22 de maio de 2017

Capítulo 11 - Fim da inocência

Quando Eragon abriu os olhos na manhã seguinte, pensou que o céu havia caído. Uma superfície lisa e azul esticava-se sobre sua cabeça e inclinava-se até o chão. Ainda meio adormecido, ergueu a mão titubeante e sentiu uma fina membrana com os dedos. Precisou de um longo minuto para perceber o que estava olhando. Virou o pescoço levemente e olhou fixamente para as ancas escamosas onde sua cabeça repousava. Lentamente, tirou as pernas da sua posição fetal, fazendo as cascas dos machucados se romperem. A dor estava um pouco menos intensa do que ontem, mas ele se encolheu quando pensou em andar. Uma fome lancinante lembrou-o de suas refeições perdidas. Conseguiu juntar energia para se mexer e bateu de modo fraco na lateral do corpo de Saphira.
— Ei! Acorde! — gritou.
Ela se virou e levantou a asa, permitindo a entrada da luz do sol.
Eragon apertou os olhos quando a neve cegou-o momentaneamente. A seu lado, Saphira espreguiçou-se como um gato e bocejou, exibindo fileiras de dentes brancos. Quando os olhos de Eragon se adaptaram à luz, ele examinou o lugar onde estavam. Montanhas imponentes e desconhecidas cercavam-nos, projetando sombras compridas na clareira. Perto dali, viu uma trilha cortando a neve em direção à floresta de onde vinha o gorgolejo abafado de um riacho.
Gemendo, ficou em pé e cambaleou, indo mancando até uma árvore. Agarrou um dos galhos e jogou seu peso contra ele. O galho aguentou, mas acabou se quebrando, produzindo um estalo bem alto. Arrancou os ramos, colocou uma das extremidades do galho embaixo do braço e firmou a outra no chão. Com a ajuda da muleta improvisada, foi mancando até o riacho coberto de gelo. Quebrou a dura cobertura, fez uma concha com as mãos e bebeu a água limpa e amargosa. Saciado, voltou para a clareira. Quando saiu do meio das árvores, reconheceu finalmente as montanhas e aquele pedaço de terra.
Foi naquele lugar, em meio a um som ensurdecedor, onde o ovo de Saphira apareceu pela primeira vez. Ele se recostou em um tronco rugoso. Não havia erro, pois viu as árvores acinzentadas que foram arrancadas pela explosão. Como Saphira conhecia este lugar? Ela ainda estava no ovo. Minha memória deve ter passado informações suficientes para que ela pudesse achá-lo. Balançou a cabeça em um assombro silencioso.
Saphira esperava pacientemente.
Você vai me levar para casa?, perguntou ele. Ela empinou a cabeça. Eu sei que você não quer, mas precisa me levar. Nós dois temos uma obrigação com Garrow. Ele cuidou de mim e, através de mim, de você também. Você ignoraria essa dívida? O que dirão de nós daqui a alguns anos se não voltarmos, que nos escondemos como covardes enquanto meu tio corria perigo? Já posso até ouvir a história do Cavaleiro e do seu dragão covarde! Se vai haver uma luta, vamos enfrentá-la e não vamos nos esconder. Você é um dragão! Até mesmo um Espectro fugiria de você! Entretanto, você se encolhe nas montanhas como um coelho assustado.
Eragon quis deixá-la com raiva e conseguiu. Um rosnado correu por sua garganta enquanto arremessava a cabeça, que parou a poucos centímetros do rosto dele. Saphira mostrou as presas e o olhou fixamente, exalando fumaça pelo nariz. Ele esperava não ter ido longe demais. Os pensamentos dela alcançaram-no, vermelhos de raiva.
Sangue encontrará sangue. Eu lutarei. Nossos wyrds, nossos destinos, nos unem, mas não me provoque. Farei isso pela dívida que temos, mas voaremos na direção da insensatez.
— Insensatez ou não — disse ele olhando para o alto, — não há escolha. Nós temos de ir. — Rasgou a camisa ao meio e enfiou um pedaço em ambos os lados da calça. Cuidadosamente, colocou-se em cima de Saphira e segurou com força o pescoço dela. Desta vez, ele disse a ela, Voe mais baixo e mais depressa. O tempo vale ouro.
Segure firme, ela o alertou e depois alçou voo. Subiram acima da floresta e nivelaram sua altura imediatamente, ficando pouco acima dos galhos. O estômago de Eragon ficou embrulhado, e ele ficou feliz por estar de barriga vazia.
Mais rápido, mais rápido, insistiu. Ela não disse nada, mas o bater de suas asas aumentou. Ele fechou os olhos com força e curvou os ombros.
Eragon achou que a proteção extra, oferecida por sua camisa, protegeria suas pernas, mas todos os movimentos de Saphira produziam pontadas de dor. Logo, fios de sangue quente escorriam por suas panturrilhas. Sentia a preocupação emanando de Saphira. Agora, ela voava ainda mais rápido.
