22 de maio de 2017

Capítulo 10 - O voo do destino

A mente de Eragon agitava-se enquanto ele se apressava no caminho. Corria o mais rápido que podia, recusando-se a parar até mesmo quando sua respiração ficava difícil, provocando grandes arfadas.
Enquanto vencia a estrada fria, tentou fazer um contato mental com Saphira, mas ela ainda estava longe demais. Pensou no que falaria para Garrow. Agora, não havia escolha: teria de revelar a existência de Saphira.
Eragon chegou em casa, ofegante e com o coração disparado. Garrow estava perto do galpão com os cavalos. Eragon hesitou. Será que devo falar com ele agora? Ele não acreditará, a não ser que Saphira esteja aqui. É melhor eu achá-la primeiro. Ele contornou a fazenda e entrou na floresta. Saphira!, gritou ele com o pensamento.
Estou indo. Foi a fraca resposta. Por essas palavras, ele percebeu a apreensão dela. Esperou impaciente, embora não tenha demorado muito para que o som das asas batendo enchesse o ar. Aterrissou em meio a uma nuvem de fumaça. O que houve?, perguntou ela.
Ele tocou-a no ombro e fechou os olhos. Acalmando a mente, contou a ela rapidamente o que havia acontecido. Quando falou nos estranhos, Saphira recuou. Ela se ergueu e soltou um rugido ensurdecedor e depois chicoteou com a cauda acima de sua cabeça. Ele, surpreso, arrastou-se para trás, abaixando-se, enquanto a cauda dela atingia um monte de neve. Sede de sangue e medo emanaram dela em grandes ondas atordoantes. Fogo! Inimigos! Morte! Assassinos!
Qual é o problema? Ele pôs todas as suas forças nas palavras, mas uma muralha de ferro cercava a mente de Saphira, isolando seus pensamentos. Ela soltou outro rugido e sulcou a terra com as suas garras, rasgando o chão congelado.
Pare! Garrow vai ouvir!
Juramentos quebrados, almas assassinadas, ovos quebrados! Sangue por toda parte. Assassinos!
De modo frenético, ele bloqueou as emoções de Saphira e ficou observando sua cauda. Quando ela passou por ele, Eragon se jogou para o lado e agarrou um dos espinhos nas costas. Segurando com força, ele puxou a si mesmo até a pequena cavidade que havia na base do pescoço dela e se agarrou com mais força quando ela se levantou de novo.
— Chega, Saphira! — gritou bem alto. O fluxo de pensamentos dela parou abruptamente. Ele passou a mão em cima das escamas. — Tudo vai dar certo. — Ela se agachou, e as suas asas ficaram para cima. Elas ficaram paradas por um instante, mas depois se abaixaram, enquanto ela se lançava para o céu.
À medida que Eragon gritava, o chão ficava distante, e eles subiam mais alto do que as árvores. A turbulência do ar batia nele, deixando-o sem fôlego para falar. Saphira ignorou o pavor dele e inclinou-se em direção à Espinha. Lá embaixo, ele observou a fazenda e o rio Anora. Seu estômago ficou embrulhado.
Apertou os braços em volta do pescoço de Saphira e se concentrou nas escamas que estavam na frente do nariz dele, tentando não vomitar enquanto ela subia cada vez mais. Quando ela nivelou o voo, ele ganhou coragem para olhar em volta.
O ar estava tão frio que gelo se formou em seus cílios. Chegaram às montanhas muito mais rápido do que poderia imaginar. Do ar, os picos pareciam dentes gigantes, afiados como navalhas, esperando para cortá-los em fatias. Saphira deu uma guinada inesperada, e Eragon vomitou sobre a lateral do corpo dela. Ele lambeu os lábios, sentindo o gosto de bílis, e pressionou a cabeça contra o pescoço do dragão.
Precisamos voltar, implorou. Os estranhos estão indo para a fazenda. Garrow precisa ser avisado. Faça a volta! Não houve resposta. Tentou entrar na mente dela, mas estava bloqueada por uma barreira de medo e raiva. Determinado a fazê-la dar a volta, ele, de modo assustador, penetrou em sua armadura mental.
Fez pressão nos pontos mais fracos, minou as partes mais fortes e lutou para fazê-la ouvir, mas não obteve nenhum resultado.
Logo, as montanhas cercaram-nos, formando gigantescas paredes brancas quebradas por precipícios de granito. Havia geleiras azuis entre os picos, como rios congelados. Vales e ravinas compridas se abriam no solo.
Ele ouvia os gritos apavorados dos pássaros lá embaixo quando Saphira aparecia. E viu um rebanho de cabritos lanosos pulando de pedra em pedra em um penhasco.
Eragon era açoitado pelos fortes golpes de ar produzidos pelas asas de Saphira, e sempre que ela mexia o pescoço, ele era jogado de um lado para o outro. Ela parecia incansável. Temia que ela fosse voar durante a noite toda. Finalmente, quando ficou escuro, ela se inclinou, mergulhando devagar.
