27 de maio de 2017

Capítulo 12 - Retaliação

Depois que Roran concordou com o plano deles, Horst começou a distribuir pás, forcados, debulhadoras — qualquer coisa que pudesse ser usada para derrotar os soldados e expulsar os Ra’zac. Roran pegou uma picareta e depois a colocou de lado. Embora nunca tivesse ligado para as histórias de Brom, uma delas, a “Canção de Gerand”, ressoava em seu interior sempre que a escutava. Ela falava de Gerand, o maior guerreiro do seu tempo, que abandonou a sua espada em troca da esposa e da fazenda. No entanto, ele não teve paz, pois um lorde ciumento iniciou uma vendeta contra a família de Gerand, o que o forçou a matar novamente. Contudo ele não lutou com sua espada, mas com um simples martelo.
Roran foi até a parede e retirou de sua superfície um martelo de tamanho médio, com um cabo longo e uma lâmina curva em um dos lados da cabeça. Ele o jogou de uma mão para a outra, depois foi a Horst e perguntou:
— Posso ficar com isso?
Horst olhou para a ferramenta e para Roran.
— Use-a com sabedoria. — E depois se dirigiu para o resto do grupo. — Ouçam. Queremos afugentar, não matar. Quebrem alguns ossos se quiserem, mas não se deixem levar. E o que quer que vocês façam, não paralisem, lutem. Não importa o quão heróicos e bravos vocês se sentirem, lembrem-se que eles são soldados treinados.
Quando todos estavam equipados, eles deixaram a ferraria, atravessaram Carvahall e foram até o limite do acampamento dos Ra’zac. Os soldados já tinham ido dormir, exceto quatro sentinelas que patrulhavam o perímetro das tendas cinzentas. Os dois cavalos dos Ra’zac estavam amarrados a uma estaca bem ao lado de uma fogueira que ardia lentamente.
Horst deu ordens calmamente, mandou Albriech e Delwin espreitar dois dos sentinelas, e Parr e Roran espreitar os outros dois. Roran prendeu a respiração enquanto se aproximava do soldado distraído. Seu coração começou a acelerar enquanto a energia atravessava os seus membros. Ele se escondeu atrás da quina de uma casa, bastante agitado, e esperou o sinal de Horst. Espere. Espere.
Com um rugido, Horst irrompeu de onde estava escondido, liderando o ataque às tendas. Roran se lançou à frente e girou o martelo, pegando o sentinela no ombro, triturando-o ruidosamente. O homem gritou e deixou cair sua alabarda. Ele cambaleava
enquanto Roran acertava suas costelas e suas costas. Roran ergueu o martelo novamente e o homem bateu em retirada, gritando por socorro. Roran correu atrás dele, gritando palavras incoerentes. Chocou-se com a lateral de uma tenda de lã, pisando em cima do que quer que estivesse em seu interior, e depois acertou o topo de um elmo que ele viu emergindo de uma outra tenda. O metal ressoou como um sino. Roran mal notou que Loring pulava ao seu lado — o velho cacarejava e piava no meio da noite enquanto acertava os soldados com um forcado. Era uma confusão de corpos lutando para todos os lados.
Girando à sua volta, Roran viu um soldado tentando puxar o seu arco. Ele saiu em seu encalço e acertou o arco por trás com seu malho de aço, partindo a madeira ao meio. O soldado fugiu. Os Ra’zac saíram de sua tenda gritando em voz alta, com as espadas na mão. Antes que pudessem atacar, Baldor soltou os cavalos e fez com que estes galopassem em direção às duas figuras repugnantes. Os Ra’zac se separaram e depois se reagruparam, só para serem varridos dali ao mesmo tempo em que os soldados perdiam a moral e fugiam. E então tudo acabou.
Roran ofegava no silêncio, sua mão segurava o cabo do martelo. Depois de alguns instantes, ele abriu caminho em meio aos montes de tendas e cobertores até chegar em Horst. O ferreiro sorria largamente debaixo de sua barba.
— Esta foi a melhor briga que eu tive em anos.
Atrás deles, Carvahall despertava à medida que as pessoas tentavam descobrir a origem do tumulto. Roran ficou vendo lâmpadas cintilando por trás de janelas fechadas e então se virou assim que ouviu um leve soluçar.
