8 de maio de 2017

Capítulo 12

Falo de bolinho
Quatro tipos diferentes
A flecha explica

CALIPSO SABIA COMO ME motivar.
A ideia de esfregar privadas de novo era mais apavorante do que os meus sonhos.
Andamos pelas ruas escuras no amanhecer frio, atentos a multidões educadas de blemmyae assassinos, mas ninguém nos incomodou. No caminho, contei meus pesadelos para Calipso. Achei melhor soletrar o nome C-Ô-M-O-D-O, caso enunciá-lo em voz alta pudesse atrair a atenção do deus-imperador. Calipso nunca tinha ouvido falar dele. Claro, ela havia ficado presa em sua ilha nos últimos milênios. Eu duvidava que reconhecesse nomes de muitas pessoas que nunca tinham dado as caras lá pelas suas bandas. Mal sabia quem era Hércules. Adorei isso. Hércules queria tanto ser o centro das atenções.
— Você conhece esse imperador pessoalmente? — perguntou ela.
Repeti para mim mesmo que não estava corando. Era só o vento fazendo meu rosto arder.
— Nós nos conhecemos quando ele era mais jovem. Tínhamos muitas coisas em comum, era surpreendente. Quando ele se tornou imperador... — Suspirei. — Você sabe como é. Ele era muito jovem quando conquistou todo aquele poder e fama. Mexeu com a cabeça dele. Aconteceu o mesmo com Justin, Britney, Lindsay, Amanda, Amadeus...
— Não conheço nenhuma dessas pessoas.
— Precisamos dedicar mais tempo às suas aulas de cultura pop.
— Não, por favor. — Calipso brigou com o zíper do casaco.
Naquele dia, ela estava usando uma mistura de roupas emprestadas que deviam ter sido selecionadas às escuras: uma parka prateada surrada, provavelmente da época em que Emmie ainda era uma das Caçadoras de Ártemis; uma camiseta azul da INDY 500; uma saia marrom até os tornozelos por cima de uma legging preta; e tênis de corrida em tons de roxo e verde. Meg McCaffrey aprovaria o visual.
— E o cara de Nebrasca com a espada? — perguntou Calipso.
— Litierses, filho do rei Midas. Não sei muito sobre ele, nem por que está servindo o imperador. Espero que a gente entre e saia do zoológico antes desse cara aparecer. Não gosto da ideia de lutar contra ele.
Calipso fechou os dedos, talvez lembrando o que aconteceu na última vez em que ela deu um soco em alguém.
— Pelo menos a sua amiga Meg conseguiu fugir — comentou. — É uma boa notícia.
— Talvez.
Eu queria acreditar que Meg estava se rebelando contra Nero. Que finalmente tinha percebido a verdade sobre o padrasto monstruoso e agora correria para o meu lado, pronta para me ajudar nas missões e parar de me dar ordens irritantes.
Infelizmente, eu sabia por experiência própria como era difícil sair de um relacionamento abusivo. As garras de Nero estavam enterradas fundo na mente da garota. Pensar em Meg fugindo sem destino, apavorada, perseguida por capangas de dois imperadores diferentes... Isso não me tranquilizou. Eu esperava que ao menos seu amigo Pêssego, o espírito dos grãos, estivesse com ela para dar uma força, mas não vi sinal dele nas minhas visões.
— E Trofônio? — perguntou Calipso. — Você sempre se esquece dos seus filhos assim?
— Você não entenderia.
— Estamos procurando um oráculo perigoso que enlouquece as pessoas. O espírito desse oráculo por acaso é seu filho, que pode estar bem magoado com você por não ter atendido as súplicas dele, obrigando-o assim a decepar a cabeça do próprio irmão. Então seria bom que você se lembrasse desse tipo de coisa.
— Andei com muita coisa na cabeça! É uma cabeça mortal muito pequena.
— Pelo menos concordamos com o tamanho do seu cérebro.
— Ai, dá um tempo — murmurei. — Eu só queria um conselho, uma direção, mas nem para isso você serve.
— Meu conselho é parar de ser tão gloutos.
A palavra significava nádegas, mas em grego antigo tinha uma conotação bem mais grosseira. Tentei pensar em uma resposta sagaz, mas a expressão em grego antigo para é a mãe! me escapou.
Calipso mexeu nas penas das flechas da minha aljava.
— Se você quer tanto um conselho, por que não pede à sua flecha? Talvez ela saiba como resgatar grifos.
— Hum.
Não gostei do conselho de Calipso sobre pedir conselhos. Eu não via como uma flecha saída de uma peça de Shakespeare poderia nos ajudar. Por outro lado, eu não tinha nada a perder além da minha paciência. E, se a flecha me irritasse demais, eu sempre podia dispará-la no gloutos de algum monstro.
Eu peguei a Flecha de Dodona. Na mesma hora, a voz grave e masculina falou na minha mente, a haste ressonando a cada palavra.
ORA, disse a flecha. O MORTAL FINALMENTE DEMONSTRA BOM SENSO.
— Também senti saudades suas — falei.
— Está falando? — perguntou Calipso.
— Infelizmente, está. Ó, Flecha de Dodona, tenho uma pergunta para você.
DISPARA TUA MELHOR QUESTÃO.
