3 de maio de 2017

A Cicatriz


ME FOCANDO NA TEMPESTADE QUE ACABEI DE CRIAR, EU MANDO UM RAIO BEM NA cabeça da criatura que se parece um jacaré de três cabeças antes que ele possa atacar Oito novamente. O raio atordoa a criatura por alguns instantes, e Nove entra na briga, batendo na criatura com seu bastão. Pelo canto do olho vejo Marina ajudando Oito, usando seu Legado de cura no ombro machucado dele enquanto a criatura está distraída. Ótimo – não podemos deixar ninguém ferido aqui por muito tempo.
Assim que Nove está fora do caminho, eu mando mais dois relâmpagos, atordoando a besta mais uma vez. Nada parece adiantar – o número de vezes ou os objetos com que a acertamos – porque ela sempre continua se levantando.
De repente um estranho som de apito paira no ar, e eu viro para ver Cinco tocando uma flauta estranha. Onde ele conseguiu aquilo? E onde ele esteve? Sentado, assistindo a essa batalha? O som faz alguma coisa com o jacaré mutante, pelo menos – ele está caído no chão como se tivesse pegado no sono.
Ouço Cinco e Nove discutirem como sempre, até eu não aguentar mais.
— Algum de vocês poderia matar aquela criatura para podermos sair daqui logo?
Eu me viro para o monstro, mantendo um olho nele para ter certeza de que ele não vai levantar de repente e nos pegar de surpresa novamente.
BUM! Alguma coisa bate na minha cabeça, e a dor acompanhada da escuridão toma conta de mim.
— VAMOS SEIS... – Marina sussurra. — Acorde.
Suas mãos parecem frias ao ladear minha cabeça latejante, seja por seu Legado de cura ou pela possível febre que meu ferimento esteja causando. Minha cabeça dói como se alguém tivesse batido com uma marreta no meu crânio. Sucessivamente. Não tento abrir os olhos porque sinto que seria uma péssima ideia. Mal posso mover os lábios para lhe dizer que estou acordada, que estou consciente, porque tudo está doendo demais.
O que quer que Marina esteja fazendo parece estar funcionando, e posso sentir que a dor está diminuindo. Depois de mais ou menos um minuto, Marina tira suas mãos delicadamente do meu rosto e as apoia no chão. Eu ainda não posso me mover, mas consigo soltar um pequeno gemido.
Sinto que ela está perto de mim, levantando e indo embora. Respiro fundo e bem devagar flexiono meus pés e mãos, foco nas partes que ainda estão doendo. Eu posso mover meus braços e pernas, e nada parece estar quebrado. Estou dolorida e provavelmente muito machucada, mas minha dor de cabeça mostra que essa deve ser a área que mais sofreu com o que quer que tenha me atingido. Mais uma vez o Legado de cura da Marina nos salvou.
Embora tudo ainda esteja doendo, meu corpo parece querer voltar à inconsciência, mas tenho que me manter acordada. Preciso descobrir que diabos aconteceu comigo. Como me nocautearam.
Qual é a última coisa que me lembro? Eu me lembro do senhor do porto que nos alugou seu barco. Ele cheirava a bebida e fumaça, mas não fez perguntas, então não nos importamos. Ele nos vendeu um mapa do local também. Nosso barco era daquele tipo impulsionado por um ventilador gigante.
Nove estava conduzindo. Marina e Oito estavam de vigia.
E era para eu estar navegando, mas eu não conseguia descobrir como ler aquele mapa esfarrapado.
Mas Cinco... Cinco estava explorando à frente e sabia exatamente onde íamos. Estávamos procurando por alguma coisa...
A Arca do Cinco. Escondida em algum lugar no pântano.
Deveríamos pegá-la e voltar.
Então vi algo escamoso com presas amarelas sair de dentro da água do pântano. Eu me lembro de gritar “Cuidado!” ao mesmo tempo em que a criatura começou a atacar. Outra criação mogadoriana, a mais nova da linhagem de bestas que eles já mandaram para nos matar.
Ele nos atacou, e eu devo ter sido nocauteada. Então enquanto todos os outros estão lutando contra aquela besta enorme, estou no banco de reserva, ferida.
Ótimo. Juro que vou fritar aquela coisa com o maior e mais forte raio que conseguir conjurar. Pelo menos, eu devo um soco na cara dessa coisa. Agora, a única coisa que preciso fazer é levantar.
Posso não ser capaz de me mover ou assistir a batalha, mas enquanto estou deitada aqui tentando juntar as coisas em minha mente, ainda posso ouvir o que está acontecendo. De certa forma, é como um jogo que Katarina e eu costumávamos jogar durante nossas viagens, dirigindo por horas de cidades pequenas para cidades pequenas para ficar sempre a frente dos mogs, quando não podíamos parar para descansar, dormir, se esticar, para fazer exercícios físicos.
Sombra, nos o chamávamos. Ela representaria um ataque mogadoriano descrevendo as cenas para que eu pudesse responder revidando. Eu teria que lutar usando meu cérebro ao invés de reflexos ou instinto.
Agora, a luta corpo a corpo está acontecendo ao meu redor, e tenho que descobrir o que está acontecendo com quem está lutando de verdade. Então saberei o que fazer quando eu finalmente levantar. Eu não ajudarei ninguém levantando para ser morta.
Enquanto tento me situar, percebo que não estou ouvindo os rosnados daquele monstro gigante. Eles o mataram, ou a criatura apenas se escondeu debaixo d’água? De um jeito ou de outro, precisamos sair daqui antes que o reforço mogadoriano chegue. Por que aquilo definitivamente era uma besta de Mogadore, e se ela nos encontrou, os mogs não estão longe.
Ouço o que parece mais ser uma luta – gritos, grunhidos e um som ocasional de impacto. Talvez os mogadorianos já tenham chegado?
Não posso dizer com certeza. Mas tenho que imaginar que haveria muito mais barulho de luta e explosões se os mogs já tivessem aqui. Ouço Marina, mas tenho dificuldade em distinguir as palavras e as vozes deles.
Então um deles grita:
— Calem a boca!
alguém está rindo.
Que diabos está acontecendo? Por que motivo alguém estaria rindo? Eles derrotaram a besta?
Há – é o Nove. Essa voz arrogante não tem como não ser reconhecida:
— Você está ouvindo o que está dizendo, cara?
