27 de maio de 2017

Capítulo 11 - Martelo e tenaz

Três dias depois da chegada dos Ra’zac, Roran se viu andando ansioso nos limites de seu acampamento na Espinha. Ele não ouvia notícia alguma desde a visita de Albriech, nem era possível recolher informação enquanto observava Carvahall. Ele olhou para as tendas distantes onde os soldados dormiam e depois continuou a andar.
Ao meio-dia, Roran teve um almoço seco e minguado. Enquanto limpava a boca com as costas da mão, ele se perguntou: Quanto tempo os Ra’zac estão dispostos a esperar? Se aquilo era um teste de paciência, ele estava determinado a vencer.
Para passar o tempo, ele praticava arco e flecha numa tora podre, só parava quando uma flecha se estilhaçava numa pedra enterrada no tronco. Depois disso não havia mais nada para fazer, exceto retomar as caminhadas a passos largos de um lado para o outro pelo caminho desimpedido que ia de uma pedra arredondada até o lugar onde dormia. Ele ainda estava andando quando ouviu passos na floresta mais abaixo. Roran pegou o seu arco, se escondeu e esperou. Foi um alívio quando viu o rosto de Baldor surgindo do nada. Roran acenou para que ele se aproximasse.
Enquanto se sentavam, Roran perguntou:
— Por que ninguém veio mais aqui?
— Não podíamos — disse Baldor, limpando o suor da testa. — Os soldados têm nos vigiado muito de perto. Esta foi a primeira oportunidade que tivemos de escapar. Mas não posso ficar aqui muito tempo. — Ele virou o rosto em direção ao pico que ficava mais acima e estremeceu. — Você é mais valente do que eu, por ficar aqui. Você teve algum problema com lobos, ursos ou linces?
— Não, eu estou bem. Os soldados contaram alguma novidade?
— Um deles se gabou para Morn na noite passada, dizendo que seu pelotão foi escolhido a dedo para esta missão. — Roran fechou a cara. — Eles não têm andado muito quietos... Pelo menos dois ou três ficam bêbados toda noite. Um grupo deles destruiu o salão da taverna de Morn logo no primeiro dia.
— Eles pagaram pelos danos?
— E claro que não.
Roran virou o rosto e olhou lá para baixo, para o vilarejo.
— Eu ainda não consigo acreditar que o Império percorreu tamanha distância para me capturar. O que eu poderia lhes dar? O que eles acham que eu posso lhes dar?
Baldor acompanhou seu olhar.
— Os Ra’zac interrogaram Katrina hoje. Alguém mencionou que vocês dois eram íntimos, e eles estavam curiosos para saber se ela tinha noção de onde você estava.
Roran voltou a encarar o rosto de Baldor.
— Ela está bem?
— Seria preciso mais do que aqueles dois para assustá-la — tranquilizou-o Baldor. Sua frase seguinte foi cautelosa e teve o intuito de sondá-lo. — Talvez você devesse pensar em se entregar.
— Eu logo iria me enforcar e a eles junto comigo! — Roran se levantou e andou a passos largos pela sua rota costumeira, ainda batendo em sua perna. — Como você pode dizer isso, sabendo como eles torturaram o meu pai?
Baldor pegou no braço do amigo e disse:
— O que vai acontecer se você continuar escondido e os soldados não desistirem e partirem? Eles concluirão que mentimos para ajudar você a escapar. O Império não perdoa os traidores.
Roran se afastou de Baldor. Ele deu meia-volta, batendo na perna, e depois se sentou abruptamente. Se eu não aparecer, os Ra’zac culparão as pessoas que estiverem perto. Se eu tentasse levar os Ra’zac para longe... Roran não era um habitante das matas hábil o suficiente para livrar-se de trinta homens e dos Ra’zac. Eragon podia fazer isso, mas eu não. Ainda assim, a não ser que a situação mudasse, poderia ser a única saída.
Ele olhou para Baldor.
— Não quero que ninguém se machuque por minha causa. Por enquanto irei esperar, mas se os Ra’zac começarem a ficar impacientes e ameaçarem alguém... Bem, aí eu penso em outra coisa para fazer.
— E uma situação muito desagradável, sob todos os aspectos — afirmou Baldor.
— A qual eu pretendo sobreviver.
Baldor partiu logo depois, deixando Roran sozinho com seus pensamentos em sua caminhada interminável. Ele cobriu quilômetro após quilômetro, cavando sulcos na terra sob o peso de suas reflexões. Quando o frio anoitecer chegou, ele tirou suas botas — com medo de desgastá-las — e continuou a andar descalço.
Assim que o quarto crescente surgiu e agrupou as sombras noturnas em raios de luz cor de mármore, Roran notou uma inquietação em Carvahall. Um grande número de lanternas se movia de um lado para o outro, piscavam e sumiam ao passar por trás das casas. As luzes amarelas se apinhavam no centro de Carvahall, como se fossem uma nuvem de vagalumes, e depois fluíam a esmo para os limites da cidade, onde deram de cara com a compacta fila de tochas do acampamento dos soldados.
Durante duas horas, Roran ficou vendo os oponentes se enfrentando — as lanternas agitadas se acometiam, inábeis, contra as tochas impassíveis. Finalmente, os grupos bruxuleantes se dispersaram e se infiltraram de volta em suas tendas e casas.
Quando nada mais de interessante ocorreu, Roran desamarrou seu saco de dormir e se enfiou debaixo dos cobertores.

