17 de maio de 2017

40

Tricia me apanha na área de restituição de bagagens, como havia prometido, e me leva para o carro. Assim que coloco o cinto de segurança, ela ordena:
— Desembuche.
Por mais estranho que pareça, não é com a parte sobre Ben que estou preocupada. Contar a Tricia que fugi para Nevada com um cara para quem entreguei de bandeja minha virgindade — isso sai fácil. Ela não fica encantada com a notícia, mas, assim que asseguro que usei proteção da forma adequada, fica aliviada porque não haverá gravidez e deixa o assunto pra lá.
— Mas o que você foi fazer em Laughlin? — pergunta ela.
Isso é que estou com medo de contar. E não pelo motivo que eu vinha dizendo a mim mesma, ou seja, que ela espalharia para a cidade inteira, embora provavelmente vá fazer isso.
Tricia foi comigo à maioria das cerimônias de Meg. Usou seu vestido preto ligeiramente sensual e ficou com os olhos marejados em todas as horas certas. Mas nós quase nunca falamos sobre a morte de Meg. Sobre o fato de Meg ter escolhido morrer. Tivemos apenas aquela conversa no meu quarto algumas semanas atrás. Sempre esteve bem claro que ela não quer falar nisso nem ouvir falar no assunto. Apesar de tudo o que disse sobre como eu e Meg somos diferentes, acho que ela tem medo de que não sejamos.
Quando finalmente lhe conto sobre Bradford e os fóruns do Solução Final, ela não parece tão surpresa.
— A Sra. Banks me disse que havia algo intenso acontecendo entre você e aquele computador.
— A Sra. Banks? Quando você falou com ela?
— Quem você acha que me ajudou a reservar sua passagem?
Então Tricia já estava falando a meu respeito pela cidade. Mas não me sinto mal por isso. Nem um pouco, na verdade. É como se eu tivesse aliados.
— Aliás, como foi seu primeiro voo de avião? — pergunta Tricia.
Passei toda a viagem retraçando mentalmente o caminho que Ben e eu fizemos em nosso trajeto de ida, tentando não pensar nele voltando sozinho.
— Foi ótimo.
Nós pegamos a I-90 e eu começo a falar sobre Bradford. Conto como me tornei uma isca, como ele foi persuasivo e criou uma câmara de ressonância na minha cabeça. Conto tudo o que aconteceu, exceto a minha ida a Truckee. Não sei bem por quê. Talvez para tentar poupá-la, mas não acho que seja isso. Eu perdi muita coisa nos últimos tempos, e quanto ao meu pai... bem, você não pode perder algo que nunca teve.
Fico esperando o tempo todo que Tricia fique furiosa, mas, quando lhe falo sobre algumas coisas que Bradford escreveu para mim, ela parece aterrorizada.
— E você ainda foi até lá confrontar esse sujeito?
Faço que sim com a cabeça.
— Não acredito... — fala ela, deixando a frase no ar. — Ainda bem que você está intacta.
— Desculpe, foi uma idiotice.
— É, foi mesmo. — Ela estende a mão para afagar meu rosto. — Também foi muito corajoso.
Consigo sorrir um pouco.
— Talvez.
Tricia faz o motor roncar e manobra para pegar a via rápida. Então, depois de um tempo, diz:
— Você precisa contar aos Garcias. Sabe disso, não sabe?
A tristeza e a culpa recaem sobre mim, tão rápido quanto um pôr do sol no inverno.
— Vai partir o coração deles.
— O coração deles já está partido — replica Tricia. — Mas talvez isso ajude a curar o seu. A esta altura, todos nos contentaríamos com isso.

° ° °

Quando chegamos à cidade, Tricia passa direto pela nossa casa e, embora eu esteja exausta e prestes a me desfazer em um milhão de pedacinhos, deixo que ela me leve aonde quiser.
— Preciso trabalhar — avisa ela, parando em frente à casa dos Garcias. — A gente se vê mais tarde.
— Obrigada — agradeço.
Abraço-a, ainda sentada. Então, pego minha pasta com tudo sobre Meg, Bradford e o Solução Final e vou em direção à porta de entrada.
Scottie é quem atende.
— E aí, Runtmeyer? — falo com ternura.
— E aí, Cody? — diz ele, e parece constrangido, ou talvez feliz, por voltar a ouvir seu apelido. — É a Cody! — grita para dentro de casa.
