27 de maio de 2017

Capítulo 10 - O presente de Hrothgar

O sol estava a meia hora de nascer quando Eragon e Saphira chegaram ao portão norte de Tronjheim. O portão estava levantado apenas o suficiente para que Saphira pudesse transpô-lo, por isso eles se apressaram para passar por baixo e em seguida esperaram na área de descanso, onde pilares de jaspe avermelhados se assomavam e feras entalhadas rosnavam entre os pilares sanguíneos. Mais adiante, nos limites de Tronjheim, havia dois grifos dourados de uns dez metros de altura. Pares idênticos guardavam cada um dos portões da cidade-montanha. Não havia ninguém à vista.
Eragon segurou as rédeas de Fogo na Neve. O garanhão estava escovado, havia colocado selim e ferraduras novas, e seu alforje estava inchado por causa do excesso de carga que levava. Ele batia com a pata no chão impacientemente, Eragon não o cavalgava há mais de uma semana. Pouco depois, Orik chegou a passos lentos, carregando uma enorme saca nas costas e um pacote nas mãos.
— Sem cavalo? — perguntou Eragon, um tanto surpreso. Será que temos que ir andando até Du Weldenvarden?
Orik resmungou.
— Vamos parar em Tarnag, que fica logo ao norte daqui. De lá pegaremos jangadas ao longo do Az Ragni até Hedarth, um entreposto de comércio para os elfos. Não precisaremos de cavalos antes de Hedarth, por isso, vou usar os meus próprios pés até lá.
Ele colocou o pacote no chão com um clangor e depois o abriu, revelando a armadura de Eragon. O escudo havia sido repintado — para que o carvalho ficasse exatamente no centro — e teve todos os arranhões removidos. Por baixo dele, havia a longa cota de malha, polida e lubrificada até o aço cintilar de tão brilhante. Não havia sinal de onde ela havia sido rasgada quando o Espectro cortou as costas de Eragon. A touca, as luvas, os braçais, as grevas e o elmo foram igualmente restaurados.
— Nossos melhores ferreiros trabalharam neles — disse Orik —, assim como na sua couraça, Saphira. No entanto, como não podemos levar a armadura do dragão conosco, ela ficou com os Varden, que irão guardá-la até o nosso retorno.
Por favor agradeça a ele por mim, disse Saphira.
Eragon agradeceu e depois amarrou as grevas e os braçais, guardando os outros itens nas bolsas. Por último, ele foi pegar o elmo, então descobriu que Orik o estava segurando. O anão rolou a peça de uma das mãos para a outra e disse:
— Não se apresse para colocar isso, Eragon. Há uma escolha que você tem que fazer antes.
— Que escolha?
Ao erguer o elmo, Orik revelou sua fronte polida que, como Eragon viu naquele instante, fora alterada: o martelo e as estrelas do clã de Hrothgar e Orik, o Ingeitum, estavam gravados no aço. Orik franziu a testa, parecendo ao mesmo tempo contente e preocupado, e disse em tom formal:
— Meu rei, Hrothgar, deseja que eu lhe presenteie com esse elmo como símbolo da amizade que ele tem por você. E com ele, Hrothgar lhe faz uma oferta para que você seja adotado como membro do Dûrgrimst Ingeitum, um membro da nossa família.
Eragon olhou para o elmo, pasmo com o gesto de Hrothgar. Isso significa que eu ficaria sujeito ao seu regime?... Se eu continuar a me provir de lealdades e fidelidades neste ritmo, ficarei incapacitado em breve – incapaz de fazer qualquer coisa sem quebrar um juramento qualquer!
Você não precisa colocá-lo na cabeça, assinalou Saphira.
E correr o risco de insultar Hrothgar? Mais uma vez, fomos pegos numa armadilha.
Pode ter sido planejado como presente, no entanto, é outro sinal de otho, não uma armadilha. Creio que ele está nos agradecendo pela minha oferta de reparar Isidar Mithrim.
Aquilo não havia ocorrido a Eragon, pois ele andara muito ocupado tentando descobrir como o rei dos anões poderia obter alguma vantagem sobre eles. É verdade. Mas acho que também é uma tentativa de corrigir o desequilíbrio de poder criado quando jurei lealdade a Nasuada. Os anões não poderiam ter ficado felizes com tamanha virada nos acontecimentos. Ele olhou novamente para Orik, que estava esperando ansiosamente.
— Com que frequência isso já foi feito?
