22 de maio de 2017

Capítulo 1 - A descoberta

Eragon ajoelhou-se no tapete de grama pisado e examinou atentamente as pegadas com seu olhar experiente. As marcas disseram-lhe que o cervo esteve naquela campina há apenas meia hora. Logo, todos iriam dormir. Seu alvo, uma pequena corça que mancava da pata esquerda dianteira, ainda estava com o rebanho. Ele estava surpreso por ela ter conseguido ir tão longe sem que um lobo ou urso a tivesse capturado.
O céu estava limpo e escuro, e uma brisa suave agitava o ar. Uma nuvem prateada pairava sobre as montanhas que o cercavam, cujos cumes resplandeciam com a luz avermelhada da lua da época da colheita, aninhada entre dois picos. Riachos corriam montanha abaixo, brotando das frias geleiras e das brilhantes camadas de neve. Uma névoa pesada arrastava-se acima do solo do vale, quase espessa o bastante para ocultar os seus pés.
Eragon tinha quinze anos, faltava menos de um ano para a idade adulta. Sobrancelhas escuras repousavam acima dos seus vivos olhos castanhos. Suas roupas eram surradas por causa do trabalho. Uma faca de caça, com o cabo feito de osso, estava presa à cinta. E um tubo de pele de veado protegia da neblina o arco feito de teixo. Carregava também uma saca com estrutura de madeira.
A corça levou-o até os recônditos da Espinha, uma cadeia de montanhas indomadas que se estendia do começo ao fim das terras da Alagaësia. Frequentemente histórias estranhas e homens surgiam dessas montanhas trazendo maus agouros e doenças. Apesar disso, Eragon não temia a Espinha, ele era o único caçador perto de Carvahall que ousava caçar em seus recantos mais íngremes.
Era a terceira noite da caçada e metade de sua ração já havia sido consumida. Se não abatesse a corça, seria forçado a voltar para casa de mãos vazias. Sua família precisava da carne para o inverno que se aproximava rapidamente. Eles não tinham condições financeiras para comprá-la em Carvahall.
Eragon estava em pé, confiante, sob o luar enevoado. Logo, entrou na floresta em direção a um vale estreito e profundo, onde tinha certeza de que o animal estaria. As árvores bloqueavam a visão do céu e produziam sombras diáfanas no chão. Só olhava para as pegadas ocasionalmente, pois conhecia o caminho.
No vale estreito, esticou o arco com segurança, sacou três flechas, pondo uma na arma e segurando as outras com a mão esquerda. O luar revelou uns vinte pequenos montes imóveis. Eram os cervos deitados na grama. A corça que ele queria estava na ponta do rebanho, com a pata dianteira esquerda esticada de uma maneira peculiar.
Eragon aproximou-se sorrateiramente, mantendo o arco em prontidão. Todo o trabalho que teve nos últimos três dias levou-o a este momento. Respirou fundo pela última vez, e... Uma explosão quebrou o silêncio da noite.
O rebanho disparou. Eragon pulou para a frente, saiu correndo pela grama enquanto o vento queimava seu rosto. Parou de repente e lançou uma flecha em direção ao animal que saltava. Errou por um triz, e a flecha se perdeu na escuridão. Praguejou e virou-se, preparando instintivamente outra flecha.
Atrás dele, onde os cervos haviam estado, ardia sem chama um grande círculo de árvores e grama.
Muitos dos pinheiros estavam desprovidos de seus galhos. A grama do lado de fora do círculo estava amassada. Uma coluna de fumaça subia, enroscando-se pelo ar e propagando um cheiro de queimado. No centro do lugar onde aconteceu a explosão, repousava uma pedra azul polida. A névoa serpenteava pela área incendiada e envolvia a pedra.
Eragon esperou para ver se não havia perigo durante longos minutos, mas a única coisa que se movia era a névoa. Cautelosamente, afrouxou a tensão do arco e avançou. O luar produziu uma pálida sombra sobre ele quando parou em frente à pedra. Tocou-lhe com uma flecha e saltou para trás. Como nada aconteceu, pegou a pedra com muito cuidado.
A natureza jamais havia polido uma pedra como aquela. Na superfície não havia uma falha sequer, era azul-escura, exceto pelas finas veias brancas que se espalhavam sobre ela como uma teia de aranha. A pedra era fria e não produzia atrito quando tocada, como seda endurecida. Era oval e tinha uns trinta centímetros de comprimento. Pesava alguns quilos, embora parecesse mais leve do que deveria.
Eragon achou a pedra tão bela quanto assustadora. De onde ela veio? Para que servirá?, pensou.
Depois, um pensamento mais perturbador surgiu em sua mente: Será que ela veio parar aqui por acidente ou estarei destinado a possuí-la? Se ele tinha aprendido algo com as antigas histórias, era tratar com muito cuidado a magia e aqueles que a usavam.
Mas o que farei com a pedra? Seria cansativo carregá-la e havia a chance de ser perigoso. Talvez fosse melhor deixá-la para trás. Um tremor de indecisão percorreu-o, e ele quase a deixou cair, mas algo acalmou sua mão. Pelo menos, poderei comprar um pouco de comida com ela, decidiu ele, dando de ombros e enfiando a pedra em sua saca.
O vale estava muito exposto para servir como abrigo seguro, então voltou para a floresta e estendeu sua manta de dormir embaixo das raízes de uma árvore caída. Depois de um jantar frio de pão e queijo, se enrolou nos cobertores e adormeceu, meditando no que havia acontecido.

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