17 de maio de 2017

5

Os abrigos de animais de Seattle acabam por se mostrar mais difíceis de entrar do que as baladas mais concorridas da cidade. Os primeiros dois estão cheios, e implorar não adianta nada. O terceiro tem vagas, mas exige o preenchimento de um formulário e uma cópia do histórico veterinário dos gatos. Digo à garota hipster com piercings e sandálias de couro ecológico que estou saindo da cidade e que os gatos estão no carro. Ela me olha com todo o desprezo do mundo e fala que eu deveria ter pensado nisso antes de ter adotado animais de estimação. Quase dou um tapa na cara dela.
— Quer dar aquela cachimbada agora? — pergunta Richard depois de darmos com a cara na porta pela terceira vez. São oito da noite e todos os abrigos já encerraram o expediente.
— Não.
— Quer ir a alguma balada ou algo assim? Espairecer um pouco? Já que estamos em Seattle.
Estou exausta por causa da noite anterior, não quero estar aqui com Richard e preciso descobrir como vou arranjar o histórico veterinário se amanhã é domingo. Penso em recusar a proposta, mas então Richard diz:
— Podemos ir a um dos lugares alternativos a que a Meg gostava de ir. De vez em quando ela se dignava nos deixar ir junto. — Ele faz uma pausa. — Meg tinha um clã de amigos ali.
Fico momentaneamente chocada com o fato de Richard ter usado “se dignava” e “clã”.
Mas a verdade é que quero conhecer esses lugares. Penso na boate a que deveríamos ter ido no fim de semana em que vim visitá-la. Em todas as boates a que deveríamos ter ido em todos os fins de semana em que não vim visitá-la. Sei quanto Meg adorava estar no meio da cena musical da cidade, embora, depois da minha visita, os e-mails eufóricos dela a respeito disso tivessem começado a minguar até pararem de vez.
— E quanto aos gatinhos? — pergunto.
— Eles vão ficar bem no carro. Está, tipo, 12 graus hoje à noite. Eles têm comida e água.
Richard aponta para Grapette e Repete. Eles tinham miado e chorado a viagem inteira, mas agora estavam enroscados juntinhos e quietos dentro da caixa de transporte.
Vamos até um lugar em frente ao canal em Fremont. Antes de entrarmos, Richard acende um pequeno cachimbo e sopra a fumaça para fora da janela.
— Não quero deixar os gatinhos doidões — brinca ele.
Enquanto pagamos a taxa de consumação, ele me conta que Meg costumava vir bastante aqui. Concordo com a cabeça, como se já soubesse. O lugar está vazio. Cheira a cerveja, água sanitária e desespero. Deixo Richard no bar e vou jogar pinball sozinha. Às dez, o salão já começa a encher, e às onze a primeira banda da noite começa a tocar; um som carregado de microfonia, com um vocalista que mais grunhe do que canta.
Depois de algumas canções nada de mais, Richard Locão vem falar comigo.
— Aquele ali é Ben McCallister. — Ele aponta para o guitarrista grunhidor.
— Aham.
Nunca ouvi falar dele. Demora um pouco para a cena de Seattle chegar até o nosso Cu do Judas.
— Meg falou sobre ele para você?
— Não. — É tudo o que digo.
Mas minha vontade é gritar para as pessoas pararem de me perguntar isso. Porque não sei o que Meg me contou e eu ignorei, e o que ela não me contou. Se tem uma coisa que sei é que ela não me contou que estava sofrendo tanto que a única maneira de acabar com a dor era encomendar uma dose de veneno industrial e mandá-lo goela abaixo.
Richard está falando sobre como Meg era obcecada por esse cara. Não dou muita atenção, pois Meg era obcecada por um monte de guitarristas. Ben McCallister para de tocar e toma um gole de cerveja, segurando o gargalo da garrafa entre dois dedos, a guitarra pendendo do quadril magro como se fosse um membro. Daí ele vira para a plateia, sob as luzes do palco, e eu vejo que seus olhos são de um azul incrível. Ele faz um gesto, como se protegendo os olhos do sol, à procura de alguém na plateia. E isso me dá um estalo.
— Ah, esse deve ser o Herói da Guitarra Amargurado.
— Não tem nada de heroico nesse cara — retruca Richard.