Expliquei minhas visões. Tenho certeza de que parecia ridículo falando com uma flecha enquanto andava pela Rua West Maryland. Em frente ao Centro de Convenções Indiana, tropecei e quase me empalei pelo olho, mas Calipso nem chegou a rir. Ao longo de nossa jornada juntos, ela já tinha me visto em situações muito mais humilhantes.
Conversar me parecia uma forma bem inútil de usar uma flecha, mas até que eu me saía bem. QUE VERGONHA. Ela tremeu na minha mão. TU ME DESTE NÃO UMA QUESTÃO, MAS UMA HISTÓRIA.
Eu me perguntei se a flecha estava me testando, avaliando até onde podia me irritar até que eu a quebrasse ao meio. Eu podia ter feito isso há muito tempo, mas temia terminar com dois fragmentos de uma flecha falante me dando conselhos ruins ao mesmo tempo.
— Muito bem — falei. — Como podemos encontrar os grifos? Onde está Meg McCaffrey? Como podemos derrotar o imperador, libertar os prisioneiros e recuperar o controle do Oráculo de Trofônio?
AGORA TU FIZESTE PERGUNTAS DEMAIS, disse a flecha. MINHA SABEDORIA NÃO CUSPIRÁ RESPOSTAS COMO SE FOSSE O GOOGLE.
Aquela flecha estava indo longe demais.
— Vamos começar com algo simples, então. Como libertamos os grifos?
VAI AO ZOOLÓGICO.
— Já estamos fazendo isso.
ENCONTRA A GAIOLA DOS GRIFOS.
— Certo, mas onde? E não me diga no zoológico. Onde exatamente dentro do Zoológico de Indianápolis os grifos estão presos?
PROCURA A MARIA-FUMAÇA.
— A maria-fumaça.
SERIA ECO O QUE TEM AQUI?
— Tudo bem! Nós procuramos uma maria... um trem. Quando localizarmos os grifos, como os libertaremos?
ORA, TU CONQUISTAS A CONFIANÇA DOS ANIMAIS COM BOLINHOS DE BATATA.
— Bolinhos de batata?
Esperei um esclarecimento, ou mesmo outro comentário mordaz. A flecha ficou em silêncio. Com um ruído de repugnância, eu a devolvi à aljava.
— Sabe, ouvir só um lado da conversa foi bem confuso — comentou Calipso.
— Ouvir os dois lados não fez muito mais sentido. Tem alguma coisa a ver com um trem. E bolinhos de batata.
— Bolinhos de batata? Leo... — A voz dela falhou. — Leo adora.
Minha enorme experiência com mulheres sugeria que Calipso estava arrependida de ter discutido com Leo no dia anterior ou emocionada com o assunto dos bolinhos de batata. Eu não estava a fim de descobrir qual das duas opções era a verdadeira.
— Seja qual for o caso, não pude compreender... Eis a questão. — Tentei parar de falar usando clichês shakespearianos. — Não sei o que o conselho da flecha significa. Talvez faça sentido quando chegarmos ao zoológico.
— Claro, porque é o que sempre acontece quando nós chegamos a lugares novos, né? De repente, tudo passa a fazer sentido.
— Você tem razão. — Suspirei. — Mas, assim como a ponta da minha flecha falante, isso não nos ajuda em nada. Vamos em frente?
Passamos por uma ponte e atravessamos o Rio White, que não era nem um pouco branco. Era largo e marrom e corria devagar entre os muros de contenção de cimento, a água contornando ilhas de arbustos irregulares que me lembravam espinhas no rosto (algo com o que eu estava bem familiarizado agora). Estranhamente, me lembrava o Tibre, em Roma, outro rio decepcionante e negligenciado.
Ainda assim, eventos que alteraram o curso da história mundial aconteceram às margens do Tibre. Tremi ao pensar nos planos que Cômodo tinha para aquela cidade. E, se o Rio White alimentava os canais que vislumbrei na sala do trono, seu esconderijo talvez estivesse próximo. O que significava que seu novo prefeito, Litierses, podia já estar no zoológico. Decidi andar mais rápido.
O Zoológico de Indianápolis ficava escondido em um parque depois da West Washington. Atravessamos um estacionamento vazio e seguimos na direção da marquise turquesa da entrada principal. Uma faixa na frente dizia NATURALMENTE FOFO! Por um momento, achei que talvez a  equipe do zoológico tivesse ouvido falar que eu estava indo até lá e houvesse decidido me dar boas-vindas. Mas percebi que a faixa era só uma propaganda dos coalas. Como se coalas precisassem de propaganda.
Calipso franziu a testa para as bilheterias fechadas.
— Não tem ninguém aqui. Está fechado.
— Era essa a ideia — lembrei a ela. — Quanto menos mortais por perto, melhor.
— Mas como vamos entrar?
— Se ao menos alguém pudesse controlar espíritos do vento e nos carregar por cima da cerca.
— Se ao menos alguém pudesse nos teletransportar — respondeu ela. — Ou estalar os dedos e trazer os grifos até nós.
Cruzei os braços.
— Estou começando a lembrar por que exilamos você para aquela ilha por três mil anos.
— Três mil, quinhentos e sessenta e oito. Eu teria ficado mais tempo lá, se dependesse de você.
Eu não pretendia retomar aquela discussão, mas Calipso estava pedindo.