— Para um humano? Nunca. Hrothgar discutiu com as famílias Ingeitum durante um dia e uma noite antes que eles concordassem em aceitá-lo. Se você consentir em carregar o nosso elmo, terá direitos totais como membro do clã. Poderá participar dos nossos conselhos e dar a sua opinião sobre cada questão discutida. E — acrescentou com um tom muito sombrio — se for do deu desejo, terá o direito de ser enterrado com os nossos mortos.
Pela primeira vez, a enormidade da ação de Hrothgar tocou Eragon. Os anões não poderiam oferecer uma honraria maior. Com um movimento rápido, tomou o elmo de Orik e o pôs sobre sua cabeça.
— Sinto-me privilegiado de me juntar ao Dûrgrimst Ingeitum.
Orik acenou com a cabeça em sinal de aprovação e disse:
— Então aceite este Knurlhniem, este Coração de Pedra, e coloque-o entre as suas mãos... sim, desse jeito. Você precisa se revestir de coragem agora e pungir uma veia para molhar a pedra. Algumas gotas serão suficientes... Para terminar, repita comigo: Os il dom qirânû carn dûr thargen, zeitmen, oen grimst vor formv edaris rak skilfz. Narho is belgond... — Era uma recitação comprida e ficou ainda mais longa porque Orik parou para traduzir cada frase. Depois disso, Eragon curou seu pulso com um rápido encanto.
— Seja lá o que os clãs possam dizer sobre este assunto — observou Orik —, vocês têm se comportado com integridade e respeito. Eles não podem ignorar isso. — Ele sorriu. — Estamos no mesmo clã agora, hã? Você é meu irmão de criação. Sob circunstâncias mais normais, Hrothgar teria ele próprio lhe presenteado com o elmo e teríamos uma cerimônia comprida para comemorar a sua admissão no Dûrgrimst Ingeitum, mas os eventos estão transcorrendo de maneira muito rápida para que nos demoremos. Contudo, não pense que você está sendo menosprezado! Sua adoção será celebrada com os rituais apropriados quando você e Saphira voltarem para Farthen Dûr. Haverá banquetes, danças e muitos papéis para assinar a fim de formalizar sua nova posição.
— Não vejo a hora desse dia chegar — disse Eragon. Ele ainda estava preocupado em examinar as inúmeras consequências possíveis de pertencer ao Durgrimst Ingeitum.
Sentado, encostado a um pilar, Orik tirou sua saca de seus ombros e retirou seu machado, o qual rodopiou entre as palmas das mãos. Depois de alguns minutos, ele se recostou e olhou para trás em direção a Tronjheim.
— Barzûl knurlar! Onde estão? Arya disse que estaria bem aqui. Ah! O único conceito de tempo dos elfos é tarde e mais tarde ainda.
— Você já teve de lidar muito com eles? — perguntou Eragon, agachado. Saphira ficou observando tudo com interesse.
De repente o anão deu uma gargalhada.
— Eta. Só com Arya, e mesmo assim esporadicamente, pois ela viaja muito. Em sete décadas, aprendi somente uma coisa sobre ela: Não dá para apressar um elfo. Tentar é como martelar uma lima... ela pode quebrar, mas jamais irá dobrar.
— Com os anões não é a mesma coisa?
— Ah, mas as pedras acabam mudando, dado tempo suficiente. — Orik suspirou e balançou a cabeça. — De todas as raças, os elfos são os que menos mudam, o que é uma das razões que me deixa relutante em seguir viagem.
— Mas iremos encontrar a rainha Islanzadí, ver Ellesméra e quem sabe o que mais? Quando foi a última vez em que um anão foi convidado para ir à Du Weldenvarden?
Orik franziu a testa.
— O cenário não quer dizer nada. Ainda há tarefas urgentes a serem cumpridas em Tronjheim e em nossas outras cidades, porém eu devo vagar pela Alagaësia para trocar gracejos, ficar sentado e engordar enquanto vocês são instruídos. Isso pode levar anos!
Anos!... Ainda assim, se isso for necessário para derrotar os Espectros e os Ra’zac, eu o farei.
Saphira tocou a sua mente: Duvido que Nasuada nos deixe ficar em Ellesméra por mais de alguns meses. De acordo com o que ela nos disse, seremos necessários mais cedo do que esperamos.
— Finalmente! — disse Orik, enquanto se levantava. Aproximavam-se Nasuada — sapatos reluzindo sob o vestido, como se fossem ratos saindo da toca — Jörmundur e Arya, que trazia uma saca parecida com a de Orik. Usava o mesmo traje negro de couro de quando Eragon a viu pela primeira vez, assim como sua espada.
