17 de maio de 2017

8

Sou acordada na manhã seguinte pelo som de alguém batendo de leve à porta. A luz forte do sol entra pela persiana aberta. Me sento na cama, completamente grogue.
Mais batidas.
— Pode entrar. — Minha voz está rouca.
Alice está parada ali, segurando outra xícara de café, sem dúvida colhido à mão por anões da Nicarágua.
Esfrego os olhos e aceito o café com um resmungo de gratidão.
— Que horas são?
— Meio-dia.
— Meio-dia? Eu dormi... catorze horas?
— Pois é. — Ela olha ao redor do quarto. — Talvez não fosse Meg. Talvez este quarto seja tipo o campo de papoulas de O mágico de Oz e tenha um efeito soporífico.
— Como assim?
— Ela dormia à beça. Tipo, o tempo todo. Quando não andava com os “amigos descolados de Seattle” — ela faz aspas com os dedos —, dormia.
— Meg gosta, quer dizer, gostava, de dormir muito. Ela era ligada no 220. Precisava de muitas horas de sono para se recuperar.
Alice não parece convencida.
— Nunca conheci ninguém que dormisse tanto.
— Além do mais, ela teve mononucleose quando estava no ensino médio.
Assim que falo isso, lembro-me de como aquele ano foi horrível. Meg faltou metade das aulas na escola; passou meses inteiros tendo aulas particulares porque não podia sair da cama.
— Mononucleose? — pergunta Alice. — Por que isso a deixaria cansada até hoje?
— Foi um caso muito grave — respondo. Os Garcias nem me deixavam visitá-la para eu não pegar a doença.
— Do jeito que você fala, parece que ela teve câncer. — Alice se senta na beira da cama. — Não sabia disso. Não cheguei a conhecê-la tão bem.
— Você só se mudou para cá há poucos meses.
Ela dá de ombros.
— Conheço os outros. Acho que eles também não a conheceram muito bem. Ela não era muito sociável.
Se Meg gostasse de você, ela gostava mesmo, mas, caso contrário... ela não tinha paciência para gente idiota.
— Você só precisava tentar conhecê-la.
— Eu tentei — insiste Alice.
— Não me parece que vocês tenham tentado o suficiente. Quero dizer, não deviam morrer de amores por ela se colocaram aquela capa de disco na porta.
Os olhos de Bambi de Alice se enchem de lágrimas.
— Não foi a gente que colocou aquilo ali. Foi ela. E disseram pra gente não tirar nada do lugar.
Então Meg colou a capa na porta. Tenho certeza de que os especialistas em suicídio chamariam isso de sinal de alerta, um pedido de ajuda, mas é difícil não ver o senso de humor perverso de Meg naquilo de certa forma. Uma última mensagem irônica.
— Ah. Na verdade, até que faz sentido.
— Faz? É tão mórbido... Mas, como eu disse, não sabia muita coisa sobre ela. A esta altura, já devo ter passado mais tempo com você do que com Meg — observa ela com melancolia.
— Queria dizer que você não perdeu muito, mas seria mentira.
— Me fale sobre ela. Como ela era?
— Como ela era?
Alice assente.
— Ela era... — Abro os braços para dar uma ideia de imensidão, de infinitas possibilidades.
Não tenho certeza se isso é uma descrição de Meg ou da maneira que eu sempre me sentia perto dela.
Alice me olha com uma cara de súplica. Então eu lhe conto algumas histórias. De quando Meg e eu arranjamos um emprego temporário como operadoras de telemarketing, o trabalho mais chato do mundo. Para não morrermos de tédio, Meg fazia vozes diferentes para cada ligação. Ela acabou ficando tão boa nisso, e vendendo tão bem o raio do produto, que sempre batia a cota diária e podia ir para casa mais cedo.
Eu falo de quando a biblioteca da nossa cidade sofreu um corte tão grande no orçamento que só podia abrir três dias por semana, o que foi um pesadelo para mim, porque eu praticamente morava lá — sem contar o tempo passado na casa dos Garcias. Meg não era nem de perto uma frequentadora tão assídua quanto eu, mas isso não a impediu de embarcar em uma missão para impedir os encerramentos. Ela deu um jeito de convencer uma banda — na época mais ou menos conhecida, mas agora superfamosa —, com a qual havia feito amizade através do seu blog, a tocar em um concerto beneficente chamado Matem Astros do Rock, Não Livros. Veio gente de toda parte para a nossa cidade e a arrecadação foi de cerca de 12 mil dólares. Como a banda estava começando a ficar famosa, e Meg era uma porta-voz muito atraente, acabamos recebendo atenção da mídia de todo o país e a biblioteca se viu obrigada a estender seu horário de funcionamento.
Conto sobre quando Scottie ficou anêmico de tão enjoado que era para comer. Os médicos disseram que ele precisava consumir mais alimentos ricos em ferro, e Sue não sabia o que fazer, pois era impossível convencer o menino a comer coisas saudáveis. Mas Meg sabia que Scottie era obcecado por tratores e encontrou no eBay uma fôrma de comida no formato de um trator. Ela colocava purê de batata, carne e espinafre dentro dela e Scottie comia tudo.
Teve também a vez em que Tricia e eu brigamos feio e eu fugi para encontrar o meu pai, embora Tricia dissesse que ele tinha ido embora anos antes. Cheguei até Moses Lake antes de o meu dinheiro e a minha coragem acabarem, e quando estava prestes a começar a chorar e perder as estribeiras, Meg e Joe apareceram de carro. Eles estavam seguindo o meu ônibus o tempo todo. Mas não conto isso para Alice. Porque esse é o tipo de história que você só compartilha com uma boa amiga. E só tive uma dessas na vida.
— Essa era Meg — concluo. — Ela era capaz de fazer qualquer coisa. De ajudar qualquer pessoa.
Alice fica em silêncio, digerindo o que acabou de ouvir.
— Menos a si mesma.

4 comentários:

  1. Já amo muito esse livro já li vários livros seus é amei por favor nunca pare de fazer isso se for o que você ama e claro mais enfim parabéns pelo blog

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Boa leitura :)