Sue aparece, secando as mãos em um avental.
— Cody! Você finalmente apareceu para jantar. Posso fazer um prato para você?
— Talvez mais tarde. Preciso conversar com vocês.
O rosto dela fraqueja.
— Entre. Joe, Cody está aqui! Scottie, vá brincar lá em cima.
Scottie me olha com uma expressão contrariada e eu dou de ombros.
Joe e Sue vão para a sala escura, que tem uma mesa de madeira bonita em que costumávamos jantar em família. Agora, está coberta de pilhas de papéis e outros indícios de que não tem sido usada.
— O que foi, Cody? — pergunta Joe.
— Preciso contar algumas coisas para vocês, sobre Meg. Sobre a morte dela.
Os dois assentem e dão as mãos.
— Sei que ela se matou. Não estou dizendo que não. Mas vocês precisam saber que ela estava envolvida com um certo grupo... Eles se consideram um grupo de apoio para suicidas, mas do tipo que incentiva as pessoas a se matarem, e acho que foi por isso que ela fez o que fez.
Fico observando-os, esperando reações horrorizadas, mas eles continuam serenos, curiosos, esperando que eu prossiga. É então que a ficha cai: isso não é novidade.
— Vocês já sabiam?
— Já — responde Sue, tranquila. — Estava no relatório da polícia.
— Estava?
Sue aquiesce.
— Eles disseram que isso explicava como ela arranjou o veneno. É comum nesses grupos.
— A Solução Final — Joe praticamente cospe as palavras. — Era assim que os nazistas chamavam o Holocausto. Meg sabia disso. Não consigo acreditar que ela tenha entrado para um grupo que usa isso como nome.
— Joe. — Sue pousa a mão no braço dele.
— Então a polícia encontrou os arquivos encriptados? Eles sabem sobre Bradford?
Fico confusa. Bradford não parecia saber nada sobre a morte de Meg.
Agora Joe e Sue também parecem confusos.
— Que arquivos?
— Os arquivos que estavam no computador de Meg. Na lixeira.
— Não sei de nada disso — fala Sue. — Eles apenas disseram ter descoberto provas de que Meg estava envolvida com esse grupo após analisarem o histórico de pesquisas dela na internet.
— Quem é Bradford? — pergunta Joe.
— Bradford Smith.
Eles me encaram, ainda sem entender.
— É ele, o sujeito dos fóruns. Vocês não disseram que a polícia sabia disso?
— Eles disseram que ela estava envolvida com essa gente doentia que se aproveita de pessoas vulneráveis como Meg, incentivando-as a cometer suicídio — responde Joe.
— Mas vocês não sabem a respeito de Bradford? — Eles balançam a cabeça. — Bradford Smith? Usuário dos fóruns, conhecido como All_BS? — Nem sinal de reconhecimento. — Foi ele que a ajudou, que a coagiu. Era como se fosse o mentor da morte de Meg. Ele a persuadiu, lhe deu conselhos.
Sue torna a assentir.
— Sim. É assim que esses grupos funcionam.
— Mas não foi o grupo. Foi ele.
— Como sabe disso tudo, Cody? — questiona Joe.
Volto atrás para explicar melhor. O arquivo encriptado, que me levou aos fóruns do Solução Final, que me levou ao nickname Firefly1021, que me levou a All_BS.
— Passei horas naqueles fóruns, tentando fazê-lo sair da toca. Demorou um pouco, mas consegui. Então, fiz com que o homem acreditasse que eu era como Meg e consegui enganá-lo a ponto de ele telefonar para mim. Ele foi cauteloso: fez a ligação pelo Skype através de um tablet, mas consegui rastrear a chamada e descobri onde o cara trabalha e onde ele mora.
Eles continuam a me encarar.
— Você fez tudo isso sozinha? — pergunta Sue.
— Não exatamente. Harry Kang, o ex-colega de república de Meg, cuidou de toda a parte técnica, e outra pessoa me levou de carro até Laughlin para eu me encontrar com Bradford...
— Você foi encontrar esse homem? — Joe me interrompe.
— É o que estou tentando contar para vocês. Acabo de voltar de lá.
— Cody! — Sue me repreende com o mesmo tom de voz que usaria para repreender Meg e eu por termos voltado tarde demais para casa ou dirigido rápido demais. — Isso foi muito perigoso.