O Herói da Guitarra Amargurado. Eu me lembro de Meg ter escrito sobre ele uma ou duas vezes, o que era curioso, pois ela nunca escrevia sobre cara nenhum. A princípio, parecia que Meg gostava da banda e estava a fim dele, do mesmo jeito que ficava a fim de vários caras — e garotas — que tinham bandas.
Ela me contou sobre a banda do Herói da Guitarra Amargurado, um som inspirado em Sonic Youth/Velvet Underground, misturado com certas angústias modernas. Ou seja, a cara de Meg. Mas ela também tinha escrito sobre os olhos dele, tão azuis que pareciam lentes. Olho para eles agora. São mesmo estranhamente azuis.
E então me lembro de uma frase de um de seus e-mails. Meg tinha perguntado: “Você se lembra do conselho que Tricia deu pra gente quando ela começou a trabalhar no bar?”
Tricia adorava dar conselhos, especialmente a ouvintes tão interessados quanto Meg. Mas, de alguma forma, eu soube na mesma hora a que aviso Meg estava se referindo: Nunca deem para o barman, meninas. “Por quê? Porque todo mundo faz isso?”, perguntara Meg. Ela adorava a maneira como Tricia falava com a gente, como se fôssemos suas amigas do bar e como se alguma de nós estivesse dando para alguém. “Tem isso também”, respondera Tricia. “Mas, principalmente, porque vocês vão parar de receber drinques de graça.”
Meg escrevera no e-mail que o mesmo se aplicava a guitarristas amargurados. Me lembro de ter ficado confusa, pois ela não havia mencionado que estava a fim desse cara ou que tinha saído com ele, muito menos dado para ele, coisa que nunca tinha feito, exceto por aquela vez que decidimos que não contava. Se Meg tivesse feito algo tão importante quanto dar para um cara, ela teria me contado. Pretendia perguntar quando ela voltasse para casa. Mas ela acabou nunca voltando.
Então é ele. Esse é o Herói da Guitarra Amargurado. Ele parecia tão mítico, e geralmente dar nome a uma criatura mítica é suficiente para desmitificá-la. Mas saber o nome dele, Ben McCallister, não surte esse efeito.
Assisto ao show com mais atenção agora. Ele faz todas as coisas que os roqueiros fazem, apoiar-se na guitarra e no microfone e então parar de tocar, agarrando o microfone como se fosse o pescoço de uma amante. É tudo encenação. Mas uma encenação bem-feita. Posso imaginar a fila de groupies atrás dele. Só não consigo acreditar que Meg fosse uma delas.
— Nós somos os Scarps. Silverfish vai tocar em seguida — anuncia Ben McCallister no final do setlist curto deles.
— Vamos andando? — pergunta Richard.
Mas não quero ir embora. Estou totalmente desperta e furiosa com Ben McCallister, que, como ficou claro para mim agora, fodeu com a minha amiga, em mais de um sentido. Ele por acaso a tratou como uma groupie descartável qualquer? Não percebeu que era com Meg Garcia que estava lidando? Ninguém descarta Meg.
— Ainda não.
Me levanto e vou até o bar, onde Ben McCallister está, bebendo outra cerveja e falando com um bando de gente que elogia seu show, dizendo que foi sensacional. Sigo pisando firme até lá, mas, assim que chego bem atrás dele, tão perto que consigo ver as vértebras do seu pescoço e a tatuagem no seu ombro, fico sem saber o que dizer.
Mas Ben parece saber exatamente o que dizer para mim, pois, depois de mais alguns segundos de conversa fiada com as outras garotas, ele se vira para me encarar.
— Eu vi você na plateia.
De perto, Ben é muito mais bonito do que qualquer cara tem o direito de ser. Ele tem uma beleza que só posso imaginar que seja irlandesa: cabelo preto, pele que em uma garota teria sido chamada de porcelana, mas em um roqueiro é apenas perfeitamente pálida. Lábios vermelhos e carnudos. E os olhos. Meg tinha razão: parecem lentes de contato.
— Você me viu onde na plateia? — pergunto.
— Ali. — Ele aponta para as mesas no lounge. — Estava procurando um amigo que disse que viria, mas não dá para ver nada com aquelas luzes. — Ele finge que está protegendo os olhos da claridade, como eu o vi fazendo no palco. — Mas então eu vi você... — ele faz uma pequena pausa. — ... como se fosse você quem eu estava procurando.
