27 de maio de 2017

Capítulo 1 - Um desastre duplo

As canções dos mortos são os lamentos dos vivos. Assim pensou Eragon quando transpôs o corpo de um Urgal desfigurado e retalhado.
Enquanto caminhava, o jovem ouvia o carpir das mulheres que removiam os seus amados do solo sangrento e enlameado de Farthen Dûr. Atrás dele, Saphira evitava delicadamente os cadáveres, e o azul resplandecente de suas escamas era a única cor na escuridão que preenchia a montanha oca.
Haviam-se passado três dias desde a luta dos Varden e dos anões contra os Urgals pela posse de Tronjheim, a cidade coniforme que fica a cerca de dois mil metros de altura, no interior de Farthen Dûr. Porém o resultado da carnificina ainda cobria o campo de batalha. O grande número de corpos espalhados frustrou o propósito de enterrar os mortos. Mais ao longe, uma imensa fogueira ardia, em silêncio, ao lado da muralha de Farthen Dûr, onde os Urgals eram incinerados. Nada de enterro ou sepulturas honradas para eles.
Ao acordar e perceber que Angela curara seu ferimento, Eragon tentou por três vezes ajudar no esforço de recuperação. Em cada uma dessas ocasiões, fora atormentado por dores terríveis que pareciam explodir de sua espinha. Os curandeiros lhe deram várias poções para beber. Arya e Angela disseram que ele estava perfeitamente são. Contudo, sofria. Saphira também não podia ajudar, apenas partilhar a dor ressonante através do elo mental existente entre eles.
Eragon passou a mão no rosto e ergueu os olhos para as estrelas visíveis acima do distante cume de Farthen Dûr, as quais tinham sua imagem borrada devido à fumaça fuliginosa que emanava da pira funerária. Três dias. Três dias desde que matara Durza, três dias desde que as pessoas começaram a chamá-lo de Matador de Espectros, três dias desde que o restante da consciência do feiticeiro devastara sua mente e ele fora salvo pelo misterioso Togira Ikonoka, o Imperfeito Que é Perfeito. Ele não falara para ninguém sobre tal visão a não ser para Saphira. Lutar contra Durza e os espíritos das trevas que o controlavam havia transformado Eragon, embora ele, inevitavelmente, ainda estivesse inseguro. Sentia-se frágil, como se um choque inesperado fosse despedaçar seu corpo e consciência reconstruídos.
E agora ele estava de volta ao local do combate, movido por um desejo mórbido de ver qual havia sido seu resultado. Ao chegar, não encontrou nada além da incômoda presença da morte e da deterioração, não a glória que as canções heróicas o levaram a esperar.
Meses atrás, antes de seu tio Garrow ter sido assassinado pelos Ra’zac, a brutalidade testemunhada por Eragon entre humanos, anões e Urgals o teria destruído. Agora ela o entorpecia. Percebera, com a ajuda de Saphira, que a única maneira de manter a sanidade em meio a tanta dor era fazer coisas. Além disso, ele não acreditava mais que a vida possuísse um significado inerente — não depois de ter visto homens sendo dilacerados pelos Kull, uma raça de Urgals gigantes, e o solo transformado em leito de membros arrancados e a terra tão molhada de sangue que encharcava as solas de suas botas. Se havia alguma honra na guerra, concluiu, era em lutar para proteger os outros de injustiças.
Eragon agachou-se e pegou no meio da lama um dente, um molar. Balançava-o na palma da mão, enquanto circulava lentamente com Saphira pela planície devastada. Pararam em sua margem quando notaram Jörmundur — o subcomandante de Ajihad entre os Varden — que vinha de Tronjheim, correndo em sua direção. Quando se aproximou, Jörmundur se curvou, um gesto que jamais teria feito alguns dias antes.
— Fico feliz por tê-lo encontrado a tempo, Eragon. — Ele segurava um rolo de pergaminho numa das mãos. — Ajihad está retornando e quer a sua presença quando voltar. Os outros já estão aguardando por ele no portão oeste de Tronjheim. Teremos de nos apressar para chegar lá a tempo.
Eragon assentiu e seguiu em direção ao portão, mantendo uma de suas mãos em Saphira. Ajihad andara sumido durante a maior parte dos três últimos dias, caçando Urgals que conseguiram escapar pelo conjunto de pequenos túneis perfurados pelos anões abaixo das Montanhas Beor. Na única vez que Eragon o vira, no intervalo entre as campanhas, Ajihad estava furioso por ter descoberto que sua filha, Nasuada, havia desobedecido as suas ordens de partir junto com as outras mulheres e crianças antes da batalha. Em vez disso, ela lutara secretamente entre os arqueiros dos Varden.