Suas asas faziam um tremendo esforço. A terra passava depressa, como se estivesse sendo puxada embaixo deles. Eragon achava que para as pessoas no chão eles pareciam apenas um borrão.
No começo da tarde, o vale Palancar se abriu à frente. Nuvens prejudicavam a visão para o sul. Carvahall ficava ao norte. Saphira diminuía a altitude enquanto Eragon procurava a fazenda. Quando a avistou, o pavor tomou conta dele. Uma nuvem negra, com chamas alaranjadas em sua base, subia.
Saphira! Apontou ele. Quero descer na fazenda. Agora!
Ela fechou as asas e deu uma guinada, entrando em um mergulho acentuado, lançando-se em direção ao solo a uma velocidade vertiginosa. Depois, diminuiu o mergulho e seguiu em direção à floresta. Ele gritou contra o vento que soprava forte:
— Pouse no campo! — Eragon segurou-se com mais força quando entraram em um mergulho vertical.
Saphira esperou até que estivessem a apenas alguns metros do chão para bater suas asas com força para trás. Pousou pesadamente, fazendo-o se soltar. Ele caiu no chão e levantou-se cambaleante e ofegante.
A casa foi feita em pedaços por uma explosão. Madeiras e tábuas que antes formavam paredes e telhados estavam espalhadas por uma grande área. A madeira foi destruída como se um martelo gigante a tivesse quebrado. Telhas de madeira, cobertas de fuligem, estavam por toda parte. Poucas placas de metal retorcido era o que restava do fogão. A camada de neve no chão era perfurada por pedaços quebrados de louça branca e pelos tijolos da chaminé. Uma fumaça densa e oleosa subia do celeiro, que ardia ferozmente.
Os animais da fazenda desapareceram. Alguns foram mortos e outros fugiram assustados.
— Tio! — Eragon correu na direção dos destroços, procurando Garrow no meio dos cômodos destruídos. Não havia sinal dele. — Tio! — gritou de novo Eragon. Saphira andou em volta da casa e parou do lado dele.
A dor mora aqui, disse ela.
— Isso não teria acontecido se você não tivesse fugido comigo!
Você não estaria vivo se não tivéssemos partido.
— Olhe para isso! — gritou ele. — Nós poderíamos ter avisado Garrow! A culpa por ele não ter fugido é sua! — Eragon socou uma trave de madeira com força, rasgando a pele em suas articulações. Sangue pingava dos dedos enquanto ele saía da casa silenciosamente. Foi cambaleante até a trilha que levava à estrada e se abaixou para examinar a neve. Havia várias pegadas na frente dele, mas sua visão estava embaçada e mal podia enxergar. Será que estou ficando cego?, pensou ele. Com a mão trêmula, tocou as bochechas e sentiu que estavam molhadas.
Uma sombra caiu sobre ele quando Saphira apareceu acima, protegendo-o com suas asas.
Tenha calma. Talvez, nem tudo esteja perdido.
Ele olhou para cima, para ela, buscando um pouco de esperança.
Examine a trilha. Meus olhos veem apenas dois pares de pegadas. Garrow não deve ter sido levado daqui.
Ele concentrou o olhar na neve pisada. Dois fracos pares de pegadas de botas de couro dirigiam-se em direção à casa. Em cima desses pares, havia rastros dos mesmos pares de botas deixando o local. Seja lá quem tenha feito as pegadas ao sair, carregava o mesmo peso de quando chegou. Você tem razão. Garrow deve estar aqui! Ele ficou de pé com um pulo e voltou correndo depressa para casa.
Vou procurar em volta das edificações e na floresta, disse Saphira.
Eragon subiu com dificuldade nos destroços da cozinha e começou a revirar freneticamente o monte de entulhos. Pedaços de pedras que ele, normalmente, não conseguiria levantar agora pareciam não oferecer tanta resistência para sair do lugar. Um armário, quase intacto, impediu seu progresso por um segundo, mas ele o levantou e jogou para o alto. Quando puxou uma tábua, algo agitou-se embaixo dele. Ele se virou, pronto para responder a um ataque.
Uma mão surgiu em meio aos destroços do telhado caído. Ela se movia de modo muito fraco, e ele agarrou-a gritando:
— Tio, você pode me ouvir?
Não houve resposta. Eragon enfiou as mãos no meio dos pedaços de madeira, sem se importar com as farpas que rasgavam a sua pele. Ele, rapidamente, fez um braço e um ombro aparecerem, mas o caminho estava impedido por uma pesada viga. Ele jogou seu ombro contra ela e empurrou-a com toda a força do seu ser. Mas a viga venceu os esforços dele.
— Saphira, preciso de você!