— Você estava em uma ilha tropical com praias de águas cristalinas, servos alados e uma caverna generosamente aparelhada.
— E isso fazia com que Ogígia não fosse uma prisão?
Fiquei tentado a explodi-la usando meu poder divino, só que... Bom, eu não tinha nenhum.
— Você não sente saudade da sua ilha, então?
Ela piscou, como se eu tivesse jogado areia na cara dela.
— Eu... Não. Essa não é a questão. Eu fui exilada. Não tinha ninguém...
— Ah, por favor. Quer saber como é o verdadeiro exílio? Essa é minha terceira vez como mortal. Desprovido de poderes. Desprovido de imortalidade. Eu posso morrer, Calipso.
— Eu também — disse ela, de maneira cortante.
— Sim, mas você escolheu partir com Leo. Abriu mão de sua imortalidade por amor! Você é tão ruim quanto Hemiteia!
Eu não tinha percebido quanta raiva havia por trás daquela última acusação até soltá-la. Minha voz ressoou pelo estacionamento. Em algum lugar do zoológico, uma ave tropical de repente piou em protesto.
A expressão de Calipso endureceu.
— Certo.
— Eu só quis dizer...
— Pode parar. — Ela olhou para a cerca. — Vamos procurar um lugar para pular?
Tentei formular um pedido de desculpas cavalheiresco que ao mesmo tempo sustentasse minha posição, mas decidi deixar a questão pra lá. Meu grito podia acabar acordando mais do que tucanos. Precisávamos correr.
Encontramos um ponto em que a cerca era um pouco mais baixa. Mesmo de saia, Calipso se mostrou mais ágil ao escalar. Ela chegou ao topo sem problema, enquanto eu prendi o sapato no arame farpado e me vi de cabeça para baixo. Foi pura sorte eu não ter caído na jaula do tigre.
— Cala a boca — falei para Calipso quando ela me soltou.
— Eu não falei nada!
O tigre estava olhando para a gente de cara feia do outro lado do vidro, como quem diz Por que você está me incomodando se não trouxe o café da manhã?
Sempre achei os tigres criaturas sensatas.
Calipso e eu nos esgueiramos pelo zoológico, atentos a sinais de mortais ou de guardas imperiais. Exceto por um funcionário lavando a parte das jaulas dos lêmures, não vimos ninguém. Paramos em uma área que parecia ser o cruzamento principal do parque. À nossa esquerda havia um carrossel. À direita, orangotangos relaxavam nas árvores de um grande complexo cercado de redes. Estrategicamente posicionados em volta da praça, havia vários cafés e lojas de souvenires, todos fechados. Placas apontavam para diversas atrações: OCEANO, PLANÍCIES, SELVA, VOOS MIRABOLANTES.
— “Voos mirabolantes” — falei. — Claro que classificariam os grifos como voos mirabolantes.
Calipso observou os arredores. Ela tinha olhos perturbadores, castanho-escuros e intensamente concentrados, parecidos com os de Ártemis quando colocava um alvo em sua mira. Imagino que, em Ogígia, Calipso tenha tido muitos anos de treino olhando para o horizonte, esperando que alguém ou alguma coisa interessante aparecesse.
— Sua flecha mencionou um trem. Tem uma placa indicando um passeio de trem.
— É, mas minha flecha também falou sobre bolinhos de batata. Acho que ela deve ter empenado um pouco.
Calipso apontou.
— Ali.
No café mais próximo com mesas ao ar livre, junto a uma janela de atendimento fechada, tinha um cardápio de almoço preso à parede. Li as opções.
— Quatro tipos diferentes de bolinhos de batata? — Eu me senti sufocado diante da confusão culinária. — Por que alguém precisaria de tantos? De chili. De batata-doce. De batata roxa? Como uma batata pode...? — Parei.
Por um nanossegundo, não entendi o que havia chamado minha atenção. Mas percebi que meus ouvidos tinham captado um som ao longe, uma voz de homem.
— O que foi? — perguntou Calipso.
— Shh. — Prestei mais atenção.
Eu torcia para estar enganado. Talvez só tivesse ouvido uma ave exótica com um pio grave, ou até o funcionário do zoológico xingando por ter que limpar cocô de lêmure. Mas, não. Mesmo no meu estado mortal inferior, minha audição era excepcional.
A voz falou de novo, familiar e bem mais próxima.
— Vocês três, por ali. Vocês dois, comigo.
Toquei na manga da parka de Calipso.
— É Litierses, o fã de Nebrasca.
A feiticeira murmurou outro xingamento em minoico, citando uma parte do corpo de Zeus sobre a qual eu não queria pensar.
— Precisamos nos esconder.
Infelizmente, Litierses estava se aproximando pelo caminho de onde tínhamos vindo. A julgar pelo som da voz dele, tínhamos segundos até sua chegada. O cruzamento oferecia uma série de rotas de fuga, mas todas ficariam na linha de visão de Litierses.
Só um lugar estava próximo o bastante para oferecer proteção.
— Quando em dúvida — disse Calipso —, bolinhos de batata.
Ela pegou minha mão e me levou para os fundos do café.