Murtagh e os Gêmeos haviam acompanhado Ajihad: os Gêmeos porque era um trabalho perigoso e o líder dos Varden precisava dos poderes mágicos da dupla para protegê-lo, e Murtagh porque o jovem estava ávido para continuar provando que não nutria nenhuma animosidade em relação aos Varden. Surpreendeu a Eragon o quanto a atitude das pessoas mudou em relação a Murtagh, considerando que seu pai era o Cavaleiro de Dragões Morzan, que havia traído os Cavaleiros em favor de Galbatorix. Muito embora Murtagh desprezasse o pai e fosse leal a Eragon, os Varden não confiavam nele. Mas agora ninguém estava disposto a desperdiçar energia com um ódio insignificante quando ainda restava tanto trabalho a fazer. Eragon sentia falta de conversar com Murtagh e não via a hora de poder discutir tudo que havia acontecido, assim que ele retornasse. Enquanto Eragon e Saphira contornavam Tronjheim, um pequeno grupo tornou-se visível sob um feixe de luzes de lanternas, diante do portão de madeira. Entre eles estavam Orik — o anão andava impaciente de um lado para o outro com suas pernas robustas — e Arya. A bandagem branca em volta da parte de cima do seu braço brilhava na escuridão, refletindo algo levemente iluminado sob o seu cabelo. Eragon sentiu uma palpitação estranha, como sempre acontecia quando via a elfa. Ela olhou para ele e Saphira, com os olhos verdes reluzindo, e depois continuou a esperar por Ajihad.
Ao quebrar Isidar Mithrim — a grande estrela de safira de 18 metros de diâmetro e esculpida no formato de uma rosa —, Arya permitira que Eragon matasse o Espectro e com isso vencesse a batalha. Ainda assim, os anões estavam furiosos por ela ter destruído seu tesouro mais precioso. Eles se recusaram a mover os estilhaços da safira, deixando-os num enorme círculo dentro da câmara central de Tronjheim. Eragon andara no meio dos destroços fragmentados e partilhou com os anões da tristeza pela beleza perdida.
Ele e Saphira pararam próximos a Orik e contemplaram a terra vazia que cercava Tronjheim e se estendia até a base de Farthen Dûr, oito quilômetros para cada direção.
— De onde virá Ajihad? — perguntou Eragon.
Orik apontou para um feixe de lanternas presas em volta de um túnel largo que se estendia por três quilômetros.
— Ele deve chegar aqui a qualquer momento.
Eragon esperou pacientemente junto com os outros, respondendo a comentários a ele dirigidos, mas preferindo falar com Saphira na paz de sua mente. A tranquilidade que se espalhara por Farthen Dûr lhe convinha.
Meia hora havia se passado antes que se percebesse algum movimento no túnel ao longe. Um grupo de dez homens saiu de dentro de um buraco no chão para depois se virar e ajudar o máximo de anões a subir. Um dos homens — Eragon supôs que se tratasse de Ajihad — ergueu uma das mãos, e os guerreiros se reuniram atrás dele, formando duas linhas retas. Assim que foi dado um sinal, a formação marchou confiante em direção a Tronjheim.
Antes de andarem mais do que cinco metros, o túnel que havia ficado para trás foi acometido de um inesperado alvoroço quando mais vultos pularam para fora. Eragon estreitou os olhos, incapaz de enxergar direito por causa da distância.
São Urgals!, exclamou Saphira, e seu rosto ficou tenso como uma corda de arco puxada.
Eragon não a questionou.
— Urgals! — gritou e pulou sobre Saphira, repreendendo-se severamente por ter deixado sua espada, Zar’roc, no quarto. Ninguém esperava um ataque depois que o exército dos Urgals havia sido expulso. Seu ferimento doía enquanto Saphira erguia suas asas azul celestes, para depois baixá-las e saltar para a frente, ganhando velocidade e altitude a cada segundo. Debaixo deles, Arya corria em direção ao túnel, quase na mesma velocidade que Saphira. Orik a seguia junto com alguns homens, ao passo que Jörmundur voltava correndo para o quartel.
Eragon foi forçado a assistir, impotente, os Urgals se lançarem sobre a retaguarda da tropa de Ajihad, ele não tinha como recorrer à magia daquela distância. Os monstros tinham a vantagem da surpresa e rapidamente derrubaram quatro homens, forçando o resto dos guerreiros, homens e anões, a se agruparem em volta de Ajihad, na tentativa de protegê-lo. Espadas e machados se chocavam enquanto os grupos se comprimiam. Uma luz foi lançada por um dos gêmeos e um Urgal caiu, segurando o coto do seu braço cortado.