Joe e Sue estão me observando agora com preocupação, como se eu fosse filha deles. E, por mais que eu tenha sentido falta disso, muita falta, não quero que eles me olhem assim. Não quero ser a filha de Sue e Joe. Não quero ser o anjo vingador deles!
— Vocês não entendem?! Esse homem é o culpado! Meg não estaria morta se não fosse por ele.
— Ele mandou Meg se matar? — pergunta Joe. — Ele a ajudou a fazer isso?
— Sim! E tentou me ajudar também! Olhem.
Abro minha pasta de arquivos para mostrar os bilhetes, as mensagens. Mas, à medida que leio o que ele escreveu para Meg e para mim, tudo o que vejo é um monte de citações de outras pessoas. Links para outras páginas. Tudo implícito. Ele não mandou Meg usar veneno. Não o comprou para ela. Não me ofereceu nenhum conselho específico além de receitas de remédios caseiros para resfriado. Em nenhum momento disse claramente para mim: “Você deveria se matar.”
Nunca falei nada disso para ninguém, ouço-o falar. Ele estava praticamente zombando da minha cara quando perguntou que tipo de conselho específico tinha dado. Lembro que eu quis que Bradford me perguntasse sobre o método que eu havia escolhido, mas ele nunca fez isso.
Mas isso não muda nada. Ele ainda é responsável.
— Foi ele — insisto. — Meg não teria se matado se não fosse por ele. Ele foi o motivo.
Joe e Sue se entreolham, depois me encaram. Então Sue me fala exatamente o que Tree disse algumas semanas atrás, quando não lhe dei ouvidos. Há quanto tempo eu vinha me recusando a ouvir?
— Meg sofria de depressão, Cody — explica Sue. — Ela teve seu primeiro episódio clínico no segundo ano do ensino médio. Teve outro ano passado.
No segundo ano, quando ela ficou o tempo todo de cama.
— A mononucleose?
Sue assente, então balança a cabeça.
— Não foi mononucleose.
— Por quê? Por que ela não me contou?
Sue cutuca o próprio peito.
— Eu venho lutando contra isso há muito, muito tempo. Não só contra a depressão, mas contra o estigma da doença em uma cidade pequena, e eu não queria que ela carregasse esse peso nas costas aos 15 anos. — Sue se detém. — Para ser sincera, o que eu não queria era que ela carregasse nas costas uma doença que recebeu de mim. Então, nós mantivemos segredo.
Joe baixa os olhos para a mesa.
— Achávamos estar fazendo o melhor para ela na época.
— Nós a fizemos tomar antidepressivos, é claro — continua Sue. — E ela melhorou. Tanto que quis parar de tomá-los depois que terminou o ensino médio. Tentamos convencê-la do contrário. Sei como é a depressão; não é algo que você tem uma vez e nunca mais volta.
As alterações de humor de Sue. Os cheiros pela casa. Depressão. Então é assim que ela é?
— Percebemos que havia algo de errado assim que ela foi para lá — revela Joe. — Ela dormia o tempo todo, faltava às aulas.
— Tentamos obter ajuda para ela, colocá-la de volta nos trilhos — prosseguiu Sue. — Estávamos pensando em obrigá-la a trancar um período. Conversamos sobre o assunto, ou melhor, brigamos sobre ele, durante todo o recesso de inverno.
— Foi por isso que não chamamos você — explica Joe.
As férias de inverno. Meus pais estão me deixando louca.
— Tínhamos decidido impor nossa vontade se ela não tomasse uma atitude. Trazer ela para casa se necessário, mesmo que isso significasse perder a bolsa de estudos. Mas, durante o Ano-Novo, ela pareceu ter uma melhora. Só que não era isso. Ela estava planejando sua fuga.
— Eu não sabia — confesso.
— Nenhum de nós sabia — afirma Sue, começando a chorar.
Ela era minha melhor amiga. Se eu tivesse estado lá, durante o recesso de inverno ou durante o período escolar, poderia ter ficado sabendo. Sobre a depressão dela, sobre como ela estava mal. Poderia ter sido diferente. Talvez ela ainda estivesse aqui.
— Eu não sabia — repito, mas desta vez minha voz sai como um uivo lancinante.
E então minha dor arrebenta como um aneurisma, espalhando sangue por todo o lado.
Joe e Sue me veem sangrar e é como se finalmente entendessem.