O garoto, Nolfavrell, estava ajoelhado ao lado do corpo de um soldado, apunhalando-o sistematicamente no peito, enquanto as lágrimas rolavam pelo seu queixo. Gedric e Albriech se aproximaram correndo e afastaram Nolfavrell do cadáver.
— Ele não devia ter vindo — disse Roran. Horst encolheu os ombros.
— Era o seu direito.
Ficou tudo na mesma, matar um dos homens dos Ra’zac só irá fazer com que fique mais difícil nos livrarmos dos profanadores.
— Devíamos fazer barricadas na estrada e no meio das casas para que eles não nos peguem de surpresa. — Observando os homens cuidadosamente para ver se havia feridos, Roran notou que Delwin sofrerá um longo corte em seu antebraço, enfaixado pelo fazendeiro com uma tira arrancada de sua própria camisa rasgada.
Com alguns gritos, Horst organizou o seu grupo. Ele despachou Albriech e Baldor para pegar a carroça de Quimby na ferraria e fez os filhos de Loring e Parr percorrer Carvahall atrás de itens úteis para garantir a segurança do vilarejo.
Enquanto ele falava, as pessoas se reuniam à beira do campo, olhando para o que restou do acampamento dos Ra’zac e para o soldado morto.
— O que aconteceu? — gritou Fisk.
Loring veio correndo e encarou o carpinteiro.
— O que aconteceu? Vou lhe dizer o que aconteceu. Nós derrotamos aqueles barbudos asquerosos... os pegamos com as calças na mão e os tocamos para fora daqui como cachorros!
— Estou feliz. — A voz forte veio de Birgit, uma mulher de cabelos ruivos que abraçou Nolfavrell na altura do peito, ignorando o sangue que manchava o seu rosto. — Eles merecem morrer como covardes por causa da morte do meu marido.
Os moradores do vilarejo concordaram em tom de murmúrio, até que Thane falou:
— Você enlouqueceu, Horst? Mesmo se só tivessem afugentado os Ra’zac e seus soldados, Galbatorix iria simplesmente mandar mais homens. O Império jamais irá desistir enquanto não capturarem Roran.
— Devíamos entregá-lo — rosnou Sloan. Horst ergueu suas mãos.
— Eu concordo, ninguém vale mais do que toda Carvahall. Mas se entregarmos Roran, vocês realmente acham que Galbatorix irá permitir que escapemos de uma punição por conta de nossa resistência? Aos seus olhos, não somos melhores que os Varden.
— Então por que vocês atacaram? — indagou Thane. — Quem lhes deu a autoridade para tomar essa decisão? Vocês nos condenaram a todos!
Desta vez Birgit respondeu:
— Você deixaria eles matarem a sua mulher? — Ela apertou o rosto do filho e depois mostrou para Thane suas mãos sangrentas, como se fosse uma acusação. — Você deixaria que eles nos queimassem?... Onde está a sua virilidade, pedreiro?
Ele baixou a cabeça, incapaz de encarar a expressão inflexível da mulher.
— Eles incendiaram a minha fazenda — disse Roran —, devoraram Quimby e quase destruíram Carvahall. Tais crimes não podem ficar impunes. Somos coelhos assustados para nos escondermos e aceitarmos o nosso destino? Não! Temos o direito de nos defender. — Ele parou assim que Albriech e Baldor chegaram caminhando penosamente pela rua, arrastando a carroça. — Podemos debater essa questão mais tarde. Agora temos que nos preparar. Quem irá nos ajudar?
Quarenta e poucos homens se ofereceram. Juntos, eles encararam a difícil tarefa de tornar Carvahall impenetrável. Roran trabalhou incessantemente, fixaram cercas de madeira em volta das casas, empilharam barris cheios de pedras para construir muralhas provisórias e arrastaram toras pela estrada principal e a bloquearam com duas carroças viradas.
Enquanto Roran cumpria uma tarefa depois da outra, Katrina o deteve numa alameda. Ela o abraçou e depois disse:
— Fico feliz por você estar de volta e ileso. Ele a beijou suavemente.
— Katrina... Tenho que falar com você assim que tudo isso acabar. — Ela sorriu incerta, mas com uma fagulha de esperança. — Você tinha razão, foi tolice da minha parte protelar. Cada momento que passamos juntos é precioso, e eu não tenho nenhuma vontade de desperdiçar o tempo que temos quando um capricho do destino pode nos separar.