Por um instante, parecia que os defensores teriam como resistir aos Urgals, mas de repente uma espiral em movimento embaçou o ar, como se um tênue anel de névoa tivesse envolvido os combatentes. Quando clareou, só havia quatro guerreiros de pé: Ajihad, os Gêmeos e Murtagh. Os Urgals convergiram sobre eles, bloqueando a visão de Eragon que olhava fixamente, com horror e medo crescentes.
Não! Não! Não!
Antes que Saphira pudesse chegar ao meio da contenda, os Urgals voltaram correndo para o túnel e se arrastaram rumo ao subsolo, deixando para trás apenas corpos curvados.
No momento em que Saphira pousou, Eragon saltou correndo, mas em seguida hesitou, dominado pela raiva e pela dor. Não posso fazer isso. Aquilo o lembrou muito de quando voltara para a fazenda e vira seu tio Garrow morrendo. Lutando contra o medo a cada passo, ele começou a procurar os sobreviventes.
O local possuía uma semelhança sinistra com o campo de batalha inspecionado anteriormente por ele, exceto pelo fato de que ali o sangue era fresco.
No meio do massacre encontrava-se Ajihad, cujo peito estava estraçalhado por inúmeros cortes, cercado pelos cinco Urgals que ele havia assassinado. Sua respiração silenciosa vinha em fracos espasmos. Eragon ajoelhou ao seu lado e inclinou o rosto para que suas lágrimas não caíssem sobre o peito dilacerado do líder. Ninguém poderia curar tais ferimentos.
Arya correu em sua direção, mas desistiu e parou, enquanto seu rosto transformava-se com o pesar, ao perceber que Ajihad não poderia ser salvo.
— Eragon. — O nome escapou dos lábios de Ajihad... não mais que um sussurro.
— Sim, estou aqui.
— Ouça-me, Eragon... Tenho uma última ordem para lhe dar. — O rapaz se inclinou mais para perto no intuito de captar as palavras do homem agonizante. — Você tem de me prometer uma coisa: prometa que... não vai deixar o caos se espalhar entre os Varden. Eles são a única esperança de resistência contra o Império... Eles devem continuar a ser fortes. Você precisa me prometer.
— Eu prometo.
— Que a paz esteja com você então, Eragon Matador de Espectros... — Com um último suspiro, Ajihad fechou os olhos, seu rosto nobre assumindo uma expressão tranquila, e morreu.
Eragon inclinou a cabeça. Um nó na garganta, apertado a ponto de doer, dificultava a sua respiração. Arya abençoou Ajihad com um murmúrio na língua antiga, e depois falou com sua voz musical:
— Meu Deus, sua morte será motivo de muita discórdia. Ele tem razão, você deve fazer tudo que puder para evitar uma luta pelo poder. Eu o ajudarei no que for possível.
Sem vontade de falar, Eragon olhou fixamente para o resto dos corpos. Daria qualquer coisa para estar em outro lugar. Saphira farejou um dos Urgals e disse: Isso não devia ter acontecido. É uma verdadeira desgraça, a pior coisa que poderia ter ocorrido quando devíamos estar seguros e nos sentindo vitoriosos. Ela examinou outro corpo e depois virou a cabeça para o lado. Onde estão os Gêmeos e Murtagh? Eles não estão entre os mortos.
Eragon examinou cuidadosamente os cadáveres. Você tem razão! Um ligeiro entusiasmo brotou em seu íntimo enquanto corria para a boca do túnel. Lá, poças de sangue espesso cobriam os buracos dos degraus de mármore gasto, parecendo montes de espelhos escuros, brilhantes e ovais, como se vários corpos dilacerados tivessem sido arrastados sobre eles. Os Urgals devem tê-los capturado! Mas por quê? Eles não mantêm prisioneiros ou reféns. O desespero voltou instantaneamente. Não importa. Não podemos procurá-los sem reforços, você nem mesmo passaria pela abertura.
Eles ainda podem estar vivos. Você os abandonaria?
O que você espera que eu faça? Os túneis dos anões são um labirinto interminável! Eu simplesmente me perderia. E não conseguiria pegar Urgals andando, embora Arya pudesse fazê-lo.
Então peça a ela.
Arya! Eragon hesitou, dividido entre seu desejo de agir e sua aversão à possibilidade de colocá-la em perigo. Contudo, se havia uma pessoa entre os Varden capaz de enfrentar os Urgals, era ela. Com um suspiro, ele relatou o que os dois haviam encontrado.