Durante todo o dia seguinte, Carvahall foi consumida por uma atividade pouco usual. Figuras andavam a passos largos entre as casas e até mesmo, como Roran ficou surpreso ao ver, passeavam a cavalo pelo vale Palancar seguindo para várias fazendas. Ao meio-dia, ele viu dois homens entrando no acampamento dos soldados e desaparecendo dentro da tenda dos Ra’zac durante quase uma hora.
De tão absorto pelos acontecimentos, Roran quase não saiu do lugar o dia inteiro.
Ele estava no meio do jantar quando, como ele bem esperara, Baldor reapareceu.
— Está com fome? — perguntou Roran, gesticulando. Baldor balançou a cabeça e sentou-se como se estivesse exausto. Linhas escuras debaixo dos seus olhos faziam sua pele parecer fina e ferida.
— Quimby está morto.
A tigela de Roran retiniu assim que caiu no chão. Ele falou alguns palavrões enquanto limpava o ensopado frio que caiu em sua perna e depois perguntou:
— Como?
— Uns dois soldados começaram a perturbar Tara na noite passada. — Tara era a esposa de Morn. — Ela de fato não se importou, exceto pelo fato de que os homens acabaram brigando para ver quem ela iria servir primeiro. Quimby estava lá, examinando um barril que Morn dissera ter virado, e tentou apartá-los. — Roran acenou com a cabeça. Aquele era Quimby, sempre interferindo para garantir que os outros se comportassem adequadamente. — Só que um soldado acabou jogando um vaso e o acertou bem na têmpora, matando-o instantaneamente.
Roran ficou olhando para o chão com as mãos nos quadris, esforçando-se para recuperar o controle de sua respiração entrecortada. Era como se Baldor houvesse lhe privado do vento. Isso não é possível... Quimby, morto? O fazendeiro e cervejeiro era tão parte do cenário quanto as montanhas que cercavam Carvahall, uma presença fundamental que moldava a estrutura do vilarejo.
— Será que esses homens serão punidos?
Baldor levantou a mão.
— Logo depois que Quimby morreu, o Ra’zac roubaram o seu corpo da taverna e o levaram para sua tenda. Tentamos recuperá-lo na noite passada, mas eles não queriam conversa.
— Eu vi.
Baldor resmungou, esfregando o rosto.
— Papai e Loring se encontraram com os Ra’zac hoje e tentaram convencê-los a liberar o corpo. Os soldados, no entanto, arcarão com as consequências. — Ele fez uma pausa. — Eu estava prestes a sair quando Quimby foi devolvido. Sabe o que sua esposa recebeu de volta? Ossos.
— Ossos!
— Cada um deles estava totalmente limpo... dava para ver as marcas de mordidas... e muitos haviam sido quebrados por causa do tutano.
Roran teve náuseas, assim como um profundo horror pelo destino de Quimby. Era bem sabido que o espírito de uma pessoa jamais poderia descansar até que seu corpo tivesse um enterro apropriado. Revoltado pelo sacrilégio, ele perguntou:
— O que, quem, o comeu então?
— Os soldados ficaram igualmente horrorizados. Deve ter sido os Ra’zac.
— Por quê? Com que finalidade?
— Não acho que os Ra’zac sejam humanos. Você nunca os viu de perto, mas sua respiração é podre e eles sempre cobrem seus rostos com lenços negros. Suas costas são corcundas e são tortas, e os dois falam um com o outro usando estalidos. Até mesmo os seus homens os temem.
— Se eles não são humanos, então que tipo de criaturas podem ser? Não são Urgals.
— Quem sabe?
O medo agora se juntou à repugnância que Roran sentia — medo do sobrenatural. Ele o viu reproduzido no rosto de Baldor enquanto o jovem fechava as mãos. A despeito de todas as histórias dos delitos de Galbatorix, ainda era um choque ter a maldade do rei rondando suas casas. Uma compreensão da história se apossou de Roran assim que ele notou estar envolvido com forças que ele só conhecia por canções e lendas.
— Algo precisa ser feito — murmurou ele.
O ar foi ficando mais quente ao longo da noite até que, lá pela tarde, as ondas do calor inesperado da primavera deixaram o vale Palancar abafado, além de terem provocado naqueles que olhavam de fora uma imagem trêmula do local. Carvahall parecia em paz sob o céu azul, contudo Roran podia sentir o amargo ressentimento que unia seus habitantes com uma intensidade maligna. A calma era como um lençol esticado ao vento. Não obstante a aura de expectativa, o dia se mostrou totalmente maçante, Roran passou a maior parte do tempo esfregando a égua de Horst. Até que finalmente se deitou para dormir, olhando para cima, além dos pinheiros gigantes, para o tapete de estrelas que enfeitava o céu noturno. Elas pareciam tão próximas, como se ele tivesse se lançado no meio delas, caindo no vão mais negro.


