso, ele fez um gesto que leva a crer que irá apoiá-lo contra o Dûrgrimst Nagra.
Eragon se inclinou em sua direção para que ninguém mais pudesse ouvir.
— Então este é mais um animal nativo das Beors? Quais são os outros?
— Lobos da floresta, grandes demais para caçar um Nagra e ágeis o suficiente para pegar um Feldûnost. Ursos das cavernas, os quais chamamos de Urzhadn, e os elfos nominados Beorn, nome que os inspirou a batizar esses picos, embora nós mesmos não os chamemos assim. O nome das montanhas é um segredo não compartilhado com nenhuma raça. E...
— Smer voth — ordenou Undin, sorrindo para seus convidados. Os empregados sacaram imediatamente pequenas facas curvadas, cortaram pedaços do Nagra e os serviram a todos — exceto para Arya —, incluindo um pedaço bem maior para Saphira. Ûndin sorriu novamente, pegou um punhal e cortou um pedaço de sua carne.
Eragon pegou a sua faca, mas Orik segurou o seu braço.
— Espere.
Undin mastigou lentamente, revirando os olhos e acenando de forma exagerada, para depois engolir e proclamar.
— Ilf gauhnith!
— Agora sim — disse Orik, virando-se para a refeição enquanto a conversa brotava ao longo das mesas. Eragon nunca havia provado nada como aquele javali. Era
suculento, macio, tinha um tempero bastante exótico — corno se a carne tivesse sido embebida em mel e cidra acentuados pela menta usada para dar sabor ao porco. Fico me perguntando como eles fizeram para preparar algo tão grande.
Muito lentamente, comentou Saphira, mordiscando o seu Nagra.
Entre uma mordida e outra, Orik explicou.
— Desde os dias em que o envenenamento era desmedido entre clãs, tornou-se um costume o anfitrião provar a comida antes e declará-la segura para os convidados.
Durante o banquete, Eragon dividiu o seu tempo entre provar a infinidade de pratos e conversar com Orik, Arya e os anões que estavam mais ao fundo na mesa. Com isso, as horas se aceleraram, pois o banquete era tão grande que era tarde da noite quando o último prato fora servido e consumido e o último cálice esvaziado. Enquanto os empregados retiravam a louça e os talheres, Ûndin se virou para Eragon e disse:
— A refeição o deixou satisfeito, não?
— Estava deliciosa.
Ûndin acenou com a cabeça.
— Fico feliz que você tenha gostado. Pedi para que colocassem as mesas do lado de fora ontem para que o dragão pudesse jantar conosco. — Ele permaneceu concentrado em Eragon durante todo o tempo em que falou. Eragon gelou por dentro. Intencionalmente ou não, Ûndin havia tratado Saphira como algo que não passava de uma fera. O Cavaleiro pretendia perguntar sobre os anões com véus em particular, mas na hora – para perturbar Ûndin – disse:
— Eu e Saphira agradecemos. — E acrescentou: — Senhor, por que o anel foi jogado em nossa direção?
Um silêncio doloroso se espalhou pelo pátio. Por acaso, Eragon viu Orik estremecer. Arya, no entanto, sorriu como se tivesse entendido o que ele estava fazendo.
Ûndin abaixou seu punhal, franzindo fortemente a testa.
— Os knurlagn que você encontrou são de um clã trágico. Antes da queda dos Cavaleiros, eles formavam algumas das famílias mais velhas e ricas do nosso reino. Porém, seu destino foi selado por dois erros: eles viviam na margem oeste das Montanhas Beor e ofereceram seus maiores guerreiros a serviço de Vrael.
A raiva irrompeu por sua voz na forma de estrépitos.
— Galbatorix e seus eternamente malditos Renegados os assassinaram em sua cidade de Uru’baen. Então voaram sobre nós, matando muitos outros. Daquele clã, apenas Grimstcarvlorss Anhûin e seus guardas sobreviveram. Anhûin logo morreu de tristeza, e seus homens passaram a usar o nome de Az Sweldn rak Anhûin, As Lágrimas de Anhûin, cobrindo seus rostos para lembrarem de perda que tiveram e do desejo por vingança.
As faces de Eragon ardiam de vergonha enquanto ele lutava para manter seu rosto sem expressão.
— Então — prosseguiu Ûndin, olhando fixamente para uma sobremesa —, eles reconstruíram o clã ao longo das décadas, esperando e buscando reparações. E agora vem você, usando a marca de Hrothgar. E o máximo dos insultos para eles, não importa o quanto você tenha servido Farthen Dûr. Tanto que jogaram o anel, o desafio supremo. Isso significa que Dûrgrimst Az Sweldn rak Anhûin vão opor-se a você com todos os recursos possíveis em qualquer circunstância, importante ou insignificante. Eles se colocaram totalmente contra você, declarando-se inimigos de sangue.
— Eles pretendem me ferir fisicamente? — perguntou Eragon com firmeza.
O olhar fixo de Ûndin vacilou por um instante quando lançou-o para Gannel, mas depois balançou a cabeça e emitiu uma gargalhada áspera que era, provavelmente, mais alta do que a ocasião permitia.
— Não, Matador de Espectros! Nem mesmo eles ousariam ferir um convidado. É proibido. Eles só o querem fora, fora, fora daqui.
Contudo, Eragon ainda se questionava. E Ûndin prosseguiu:
— Por favor, vamos tentar não falar mais sobre esses assuntos desagradáveis. Gannel e eu oferecemos a nossa comida e o nosso mulso em sinal de amizade, não é isso que importa?
O sacerdote murmurou em concordância.
— Sinto-me grato — abrandou Eragon finalmente.
Saphira o olhou de um jeito solene e disse: Eles estão com medo, Eragon. Estão com medo e se ressentem porque foram forçados a aceitar a ajuda de um Cavaleiro.
Sim. Eles podem lutar conosco, mas não lutam por nós.

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