Roran estava regando a cobertura de colmo da casa de Kiselt — para que não pegasse fogo — quando Parr gritou:
— Os Ra’zac!
Assim que largou o balde, Roran correu para as carroças, onde havia deixado o seu martelo. Ao pegar a arma, viu um único Ra’zac sentado num cavalo bem ao longe na estrada, fora do alcance de uma flecha. A criatura estava iluminada por uma tocha em sua mão esquerda, enquanto sua direita estava atrás como se estivesse pronta para lançar alguma coisa. Roran deu uma gargalhada.
— Ele vai jogar pedras em nós? Está longe demais para sequer nos atingir... — Ele foi interrompido assim que o Ra’zac moveu seu braço repentinamente e um frasco de vidro percorreu a distância que os separava e se estilhaçou contra a carroça da direita. Um segundo depois, uma bola de fogo jogou a carroça para o alto enquanto uma rajada de ar em combustão lançou Roran contra uma parede.
Pasmo, ele caiu de mãos e joelhos no chão, ofegante. Em meio ao estrondo em seus ouvidos veio o rufar de cavalos a galope. Ele se esforçou para levantar e enfrentar o som, mas teve que mergulhar para o lado quando os Ra’zac adentraram Carvahall pelo vão ardente entre as carroças.
Os Ra’zac controlavam seus corcéis, suas espadas reluziam enquanto eles talhavam as pessoas que se espalhavam a sua volta. Roran viu três homens morrendo até que Horst e Loring alcançaram os Ra’zac e começaram a combatê-los com forcados. Antes que os moradores do vilarejo pudessem se reagrupar, soldados atravessaram a brecha, mataram indiscriminadamente no meio da escuridão.
Roran sabia que eles tinham que ser detidos, caso contrário Carvahall seria tomada. Ele pulou em cima de um soldado, pegou-o de surpresa, e o acertou no rosto com a lâmina do seu martelo. O soldado caiu sem fazer barulho. Enquanto os compatriotas do sujeito corriam em seu auxílio, Roran arrancou o escudo do cadáver de seu braço bambo. Ele quase não conseguiu soltá-lo a tempo de se proteger do primeiro ataque.
Enquanto seguia em direção aos Ra’zac, Roran aparou um golpe de espada e depois atingiu o queixo do homem com uma martelada, jogando-o no chão.
— Comigo! — gritou Roran. — Defendam os seus lares! — Ele fugiu de uma estocada enquanto cinco homens tentavam cercá-lo. — Comigo! Baldor foi o primeiro a responder ao seu chamado, depois Albriech. Alguns segundos depois, os filhos de Loring se juntaram a ele, seguidos por vários outros. Das ruas laterais, mulheres e crianças arremessavam pedras nos soldados.
— Fiquem juntos — ordenou Roran com firmeza. — Estamos em maior número.
Os soldados pararam enquanto a fileira de moradores do vilarejo diante deles continuava a engrossar. Com mais de cem homens às suas costas, Roran lentamente avançou.
— Ataquem, ssseus tolosss — gritou um dos Ra’zac, arremessando o forcado de Loring para longe.
Uma única flecha zumbiu em direção a Roran. Ele a deteve com seu escudo e caiu na gargalhada. Os Ra’zac estavam em pé de igualdade com seus soldados agora, sibilando de frustração. Eles olharam fixamente para os habitantes do local debaixo de seus capuzes negros. De repente Roran começou a ficar letárgico e sem forças para se mover, era difícil até pensar. A fadiga parecia acorrentar seus braços e pernas.
Até que, de longe, dentro de Carvahall, Roran ouviu um grito áspero dado por Birgit. Um segundo depois, uma pedra passou por cima de sua cabeça e foi bem em direção ao Ra’zac que estava na frente, e que, por sua vez, se contraiu com velocidade sobrenatural para desviar do projétil. A distração, por menor que fosse, livrou a mente de Roran da influência soporífica. Será que foi magia?, questionou-se. Ele largou o escudo, pegou seu martelo com ambas as mãos e ergueu por sobre a cabeça — do mesmo jeito que Horst fazia quando queria expandir o metal. Roran andou na ponta dos pés, com o corpo inteiro curvado para trás, até que desceu o braço com um hã! O martelo deu uma cambalhota no meio do ar e atingiu violentamente o escudo dos Ra’zac, deixando uma mossa formidável.
Os dois ataques foram o suficiente para anular de vez os estranhos poderes dos Ra’zac. Eles rapidamente entraram em um consenso enquanto os moradores rugiam e marchavam em sua direção, então os invasores puxaram as rédeas de seus cavalos e se viraram repentinamente.
— Bater em retirada — rugiram, enquanto passavam pelos soldados. Os guerreiros vestidos de vermelho saíram emburrados de Carvahall, golpeavam qualquer um que deles se aproximasse demais. Só quando estavam a uma boa distância das carroças em chamas, ousaram se virar. Roran suspirou e recuperou o seu martelo, sentindo os ferimentos na lateral do corpo e nas costas, bem onde ele se chocou contra a parede.
Abaixou a cabeça ao ver que a explosão havia matado Parr. Nove outros homens também morreram. Esposas e mães rasgaram a noite com seus lamentos. Como isso pôde acontecer aqui?
— Venham todos! — gritou Baldor.
Roran piscou e cambaleou até o meio da estrada, onde Baldor estava. Um Ra’zac estava sentado como um besouro em cima do cavalo a apenas vinte metros de distância. A criatura curvou um dos dedos em direção a Roran e disse:
— Vocccê... voccccê fede como sssseu primo. Nósss nunca noss esssquecccemosss de um cheiro.
— O que vocês querem? — gritou ele. — Por que vocês estão aqui?
O Ra’zac riu de um jeito horrendo, como se fosse um inseto.
— Nósss queremosss... informaççççõesss. — O ser olhou para trás, por onde os seus aliados haviam fugido e depois gritou: — Entreguem Roran e vocccesss ssserão vendidosss como essscravosss. Protejam-no e vamosss devorá-losss. É bom que tenham uma resssposssta quando voltarmosss. E que ssseja a resssposssta cccerta.

Um comentário:

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Boa leitura :)