A lua estava se pondo quando Roran acordou, com a garganta ardendo por causa da fumaça. Ele tossiu e se levantou, piscava porque seus olhos queimavam e lacrimejavam. Os gases nocivos tornavam a respiração difícil.
Roran pegou seus cobertores e selou a égua assustada, para depois a tocar montanha acima, na esperança de encontrar um ar mais puro. Ficou logo evidente que a fumaça estava subindo com ele, por isso o rapaz fez a volta e atalhou pela floresta.
Depois de alguns minutos em manobras na escuridão, eles finalmente se livraram daquela situação e foram para a saliência de um rochedo onde o ar estava limpo pela brisa. Purificando os pulmões com longas inspirações, Roran vasculhou o vale em busca de fogo. Avistou-o num instante.
O celeiro de feno de Carvahall brilhava no meio de um ciclone de chamas, transformando seu precioso conteúdo numa fonte de poeira cor de âmbar. Roran tremeu ao ver a destruição daquilo que alimentava a cidade. Queria gritar e correr da floresta para ajudar a brigada de baldes, contudo não podia abandonar sua própria segurança.
Agora uma faísca aterrissava na casa de Delwin. Em poucos segundos, o teto de sapé explodiu numa onda de fogo. Roran blasfemou, lágrimas rolavam pelo seu rosto. Era por isso que lidar mal com o fogo podia levar ao enforcamento em Carvahall. Será que foi um acidente? Será que foram os soldados? Será que os Ra’zac estão punindo os habitantes do vilarejo por estarem me escondendo?... Será que, de algum modo, eu sou responsável por isso?
A casa de Fisk se juntou ao incêndio destrutivo. Consternado, Roran só podia desviar seu rosto, odiando-se por sua covardia. Ao amanhecer, todos os incêndios haviam sido apagados ou extinguiram-se sozinhos. Só a pura sorte e uma noite sem ventos salvaram o resto de Carvahall de ser consumido.
Roran ficou esperando até ter certeza das consequências, para depois se recolher ao seu acampamento e deitar para descansar. Da manhã até o anoitecer, ele ficou abstraído do mundo, exceto pelas lentes de seus sonhos inquietos.
Até voltar à consciência, Roran ficou simplesmente esperando pelo visitante que com certeza iria aparecer. Desta vez foi Albriech. Ele chegou ao cair da noite, com uma expressão austera e cansada.
— Venha comigo — disse ele. Roran ficou tenso.
— Por quê? — Será que eles decidiram me entregar? Se ele era a causa do fogo, dava para entender por que os moradores do vilarejo o queriam longe. Poderia até concordar se fosse necessário. Não era razoável esperar que todos os habitantes de Carvahall se sacrificassem por ele. Ainda assim, isso não significava que ele iria permitir que o entregassem aos Ra’zac facilmente. Depois do que os dois monstros fizeram com Quimby, Roran iria lutar até a morte para não virar prisioneiro dos dois.
— Porque — disse Albriech, apertando os músculos do maxilar — foram os soldados que começaram o incêndio. Morn os expulsou da Sete Roldanas, mas eles ainda se embebedaram com sua própria cerveja. Um deles deixou uma tocha cair sobre o celeiro de feno enquanto voltava para dormir.
— Alguém se feriu? — perguntou Roran.
— Algumas queimaduras. Gertrude conseguiu tratar delas. Tentamos negociar com os Ra’zac. Eles desdenharam de nossos pedidos para que o Império restituísse nossas perdas e os culpados enfrentassem a justiça. Eles até mesmo se recusaram a confinar os soldados em suas tendas.
— Então por que eu devo voltar?
Albriech deu um risinho cínico.
— Pra botar pra quebrar. Precisamos da sua ajuda para... Remover os Ra’zac.