Naquele momento, ocorreu a Eragon que Arya e Nasuada talvez não aprovassem o fato de ele ter se juntado ao Ingeitum. Culpa e tremedeira o assolaram quando ele percebeu que era seu dever consultar Nasuada primeiro. E Arya! Ele se encolheu, lembrando-se de quão furiosa ficou depois de seu primeiro encontro com o Conselho de Anciãos.
Tanto que, quando Nasuada parou a sua frente, ele evitou seu olhar, envergonhado. Mas ela apenas disse:
— Você aceitou. — Sua voz foi suave, contida. Ele acenou com a cabeça, ainda olhando para baixo. — Fiquei me perguntando se você aceitaria. Agora, mais uma vez, todas as três raças o dominam de alguma forma. Os anões podem reivindicar a sua submissão como membro do Dûrgrimst Ingeitum, os elfos irão treiná-lo e moldá-lo... e a influência deles pode vir a ser a mais forte, pois você e Saphira estão ligados pela magia deles. E você jurou lealdade a mim, uma humana... Talvez seja melhor que compartilhemos a sua lealdade. — Ela respondeu à surpresa dele com um sorriso estranho, depois colocou um pequeno saco de moedas na palma da mão do Cavaleiro e se afastou.
Jörmundur estendeu a mão, a qual Eragon apertou, sentindo-se um pouco confuso.
— Faça uma boa viagem, Eragon. Cuide-se bem.
— Venha — disse Arya, passando por eles e seguindo rumo à escuridão de Farthen Dûr. — E hora de partir. Aiedail se firmou, e temos um longo caminho pela frente.
— Isso — concordou Orik. Ele tirou uma lanterna vermelha de um bolso lateral de sua saca. Nasuada olhou para todos mais uma vez.
— Muito bem. Eragon e Saphira, vocês têm a bênção dos Varden, assim como a minha. Que sua jornada seja segura. Lembrem-se, vocês carregam o peso de nossas esperanças e perspectivas, por isso portem-se de maneira honrada.
— Faremos o melhor que pudermos — prometeu Eragon. Segurando com firmeza as rédeas de Fogo na Neve, ele saiu atrás de Arya, que já estava vários metros à frente, seguido de Orik e de Saphira, que vinha por último. Assim que esta passou por Nasuada, Eragon a viu parar e lamber a líder dos Varden de leve no rosto. Depois Saphira andou a passos cada vez mais largos até alcançá-lo.
Enquanto continuavam seguindo para o norte ao longo da estrada, o portão que ficou para trás foi diminuindo gradativamente de tamanho até ficar reduzido a um ponto de luz — com duas silhuetas solitárias no trecho de onde Nasuada e Jörmundur permaneciam observando.
Quando finalmente alcançaram a base de Farthen Dûr, encontraram um par de portas gigantes — com dez metros de altura — abertas, esperando. Três guardas anões se curvaram e se afastaram da abertura. Através das portas entrava-se em um túnel com proporções equivalentes, ladeado por colunas e lanternas ao longo dos quinze primeiro metros. Depois disso, tornava-se tão vazio e silencioso quanto um mausoléu. Parecia exatamente igual à entrada oeste de Farthen Dûr, mas Eragon sabia que este túnel era diferente. Em vez de atravessar a base de um quilometro e meio para emergir do outro lado, ele seguia por baixo de montanha atrás de montanha, indo assim até a cidade anã de Tarnag.
— Esta é a nossa trilha — disse Orik, levantando a lanterna. Ele e Arya cruzaram a soleira, mas Eragon se deteve, subitamente indeciso. Ao mesmo tempo em que não tinha medo de escuro, ele não acolhia bem o fato de ser cercado pela noite eterna até a chegada em Tarnag. E uma vez que ele tivesse entrado naquele túnel estéril, novamente ele iria se lançar no desconhecido, abandonando as poucas coisas com as quais ele se acostumara entre os Varden, em troca de um destino incerto.
O que é?, perguntou Saphira.
Nada.
Ele respirou fundo e depois seguiu a passos largos, permitindo que a montanha o engolisse para dentro de suas entranhas.

2 comentários:

  1. Talvez esteja enganada mas veio sutis refencias às Crônicas de Gelo e Fogo "ela pode quebrar, mas jamais irá dobrar".

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  2. Gemte a previsao q alguém da familia dele iria trai lo c ele é d outra familia agr quem vai trair é um anão (Q N SEJA O REI NEM ORIK)

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Boa leitura :)