Mas com quem ele está falando? Cinco ou Oito? Ou talvez com Marina? Eu não duvidaria se ele a chamasse de “cara”. Preciso levantar. Eu preciso ajudá-los. Uma frustração se forma na boca do meu estômago, por trás da dor que está me mantendo aqui. Não sou boa em esperar. Me faz me sentir inútil. Ninguém vai morrer hoje porque eu estava no banco de reserva como uma donzela em perigo. Essa não sou eu.
Tento levantar antes de pensar realmente sobre isso. Eu já tive ideias melhores, e mal tentei mover um dedo. Com sorte, a dor no meu crânio foi substituída por uma enxaqueca. Está incrivelmente dolorido ainda, mas é longe da dor que senti quando fui atingida.
Eu finalmente consigo abrir meus olhos.
Minha visão está um pouco escura, mas ela clareia quando pisco várias vezes. O céu ainda está escuro com as nuvens da tempestade que invoquei, então não se passou muito tempo. Quando eu levantar, ainda devo ser capaz de trabalhar com elas, me poupando a energia de criar uma nova tempestade. Mas isso terá que esperar até eu entender o que está havendo. Nove pode ser irritante e pretensioso, mas não fica com raiva sem propósito, deve haver um motivo.
Eu respiro fundo, percebendo uma vantagem: se fui nocauteada e esquecida, terei o elemento surpresa do meu lado quando for capaz de voltar à luta. Posso usar minha invisibilidade para chegar perto antes que qualquer um possa notar que acordei.
Contudo, eu já me senti melhor. Quero dizer, estar deitada no lodo esmagado com uma fratura recente no crânio não é exatamente a definição de estar bem. Mas enquanto ainda me sinto dolorida e confusa, sei que posso me esforçar e prestar atenção. Depois de sobreviver à captura dos mogadorianos e tudo o que aconteceu conosco, sou forte o suficiente para aguentar uma dor de cabeça.
Aqui vamos nós, eu penso, me apoiando no chão para levantar o máximo que posso. Um, dois...
Uma onda de náusea me derruba novamente. Talvez Marina não tenha sido capaz de terminar o processo de cura. Eu geralmente não me sinto assim quando ela tem espaço e tempo apropriado para fazer seu trabalho.
Ou isso, ou meus ferimentos são piores do que pensamos.
Há coisas para a qual você não está pronto, não importa quanto tempo treine. Eu ainda ouço gritos, mas não está claro de quem eles vêm. Viro minha cabeça cuidadosamente na direção do som, mas não posso ver ninguém desse ângulo em que estou caída no chão.
Não, espera, vejo o Oito. Ele está com suas mãos na frente do corpo e sua voz é inaudível e calma, como se ele implorasse por paciência.
Mas como quem ele está falando? Com os mogs? Eu olho em volta e tento ligar as coisas do melhor jeito que posso. Nenhum sinal da besta: eles devem tê-la derrotado enquanto eu estava desmaiada. Eles conseguiram. Há monstros feios e escamosos de Mogadore o suficiente no mundo, não precisamos de mais.
Fecho meus olhos e me concentro nas vozes.
De repente, a voz mais aguda de Marina se junta a dos outros. Eu a ouço gritar “A mão esquerda dele!” – e não tenho certeza do que ela quer dizer – a mão esquerda de quem? O que está acontecendo?
Um grito de dor parece vir de um dos garotos me faz mudar para uma posição sentada – eles estão lutando com outra criatura que surgiu do pântano? Um segundo grito manda uma onda de medo até mim.
E então, nada. Tudo ficou quieto, quieto demais. Eu penso – e não há mais ninguém gritando e isso me assusta. Quando eles estavam fazendo barulhos, pelo menos eu sabia que eles estavam revidando.
Estou aliviada por ouvir a voz de Marina novamente e me apoio no meu cotovelo, poupando energia por mais alguns momentos. Ela está falando baixo demais para eu conseguir decifrar as palavras. O que me incomoda é que ela não parece feliz, ou triunfante, ou qualquer outro tom de voz que eu ficaria feliz em ouvir.
Minhas mãos formigam com vontade de agir. Eu respiro fundo novamente e tento me levantar mais uma vez, lutando contra a exaustão do meu corpo e todas suas tentativas, através das dores e das náuseas e com uma rígida lama irritante, para me advertir. Basta.
Tudo de uma vez, antes que eu mude de ideia, eu suspiro e me movo para uma posição em que fico totalmente sentada. Fico tonta por alguns segundos, mas a náusea não piora. Estou cansada de ficar aqui deitada no lodo. Estou cansada de pedir desculpa para mim mesma. Estou cansada pelas pessoas que perdi – ou que vou perder.
É hora de ter certeza de que isso não vai acontecer.
Cerro meus dentes contra a dor que vem da minha nuca e olho para cima. Eu devo ter caído para longe dos outros. Posso ver os outros através de alguns galhos de árvores, todos de pé muito tensos.
Mas não consigo ver com quem eles estão discutindo. Parece que Nove está ferido, muito ferido, e claramente Marina não teve a oportunidade de curá-lo ainda. Isso não é bom.
De repente todos começam a se mover, mas não posso ver claramente para dizer o que está acontecendo – há alguma coisa atacando-os? De onde veio?
E então ouço Marina gritar.
— Não faça isso! — ela berra, mas não tenho certeza para o que ou quem ela está gritando – eu preciso levantar agora.
Nesse ponto, parece que Nove está numa posição pior que a minha. E eu serei mais útil lá, na batalha a qual pertenço.
Abaixo minha cabeça e começo a levantar, de verdade agora. Tiro alguns fios de cabelo do rosto, limpo a lama dos meus lábios, e me ergo sobre pernas trêmulas. Ok. Até agora tudo está bem. Paro por um minuto antes de continuar.
Alguma coisa está acontecendo – eu vejo uma forma larga no ar. Há um pássaro mutante nos atacando? E então ouço alguém gritando “NÃO!”
Eu estou prestes a tirar os galhos de árvore da minha frente para ver o que está acontecendo.
Tarde demais.
Demorei demais, e há uma dor muito familiar começando no meu tornozelo. Uma dor que senti apenas três vezes antes. Uma dor que desejei nunca mais sentir. Isso tira meus pés debaixo de mim rapidamente. Eu caio no chão, gritando. Agarro meu tornozelo com esperança.
Meus dedos se cravam na árvore que está perto de mim, meio que para me estabilizar, meio que para me distrair da dor intensa que sinto na perna. Eu não preciso olhar para baixo. Sei muito bem o que essa dor significa. Aconteceu. Justo quando havíamos nos encontrado e nos juntado, mais um de nós se foi.