É assim que ele faz? Essa é a cantada dele? Tão ensaiada que ele até inclui aquele gesto de proteger os olhos e procurar alguém na plateia durante o show? Quer dizer, é uma ótima cantada. Porque, se eu estivesse na plateia, então é tipo: Uau, você estava procurando por mim. E, se eu não estivesse, bem, você disse uma coisa tão fofa, e que roqueiro sensível você deve ser para acreditar em algo como destino.
Essa foi a cantada que ele usou com Meg? Isso funcionou com ela? Estremeço só de pensar em minha amiga caindo nessa conversa mole, mas, por outro lado, Meg estava longe de casa, hipnotizada pelo glitter e inebriada pelo som da guitarra... Quem sabe?
Ele toma meu silêncio por timidez.
— Como você se chama?
Será que meu nome vai lhe soar familiar? Ela falou sobre mim para ele?
— Cody.
— Cody, Cody, Cody. — Ele experimenta a sonoridade do meu nome. — É um nome de vaqueira — diz, arrastando as palavras. — De onde você é, Vaqueira Cody?
— Do País das Vaqueiras.
Ele abre um sorriso lentamente, como se quisesse poupá-lo.
— Eu gostaria de conhecer o País das Vaqueiras. Quem sabe eu e você não poderíamos cavalgar juntos por lá? — Ele me lança um olhar expressivo, para o caso de eu não ter entendido o duplo sentido.
— Você iria cair do cavalo.
Ah, ele gostou. Acha que estamos flertando, o babaca.
— Ah, iria?
— Sem dúvida. Cavalos sentem cheiro de medo.
Algo no rosto dele fraqueja por um instante.
— O que faz você pensar que eu tenho medo?
— Todo otário da cidade grande tem.
— E por que você acha que eu sou um otário da cidade grande?
— Bem, você está em uma cidade grande. E é um otário, não é?
Uma expressão confusa perpassa o rosto dele. Vejo que ele não sabe bem se meu jeito de flertar é violento, o tipo de garota que seria quente na cama, ainda que um pouco agressiva, ou se nossa conversa se transformou em outra coisa. Mesmo assim, ele reorganiza o rosto para exibir seu sorriso relaxado de aspirante a estrela do rock.
— Com quem exatamente você anda falando, Vaqueira Cody? — Seu tom de voz é suave, mas algo de menos agradável está ali oculto.
— Com quem eu ando falando, Ben McCallister? — sussurro, provocante, do jeito que Tricia faz tão bem, e me inclino para mais perto dele.
Ele também se aproxima. Como se achasse que fôssemos nos beijar. Como se, na maioria das vezes, fosse mesmo tão fácil assim para ele.
— Sabe com quem eu não ando falando muito ultimamente?
— Com quem?
Ele está tão perto que consigo sentir o cheiro de cerveja.
— Meg Garcia. Não tenho falado com Meg Garcia há mais de um mês. E você?
Eu já havia ouvido a expressão se retrair antes, mas só quando vejo Ben McCallister se afastar de mim é que entendo o que ela significa de verdade. Porque ele salta para trás como uma cobra se retraindo antes de dar o bote.
— Que merda é essa?
Qualquer flerte que possa ter havido entre nós dois esta noite acabou, e a voz de Ben se transforma em um grunhido de verdade, bem diferente dos grunhidos fingidos do show.
— Meg Garcia — repito. É difícil olhar nos olhos dele agora, mas, neste mês que passou, eu me tornei uma especialista em coisas difíceis. — Conhece?
— Quem é você?
Algo está ardendo nos olhos dele, uma espécie de fúria, que os deixa frios como gelo. Já não parecem mais lentes de contato.
— Ou foi só uma foda para você? Que fodeu com a vida dela, por sinal?
Sinto alguém cutucar o meu ombro: Richard Locão está atrás de mim.
— Preciso acordar cedo amanhã.
— Já acabei por aqui.
Já é quase meia-noite, eu dormi três horas na noite passada, não me lembrei de comer mais nada e estou trêmula. Consigo andar até a saída da boate antes de tropeçar. Richard agarra meu braço, e é então que cometo o erro de me virar para lançar outro olhar fulminante para o convencido, superficial e poser Ben McCallister.
Queria não ter feito isso. Porque, quando o olho pela última vez, ele exibe um esgar que é uma mistura de raiva e culpa. Conheço muito bem essa expressão: eu a vejo todos os dias no espelho.

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Boa leitura :)