As sobrancelhas oblíquas de Arya se franziram.
— Isso não faz sentido.
— Você sairá em seu encalço?
Ela o encarou longa e intensamente.
— Wiol ono. Por você. — Em seguida ela deu um salto à frente, com a espada brilhando em sua mão enquanto mergulhava no ventre da terra.
Ardendo de frustração, Eragon se acomodou, de pernas cruzadas, perto de Ajihad, velando o seu corpo. Ele mal podia assimilar o fato de que o líder dos Varden estava morto e Murtagh havia desaparecido. Murtagh. Filho de um dos Renegados — os treze cavaleiros que ajudaram Galbatorix a destruir sua ordem e consagrá-lo rei da Alagaësia — e amigo de Eragon. Houve momentos em que Eragon quis que Murtagh partisse, mas agora que havia sido levado à força, a perda deixou uma lacuna inesperada. Ele ficou sentado e imóvel enquanto Orik se aproximava com os homens.
Quando viu Ajihad, Orik bateu com o pé no chão e praguejou na língua dos anões, golpeando com seu machado o corpo de um Urgal. Os homens ficaram simplesmente paralisados, em choque. Esfregando um punhado de lama entre suas mãos calejadas, o anão resmungou:
— Ah, agora mexeram em casa de marimbondo, não teremos paz entre os Varden depois disso. Barzûl, mas isso torna as coisas complicadas. Você chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras?
Eragon olhou para Saphira.
— Terão que esperar a pessoa certa chegar para que eu as repita.
— Entendo. E onde está Arya?
Eragon apontou o dedo.
Orik praguejou novamente, para depois balançar a cabeça e sentar sobre os calcanhares.
Jörmundur chegou logo depois com doze fileiras de seis guerreiros. Acenou para que esperassem fora da área onde estavam os corpos enquanto ele seguia sozinho. Ele se curvou e tocou o ombro de Ajihad.
— Como é que o destino pode ser tão cruel, meu velho amigo? Eu teria chegado aqui antes se não fosse o tamanho dessa montanha amaldiçoada, e então você teria sido salvo. Em vez disso, estamos feridos no auge do nosso triunfo.
Eragon cautelosamente lhe contou sobre Arya, o desaparecimento dos Gêmeos e de Murtagh.
— Ela não devia ter partido — disse Jörmundur, reerguendo-se —, mas agora não podemos fazer nada. Guardas ficarão aqui postados, mas demorará pelo menos mais uma hora até que encontremos guias anões para uma outra expedição pelos túneis.
— Estaria disposto a liderá-la — ofereceu-se Orik.
Jörmundur virou-se para trás, em direção a Tronjheim, com o olhar distante.
— Não, Hrothgar vai precisar de você agora, teremos de encontrar outra pessoa. Lamento, Eragon, mas todos que são importantes devem permanecer por aqui até o sucessor de Ajihad ser escolhido. Arya terá que se virar... De qualquer maneira, não poderíamos alcançá-la.
Eragon acenou positivamente, aceitando o inevitável. Jörmundur olhou em volta antes de falar para que todos pudessem ouvir.
— Ajihad morreu como um guerreiro! Vejam, ele matou cinco Urgals enquanto um homem menos valoroso teria sido subjugado por apenas um. Vamos lhe render todas as honras e esperar que seu espírito deixe os deuses felizes. Levem-no e os nossos camaradas de volta para Tronjheim sobre seus escudos... e não se envergonhem de permitir que suas lágrimas sejam vistas, pois este é um dia de tristeza do qual todos irão se lembrar. Que logo possamos ter o privilégio de atravessar com as nossas espadas os monstros que assassinaram o nosso líder!
Como se fossem um só, os guerreiros se ajoelharam, retirando seus capacetes em honra a Ajihad. Depois ficaram de pé e reverentemente o ergueram sobre os seus escudos, para que o líder ficasse deitado entre os seus ombros. Muitos dos Varden já estavam em prantos e suas lágrimas corriam por suas barbas, contudo honraram seu dever e cuidavam a todo momento para não deixar Ajihad cair. Com passos solenes, marcharam de volta para Tronjheim, Saphira e Eragon estavam no meio da procissão.

2 comentários:

  1. Mas que morte foi essa :(, suspeito desses gêmeos!

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  2. Já começou com ação... Estou achando estranho os Urgals tenham capiturado os Gêmeos e Murtagh. Espero que os Gêmeos e Murtagh não sejam traidores...
    Acho esses gêmeos estranhos.

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Boa leitura :)