Mais um Garde está morto.

5 comentários:

  1. Sempre choro quando vejo o Oito morrer, não dá pra evitar!!!
    a morte dele foi uma das piores que vivenciei num livro.
    um dos meus Gardes favoritos...
    ~polly~

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  2. OLA PESSOAL,QUEM CURTIU LEGADOS DE LORIEN? SE SIM QUEM TEM O APLICATIVO AMINO ENTREM NA COMUNIDADE LEGADOS DE LORIEN BRASIL, É UMA COMUNODADE ONDE FALAMOS SOBRE OS LIVROS DESSA SERIE, TAMBEM FAZEMOS FANFICS E TEORIAS DO QUE VAI ACONTERCER NA PROXIMA SERIE, GERAÇÃO UM, QUE É A CONTINUAÇÃO DESSA MAGNIFICA SERIE. E KARINA MUITO OBRIGADO POR ME APRESENTAR A ESSES LIVROS, SEM ELES EU NAO TERIA CRIADO ESSA COMUNIDADE, OBRIGADO S2.


    AQUI ESTA O LINK DA COMUNIDADE

    http://aminoapps.com/c/legados-de-lorien-brasil

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    1. Em que livro o 8 morre? Li tudo eu acho, mas não passei por esse.

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    2. Olha, Netto, percebi pelos seus comentários que você só leu os extras, não leu nenhum dos livros principais da série... Oito morre em A Queda dos Cinco

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Boa leitura :)