Joe se estica para pegar minha mão enquanto Sue diz as palavras que tenho ansiado por ouvir:
— Ah, querida, não, não, não. Não foi você. Não é culpa sua.
— Eu iria me mudar para Seattle — falo entre soluços. — Nós teríamos uma vida maravilhosa juntas, mas...
Não sei como terminar. Eu não tinha dinheiro. Fiquei com medo. Continuei presa aqui.
Então ela foi. E eu fiquei.
— Não! — exclama Joe. — Não foi por isso. Você era tudo para ela. Você era o alicerce dela aqui.
— Mas foi por isso. Vocês não entendem? — grito. — Quando ela foi embora, eu fiquei com raiva. Principalmente de mim, mas descontei nela. Eu não estava ao lado de Meg quando ela precisou de mim. Se estivesse, ela recorreria a mim e não a ele.
— Não, Cody — diz Sue. — Ela não teria feito isso.
A voz de Sue é arrasadoramente taxativa. Ela não teria feito isso. Meg teria guardado o seu segredo, como sempre o fizera.
Joe pigarreia, o que é sua maneira de conter as lágrimas.
— Eu entendo por que você foi atrás desse sujeito, Cody. Porque, se tivesse sido esse tal de Bradford, outra pessoa a teria matado. Não ela própria. Então talvez pudéssemos sofrer sua perda com um simples coração partido, sem complicações.
Ergo os olhos para Joe. Meu Deus, como eu sinto falta de Meg. Mas sinto muita raiva dela também. Se não consigo perdoá-la, como conseguirei perdoar a mim mesma?
— Se não estivesse doente, Meg não teria caído na teia daquele homem — afirma Sue, encarando Joe com uma expressão suplicante. — Ele não teria tido nenhum poder sobre ela. Olhe para Cody. Ela entrou nos fóruns, se envolveu com aquele homem. Acabamos de ler as mensagens. — Sue se volta para mim. — E você continua aqui.
Não! Eles não entendem. Como ele se enfia na sua cabeça, faz jogos mentais, cutuca todos os seus pontos fracos. Eu também poderia ser outra vítima dele.
Mas então olho ao redor. Estou sentada à mesa de jantar em que comi tantas refeições ao longo dos anos. Meg não está entre nós. Os últimos meses têm sido um inferno. Mas Sue tem razão: eu continuo aqui.
A pasta está aberta, as páginas espalhadas. Tudo pelo que passei para conseguir isso — a toca de coelho em que mergulhei com Bradford. Achava que fosse uma prova da força dele.
Mas talvez tenha sido minha própria força sendo testada.
Eu continuo aqui.
Guardo as folhas de volta na pasta e deslizo-a em direção a Joe.
— Acho que para mim já chega. Façam o que acharem melhor com esse material.
Ele pega a pasta.
— Vamos levá-la à polícia amanhã logo cedo.
Faz-se um breve silêncio. Então, Sue diz “E, Cody...”, mas desta vez não sinto raiva.
— ... obrigada — conclui ela.
Sue e Joe se levantam e me abraçam bem forte, e nós três começamos a chorar. Ficamos assim por um longo tempo, até que Sue fala:
— Você está pele e osso, Cody. Vou lhe dar algo para comer.
Me recosto na cadeira estofada. Não estou com fome, mas aceito a comida. Sue vai até a cozinha. Joe continua comigo.
— Você deveria ter nos contado.
— Vocês também — retruco.
Ele assente.
— E Scottie... Vocês deveriam contar — afirmo. — Ele já sabe. Quero dizer, não dos detalhes, mas suspeita que alguém tenha ajudado Meg. Foi ele quem me abriu os olhos.
Joe coça o queixo por alguns instantes, admirado.
— Crianças percebem tudo. Não importa quanto você tente protegê-las. — Ele suspira. — Temos conversado com famílias de outras vítimas de suicídio. Falado às claras sobre o assunto. É a única coisa que parece ajudar. — Ele agarra minha mão com tanta força que o metal da sua aliança deixa uma marca na minha pele. — Vou conversar com Scottie.
Sue volta da cozinha. Coloca um prato cheio na minha frente, uma espécie de cozido.
Provo uma garfada.
— É caseiro — garante Sue.
Então sorri. Deve ser o sorriso mais fraco que já vi na vida, mas está ali.
Dou outra garfada. Estou com fome, no fim das contas.

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Boa leitura :)