Ele olhou para a frente e viu que estavam na direção de uma pequena clareira em um vale. Saphira desceu voando em espiral, planando prazerosamente sobre as copas das árvores. Ela se jogou para trás quando o chão se aproximou, enchendo as asas com ar, aterrissando nas patas traseiras. Seus poderosos músculos formaram pequenas ondas quando absorveram o impacto da descida. Ela se apoiou nas quatro patas e deu um pulo para não perder o equilíbrio. Eragon pulou sem esperar que dobrasse as asas.
Ao bater no chão, seus joelhos cederam, e ele caiu de rosto na neve. Ele arfava, enquanto uma dor alucinante lacerava suas pernas, enchendo os olhos de lágrimas. Os músculos, que estavam com câimbras por ter se agarrado durante tanto tempo, tremiam violentamente. Ele rolou de costas, tremendo, e esticou seus membros o máximo que podia. Depois, forçou a si mesmo a olhar para baixo. Duas grandes manchas escureciam a calça de lã na parte interior das coxas. Ele tocou o tecido. Estava molhado. Assustado, tirou a calça e fez uma careta. As pernas, na parte interna, estavam esfoladas e cheias de sangue. Não havia mais pele, arrancada pelas duras escamas de Saphira. Ele, cuidadosamente, tocou as lesões e ficou horrorizado.
O frio o castigava enquanto vestia a calça, e gritou quando ela raspou nas feridas sensíveis. Tentou ficar em pé, mas suas pernas não suportaram seu peso.
A noite, que chegava rápido, escureceu a área que o cercava. As montanhas sombreadas não eram familiares. Estou na Espinha. Não sei onde, no meio do inverno, com um dragão enlouquecido e sem poder andar ou achar abrigo. A noite está caindo. Preciso voltar à fazenda amanhã. E o único modo de fazer isso é voando, o que eu não aguento mais fazer. Ele respirou fundo. Oh, como eu queria que Saphira pudesse cuspir fogo. Ele virou a cabeça e a viu perto dele, agachada bem baixo no chão. Ele pôs a mão no lado do corpo dela e sentiu que ela tremia. A barreira na mente dela havia desaparecido. Sem ela, o medo de Saphira o queimou. Ele apertou-a e, lentamente, acalmou-a com imagens tranquilizantes.
Por que os estranhos assustam você?
Assassinos, sussurrou ela.
Garrow está em perigo, e você me sequestrou nessa viagem ridícula! Você não é capaz de me proteger? Ela rosnou profundamente e bateu as mandíbulas com força. Ah, mas se você acha que é capaz, por que fugiu?
A morte é um veneno.
Ele se apoiou em um cotovelo e reprimiu a frustração.
Saphira, veja onde estamos! O sol se pôs, e o seu voo tirou a pele das minhas pernas com tanta facilidade quanto eu descamaria um peixe. Era isso que você queria?
Não.
Então, por que fez isso?, perguntou. Através do elo que tinha com Saphira, Eragon sentiu o arrependimento dela pela dor que ele sentia, mas não quanto às suas ações. A baixa temperatura adormeceu suas pernas. Embora o frio tivesse aplacado a dor, ele sabia que sua condição não era boa. Ele mudou de assunto. Vou congelar a não ser que você faça um abrigo ou um buraco onde eu possa me manter aquecido. Até mesmo uma pilha de galhos e ramos de pinheiro já serve.
Ela parecia estar aliviada por ele ter parado de interrogá-la.
Não há necessidade disso. Vou me enrolar ao seu redor e cobri-lo com as minhas asas. O fogo dentro de mim manterá o frio longe.
Eragon deixou a cabeça cair para trás, batendo no chão.
Tudo bem, mas raspe a neve do chão. Ficará mais confortável. Em resposta, Saphira raspou um monte de neve com a cauda, limpando o lugar com um poderoso golpe. Ela varreu a área de novo para remover os poucos e últimos centímetros de neve endurecida. Ele olhou para a terra exposta com aversão.
Não posso andar até lá. Você terá de me ajudar.
A cabeça dela, maior do que o tronco dele, passou por cima do rapaz e foi repousar ao seu lado. Ele olhou fixamente para os grandes olhos cor de safira e segurou um dos seus espinhos cor de marfim. Saphira levantou a cabeça e arrastou-o lentamente até a área limpa. Devagar. Devagar. Viu estrelas quando passou por cima de uma pedra, mas suportou firme.
Depois que ele a soltou, Saphira deitou-se de lado, expondo seu abdômen quente. Ele se encolheu, encostando-se nas escamas macias do lado de baixo. Ela esticou a asa direita sobre ele, deixando-o em completa escuridão, formando uma tenda viva. Quase que imediatamente, o ar começou a perder a sua frigidez.
Enfiou os braços dentro do casaco e enrolou as mangas vazias em volta do pescoço. Pela primeira vez, notou que a fome corroía seu estômago.
Mas isso não o distraiu de sua maior preocupação: será que conseguiria voltar à fazenda antes que os estranhos chegassem? E se não conseguisse, o que aconteceria? Mesmo que eu me esforce para montar em Saphira de novo, só conseguiremos chegar lá pelo meio da tarde. Os estranhos podem chegar à fazenda muito antes disso. Ele fechou os olhos e sentiu uma única lágrima escorrendo em seu rosto. O que eu fiz?

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