— Vocês fariam isso por mim?
— Não estamos correndo riscos só por sua causa. Isso, no momento, diz respeito a todo o vilarejo. Pelo menos venha falar com papai e com os outros para ouvir o que eles pensam... Acho que você ficaria feliz de sair dessas montanhas amaldiçoadas.
Roran passou um bom tempo considerando a proposta de Albriech antes de decidir acompanhá-lo. É isto ou fugir, e eu sempre terei como fugir depois. Ele pegou a égua, amarrou suas sacolas à sela e depois seguiu Albriech até o pé do vale.
Sua jornada diminuiu de velocidade assim que eles se aproximaram de Carvahall, pois passaram a usar árvores e arbustos para se camuflar. Escondido atrás de um barril, Albriech checou para ver se as ruas estavam livres e depois fez um sinal para Roran. Juntos os dois saíram das sombras para a penumbra, atentos constantemente para o caso de algum soldado do Império aparecer. Na ferraria de Horst, Albriech abriu uma das portas duplas o suficiente para que Roran e a égua entrassem calmamente.
Lá dentro, a oficina estava iluminada por uma única vela, que projetava um brilho trêmulo sobre a roda de rostos que a cercava na escuridão circundante. Horst estava lá — sua barba espessa se projetava como uma prateleira no meio da luz — ladeado pelos semblantes severos de Delwin, Gedric e Loring. O resto do grupo era composto por homens mais jovens: Baldor, os três filhos de Loring, Parr e o garoto de Quimby, Nolfavrell, que só tinha treze anos.
Todos se viraram para olhar quando Roran chegou à reunião. Horst disse:
— Ah, você conseguiu. Escapou da desgraça enquanto estava na Espinha?
— Tive sorte.
— Então podemos prosseguir.
— Com o que, exatamente? — perguntou Roran ao mesmo tempo em que amarrava a égua a uma bigorna. Loring respondeu, o rosto de pergaminho do sapateiro era um aglomerado de linhas e entalhes tortos.
— Tentamos ser razoáveis com esses Ra’zac... esses invasores. — Ele parou, seu corpo delgado era torturado pelo chiado metálico que vinha do fundo do seu peito. — Eles se recusaram a ser razoáveis. Colocaram todos nós em perigo sem esboçar nenhum sinal de remorso ou arrependimento. — Ele fez um barulho na garganta e depois se pronunciou de forma deliberada: —Eles... têm... que ir. Tais criaturas...
— Não — disse Roran. — Não são criaturas. São profanadores.
Franziram as testas e acenaram concordando. Delwin pegou o fio da conversa.
— O problema é que a vida de todos está em perigo. Se aquele incêndio tivesse se espalhado ainda mais, dezenas de pessoas poderiam estar mortas e aquelas que escapassem teriam perdido tudo o que têm. Por causa disso, concordamos em expulsar os Ra’zac de Carvahall. Você irá se juntar a nós?
Roran hesitou.
— E se eles voltarem e trouxerem reforços? Não podemos derrotar o Império inteiro.
— Não — disse Horst, em tom pesado e solene —, mas também não podemos ficar calados e permitir que os soldados nos matem e destruam as nossas propriedades. Um homem só consegue aturar tanto abuso antes de revidar.
Loring deu uma gargalhada, jogando a cabeça para trás, de modo que a chama dourou seus dentes quebrados.
— Primeiro temos que nos fortificar — sussurrou alegremente —, depois lutamos. Vamos fazer com que eles lamentem o dia em que cravaram seus olhos podres em Carvahall! Há há!

2 comentários:

  1. Aí! O que vai acontecer? Espero que eles acabem com os soldados e com os dois Ra'zac.

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Boa leitura :)