16 comentários:

  1. Não me faça shippa-los Rick, não ouse...

    Pão de batataaaaa

    -MrGoat

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    1. Essa piada foi incrível, por favor, casa comigo XD

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    2. Apocalipso, meus deuses kkkkkkkkk

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  2. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 12:43

    Grande amizade esses dois vão ter

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  3. Ele era muito jovem quando conquistou todo aquele poder e fama. Mexeu com a cabeça dele. Aconteceu o mesmo com Justin, Britney, Lindsay, Amanda, Amadeus...

    apolo e dms

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  4. n tem como ver a flecha de dodona e n lembrar de jacques, saudades daquela espada

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  5. Tava pensando q o recado da bola 8.. Traga ela de volta.. Pode tar falando da cabeça dele e nao da menina..

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  6. AGORA TU FIZESTE PERGUNTAS DEMAIS, disse a flecha. MINHA SABEDORIA NÃO CUSPIRÁ RESPOSTAS COMO SE FOSSE O GOOGLE. essa flecha é d+

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  7. marília milhosa20 de maio de 2017 19:05

    se eles dois de apaixonassem seria o apocalipso.

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  8. Cara, eu adoro essa flecha

    ~Filha de Mercurio

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  9. ''TU ME DESTE NÃO UMA QUESTÃO, MAS UMA HISTÓRIA.
    Eu me perguntei se a flecha estava me testando, avaliando até onde podia me irritar até que eu a quebrasse ao meio. Eu podia ter feito isso há muito tempo, mas temia terminar com dois fragmentos de uma flecha falante me dando conselhos ruins ao mesmo tempo.
    — Muito bem — falei. — Como podemos encontrar os grifos? Onde está Meg McCaffrey? Como podemos derrotar o imperador, libertar os prisioneiros e recuperar o controle do Oráculo de Trofônio?
    AGORA TU FIZESTE PERGUNTAS DEMAIS, disse a flecha. MINHA SABEDORIA NÃO CUSPIRÁ RESPOSTAS COMO SE FOSSE O GOOGLE.''

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK ADOREIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

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  10. Essa flecha me deu uma baita saudades de Jacques </3

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  11. Essa flecha me deu uma baita saudades de Jacques </3

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  12. COMO ASSIM OS FUNDOS DO CAFÉ????!!!!!!! Tio Rick, não faça isto com meu coração.

    Camila

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Boa leitura :)