Ela veio imediatamente. Pedaços de madeira quebravam embaixo dos pés dela enquanto se deslocava por cima das paredes destruídas. Sem dar uma palavra, passou cautelosamente por ele e encostou o lado do seu corpo na pesada viga. Saphira enfiou as garras no que restava do piso, e seus músculos se retesaram. Com um rangido, a viga foi erguida, e Eragon entrou depressa embaixo dela. Garrow estava deitado de bruços, quase todas as suas roupas estavam rasgadas. Eragon puxou-o para fora dos destroços.
Assim que eles estavam em segurança, Saphira soltou a viga, deixando-a cair no chão.
Eragon arrastou Garrow para fora da casa destruída e colocou-o com cuidado no chão. Apavorado, tocou o tio com cuidado. A pele estava acinzentada, parecendo sem vida, e ressecada como se uma febre o tivesse desidratado. Seu lábio estava partido e havia um arranhão comprido no rosto dele, mas isso não era o pior. Queimaduras fundas e irregulares cobriam a maior parte do corpo. Elas estavam esbranquiçadas e cobertas por um líquido claro e gosmento. Um odor nauseante e repugnante pairava sobre ele – era um cheiro de frutas podres. A respiração acontecia em pequenas arfadas, e cada uma delas parecia ser seu último suspiro.
Assassinos, sussurrou Saphira.
Não fale isso. Ele ainda pode ser salvo! Precisamos levá-lo até a GertrudeMas não posso carregá-lo até Carvahall.
Saphira mentalmente mostrou a ele uma imagem de Garrow pendurado embaixo dela enquanto ela voava.
Você consegue levantar nós dois?
Eu tenho que conseguir.
Eragon escavou em meio aos destroços até achar uma prancha de madeira e algumas tiras de couro. Pediu a Saphira que fizesse um buraco em cada uma das extremidades da prancha usando uma de suas garras; passou uma tira de couro por cada um dos buracos e as amarrou em suas patas dianteiras.
Depois de verificar se os nós estavam firmes, ele rolou Garrow para cima da prancha e prendeu-o bem firme.
Ao fazer isso, um pedaço de pano preto caiu da mão do tio. E era igual às roupas dos estranhos. Com raiva, enfiou o pedaço de pano no bolso e montou em Saphira, fechando os olhos quando seu corpo se assentava em meio a uma forte onda de dor.
Agora!
Ela pulou para cima, suas pernas traseiras afundaram no chão. Suas asas rasgavam o ar enquanto decolava lentamente. Tendões esticavam-se e destacavam-se enquanto ela lutava contra a gravidade. Por um longo e doloroso segundo, nada aconteceu, mas ela se jogou para a frente com força, e eles subiram mais alto. Assim que estavam em cima da floresta, Eragon disse a ela:
Siga a estrada. Assim, você terá espaço se precisar pousar.
Eu posso ser vista.
Isso não tem mais importância!
Ela não argumentou mais, visto que deu uma guinada na direção da estrada e seguiu para Carvahall. Garrow balançou com força embaixo deles. Só as delgadas tiras de couro impediram que ele caísse.
O peso extra deixou Saphira mais lenta. Logo, a cabeça se curvava e havia espuma em sua boca. Lutou para continuar, mas eles ainda estavam a quase cinco quilômetros de Carvahall quando fechou as asas e mergulhou na direção da estrada.
As patas traseiras tocaram o chão, produzindo uma chuva de neve.
Eragon caiu de cima dela, de lado, pesadamente para evitar machucar ainda mais as pernas. Fez um grande esforço para ficar em pé e foi desamarrar as tiras de couro das patas de Saphira. A forte respiração ofegante do dragão enchia o ar.
Ache um lugar seguro para descansar, disse ele. Não sei por quanto tempo ficarei longe, então você terá de se cuidar por um tempo.
Eu esperarei, disse ela.
Ele cerrou os dentes e começou a arrastar Garrow pela estrada. Os primeiros passos provocaram uma explosão de agonia pelo seu corpo.
— Não consigo fazer isso! — berrou ele para o alto e depois deu mais alguns passos. Fechou a boca com um rosnado. Eragon olhava para o chão entre seus pés enquanto se forçava a manter um passo constante. Foi uma luta contra seu corpo debilitado, uma luta que ele se recusava a perder. Os minutos arrastavam-se em uma velocidade agonizante. Cada metro vencido parecia ser muitas vezes maior. Ansioso, imaginava se Carvahall ainda existia ou se os estranhos também a tinham incendiado. Depois de um tempo, em meio a uma onda de dor, ouviu gritos e olhou para cima.
Brom corria em sua direção, de olhos arregalados, cabelos despenteados e com um lado da cabeça repleto de sangue seco. Agitava os braços freneticamente antes de largar seu cajado e agarrar os braços de Eragon, falando algo em voz alta. Eragon piscou sem entender nada. Sem dar nenhum aviso, o chão aproximou-se dele rapidamente. Sentiu o gosto de sangue e desmaiou.

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